Ecos de Maquiavel em Game of Thrones

thumb_game-of-thrones-003-flvNos últimos anos temos sido brindados por uma grande quantidade de séries que abordam de maneira eficaz as relações de poder. Exemplos não faltam: Roma, The Tudors. The Borgias ou House Of Cards… Mas entre estes belos trabalhos, um tem se destacado. Me refiro a Game of Thrones, produzido pela HBO e baseado na ambiciosa obra homônima do escritor americano George R. R. Martin.

Nela vemos a história do grande Reino de Westeros, um mundo que, como já disse o próprio autor, é diferente e ao mesmo tempo parecido com o nosso. Seu Rei é Robert da Casa Baratheon, cuja morte acaba resultando num impasse, pois descobre-se que seu filho herdeiro, Joffrey, é, na verdade, um bastardo fruto de um relacionamento incestuoso entre a rainha e o próprio irmão. Isso gera uma verdadeira guerra civil entre os pretendentes ao trono, como os irmãos mais velhos do falecido Rei: Reinly e Stannis Baratheon; os partidários do recém- coroado, aliados da Casa Lannister, da qual pertence a rainha; a senhora da antiga dinastia deposta por Robert, Daenerys Targaryen; e mesmo os senhores de outras casas que pensam em separar-se para formar um reino independente, como é o caso dos Starks de Winterfel ou dos Greyjoys das Ilhas de Ferro. Além disso, há o surgimento de uma ameaça terrível que vem do extremo norte, capaz de destruir todo o mundo conhecido.

O seriado, e por conseguinte, a própria obra literária, tem sido aclamada por público e critica, atingido grandes índices de audiência e de vendas de livros. Muitos tem apontado inúmeras qualidades na história, como a complexidade do enredo, os personagens convincentes e os detalhes que fazem com que As Crônicas de Gelo e Fogo sejam extremamente cativantes, tornando-a um verdadeiro fenômeno na cultura pop.

Mas, particularmente, uma das coisas que mais tem chamado minha atenção, tanto no seriado quanto nos livros, é o realismo politico que norteia a obra. A luta incessante pelo poder ou pela sobrevivência entre os mais variados grupos políticos ou personagens, onde questão ética é muitas vezes esquecida. Portanto, os meios cruéis são os mais empregados para se conseguir o objetivo desejado: como matar crianças, chacinar camponeses, trair aliados, executar mulheres grávidas ou vender o apoio a uma causa por alguns punhados de ouro. Muitas vezes, aqueles que se prendem a valores como honra e honestidade, logo perdem o poder, sendo mortos e aniquilados; enquanto os espertos, os traiçoeiros, os dissimulados, os mesquinhos e os cruéis, não tendo sobre si o peso da moral e da ética, o que limitaria seu escopo de ação, estariam, assim, muito mais livres e com muito mais opções e estratagemas para usar na arena da disputa política…

Isso me fez lembrar o quanto o pensamento de Nicolau Maquiavel parece permear, mesmo que indiretamente, a trama da história. Num artigo que escrevi anteriormente (leia aqui), mostrei como a questão da ordem e a relação entre ação e oportunidade, Virtú e Fortuna, respectivamente, eram os dos temas mais essenciais em O Príncipe. O autor viveu numa época em que sua terra, a Itália, estava dividida a assolada por guerras intestinas. Para ele, a única forma de resolver este problema era um líder politico, pragmático e inteligente, capaz de saber ler a conjuntura de seu tempo e agir no momento e no grau certo, unificando o país, pondo fim ao caos e expulsando as forças estrangeiras.

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Nicolau Maquiavel (1469-1527): o poder serve para manter a paz e a ordem.

No decorrer dos séculos, Maquiavel foi associado ao oportunismo político e a ideia de que qualquer meio era justificável desde que o poder fosse conquistado. Nada mais falso a respeito do pensador de Florença. O valor supremo para ele era a paz e a ordem. O poder só deveria ser assumido e os meios para tê-lo só se justificariam se a intenção fosse manter a paz. Em determinado trecho de O Príncipe, pergunta: O que é melhor, o príncipe ser sempre bom com os seus súditos e deixar que eles entrem em guerras internas e causar a devastação do reino, ou ser energético, sendo muitas vezes violento, mas assegurar a paz e prosperidade? Obviamente, o autor optou pela segunda alternativa. O poder só valia a pena de ser conquistado e mantido a qualquer custo se ele estivesse sendo guiado pela manutenção da paz e da prosperidade. Entre ser temido e ser amado, o ideal é que seja os dois; mas na impossibilidade disso, o líder deve escolher ser temido, pois os homens comumente não sentem medo do amor e são venais e traiçoeiros, contudo, eles jamais traem aqueles a quem temem — pois pactos sem a espada não passam de palavras…

Em Game of Thrones, vemos uma situação semelhante à Itália dos tempos de Nicolau,  entre os séculos XV e XVI, muito embora a inspiração de Martin tenha sido a Inglaterra nos tempos da Guerra das Duas Rosas: um país dividido, assolado pela guerra civil e sujeito a invasões estrangeiras. Se o nosso autor estivesse vivo hoje e se deparasse com a obra, ele apenas diria que o verdadeiro merecedor do Trono de Ferro seria aquele que, conquistando o poder, tivesse habilidade suficiente para manter a ordem e, assim, criar uma era de prosperidade para beneficiar o povo. Ele não se deteria sobre questões de sucessão, pois os governos e as dinastias passam, ou de charme e bondade pessoal, isso é insuficiente para governar. Sem embargo, ele se deteria numa análise objetiva. Qual pretenso Rei conhece de fato Westeros (suas alianças politicas, as forças e fraquezas das grandes casas e o caráter de seu povo) e sabe manejar o poder para a sua finalidade suprema: a manutenção da paz?

Se olharmos para os três reis que restaram, vemos que a prova de fogo nesse quesito se aproxima para ambos. A Senhora da Casa Targaryen, uma líder de perfil reformadora e carismática (uma mãe dos pobres?) luta para impor leis e costumes estranhos as cidades que conquistou. Já o Mestre da Casa Baratheon, general experiente e implacável, rígido de vontade e com grande senso de dever (conquistar o Trono de Ferro para impor a ordem é seu objetivo fundamental) se vê diante de um duplo impasse: conquistar o norte para a sua causa e repelir a ameaça vinda para além da muralha. Já o jovem Rei da Dinastia Lannister e Baratheon (sic), sofre com a falta de experiencia, com a perda com dois de seus mais competentes conselheiros e com a instabilidade dos aliados.

Não há dúvida de que Game of Thrones é uma grande peça de entretenimento. Vibramos com a trama, nos identificamos com seus personagens, torcemos por eles e nos revoltamos quando morrem. Mas, se lermos a obra para além de uma novela de fantasia, e a enfocarmos a partir da questão da competição pelo poder, teremos ai um bom ponto de partida para discutir o sentido e os usos da política.

House of Cards: os limites da democracia liberal

Chouse-of-cardsonsiderado como um dos seriados mais aclamados e polêmicos da atualidade, House Of Cards, produzido pela Netflix, demonstra de maneira realista os bastidores, a competição e a luta pelo poder dentro do país mais poderoso do mundo, os Estados Unidos da América.

Nela vemos a história de um congressista democrata, Frank UnderWood, que, depois de ter trabalhado duro pela vitória do candidato a presidência de seu partido, Garret Walker, se vê traído ao perceber que o vencedor não cumprira a promessa de nomeá-lo como Chefe de Estado. Isso detona toda a trama da história. Agora, o deputado, para vingar-se, tentar subir na esfera de poder pelos seus próprios meios, nem que isso signifique trair aliados, espalhar notícias falsas pela imprensa para derrubar adversários, dar maus conselhos ao presidente para prejudicá-lo ou até mesmo matar pessoas capazes de representar algum problema para seus planos.

A maneira como é mostrado a ascensão de Underwood, um verdadeiro Ricardo III moderno, ao mover-se gradativamente de satélite para o centro irradiador do poder, é extremamente convincente, retratando as negociatas, as traições, o jogo duplo de todos os atores políticos e econômicos num pragmatismo seco e chocante. Tudo isso temperado pelas reflexões ácidas do protagonista, como por exemplo, quando ele, ao conquistar finalmente a presidência, graças as suas artimanhas que resultaram no processo de impeachment do presidente Walker, diz: Eu me tornei presidente dos Estados Unidos sem ter ganhado um único voto…

Contudo, a saga, baseada na novela de mesmo nome de Michael Dobbs, se torna interessante não apenas pelo que ela mostra, mas também pelo que ela não mostra. Nela vemos deputados, senadores, prostitutas, lobistas, jornalistas carreiristas e assessores em uma competição constante, numa luta de todos contra todos, de grupos sustentados por poderes econômicos, onde alianças podem se desfazer conforme as circunstâncias ou conforme as intenções dissimuladas dos competidores. Mas, nessa luta incessante pelo poder, onde fica o zelo pelo bem público, os projetos de lei para aperfeiçoar a sociedade, os homens comprometidos com a coletividade? Mais ainda, onde estão os movimentos populares para pressionar pela reforma social? Esses, quando aparecem na série, apenas surgem de maneira colateral, não como coadjuvantes, mas como figurantes de um cenário. Surgem discretamente, feito instrumentos das negociatas politicas e logo somem, como nos episódios em que Underwood usou um projeto de reforma educacional para ganhar visibilidade no congresso, ou quando o sindicato dos professores são usados como instrumentos para mostrar a força do protagonista. Vemos que, em House of Cards, a Politicalha, para usar as palavras de Ruy Barbosa, ganha relevo sobre a Política. O zelo pelo bem público é atropelado pelo poderio econômico, pelo carreirismo de políticos que são verdadeiros sociopatas e por assessores mais interessados em manter o emprego e ajudar seus empregadores a aniquilar rivais, nem que isso custe destruir reputações lançando notícias falsas com ajuda de jornalistas venais.

Num mundo como esse os bem-intencionados terminam manipulados ou são cuspidos do jogo de poder.

Qualquer semelhança com a história politica do Brasil, desde a colônia, até os tempos atuais, não é mera coincidência…

Mas porque esse fenômeno acontece? Seria um processo que ocorre apenas por uma questão individual, pela desonestidade de nossos líderes ou seria uma consequência inesperada criada pela nossa própria sociedade, baseada no modelo liberal representativo?

Para responder essa pergunta precisamos reportar ao sociólogo alemão Max Weber (1864-1920), que se interessou em estudar o processo formação do estado moderno na Alemanha, a burocratização e a racionalização de todas as esferas da vida que, para ele, eram tônica da sociedade moderna. Apesar de liberal, Weber via com olhos céticos o processo de expansão do que ele chamava de capitalismo racional com relação a fins. O pensador também observou com muita atenção a consolidação das democracias liberais em todo o mundo, especialmente em seu país. Para ele, a partir do momento que a democracia liberal se firma como modo de governar dominante, ou se rotiniza, elas passam não mais a exercer as suas funções originais, no caso lutar pelo aperfeiçoamento da sociedade e pelo bem da população, mas trabalhar em prol de sua própria manutenção. Sem embargo, a nossa democracia e seus líderes, ao invés de estarem sintonizados com as demandas gerais da sociedade que os sustenta, se voltam para os seus próprios interesses. Não a toa, o sociólogo dizia que esse processo criava uma grade de ferro que pesava sobre os indivíduos e só teria fim quando a ultima tonelada de carvão fóssil fosse queimada.

Essa é a razão pelo qual vemos nossos congressistas, não apenas brasileiros, mas em vários outros países, conseguem aprovar com tanta facilidade emendas que aumentam seus salários, expandem suas verbas de gabinete, amplificam o número de assessores ou aprovam leis que beneficiam grandes blocos econômicos que patrocinaram suas campanhas; ao mesmo tempo, projetos de maior urgência para a população em geral são esquecidos.

São os mecanismos institucionais que se rotinizam e passam a trabalhar em prol de si mesmos, deixando de lado o real motivo pelo qual foram criados.

Isso prova que, ao contrário do que é alardeado pela mídia, o chamado Estado de Direito e a Democracia Representativa, longe de serem considerados a melhor forma existente ou a única possível, se trata de uma forma de governo extremamente limitada e distorcida, sujeita a desviar-se muito facilmente de sua função original.

Weber
O Sociólogo alemão Max Weber.

Embora House of Cards acerte em mostrar como funciona os mecanismos do poder, retratando o Congresso como uma casa de arrivistas, não chega, pelo menos ainda, a mostrar uma solução para uma reformar politica. Todos os inimigos de Underwood foram completamente destruídos. Também pudera, esse é um dos paradoxos da industria supostamente autônoma do entretenimento. Embora saiba dos defeitos da ordem social, uma saída nunca é esboçada, pois a própria Netflix se beneficia dela financiando vários lobistas na Casa Branca para fazer com que os interesses da empresa nunca sejam esquecidos… Apesar de toda torpeza que vemos nos personagens que lutam desesperadamente pelo poder corruptor e corrompido, este se apresenta como a única saída possível: ruim com ele, pior sem ele.

Cabe a sociedade, como o verdadeiro patrão do Estado e do Congresso, pressionar cada vez mais para que os procedimentos e as formas de financiamento de campanha sejam cada vez mais transparentes, sujeitando-se a uma gestão democrática e condizentes com as demandas da maior parte da sociedade: os trabalhadores.

House of Cards, ou melhor, os limites da democracia liberal.