Nossa Torpe Indiferença

A maioria das pessoas que vivem em grandes cidades costumam ser frias e indiferentes. Georg Simmel, um dos maiores sociólogos alemães do século XX, se debruçou sobre o fenômeno da vida nas grandes metrópoles e como ela influi na subjetividade dos indivíduos. O pensador chegou à conclusão de que o habitante típico das grandes cidades é o indivíduo que ele chama de blasé; é o sujeito que, por estar sendo bombardeado por todo tipo de estímulos e sensações, seja de caráter olfativo, visual e auditivo, se torna uma pessoa indolente, insensível e apática diante do que se passa ao seu redor. Em outras palavras, o habitante das grandes cidades é permissivo, pois a tudo se acostuma e permite.

Mas uma coisa é ler isso num livro, discutir em sala de aula e ficar teorizando sobre o fenômeno urbano; outra coisa muito diferente é ver e sentir na prática este sentimento de indiferença…

Eu tinha acabado de voltar de São Carlos, interior de São Paulo, e estava em plena capital, na Estação Paulista da linha amarela do metrô onde esperava pegar o próximo bonde para a Estação Butantã. Era por volta das vinte horas de uma noite fria e chuvosa. A viagem tinha sido longa e cansativa. A única coisa que desejava naquele momento era chegar em meus aposentos, se banhar, comer algo bem leve e desabar na cama tendo o aroma de um incenso de eucalipto tomando conta do ambiente.

Mas ainda precisava pegar um metrô e um ônibus, ou seja, havia menos duas horas de suplício naquela cidade que tinha a fama de ter uma das piores mobilidades urbanas do país.

Andava devagar, tentando se desviar do fluxo intenso e infinito de pessoas, nunca gostei de multidões, e tentando de todo jeito proteger minha pequena mala preta de rodinhas.

Quando estava quase saindo da escada rolante que dava acesso ao embarque ocorreu algo inesperado. Um idiota apressado esbarra em mim e me desequilibra. Então uma das alças da mala, que estava desatada, foi puxada pela escada rolante. O resultado disso foi que a merda da escada começou a puxar o couro da valise, estraçalhando-a por completo.

Eu, desesperado, tentava a todo custo tirar a mala da fúria implacável da escada, sem sucesso.

E as pessoas em volta, porém, apenas me olhavam com um ar de cômoda pena e terrível indiferença…

Em cidades do interior, contudo, me parece que os laços de solidariedade ainda não foram de todo tomados por esse fenômeno blasé. Digo isso porque quando estava numa parada de ônibus em São Carlos, um senhor sofreu um ataque epilético. Mas, felizmente, várias pessoas, inclusive eu, foram ali tentar ajudar o homem, que pareceu se recuperar a tempo dele pegar seu coletivo…

Fosse isso na capital, na metrópole, no mundão da cidade grande e da selva de concreto, onde a vida intensa de estímulos, desejos e novas ideias nos deixam entorpecidos, provavelmente teriam olhado para aquele pobre diabo e pensado:

“Antes ele do que eu…”

O leitor provavelmente pode estar se perguntando como acabou o meu drama, melhor seria chamar embate, com a escada rolante… Respondo que foi só depois de uma luta esganiçada com aquele monstro de aço que tirei a valise, completamente destruída, daqueles dentes de metal. Quando me aprumei e recolhi os destroços, olhei para aquelas centenas de pessoas idiotas, que me olhavam como se eu tivesse um penico na cabeça, e senti um ódio implacável. Tive vontade de gritar:

“Seus bandos de filhos da puta! Espero que aconteça o mesmo com vocês e que ninguém venha ajudar!”

Contudo, contive-me. Peguei o metrô e viajei sentado em meio aquela gente mesquinha…

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O espaço urbano no século XXI: esboço de uma análise

Casa Grande & Senzala
Casa Grande & Senzala

Uma das características mais marcantes de nossa época é o aprofundamento e a criação de novas desigualdades. Processos como a reestruturação produtiva, a retirada do Estado Nação como árbitro dos conflitos sociais, o encastelamento dos ricos em lugares seguros, a revelia dos excluídos e a financeirização de todas as esferas da vida são apenas algumas das causas que tornam nosso tempo tão intrigante, injusto e assustador.

Todos estes processos, embora globais, se manifestam de maneira concreta nas cidades de todo o mundo, são nelas onde se materializam os fluxos e os influxos do capitalismo global. As formas de exclusão entre riqueza e pobreza, a qualidade da mobilidade urbana, a intensidade das trocas simbólicas e econômicas, a qualidade dos serviços públicos, as maneiras como os estrangeiros, ou as últimas tendências da economia global, são recebidas são apenas algumas das formas que podem dizer muito sobre o lugar da urbe no sistema capitalista mundial. Em outras palavras, é a partir da maneira como elas organizam o seu espaço que é possível percebermos a forma como ela está inserida no sistema mundial.

Ora, a cidade, com o advento da época moderna, se torna o ponto onde ocorrem os processos de negociação, congregação de forças politicas, movimentos sociais, classes, coletividades e indivíduos. Ela é o palco onde as onde as coletividades que estruturam e são estruturadas pela globalização, entrando em relação e tensão, pois o que está em jogo nesse movimento dialético e ambivalente é o uso do espaço urbano — é na luta pela cidade que se formaram as bases da vida moderna.

Nesse processo dialético, uma das novas tendências de organização do espaço urbano no século XXI é o processo de verticalização: a emergência de condomínios fechados, de caráter segregado. Suas origens remontam a década de 1970, em Los Angeles, quando as camadas médias e altas procuraram os condomínios suburbanos fechados para se isolarem diante do crescente número de pobres que se arremetiam para a cidade, compostos principalmente de negros e imigrantes ilegais.

Nas urbes da modernidade clássica, cujo arquétipo principal foram as reformas implementadas pelo Barão de Haussmann em Paris no século XIX, o fluxo de pessoas se caracterizava pelo encontro anônimo e heterogêneo entre pessoas de numerosas classes sociais, resultando na concepção de um espaço público baseado na tolerância e na democracia. Podia-se caminhar, ver, sentir, ouvir e provar o mundo em volta num emaranhado de fluxos de indivíduos, de estímulos visuais e auditivos. Tudo isso livremente, sem ser notado, estudado ou vigiado. A experiência moderna, naquele momento, era um deixar-se levar pelo devir supremo das forças sociais. As ruas, as calçadas, as praças e os bairros e a cidade pertenciam ao povo. O espaço público ainda era um lugar eficiente de reivindicação coletiva, pois o privado ainda não tinha emergido sobre ele.

Agora, a partir do final do século XX, o espaço público, mais do que nunca, passa a ser marcado pela segregação e pela desconfiança. Há uma desvalorização do encontro heterogêneo e a valorização do fluxo rápido e carregado de carros em oposição ao ato de caminhar livremente pelo espaço urbano. Se as cidades do capitalismo fordistas eram as cidades horizontais, com claras distinções entre bairros operários e bairros de classes médias e altas e com clara distinção entre a esfera pública e privada, dando uma prioridade ao encontro coletivo, a cidade do século XXI é a cidade vertical de enclaves fortificados, segregacionistas e não democráticos. Surgem os condomínios fechados, fortemente vigiados por toda um aparto de seguranças privados que procuram manter afastados todos os diferentes, os indesejáveis, os restolhos da vida moderna. Numa época em que o estado não oferece mais amparo institucional a população, só podem aspirar à segurança e desfrutar das comodidades da vida moderna globalizada aqueles que podem pagar por ela. Enquanto os espaços fortificados guardam as elites, cada vez mais ligadas à dinâmica global e menos vinculadas ao local, aqueles que não podem pagar por moradias seguras são deixados do lado de fora, em favelas, guetos, invasões, palafitas… Estamos vendo uma nova forma de exclusão. Em outras palavras, se antes as relações os indivíduo tinha por base amparos coletivos, agora esse mesmo indivíduo se solta destes amparos e fica cada vez mais atomizado, a deriva num mundo onde o dinheiro se torna a medida de todas as coisas.

A experiência de viver numa grande cidade passar a guardar, mais do que nunca, a dialética entre a vida dos que estão fora (desagradável, estigmatizada ou desprovida de liberdade) e uma existência dos que estão dentro e destes feudos modernos (ligada ao mundo globalizado, informatizada e segura).

As formas de organização do espaço urbano no século XXI, em condições de ultramodernidade, se tornam, na verdade, a negação da concepção moderna de vida pública baseada na ideia democrática de liberdade e democracia. A verticalização das cidades acarreta a desvalorização dos espaços públicos e o declínio da mobilização politica enquanto estratégia coletiva de ação. Num mundo onde os meios de ação e de sucesso passam a ser basicamente privatizados, buscar a liberdade se torna um problema individual e não mais de instâncias coletivas como o do poder público ou dos movimentos sociais, agora enfraquecidos pelo processo privatista.

Não se trata de cair no simplismo de que antes era melhor do que hoje, trata-se, na verdade, de compreender um processo na estrutura urbana das cidades que acarretam novas desigualdades e segregações entre possuídos e despossuídos.

A mudança desse estado de coisas não vai depender dos estratos médios e altos da sociedade, pois estes em muito se beneficiam com as distorções estruturais de nosso mundo, e por isso tem uma resistência patológica a mudança. Cabe aos excluídos, organizados em movimentos sociais, se oporem a lógica segregacionista do espaço urbano e em buscar do seu direito legitimo a cidade.