Os Zumbis do Mundo Real

serie-de-zumbi-na-globoEra um final de tarde abafado e quente, típico da primavera. Eu voltava andando pelas ruas quase desertas, enquanto ouvia All I Was do Tremonti, quando vi uma estranha figura vindo em minha direção. Era um sujeito de pele morena marcada pelo sol, cabelo todo emaranhado, roupas velhas, rasgadas e sujas de terra. Ele andava todo desengonçado, como se tivesse algum problema nos nervos, tinha a cabeça baixa enquanto soltava uns grunhidos estranhos; consta que exalava um cheiro horrível, como uma mistura de sujeira com álcool.

O sujeito mais parecia um zumbi vindo do seriado The Walking Dead.

Passou por mim sem notar minha presença. Virei-me para acompanhar aquele zumbi subir a Avenida Brasil e dobrar a esquina e perder-se em sua iniquidade.

Fiquei com aquela imagem na cabeça por algum tempo: o sujeito que o vício tinha transformado em zumbi. Talvez seja isso que acontece quando este demônio se apodera de nosso corpo. Temos nossa individualidade, nossos desejos, nossos valores e nossos medos arrancados e, em seu lugar, é colocado apenas uma coisa, a vontade torturante e inexorável de satisfazer-se com o nosso objeto de desejo, seja o álcool, o cigarro, as drogas, a religião ou a pessoa que desejamos.

Um ponto a se pensar sobre o vício é que ele é um comportamento que surgiu com a modernidade. Em sociedades pré-modernas, apesar de existir o consumo de ervas e substâncias que alteram a consciência, seu uso era fortemente controlado por normas sociais que não deixavam o indivíduo a deriva. Ele sentia que era parte de algo maior, que estava integrado num todo que o deixava seguro e integrado.

Agora, com o advento da ordem social moderna, a relação entre sociedade e indivíduo muda. Ele não está mais integrado por fortes laços numa ordem social estável. O indivíduo passa a ficar a deriva, sua biografia, seus valores e sua trajetória agora dependem de seu próprio esforço. Cabe a ele criar o seu próprio céu ou seu próprio inferno.

Sem embargo, o vício é uma tentativa de indivíduos desgarrados e desesperados para se conectar com algo maior, para encontrar o sentido onde não há sentido, para achar o acolhimento e segurança onde só há desordem, dor e decadência.

Aquele zumbificado que encontrei naquele sábado tinha encontrado o seu ponto de apoio numa sociedade injusta. Mas o preço ia sair muito caro para ele.

Nós temos o direito de julgá-lo?

The Walking Dead e as Origens do Governador

Num artigo anterior (leia aqui), mostrei que a fabulosa mitologia do apocalipse zumbi criado por Robert Kirkman é extremamente convincente, dramática, aterrorizante e profundamente complexa tanto do ponto de vista cênico quanto filosófico e sociológico. The Walking Dead é uma metáfora amarga do mundo em que vivemos e das consequências da modernidade. Ler os quadrinhos ou mesmo acompanhar o seriado é como ver a distopia de um mundo cruel, mesquinho e sem esperança.

Quando é convincente e complexa, toda trama ficcional apresenta amplas possibilidades de abordagens seja em novas histórias, seja em formas de aprofundar o enredo, seja em mostrar aspectos que não foram devidamente explorados pelo projeto inicial ou simplesmente em abordando as origens de personagens marcantes.

A universo de TWD, com seus milhares de personagens, tramas, sub tramas e várias comunidades e grupos humanos entrando em relação ou em guerra, demonstra uma ampla possibilidade para seu criador criar vários adendos na trama, seja com histórias paralelas que se entrecruzam e em dado momento se chocam, seja com dramas, trajetórias e provações de grupos e indivíduos que estão sob a tragédia do apocalipse zumbi.

O livro The Walking Dead: a ascensão do governador é um interessante exemplo disso. O romance conta a história trágica e curiosa do homem que se tornou um dos maiores, se não o maior, vilão de TWD e como ele se tornou o líder indiferente, devasso, imprevisível e cruel que vemos nos quadrinhos.

Depois de terem escapado de sua pequenina cidade no sul dos Estados Unidos, a pequeno grupo de trágicos viajantes, formado por Philip, Brian, pequena Penny Blake e os amigos Nick e Bobby, eles cruzam cidades, estradas, vales e colinas devastadas, enfrentam provações, sofrem frio, fome e são perseguidos por outros grupos que tentam matá-los. Tudo isso para conseguir um único objetivo, ficar vivos e encontrar um lugar que ofereça segurança num mundo devastado.

Com o decorrer da trama vamos percebendo como as desgraças e a tragédia do mundo vão agindo sobre os personagens, fazendo com que cada um deles interprete de uma maneira peculiar e encontre respostas que acreditam serem adequadas para seus próprios demônios e conflitos. O temperamento volúvel e cruel de Philip, que começou a se formar quando sua esposa faleceu e teve de cuidar de Penny como um pai solteiro, se acentua. As dúvidas existências de Nick ganham fôlego e ele se apega cada vez mais a religião. Brian Blake, por sua vez, que sempre foi um homem de temperamento frágil, piedoso e humano, se vê num grande dilema interno entre a brutalidade do mundo e sua incapacidade de lidar com ele. O que surge como saída para é a tentativa de manter, a todo custo, a união do grupo, pois é a única forma de, na sua visão, não apenas ele, mas todos ali, se manterem a salvo.

Diferentemente do grupo de Rick Grimes que, apesar das perdas, conseguiu se manter unido e conservar um sentimento de coletividade e de humanidade, o mesmo não se pode dizer dos personagens principais deste livro, cujos acontecimentos vão distanciando-os cada vez mais, moldando-os de tal maneira que a convivência em sociedade parece se tornar um possível.

Vemos que o Governador não foi sempre este líder perverso que vemos nos quadrinhos, mas um homem com o espírito atribulado que, deparando-se com o fim da civilização e com a emergência do estado de guerra de todos contra rodos, escolheu não a humanidade e o companheirismo, mas a crueldade e a indiferença. Uma de suas falas no livro mostra de forma explicita essa escolha:

“Para sobrevivermos, devemos ser mais cruéis que essas coisas…”

Embora do ponto de vista estilístico a obra não apresente grandes atrativos por ter uma prosa muito leve e direta, como são todos os romances comerciais, a história escrita por Robert Kirkman e Jay Bonansinga é muito bem construída, prendendo o leitor logo na primeira frase. Nisso conserva o mérito da história. Não há grande força estética, mas o caráter direto e bem construído da prosa, como se fosse uma reportagem, fazem do livro um belo passatempo e uma horripilante história de terror.

È uma história onde as cenas mais chocantes e dramáticas são descritas em toda a sua riqueza, sem deixar nenhum detalhe de fora e sem nenhuma concessão, o que pode deixar alguns leitores mais sensíveis impressionados.

Recomendado para todos os fãs de The Walking Dead ou para amantes de historias de zumbis em geral.