Globalização: perdedores e ganhadores

Penso que uns dos lugares onde mais podemos perceber as consequências da globalização são nos terminais aeroportuários do mundo. Talvez isso não seja tão notado numa grande cidade regional, como Manaus, mais em cidades de preponderância nacional e internacional, como Brasília, São Paulo, Curitiba e Campinas, esses traços são mais fortes.

Sentamos num banco e à nossa frente temos um turista espanhol falando ao celular; mais à frente temos um grupo de japoneses conversando em voz alta; ao nosso lado executivos chineses atualizando os dados das suas empresas multinacionais em seus tablets; tomamos café numa empresa global, a Starbucks, vamos numa livraria global, a Bookstore, e temos os principais lançamentos da literatura best-seller mundial, cuja prosa leve e de questões pouco profundas permite ler sem muito esforço enquanto se está em conexão ou quando se tenta distrair-se do tédio de ficar algumas horas no grande tubo de aço e tecnologia que é o avião, ou ter acesso ao mais recente número do New York Times, do Washington Post ou da Revista Time ao mesmo tempo que podemos tomar uma cerveja alemã de acompanhamento; mesmo a forma de vestir-se, se expressar e gesticular dos funcionários é padronizada a nível global, com gestos discretos, tom de voz calmo e aceptivo, como cães adestrados. As comissárias de bordo são de uma beleza clássica, cujos exemplos podemos encontrar em Londres, Budapeste ou Quebec, e seu tom de voz é o mesmo que pode ser encontrado em qualquer aeroporto do mundo.

Os passageiros, ou clientes, parecem seguir as mesmas normas de etiqueta, passos rápidos, olhares distraídos, falando baixo e espírito imerso nessas maravilhas tecnológicas que fazem nossa felicidade num mundo conectado, pois estar conectado hoje é um imperativo, um fato social global. Muitas vezes percebi aqueles que não se enquadravam nessa regra de etiqueta, com gestos espalhafatosos ou com um tom de voz inapropriado, sendo olhado com um ar de desprezo perante outros passageiros.

Mesmo as lojas destinadas a vender artigos regionais são temperadas pelo tom transnacional; seus produtos nunca refletem de fato uma regionalidade, mas uma identidade estereotipada buscada pelo comprador: camisas em inglês, brincos de sementes com uma estética mais aceitável para um europeu ou norte americano, ou balas de frutas regionais com um sabor não tão intenso e mais acessível para um paladar estrangeiro.

É nesses lugares onde notamos as forças transnacionais que moldam o nosso mundo, isso a revelia de nós mesmos, a despeito da aceitação das populações regionais ou da cultura do lugar. A globalização também me parece um esforço de fazer com que todos se sintam em casa, sem importar com seu local de origem ou do seu local de destino. O típico indivíduo da contemporaneidade é o Homem à Deriva, o Cidadão Cosmopolita capaz de se mover por todos os lugares do mundo, pois absolveu em seu habitus uma forma cultural globalizada, e que só tenderá a ficar mais forte com o passar dos anos ao se misturar com as culturas regionais dos locais onde ela se instala.

Mas em tudo isso há um paradoxo. Se a globalização é uma tentativa de fazer com que todos se sintam em casa em qualquer lugar do mundo, isso só vale para um tipo de indivíduo: aquele que pode pagar pelas benesses do mundo conectado, aquele que num dia pode estar em Dubai curtindo um final de semana e em outro pode estar em Xangai negociando ações e investimentos com executivos locais. Há os Descartados da Globalização, aqueles para quem nenhum lugar é a sua casa e todo lugar é um lugar de perigo, violência e expulsão. Os fenômenos globais são para eles um estorvo, um peso que são obrigados a suportar. Refugiados de guerras, de crises econômicas ou de desastres ambientais, estes grupos humanos experimentam a negatividade do fenômeno transnacional — são os descartáveis do mundo global que, mesmo assim, possuem uma função nele como, por exemplo, exercendo trabalhos degradantes e de pouco prestigio social que as populações integradas dos lugares onde estão temporariamente instalados se recusam a fazer.

A globalização inclui e exclui, acolhe e expulsa. Ela é a síntese conflituosa de uma dialética cruel, nela os perdedores e ganhadores da história se completam e se opõe; carne, sangue, culturas e produtos são triturados pelo impiedoso liquidificador do capital.

Ela, a Globalização, se tornou um fenômeno inevitável, precisamos enfrentá-la, não como algo ruim, mas como um processo que está mudando tudo o que conhecemos e tudo o que amamos. Se queremos um mundo mais acolhedor, que esteja aberto a todos e a todas, precisamos saber como lidar com os perdedores do processo civilizatório, como tornar o mundo uma casa tanto para eles quanto para nós; devemos lidar com o fato de que a civilização global não é um artigo para exportação e que deve haver grupos humanos não desejosos de se integrar, mas apenas querem ser deixados em paz com seu modo de vida; também precisamos saber como equacionar os antagonismos entre a vontade popular local e regional com as forças globais que tudo mudam. O que tem mais legitimidade, forças impessoais do grande capital transnacional ou a vontade geral de uma comunidade que vive, trabalha e conserva um pedaço de terra há muitos anos?

O desafio global está posto.

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Só a Democracia pode salvar a Democracia

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Quanto vale lutar pela Democracia?

Entre os escombros da Nova República e a ascensão de um novo período histórico onde predominará uma poliarquia limitada, vemos os valores da nossa distorcida social-democracia serem jogados no lixo como uma coisa completamente superada, fora de moda, como algo ideológico…

Mas só costumamos chamar de ideológico aquilo que não concordamos. Russel Kirk, o famoso historiador e militante conservador, disse em sua obra A Política da Prudência (1994) que as ideias extremistas, o progressismo e o socialismo, eram ideológicos. Mas todo arcabouço de ideias que dê explicação ao mundo e sustente uma forma de poder no tempo e do espaço pode ser chamado de ideológico. Portando, temos que dar os nomes aos bois, o limitado e prosaico Kirk é tão ideológico quanto os socialistas, sociais-democratas e liberais que costumava tanto criticar.

A inflexão que estamos vendo hoje, com todo o lamaçal da Nova República, só demonstra as consequências nefastas de uma transição democrática lenta, gradual e segura, arquitetada pelos militares que viam a seu poder se esvair frente a crise econômica e às demandas por eleições livres. A conciliação com toda a banda podre da caserna acabou fazendo com que o Novo herdasse as velhas práticas corruptoras e corrompidas da ditadura e de períodos anteriores menos democráticos.

Disso percebemos que está se proliferando certas ideias sustentadas por candidatos e grupos sociais que se colocam como não-políticos e não-ideológicos. Advogam que, como não possuem nada de politico, são tomados de um conhecimento neutro que os tornam capazes de aplicá-lo para administrar o mundo da vida.

Afastar a politica da sociedade civil e torná-la neutra, como uma técnica que só precisa ser aplicada, é algo perigoso que pode beirar o autoritarismo, pois retira do palco de discussão da Ágora os assuntos de interesse da sociedade. Os tecnocratas não percebem a pluralidade, a historicidade e a complexidade de interesses que norteiam a politica e como ela espelha os conflitos em sociedade. Tudo isso funciona como um afastamento do povo da discussão dos seus problemas. O discurso tecnocrático e da antipolítica aparta as pessoas do poder, das instâncias decisórias e das possibilidades de debater seus principais problemas.

Quem ganha afastando o povo da politica? Quem se favorece tornando as politicas públicas blindadas ao questionamento popular apenas por que estariam sob a roupagem de que são medidas técnicas?

Aqueles que afirmam não ser políticos ou não ideológicos são exatamente o oposto, pois suas ações estão sendo amparadas por grupos políticos e interesses econômicos que estão em disputa pelo Estado e pela hegemonia pelo domínio das ideias na sociedade.

Para superar as distorções da democracia representativa e a nossa secular desigualdade precisamos não de tecnocratas ou de líderes que posam de antipolíticos, que usam a fantasia do não sou político, sou administrador como uma forma de conquistar os mais desavisados. Precisamos de mais politica, de políticos de P maiúsculo, de mais democracia, de pôr na esfera de discussão da Ágora os temas mais espinhosos e polêmicos; este é o único caminho para criar um novo consenso e um novo acordo nacional; não elitista e conciliador com tudo que há de mais podre na sociedade brasileira, mas um acordo Popular, que espelhe as demandas de todos os trabalhadores e supere quinhentos anos de dominação fática sobre o povo.

Talvez o que esteja acontecendo agora, com todos os partidos políticos e principais líderes que forjaram a Carta de 1988 expostos em seus esquemas obscuros, aponte para dois caminhos: ou deixamos os interesses econômicos e as elites forjarem um novo pacto que só interessa a elas; ou o povo pega pelos chifres o processo atual e dobre o Poder para o seu lado de forma inédita na história brasileira. Temos uma chance de limpar o poder politico de suas influências deletérias e ajustar a sociedade brasileira numa direção mais justa e equitativa.

As peças estão na mesa. Cabe aos peões decidir se querem continuar sendo bucha de canhão dos reis, rainhas e bispos ou eliminar seus opressores do tabuleiro e criar as novas regras do jogo.

Só mais Democracia pode salvar a Democracia; apenas mais Política pode salvar a Política.

A Modernização Leva a Desordem Moral?

teoTalvez um dos temas de grande sedução nos debates ideológicos, tanto entre conservadores e progressistas, refere-se às consequências da secularização sobre a moralidade coletiva. Conservadores e religiosos em geral afirmam que a religião é imprescindível para a coesão social, enquanto partidários da modernização e da secularização, principalmente ateus militantes, afirmam ser o sentimento religioso uma crendice que tenderá a desaparecer conforme formas modernas de vida forem se alastrando pelo globo.

Para responder essa questão, precisamos reportar a estrutura básica da sociedade pós-tradicional e como ela se diferencia de comunidades dos tempos pré-modernos. O sociólogo Zygmunt Bauman, em seu livro Modernidade Liquida (2001), mostra como as sociedades tradicionais se caracterizavam pela crença numa origem mítica. Fundada por deuses, patriarcas ou heróis, suas leis não poderiam ser modificadas em virtude de seu caráter sagrado; eram sociedades heteronômicas, pois consideravam sua origem extraterrena.

Na modernidade, porém, essas condições mudam. Bauman ainda afirma que a origem deixa de ter uma conotação sobrenatural ou lendária para uma origem histórica, situada no tempo e no espaço. As sociedades modernas, em oposição ao caráter a-histórico de tempos tradicionais, são históricas; suas leis, costumes e origens são tidas como terrenas, seculares e, por isso, sempre submetidas ao debate e reformulação.

Segundo Anthony Giddens, no livro As Consequências da Modernidade (1991), a tradição em condições de modernidade é constantemente reinterpretada e criticada. Não é mais a tradição que condiciona uma comunidade sempre em relação ao passado, mas é o progresso que determina-as sempre em direção ao futuro, num fenômeno chamado de reflexividade, resultado do processo intenso de racionalização e inovação tecnológica, a produção intensa de conhecimento causa fissuras, mudanças e ondulações inesperadas no tecido social, esse resultado contingencial leva inevitavelmente a uma maior produção de conhecimento que, por sua vez, leva a mais mudanças.

Disso resulta em consequências para a moral social. Ela não depende mais de uma tradição, ou de uma religião que são o centro de reprodução da vida. Os indivíduos e grupos estão desgarrados, livres para criar suas próprias crenças morais num mundo onde a inovação e a racionalização tomam conta de todas as esferas da vida. Cabe ao indivíduo, sozinho, criar sua biografia, seus valores e cultivar seu paraíso ou seu inferno.

A consequência, a primeira vista, pode ser uma desordem moral onde tudo seria permitido e onde a religião deixaria de existir.

Entretanto, estamos em meio a um profundo processo de secularização/modernização/racionalização, as religiões continuam a ter certa importância na vida das pessoas e a chamada desordem moral, pelo menos até agora, não ocorreu.

Não há uma relação entre modernização/secularização e desaparecimento das religiões. O fenômeno do fechamento de igrejas que está ocorrendo na Europa (leia mais aqui) não se repetiu nos Estados Unidos, por exemplo, onde sua pujança econômica não parece interferir na sua força religiosa, sendo inclusive um exportador de missionários protestantes para todo o globo. Na América Latina a modernidade não conseguiu destruir a força das religiões, apesar do aumento, no Brasil, do número de agnósticos e ateus (saiba mais aqui).

Em tempos modernos a moral e a religião abandonam o centro do mundo social e refugiam-se na segurança da vida privada. Ela continua tendo sua importância, mas como coadjuvante, não mais como ator principal.

Hans Joas, no artigo A Secularização Leva a Decadência Moral? (2015) discute a possibilidade, mais temida por religiosos e conservadores, de uma suposta crise moral que assolaria a humanidade criada pelo processo de secularização. Afirma que os valores da justiça e do bom senso podem surgir da religião, de processos seculares ou mesmo da união entre ambos, como pode ser constatado no movimento em prol dos Direitos Humanos, que congrega tanto ateus quanto fiéis. Conclui que os valores morais que regem a convivência entre indivíduos de uma mesma sociedade também podem originar-se de catástrofes sociais ou surgir de um movimento genuíno, de dentro da própria sociedade, para regular suas relações. Usando suas próprias palavras:

(…) parece ser decisivo que as próprias estruturas de cooperação humana ou conduzem os indivíduos a manutenção de compromissos de reciprocidade por razões de interesses próprio ou os sensibilizam para o valor da justiça. Este e outros valores moralmente relevantes podem inspirar compromisso através de experiências positivas — sua incorporação em modelos, por exemplo — ou de experiências negativas — como a vivência da injustiça, degradação e violência. (JOAS, p.243. 2015)

O fator religioso seria uma das origens possíveis.

Penso ser impossível ocorrer uma desordem moral num mundo secularizado, pois a própria moral se tornou secular, isto é, ganhou autonomia em relação a religião. Assim muitas morais podem ser erigidas dentro de um mesmo arcabouço cultural da cultura moderna, que cultiva os valores, hoje universais, da liberdade, igualdade e fraternidade.

Sem embargo, cabem aos conservadores e religiosos respeitar a possibilidade de uma moral secular, hoje defendida por ateus, agnósticos e progressistas; como também é preciso que os segundos, ao menos, respeitem a possibilidade de fé dos primeiros.

Quem sabe assim o mundo ficaria menos intolerante e, quem sabe, mais agradável de se viver.

Retornando a pergunta que é o título do artigo: A modernização leva a desordem moral? Eu respondo que não.

As Três Mudanças Socioculturais do Nosso Tempo

globalizacao-decoracao-interiorA partir do fim do século XX, uma série de mudanças na maneira como percebemos o mundo criaram novos desafios para a politica convencional e para as instituições liberais. Tais metamorfoses estão se radicalizando no século XXI tornando claro que a democracia formal/representativa e o estado nacional são incapazes de lidar com elas sem uma profunda reforma.

Segundo Elisa Reis, no texto A Sociologia Política e os Processos Macro-Históricos, elas estão ocorrendo na esfera da relação do homem com o meio ambiente, outra é referente à solidariedade aos estados nacionais e, por fim, as que tangem aos valores da igualdade, desigualdade e diferença.

Em períodos pré-modernos a humanidade tinha uma visão de que a natureza era algo a ser temido. O advento da era pós-tradicional mudou essa concepção para a ideia que o mundo natural deveria ser dominado. A grande devastação ambiental causada pela ação humana e os traumas decorrentes disso mudaram essa visão. A partir da década de noventa e com o fim da guerra fria, a pauta da catástrofe ambiental substituiu a da destruição nuclear. Agora tem-se consciência de quão necessário é preservar a natureza sob o risco de colocar a espécie humana e toda vida na terra em risco.

Temos também a mudança na esfera da conformação dos estados nacionais; se, com o seu surgimento, a noção dominante era uma solidariedade diluída no pertencimento a uma comunidade nacional e no mercado com o compartilhamento de interesses entre quem vende e quem compra, nas últimas décadas do século XX vimos surgir um terceiro tipo de solidariedade vindos diretamente da sociedade civil organizada em prol dos mais variados interesses; como exemplo temos movimentos sociais ativos no processo de redemocratização da América Latina que exigiam reparos e antídotos contra o estado autoritário e contra as consequências da modernização conservadora.

O terceiro tipo de mudança diz respeito aos valores de igualdade, desigualdade e diferença. Os estados nacionais erigiram seu amálgama ideológico tendo a autoridade, lealdade e igualdade como eixo principal. A consequência foi que o diferente foi classificado como desigual, incapaz fazer parte da comunidade nacional e gozar de cidadania. Assim, identidades milenares e seculares acabaram sendo ofuscadas pelo estado nacional, resultando em genocídio étnico e segregação. Hoje, o reconhecimento da diferença é um argumento legítimo e como condição essencial para reivindicar a igualdade e a cidadania. Em vez de reprimir a igualdade, o reconhecimento da diferença e seu direito a cidadania tem se tornado importante para sustentá-la.

Tais mudanças, que estão cada vez mais fortes conforme avançamos no século XXI, tem chacoalhado as formas institucionalizadas de fazer politica. Se a democracia liberal e seu modelo de estado não são suficientes para lidar com estas novas demandas, a solução está na implantação de formas participativas e deliberativas de politica, aumentando os fóruns de consulta e discussão de politicas públicas. Precisamos, como defendia Floresta Fernandes, efetuar o planejamento democrático, aproximando os de baixo da politica e, assim, democratizar a democracia.

Ao contrário do dizem os conservadores, estas mudanças não é resultado de uma crise moral do homem, mas de mudanças criadas pelo próprio tempo histórico e pelas consequências inesperadas de milhares de agentes e centenas de instituições que, interagindo entre si, criam mudanças inesperadas no tecido social.

Em outras palavras, a modernidade, com sua imperfeição e seu ímpeto progressista, qual trem desgovernado que não podemos segurar, é o criador desta e de outras grandes metamorfoses sociocuturais que ainda estão por vir.

Elas vieram para ficar, para o bem ou para mal.

Os Zumbis do Mundo Real

serie-de-zumbi-na-globoEra um final de tarde abafado e quente, típico da primavera. Eu voltava andando pelas ruas quase desertas, enquanto ouvia All I Was do Tremonti, quando vi uma estranha figura vindo em minha direção. Era um sujeito de pele morena marcada pelo sol, cabelo todo emaranhado, roupas velhas, rasgadas e sujas de terra. Ele andava todo desengonçado, como se tivesse algum problema nos nervos, tinha a cabeça baixa enquanto soltava uns grunhidos estranhos; consta que exalava um cheiro horrível, como uma mistura de sujeira com álcool.

O sujeito mais parecia um zumbi vindo do seriado The Walking Dead.

Passou por mim sem notar minha presença. Virei-me para acompanhar aquele zumbi subir a Avenida Brasil e dobrar a esquina e perder-se em sua iniquidade.

Fiquei com aquela imagem na cabeça por algum tempo: o sujeito que o vício tinha transformado em zumbi. Talvez seja isso que acontece quando este demônio se apodera de nosso corpo. Temos nossa individualidade, nossos desejos, nossos valores e nossos medos arrancados e, em seu lugar, é colocado apenas uma coisa, a vontade torturante e inexorável de satisfazer-se com o nosso objeto de desejo, seja o álcool, o cigarro, as drogas, a religião ou a pessoa que desejamos.

Um ponto a se pensar sobre o vício é que ele é um comportamento que surgiu com a modernidade. Em sociedades pré-modernas, apesar de existir o consumo de ervas e substâncias que alteram a consciência, seu uso era fortemente controlado por normas sociais que não deixavam o indivíduo a deriva. Ele sentia que era parte de algo maior, que estava integrado num todo que o deixava seguro e integrado.

Agora, com o advento da ordem social moderna, a relação entre sociedade e indivíduo muda. Ele não está mais integrado por fortes laços numa ordem social estável. O indivíduo passa a ficar a deriva, sua biografia, seus valores e sua trajetória agora dependem de seu próprio esforço. Cabe a ele criar o seu próprio céu ou seu próprio inferno.

Sem embargo, o vício é uma tentativa de indivíduos desgarrados e desesperados para se conectar com algo maior, para encontrar o sentido onde não há sentido, para achar o acolhimento e segurança onde só há desordem, dor e decadência.

Aquele zumbificado que encontrei naquele sábado tinha encontrado o seu ponto de apoio numa sociedade injusta. Mas o preço ia sair muito caro para ele.

Nós temos o direito de julgá-lo?

Bem-vindos a Novíssima Velha República

06_debate-300x214A crise econômica e politica que tomou conta do país significou a quebra de um bloco histórico que se ergueu desde 2003 com a ascensão do Partido dos Trabalhadores a presidência. Agora o que temos diante de nós é a emergência de um novo período histórico, mas que carrega traços de períodos históricos anteriores.

Os últimos treze anos da república brasileira foram baseados no chamado neodesenvolvimentismo, com uma presença mais protagonista do estado na economia através do financiamento dos chamados campeões nacionais e numa relação obscura entre líderes governamentais e grandes empreiteiras, cujas relações com o estado remontam a década 1950 (saiba mais aqui); maior destaque para politicas de assistência social (veja mais aqui); atenção especial para o agronegócio por meio da defesa da exportação de commodities; ênfase em grandes obras de infraestrutura e a reatualização da ideologia do Grande Brasil; tentativa de criar um polo alternativo de poder, claramente terceiro mundista, na politica externa através da valorização dos BRICS; cooptação de líderes de movimentos sociais para a máquina do estado com o objetivo de arrefecer as mobilizações por direitos sociais objetivando criar a paz social necessária para investimentos externos; e, por último, e não menos importante, a Politica da Grande Conciliação, onde o governo federal, apoiando-se no grande desenvolvimento capitalista, conseguia, por assim dizer, equilibrar relativamente os antagonismos, num país de cinquenta milhões de miseráveis, ao conseguir incorporar parte deles na esfera do consumo à revelia de questões como a reforma agrária e a questão das populações tradicionais.

Mas vivemos na época do capitalismo mundial e qualquer equilíbrio ou conciliação tende a ser transitório. As contradições da nossa democracia liberal, sempre assediada pelo poder econômico e cada vez mais distantes do cidadão comum, refém das elites locais e do Grande Capital, alcançaram níveis que esgotaram, para o bem e para o mal, o subsistema político; a política de exportação de commodities, por sua vez, apresentou seu esgotamento, deixando as taxas de exportações claramente comprometidas; os altos índices de corrupção que eram trazidos a tona, numa época em que os valores da ética e da transparência se tornam quase um senso comum na subjetividade coletiva brasileira, terminaram por cavar o túmulo da Nova República.

Em outras palavras, os processos de desencaixe criados pela Modernidade Mundo fraturaram as estruturas de uma sociedade anômica, levando-a a um impasse entre dois caminhos: a conciliação pelo alto ou reformas de base vindas de baixo para cima.

Seguindo a tradição conciliatória entre grupos majoritários e nossa vocação para nos apegarmos a modelos tradicionais e superados, acabamos optando pela primeira opção.

Apesar de estarmos no início de um novo velho período, é possível traçar algumas linhas, ainda que de caráter impressionista, das suas principais características, conforme já disse o cientista político Christian Edward Cyril Lynch. Entre as principais está o esfacelamento da velha esquerda, que passará a adotar uma postura defensiva por anos ao perder continuamente a luta pelo domínio da narrativa dos caminhos do Brasil. Hegemonia politica da centro-direita, repartida principalmente entre os chamados liberais conservadores (saiba mais aqui). Declínio do nacional desenvolvimentismo; o Estado Nacional tenderá a passar sua tarefa de árbitro social para o Mercado. Também espera-se o esvaziamento de pautas relacionadas aos direitos humanos e às minorias, com o desvio de recursos antes direcionados para a assistência e desenvolvimento social para politicas de segurança de caráter claramente repressivo; o objetivo disso é combater manifestações populares contra medidas de economia politica do Novo Velho Governo e conceder a paz social necessária à reprodução dos investimentos externos, que terão menos regulação. Emergência de um parlamentarismo disfarçado, algo que já acontecia desde a vitória de Eduardo Cunha para presidência da Câmara em 2014, com uma maior força do parlamento sobre o executivo, significando que cada medida urgida pelo pseudo-presidente Michel Temer acarretará em cada vez mais cargos e emendas negociadas com a base parlamentar. Mais força do que Lynch chama de Mandarinato Jurídico, que exercerá um poder cada vez mais moderador e regulador da politica e das relações entre as esferas de poder, redundando numa judicialização dos conflitos políticos. Poderemos ver os golpes finais sobre o legado trabalhista de Getúlio Vargas com a aprovação de leis que deixarão os trabalhadores cada vez mais à deriva no mundo do trabalho; recebendo cada vez menos e tendo que produzir sempre mais, teremos uma maior incidência de doenças relacionadas aos locais de trabalho e queda do padrão de vida médio dos trabalhadores. Um fenômeno que já era comum, de pessoas tendo dois empregos e precisando trabalhar pelo menos doze horas por dia, tenderá a ficar cada vez mais corriqueiro.

Obviamente que, em se tratando de ciência politica, sociologia e processos macro-históricos, principalmente os que acabei de descrever, os caminhos nunca são lineares e os fenômenos e fatos sociais nunca mudam de maneira mecânica. Cada ator social neste feixe de forças (trabalhadores não qualificados ou semi-qualificados, classe média, elites judiciárias, politicas e econômicas, movimentos sociais progressistas e regressistas entre outros, impossível para os propósitos deste texto listar todos) tende a reagir aos movimentos de cada um e criar consequências, alianças e lutas muitas vezes imprevistas. Mesmo assim, é possível divisar um bloco liberal e conservador cujo caminho para aprovação das suas medidas num congresso de perfil homogêneo e avesso a mudanças terá pouca resistência.

Aos grupos progressistas, nos quais estou incluído, resta resistir nas ruas (e fazer o que for possível na esfera da politica formal e minimalista), mesmo sabendo que isso acarretará em mais repressão, prisões e mortes.

Mas penso que, em vez de ficarmos numa cantilena ingênua de Fora Todos ou qualquer outro slogan secundário e colateral, deveríamos iniciar a estratégia de contra-hegemonia sendo propositivos, mostrando ao trabalhador porque o projeto de esquerda na verdade nunca se esgotou, pois o que defendemos é a radicalização da democracia, da igualdade, da liberdade e da solidariedade.

O Inverno finalmente chegou e cabe a nós decidir se nos renderemos ou lutaremos contra os Vagantes Brancos que, na verdade, sempre estiveram ai desde a invasão europeia na América.

Bem-vindos à Novíssima Velha República. E que os Orixás nos protejam.

Macbeth e a Origem do Mal

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Será que o vasto oceano de Netuno/Pode lavar o sangue destas mãos?/ Não; Nunca! Antes estas mãos conseguiriam/ Avermelhar a imensidão do mar/ Tornando rubro o verde.

De todas as peças que já li de Shakespeare, a minha favorita ainda é aquela que me fez entrar em contato com o universo shakespeariano, Macbeth, escrita entre os anos de 1603 e 1607.

É a peça mais curta do dramaturgo inglês e também a mais soturna, onde se tratam de temas como ambição, assassinatos, regicídios e as consequências dele no interior dos homens.

Encenada na corte do Rei Jaime I, da dinastia Stuart, começa com Macbeth vencendo a batalha contra o traidor Macdonwald. Em seguida recebe a visita de três bruxas, as Weird Sisters, e declaram que Macbeth será Thane de Cawdor, o título do traidor vencido, e posteriormente Rei. Tais profecias começam a mexer com o nosso protagonista quando ele recebe do rei o título de Thane. Então vemos uma luta interior do personagem entre a ambição de alcançar a coroa e o respeito por um rei piedoso, Duncan, a quem devia total lealdade.

A tentação do sobrenatural/Não pode ser nem má nem boa;/Se má, por que indica o meu sucesso,/De inicio, com a verdade? Já sou Cawdor;/Se Boa, por que cedo a sugestão /Cuja horrível imagem me arrepia?/E Bate o coração contra as estrelas,/Negando a natureza? Estes meus medos /São medos que o terror que eu imagino;/Meu pensamento, cujo assassinato /Inda é fantástico, tal modo abala/A minha própria condição de homem,/Que a razão se sufoca em fantasia,/E nada existe, exceto o inexistente.

Sucumbido pela ambição, o protagonista comete aquele que era considerado na época de Shakespeare o mais cruel dos crimes, o regicídio.

O caos realizou sua Obra-Prima!/O assassino sacrílego arrombou/O templo do Ungido do Senhor,/Roubando sua Vida!

Morto Duncan, Macbeth se torna Rei. Tomado pelos delírios de mais e mais poder, passa a assassinar qualquer um que possa representar uma ameaça a sua dinastia, não polpando nem mesmo crianças ou mulheres inocentes.

Na tragédia vemos o dramaturgo inglês explorando com maestria um assunto que o estava interessando naquele momento: o surgimento do Mal, como ele se manifesta e qual as consequências dele para a alma humana e para a constituição do Estado. O clima é sombrio do início ao fim e vemos constantemente mortes, sangue, blasfêmias e uma visão trágica e pessimista da vida.

A vida é só uma sombra: um mau ator /Que grita e se debate no palco,/Depois é esquecido; é uma história /Que conta o idiota, toda som e fúria,/Sem querer dizer nada.

Assistimos como um bom cidadão e um general leal ao seu Rei pode sucumbir à ambição e com isto enredar todo um mundo com ele, quebrando a ordem natural das coisas. Em outras palavas, vemos, lemos e sentimos o drama de um homem que subverte tudo e todos, gerando um enorme derramamento de sangue para poder suprir seu objetivo maior: o poder absoluto. É um círculo vicioso; para alcançar a soberania, Macbeth precisa matar, e para mantê-lo, ele também precisa executar sempre mais e mais suspeitos de traição. Isso gera uma rejeição cada vez maior entre os seus súditos, que gera mais suspeitas…

Exercer o poder se torna impossível, é uma tarefa inglória. Isso não é gratuito, pois para Shakespeare o mal surge quando a ordem do mundo é subvertida, no caso o poder legítimo do Rei Duncan, e a única forma de derrotá-lo seria fazendo com que todos voltassem a ocupar seus lugares legítimos no mundo social. Tal formulação é cara para um autor que viveu quando a Inglaterra vivia o auge do Absolutismo, mas os resquícios da era feudal ainda se faziam sentir. O debate sobre o lugar de cada um na sociedade e a questão da legitimidade das dinastias e das monarquias eram temas relevantes numa nação em que poucas décadas depois sofreria com uma Guerra Civil (1642-1649), com um rei decapitado, Carlos I, e o surgimento de dois dos mais influentes pensadores políticos da era moderna, Thomas Hobbes (1588-1679), defensor da soberania absoluta dos reis, e John Locke (1634-1704), um dos principais teóricos do liberalismo.

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Michael Fassbender como Macbeth, em filme de 2015 dirigido por Justin Kurzel

Clássico indiscutível na literatura universal, Macbeth mostra os delírios de um homem incapaz de perceber as próprias limitações. Mostra-nos também um tema que seria debatido pela filosofia e pela sociologia. As consequências de nossas ações e nossas escolhas. Somos responsáveis por elas, muito embora, dependendo do caminho tomado, podemos levar todos a nossa volta para a ruína, podemos fazer o mundo ficar à revelia…

Muitas vezes, para levar-nos o mal,/As armas do negror dizem verdades;/Ganha-nos com Tolices, para trair-nos/Em questões mais profundas.

Na tragédia de Macbeth o Mal domina, os dias são cinzentos e as noites tenebrosas; a vida vale menos que nada; espíritos malignos sussurram profecias para confundir nossas mentes; é como um pesadelo, uma visão sombria da humanidade, a saga escura e sem propósito da condição humana.

Depois de ler Macbeth somos mudados para sempre: a vida é uma sombra que passa…