Operator: uma instigante animação de terror.

Operator
Bob, personagem central de Operator: aterrorizado por estar numa situação absurda.

Dirigido por Sam Barnett, o stop movie Operator conta a história de Bob, um homem comum que trabalha numa fábrica. Num dia corriqueiro, enfurnado na sua sala de trabalho fazendo manutenção numa máquina qualquer, uma estranha substância entra no local e começa a roubar a individualidade daqueles que infecta. Inserido nessa situação aterrorizante, o protagonista deve lutar pela sua vida.

A inspiração de Barnett, foi:

(…) algumas idéias e conceitos, como cogumelos cordyceps, que infectam e controlam o comportamento de certas formigas, levando-os a subir o mais alto possível para que, quando os esporos do cogumelo finalmente se soltam da cabeça das formigas os esporos sejam espalhados, tão longe quanto possível pelo vento, e em segundo lugar, por “idéias parasitas” – tais como as ideologias projetados por cultos ou regimes opressivos com a intenção de enfraquecer e controlar os adeptos de tais crenças, e a mecanização insensível da burocracia corporativa, se alastrando em organizações superpoderosas, com tantas peças móveis e interesses conflitantes que nenhum ser humano dentro deste mundo tem controle real sobre o que ocorre.

Apesar da intenção do autor, vejo o curta como uma metáfora da alienação que assola o homem moderno. Inserido num local de trabalho onde o produto do seu labor e o ambiente onde ele o produz parecem-lhe completamente estranhos, ele passa a não reconhecer a si mesmo. Dentro desse contexto esmagador, que é uma verdadeira grade de ferro, ele perde a sua subjetividade e torna-se um bárbaro semi treinado, isto é, um simples reprodutor de tarefas sem emoções e sem subjetividade.

Curta Metragem incrível e de final fantástico.

Solfieri*

Yet one kiss on your pale clay
And those lips once so warm – my heart! My heart.
Byron, Cain..

Sabeis-lo. Roma é a cidade do fanatismo e da perdição: na alcova do sacerdote dorme a gosto a amásia; no leito da vendida se pendura o crucifixo lívido. É um requintar de gozo blasfemo que mescla o sacrilégio à convulsão do amor, o beijo lascivo à embriaguez da crença.

Era em Roma. Uma noite, a lua ia bela como vai ela no verão por aquele céu morno. O fresco das águas se exalava como um suspiro do leito do Tibre. A noite ia bela. Eu passeava a sós pela ponte de ***. As luzes se apagaram uma por uma nos palácios, as ruas se faziam ermas e a lua de sonolenta, se escondia no leito das nuvens. Uma sombra de mulher apareceu numa janela solitária e escura. Era uma forma branca. – A face daquela mulher era como de uma estátua pálida à lua. Pelas faces dela, como gotas de uma taça caída, rolavam fios de lágrimas.

Eu me encostei à aresta de um palácio. A visão desapareceu no escuro da janela… e daí um canto se derramava. Não era só uma voz melodiosa: havia naquele cantar um como choro de frenesi, um como gemer de insânia: aquela voz era sombria como a do vento à noite nos cemitérios cantando a nênia das flores murchas da morte.

Depois, o canto calou-se. A mulher apareceu na porta. Parecia espreitar se havia alguém nas ruas. Não viu ninguém: saiu. Eu segui-a.

A noite ia cada vez mais alta: a lua sumira-se no céu e a chuva caía às gotas pesadas: apenas eu sentia nas faces caírem grossas lágrimas de água, como sobre um túmulo prantos do órfão.

Andamos longo tempo pelo labirinto das ruas: enfim, ela parou; estávamos num campo.

Aqui, ali, além, eram cruzes que se erguiam entre o ervaçal. Ela ajoelhou-se. Parecia soluçar: em torno dela passavam as aves da noite.

Não sei se adormeci: sei, apenas, que quando amanheceu achei-me a sós no cemitério. Contudo, a criatura pálida não fora uma ilusão: as urzes, as cicutas do campo-santo estavam quebradas junto a uma cruz.

O frio da noite, aquele sono dormido à chuva, causaram-me uma febre. No meu delírio passava e repassava aquela brancura de mulher, gemiam aqueles soluços e todo aquele devaneio se perdia num canto suavíssimo…

Um ano depois voltei a Roma. Nos beijos das mulheres, nada me saciava; no sono da saciedade me vinha aquela visão…

Uma noite e após uma orgia, eu deixara dormida no leito a bela condessa Barbora. Dei um último olhar àquela forma nua e adormecida com a febre nas faces e a lascívia nos lábios úmidos, gemendo ainda nos sonhos como na agonia voluptuosa do amor. Saí. Não sei se a noite era límpida ou negra; sei apenas que a cabeça me escaldava de embriaguez. As taças tinham ficado vazias na mesa: aos lábios daquela criatura eu bebera até à última gota do vinho do deleite…

Quando dei acordo de mim, estava num lugar escuro: as estrelas passavam seus raios brancos entre as vidraças de um templo. As luzes de quatro círios batiam num caixão entreaberto. Abri-o. Era o de uma moça. Aquele branco da mortalha, as grinaldas da morte na fronte dela, naquela tez lívida e embaçada, o vidrento dos olhos mal-apertados… Era uma defunta! E aqueles traços todos me lembraram uma idéia perdida… Era o anjo do cemitério! Cerrei as portas da igreja que, ignoro porque, eu achara abertas. Tomei o cadáver nos meus braços para fora do caixão. Pesava como chumbo…

Sabeis a história de Maria Stuart degolada e do algoz, “do cadáver sem cabeça e do homem sem coração”, como a conta Brantôme? – Foi uma idéia singular, a que eu tive. Tomei-a no colo. Preguei-lhe mil beijos nos lábios. Ela era bela assim. Rasguei-lhe o sudário, despi-lhe o véu e a capela, como o noivo os despe à noiva. Era mesmo uma estátua: tão branca era ela. A luz dos tocheiros dava-lhe aquela palidez de âmbar que lustra os mármores antigos. O gozo foi fervoroso – cevei-lhe em perdição aquela vigília. A madrugada passava já frouxa nas janelas. Àquele calor de meu peito, à febre de meus lábios, à convulsão de meu amor, a donzela pálida parecia reanimar-se. Súbito, abriu os olhos empanados. Luz sombria alumiou-os como a de uma estrela entre névoa, apertou-me em seus braços, um suspiro ondeou-lhe nos beiços azulados… Não era já a morte: era um desmaio. No aperto daquele abraço havia, contudo, alguma coisa de horrível. O leito de lajes, onde eu passara uma hora de embriaguez, me resfriava. Pude, a custo, soltar-me naquele aperto do peito dela… Nesse instante, ela acordou…

Nunca ouvistes falar de catalepsia? É um pesadelo horrível aquele que gira ao acordado que emparedam num sepulcro; sonho gelado em que sentem-se os membros tolhidos e as faces banhadas de lágrimas alheias, sem poder revelar a vida!

A moça revivia a pouco e pouco. Ao acordar, desmaiara. Embucei-me na capa e tomei-a nos braços coberta com seu sudário, como uma criança. Ao aproximar-me da porta, topei num corpo. Abaixei-me e olhei: era algum coveiro do cemitério da igreja, que aí dormira de ébrio, esquecido de fechar a porta…

Saí. Ao passar a praça encontrei uma patrulha.

– Que levas aí?

A noite era muito alta: talvez me cressem um ladrão.

– É minha mulher, que vai desmaiada…

– Uma mulher? Mas, essa roupa branca e longa? Serás, acaso, roubador de cadáveres?

Um guarda aproximou-se. Tocou-lhe a fronte: era fria.

– É uma defunta

Cheguei meus lábios aos dela. Senti um bafejo morno. – Era a vida, ainda.

– Vede – disse eu.

O guarda chegou-lhe os lábios: os beiços ásperos roçaram pelos da moça. Se eu sentisse o estalar de um beijo… o punhal já estava nu em minhas mãos frias…

– Boa-noite, moço. Podes seguir – disse ele.

Caminhei. – Estava cansado. Custava a carregar o meu fardo e eu sentia que a moça ia despertar. Temeroso de que ouvissem-na gritar e acudissem, corri com mais esforço…

Quando eu passei a porta, ela acordou. O primeiro som que lhe saiu da boca foi um grito de medo…

Mal eu fechara a porta, bateram nela. Era um bando de libertinos, meus companheiros, que voltavam da orgia. Reclamaram que abrisse.

Fechei a moça no meu quarto e abri.

Meia hora depois eu os deixava na sala, bebendo ainda. A turvação da embriaguez fez que não notassem a minha ausência.

Quando entrei no quarto da moça, vi-a erguida. Ria de um rir convulso, como a insânia, e frio como a folha de uma espada. Trespassava de dor ouvi-la.

Dois dias e duas noites levou ela de febre, assim.

Não houve sanar-lhe aquele delírio, nem o rir do frenesi. Morreu depois de duas noites e dois dias de delírio.

À noite, saí. Fui ter com um estatuário que trabalhava perfeitamente em cera e paguei-lhe uma estátua dessa virgem.

Quando o escultor saiu, levantei os tijolos de mármore do meu quarto e, com as mãos, cavei aí um túmulo. Tomei-a, então, pela última vez nos braços, apertei-a a meu peito, muda e fria, beijei-a e cobri-a, adormecida no sono eterno, com o lençol de seu leito. Fechei-a no seu túmulo e estendi meu leito sobre ele,

Um ano, – noite a noite – dormi sobre as lajes que a cobriam… Um dia, o estatuário me trouxe a sua obra. Paguei-lha e paguei o segredo…

– Não te lembras, Bertram, de uma forma branca de mulher que entreviste pelo véu do meu cortinado? Não te lembras que eu te disse que era uma virgem que dormia?

– E quem era essa mulher, Solfieri?

– Quem era? Seu nome?

– Quem se importa com uma palavra quando sente

que o vinho queima assaz os lábios? Quem pergunta o nome da prostituta com quem dormiu e sentiu morrer a seus beijos, quando nem há dele mister por escrever-lho na lousa?

Solfieri encheu uma taça e bebeu-a. Ia erguer-se da mesa, quando um dos convivas tomou-o pelo braço.

– Solfieri, não é um conto, isso tudo?

– Pelo inferno, que não! Por meu pai, que era conde e bandido! Por minha mãe que era a bela Messalina das ruas! Pela perdição que não! Desde que eu próprio calquei aquela mulher com meus pés na sua cova de terra, eu vo-lo juro! – guardei-lhe como amuleto a capela de defunta. Ei-la!

Abriu a camisa e viram-lhe ao pescoço uma grinalda de flores mirradas.

– Vedes-la? Murcha e seca, como o crânio dela.

*Conto do livro Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo.

The Walking Dead e as Origens do Governador

Num artigo anterior (leia aqui), mostrei que a fabulosa mitologia do apocalipse zumbi criado por Robert Kirkman é extremamente convincente, dramática, aterrorizante e profundamente complexa tanto do ponto de vista cênico quanto filosófico e sociológico. The Walking Dead é uma metáfora amarga do mundo em que vivemos e das consequências da modernidade. Ler os quadrinhos ou mesmo acompanhar o seriado é como ver a distopia de um mundo cruel, mesquinho e sem esperança.

Quando é convincente e complexa, toda trama ficcional apresenta amplas possibilidades de abordagens seja em novas histórias, seja em formas de aprofundar o enredo, seja em mostrar aspectos que não foram devidamente explorados pelo projeto inicial ou simplesmente em abordando as origens de personagens marcantes.

A universo de TWD, com seus milhares de personagens, tramas, sub tramas e várias comunidades e grupos humanos entrando em relação ou em guerra, demonstra uma ampla possibilidade para seu criador criar vários adendos na trama, seja com histórias paralelas que se entrecruzam e em dado momento se chocam, seja com dramas, trajetórias e provações de grupos e indivíduos que estão sob a tragédia do apocalipse zumbi.

O livro The Walking Dead: a ascensão do governador é um interessante exemplo disso. O romance conta a história trágica e curiosa do homem que se tornou um dos maiores, se não o maior, vilão de TWD e como ele se tornou o líder indiferente, devasso, imprevisível e cruel que vemos nos quadrinhos.

Depois de terem escapado de sua pequenina cidade no sul dos Estados Unidos, a pequeno grupo de trágicos viajantes, formado por Philip, Brian, pequena Penny Blake e os amigos Nick e Bobby, eles cruzam cidades, estradas, vales e colinas devastadas, enfrentam provações, sofrem frio, fome e são perseguidos por outros grupos que tentam matá-los. Tudo isso para conseguir um único objetivo, ficar vivos e encontrar um lugar que ofereça segurança num mundo devastado.

Com o decorrer da trama vamos percebendo como as desgraças e a tragédia do mundo vão agindo sobre os personagens, fazendo com que cada um deles interprete de uma maneira peculiar e encontre respostas que acreditam serem adequadas para seus próprios demônios e conflitos. O temperamento volúvel e cruel de Philip, que começou a se formar quando sua esposa faleceu e teve de cuidar de Penny como um pai solteiro, se acentua. As dúvidas existências de Nick ganham fôlego e ele se apega cada vez mais a religião. Brian Blake, por sua vez, que sempre foi um homem de temperamento frágil, piedoso e humano, se vê num grande dilema interno entre a brutalidade do mundo e sua incapacidade de lidar com ele. O que surge como saída para é a tentativa de manter, a todo custo, a união do grupo, pois é a única forma de, na sua visão, não apenas ele, mas todos ali, se manterem a salvo.

Diferentemente do grupo de Rick Grimes que, apesar das perdas, conseguiu se manter unido e conservar um sentimento de coletividade e de humanidade, o mesmo não se pode dizer dos personagens principais deste livro, cujos acontecimentos vão distanciando-os cada vez mais, moldando-os de tal maneira que a convivência em sociedade parece se tornar um possível.

Vemos que o Governador não foi sempre este líder perverso que vemos nos quadrinhos, mas um homem com o espírito atribulado que, deparando-se com o fim da civilização e com a emergência do estado de guerra de todos contra rodos, escolheu não a humanidade e o companheirismo, mas a crueldade e a indiferença. Uma de suas falas no livro mostra de forma explicita essa escolha:

“Para sobrevivermos, devemos ser mais cruéis que essas coisas…”

Embora do ponto de vista estilístico a obra não apresente grandes atrativos por ter uma prosa muito leve e direta, como são todos os romances comerciais, a história escrita por Robert Kirkman e Jay Bonansinga é muito bem construída, prendendo o leitor logo na primeira frase. Nisso conserva o mérito da história. Não há grande força estética, mas o caráter direto e bem construído da prosa, como se fosse uma reportagem, fazem do livro um belo passatempo e uma horripilante história de terror.

È uma história onde as cenas mais chocantes e dramáticas são descritas em toda a sua riqueza, sem deixar nenhum detalhe de fora e sem nenhuma concessão, o que pode deixar alguns leitores mais sensíveis impressionados.

Recomendado para todos os fãs de The Walking Dead ou para amantes de historias de zumbis em geral.