Teoria Literária sem Frescura

o_texto_nu_-_capa Apresentar um assunto tão complexo como a Teoria da Literatura pode ser uma tarefa monótona e, por vezes, malograda; principalmente quando se trata de expor a um iniciante, da leitura ou da escrita, todas as principais escolas, tendências e enfoques na forma de se analisar e produzir um texto; dificilmente se conseguirá levar á cabo tão espinhosa tarefa sem tornar-se enfadonho ou mesmo redundante; basta lembrar-mos dos velhos e chatíssimos manuais de literatura do nosso combalido ensino médio que, ao invés de criar em nós alunos o gosto pela arte da escrita, inculca-nos uma verdadeira aversão pelos livros.

Mas não é esse o caso de O Texto Nu, de ZéMaria Pinto, um belo ensaio sobre ofício literário. Como já bem diz o titulo, o texto é despido, desmascarado, destrinchado e analisado sob as mais diversas perspectivas. Ao deixar de lado a linguagem obscura de muitos eruditos pedantes, nos apresenta um estilo agradável, leve, saboroso e, por vezes, bem humorado; sem preterir, contudo, a profundidade e o rigor no trato com o conteúdo. Talvez o presente ensaio se encaixe no famoso depoimento de Antonio Cândido sobre a vida de Aurélio Buarque de Holanda, quando o sociólogo da cultura afirmara que se deveria prezar pela seriedade sem, contudo, tornar-se sisudo.

Maria Pinto vai dos primórdios da criação textual e da analise da palavra, começando com a Grécia antiga, a dramaturgia trágica e as tentativas de Platão em explicar a arte, até a nova critica multidisciplinar dos dias de hoje; as características mais elementares de todas as escolas literárias através dos séculos; a distinção entre o texto-obra, artístico, e o texto objeto, usual no cotidiano; as correlações entre a forma e conteúdo; as analises sincrônicas e diacrônicas, esta, uma homologia entre os estilos de época e o quadro evolutivo da literatura ao longo da historia, enquanto aquela detêm-se na classificação literária enquanto modelo formal pertencente a determinado gênero; as variadas formas de se criar boa poesia; a distinção entre estilos individuais, como a marca própria do autor e o estilo coletivo, “o estilo modal dos indivíduos que escrevem em determinada época”; além de uma das teorias mais bem elaboradas para explicar os tramites da arte ocidental: a oposição entre dionisíaco e apolíneo, esboçada pelo grande Friedrich Nietsche em seu livro A Origem da Tragédia.

A parte mais original da obra é a teoria da Letra Poema, em que o autor lança mão de alguns pressupostos para analisar se determinada letra serve para música, e nos apresenta as categorias letra ordinária, letra funcional, letra poética, letra poema, poema letra, como hierarquização qualitativa as letras de musicadas — desconfio de que boa parte das peças de forró safado que tocam pelas espeluncas desta cidade vão ficar na escala mais baixa da classificação…

Contudo, o mais interessante, pelo menos para mim que escrevo ficção, é o capitulo IV, sobre a prosa ficcional, em que Maria expõe com simplicidade as mais variadas formas de narrativa desde as explanações preliminares sobre plano de enunciação e enunciado; as formas de narrativa; o narrador neutro, típico de prosas mais simples; o narrador intruso, tão comum em escritores mordazes como Machado de Assis e Sterne; e o narrador seletivo, meu favorito, e talvez a maior contribuição de Flaubert para a arte; além de retomar a discussão, nunca esgotada, sobre a distinção entre novela e romance. Afinal, novela seria um romance condensado ou um enredo em que há varias historias de caráter episódico?

Recomendo, por combinar simplicidade, estilo e rigor, a obra O Texto Nu, como uma bela e instigante lição introdutória sobre a arte de escrever para todo aquele que deseja se lançar nos tortuosos caminhos da palavra.

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Narrar e descrever: duas vocações.

È através da práxis, apenas, que os homens adquirem interesse uns para com os outros e se tornam dignos de ser tomados como objeto de representação literária.

Georg Lukács.

O fazer literário ocidental, a partir de meados do século XIX, inicia uma modificação de suas estruturas de estéticas. A narrativa épica, tão cheia de acontecimentos e dramas humanos, cede lugar a uma arte cada vez mais estática e descritiva; a dinâmica do enredo e sua originalidade perde espaço para a observação desapaixonada de quadros que mais parecem uma natureza morta.

Em seu Ensaios Sobre Literatura, Lukács, ao analisar esta modificação da literatura ocidental, usa alguns exemplos concretos para comprovar tese: Balzac, Stendhal e Tolstoi, três escritores que viveram numa época em que a sociedade burguesa consolidava-se, um momento em que as várias convulsões sociais davam o golpe de misericórdia nas antigas estruturas feudais; todos estes homens participaram ativamente desse processo, e se tornaram escritores a partir da experiência multifacetada dessas transformações.

Contudo, escritores como Gustave Flaubert e seu discípulo Êmile Zola, artistas de uma geração posterior, nascidos numa sociedade onde as relações capitalistas de produção já estavam praticamente consolidadas, não participaram ativamente dessa sociedade. Flaubert, um homem de posses, herdeiro de considerável fortuna; Zola, órfão, filho de imigrantes, impelido pela necessidade material, “já é um escritor profissional no sentido da divisão social do trabalho.” Como disse Lukács. Ambos, ao contrario dos seus predecessores, recusaram-se a participar da nova sociedade, abominavam-na, preferiram refugiar-se na solidão do gabinete, tendo a pena e a dicotomia da folha em branco como únicos companheiros e retrataram a todo o farisaísmo da vida burguesa, seja com um arguto senso de observação do criador de Madame Bovary, seja com a obsessão monográfica do autor de O germinal.

Essa escolha em ser apenas um frio observador da sociedade, descrevendo-a em quadros mais ou menos estáticos, não se dá apenas como uma motivação estética ou subjetiva do artista, há imperativos sociais. No século XIX as relações na sociedade tornaram-se mais complexas, a esfera do trabalho, em virtude da revolução industrial, passou por uma especialização crescente, o homem moderno já começava a tornar-se um “bárbaro altamente treinado” para usar as palavras de Geertz, e o capital já ultrapassava todas as barreiras culturais e se estabelecia por todo o globo. Estas modificações, em termos de literatura, significavam que não era mais possível individualizar um personagem simplesmente a partir da ação, “pelo modo segundo o qual os personagens reagiam ativamente aos acontecimentos.” Era agora preciso descrever em minúcias, deter-se nas “lamas das botas de Napoleão” abandonar a práxis como ligação com a vida interior, transformar a literatura numa espécie apresentação de cenas descritas minuciosamente e sem qualquer ligação mais profunda, o heroísmo de homens excepcionais é jogado fora e, em seu lugar: o prosaísmo e o vazio da vida.

Entretanto, nos últimos tempos, até a arte de descrever tem sido abandonada. Os escritores do novo século, verdadeiros “sensualistas sem coração”, brindam o público com romances policiais ocos de conteúdo, ou com historias medíocres de auto-ajuda: Códigos da Vinci, Alquimistas e congêneres pululam entre os mais vendidos. Não se escreve pelo compromisso com a palavra, simplifica-se ao máximo a linguagem para que um punhado de analfabetos funcionais possam lê-lo no menor tempo possível antes de ser completamente esquecido e, se for transformado em filme, tanto melhor, gerará mais divisas.

Diante da crescente mercantilização da arte, assim como de todas as esferas da vida, como fica o compromisso com a verdadeira literatura? Mas isso é assunto para outro artigo.