Sobre a Convivência Humana

Viver em sociedade requer uma elevada dose de tolerância. Estamos sempre em contato com pessoas com objetivos, personalidades e formas de enxergar o mundo de maneira bastante diversa. Os grupos sociais também são completamente diversos com suas formas de pensar e de agir; todos eles possuem uma cultura própria, com seus costumes e suas formas de se relacionar e organizar suas comunidades. O que vemos no decorrer da história é o esforço da humanidade para conseguir conviver neste pequeno e valioso pedaço de rocha que é o Planeta Terra.

Mas também encontramos o extremo oposto, a tentativa de sociedades, líderes e grupos tentando dominar e destruir os outros através das guerras, da escravidão e da opressão.

Tudo isso nos mostra que os valores da tolerância e da boa convivência devem ser cultivados e preservados. A história das nossas sociedades prova que as consequências da intolerância são altos demais e que, se quisermos ainda permanecer neste mundo e desfrutar do que nele há, a convivência e a tolerância para com o outro deve conquistado e cultivado.

Os casos de agressões que ocorrem tanto na escola quanto fora dela (no trânsito, na família, no trabalho e na igreja) é um exemplo de como é difícil viver em sociedade, viver em grupo, regular nossas pulsões individuais em prol de algo maior, que está acima de nós, que existia antes de nós e vai continuar existindo mesmo depois que deixarmos este mundo, isto é, a Sociedade, pois é ela que nos acolhe e protege, é nela onde desenvolvemos a virtude da vida cívica e onde nossas potencialidades são desenvolvidas.

Sim, viver em sociedade é onde se realiza o Humano; e a única forma para que isso funcione é praticando a tolerância e a boa convivência.

Mas como isso seria possível?

O caminho possível é a resolução dos conflitos através do diálogo, do debate e da não violência. Em mundo repleto de guerras, onde a paz se tornou algo raro, lutar pela boa sociedade é um imperativo de cada um de nós.

Devemos também ter em mente que na sociedade, como na física, toda ação tem uma reação. Todos os nossos atos que empreendemos enquanto indivíduos tem consequências imprevistas tanto sobre os que estão a nossa volta, quanto os que estão perto de nós, e quanto aos que estão bem longe. Cabe a nós tomarmos cuidado com a forma como escolhemos agir e quando iremos agir. Não somos indivíduos soltos no mundo e auto suficientes, estamos inseridos numa rede de sociabilidade que abarca tanto a nossa comunidade, cidade, escola, estado, país e mundo.

Se a violência fosse uma saída viável para os conflitos humanos o mundo seria uma maravilha, e nós sabemos que não é.

Portanto, pratiquemos o diálogo e a tolerância. Devemos reconhecer o outro como portador de direitos, como um igual, como alguém merecedor tanto quanto nós do melhor que podemos oferecer, que é a nossa civilidade e nossa solidariedade.

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A Fábula do Brasil Pacífico

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O resultado das ultimas eleições e os recentes escândalos de corrupção que se tornaram pauta corrente na mídia convencional fizeram acender no brasileiro médio a opinião de que o Brasil estaria dividido. De um lado estaria o governo e seus defensores e, do outro, os cidadãos de bem, intolerantes a corrupção e pleiteadores de uma mudança que, se não foi conseguida nas urnas, será conquistada com impeachment ou por intervenção constitucional militar (sic).

Confesso que sempre desconfiei dessas opiniões correntes, dadas a priori, formuladas e propagadas pelos intelectuais orgânicos de grandes grupos midiáticos. Minha formação em sociologia me fez perceber a famosa máxima de Shakespeare, Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode pensar a tua vã filosofia se aplica a tudo, inclusive a sociedade.

Portanto, o Brasil estaria mesmo dividido entre os cidadãos do bem e os cidadãos do mal? Obviamente que essa resposta não poderia ser mais equivocada.

È costume nós acreditarmos que em nosso país não há conflitos étnicos e guerras civil, ou que revoluções nunca fizeram parte de nossa formação politica. Contudo, para além dessa representação, tornada um lugar, há, na verdade, em toda historia brasileira, episódios de lutas de secessão, guerras civis e violências contra grupos subalternos; seja na colônia, com o esmagamento sistemático das populações tradicionais americanas ou com a submissão de africanos ao trabalho compulsório; as revoltas do Período Imperial, como a Confederação do Equador, a Cabanagem ou a Revolução Farroupilha, duramente reprimidas e que somaram milhares de mortos; temos também as revoltas da República Velha, Canudos, Revolta Vacina ou revolução federalista, também duramente reprimidas; revoltas do Período Ditatorial, quando oposicionistas ao regime eram torturados e mortos, e vários grupos de populações tradicionais esmagados pelo modelo autoritário modernizante de desenvolvimento; mesmo agora, na Nova República, quando vivemos sob uma constituição que é chamada de Constituição Cidadã, temos violações sumárias dos direitos humanos tanto sobre a população mais pobre quanto sobre movimentos sociais em geral.

Por isso, a formação e história da sociedade brasileira não é permeada pela paz ou por levantes isolados. O país nunca foi pacifico. O conflito e a violência, tanto física quanto simbólica, contra grupos subalternos (indígenas, negros, trabalhadores, oposicionistas políticos, mulheres e crianças) foram a tônica de nossa sociedade. A violência, no Brasil, se impôs como um verdadeiro fato social, como uma característica indelével de nossa cultura politica. Ela não é um fenômeno novo, gerado na década de setenta com o crime organizado, mas esteve presente em todas as etapas da formação nacional.

Sem embargo, a crise e a brutalidade sempre foram predominantes numa sociedade autoritária como a nossa e que possui, como nas palavras de Florestan Fernandes, uma resistência patológica a mudança, ou seja, uma incrível virtude de preservar as suas mais terríveis características, uma capacidade para aplacar todo e qualquer impulso de reforma estrutural que pudesse solapar seus pilares autoritários e anti democráticos.

Quando os intelectuais orgânicos da mídia dizem que as eleições deixaram o país está dividido, ou quando dão voz para grupos golpistas que anunciam o impedimento da presidente eleita e da intervenção constitucional militar (sic) como alternativa para reconstruir um tecido social rompido, não fazem mais que reproduzir a fábula do Brasil como país ordeiro, um país onde antes não havia luta de classes, não tinha violência, e onde todos sabiam o seu lugar e não procuravam mudar a ordem natural das coisas…

Portanto, as manifestações, pró- e contra o governo, e os movimentos sociais que vão para as ruas reivindicar seus direitos, são a materialização de um conflito antes camuflado, e que uma sociedade autoritária teimava em não enxergar — as lutas por direitos, o choque de grupos políticos com interesses contraditórios, a competição entre grupos da elite dirigente e econômica, que se alinharam a blocos divergentes de poder, e a brutalidade contra os mais fracos como condição intrínseca a condição social brasileira.

Tais fenômenos, que antes ficavam restritos aos subsolos do tecido social, seja pela ideologia do país ordeiro, presente em livros de historia ou propagados pela grande mídia, agora surgem à superfície. Então, nossa sociedade, a partir dos limites dessa fábula, busca explicar estes processos como ou fruto da ditadura do PT, para o caso da crise politica, ou culpa dos direitos humanos, para explicar o excesso de violência urbana.

Penso que a solução para a superação deste estado vem da própria sociedade, através de movimentos organizados, pressionando cada vez mais o estado e setores ariscos a mudança. Caso a mobilização fracasse, como tem fracassando nas ultimas décadas, uma radicalização num sentido quase revolucionário pode ser a única saída…