Soda Billy: música com M maiúsculo

cd-soda-billybluesrock-novo-e-elacradofrete-no-incluso-16103-MLB20115630417_062014-OO mercado da música está perpassado por uma miríade de produções musicais de gosto duvidoso, cujo senso artístico parece ter sido jogado fora em favor do cultivo uma pseudo-musicalidade que apenas diverte uma audiência bovina, incapaz de degustar uma arte revolucionária e sincera.

Basta sintonizarmos qualquer rádio para percebermos que o mainstrean não é capaz de oferecer canções de qualidade. O ouvinte que quiser ouvir musica com M maiúsculo terá de migrar para uma seara mais alternativa, onde pululam milhares de bandas de qualidade que foram recusadas pelo status quo. Mainstrean tornou-se sinônimo de mediocridade sonora. Pertencer a cena alternativa, hoje em dia, significa possuir coragem de não se dobrar a vontade de um público carente de sensibilidade musical e lutar, em grande desvantagem, pela sobrevivência da boa música.

Em Manaus nossa cena musical está prenhe destes exemplos. Enquanto certos grupos musicalmente terríveis, com canções embaladas por letras de inspiração fecal, gozam de um publico grandioso e sobram lugares para apresentação de suas dissonâncias, várias outras bandas, por sua tentativa em tentar realizar algo acima da burrice média, sofrem com ausência de lugares para shows, abandono por parte das políticas públicas e até mesmo da censura das entidades de representam a categoria.

Entre os artistas que se propõe a tarefa heróica de lutar pela boa música em Manaus, a banda Soda Billy está entre os mais destacados. O prova de sua qualidade está em seu primeiro debut, que é nada mais nada menos que quarenta e quatro minutos de boas canções que passeiam entre o jazz, o blues, o rock´roll e a surf music. A cozinha está bem temperada pelas linhas de bateria de Ygor Saumier e pelo baixo de Ricardo Peixoto; os metais estão bem afinados ao comando de Nelverton Rodrigues, Daniel Jander e Marcelo Martins; os vocais femininos estão bem dosados pela bela Kamila Guedes e as guitarras fazem a sua parte sob a tutela do líder e principal compositor Matheus Gondim.

O disco começa com a rapidíssima Go to The Boogie, um bem executado rockabilly. Depois temos a interessante Vou pegar Aline — aqui temos uma boa demonstração de como é possível ser bem humorado e fazer letras de duplo sentido e sem cair para apelação. Em seguida somos jogados numa atmosfera calma de Long Long Road — não sou muita fã de surf music, mas confesso que esta musica muito me agradou. By Baby é um belo jazz/blues com os cativantes vocais de Kamila Guedes. A Ponte é uma das melhores do disco, uma boa letra embalada por acordes nervosos de Matheus Godim e as linhas precisas da gaita de Mario Valle — embora no encarte os músicos digam que esta canção é uma homenagem ao blues de raiz, a primeira coisa que me veio a cabeça ao ouvi-la foi a sonoridade rústica do grande Lynard Skynard. O Escaravelho do Amor é um interessante e bem executado blues — essa é uma das musicas que ficariam muito bem numa versão Hard Rock.

A esta altura o disco já entra na faixa número nove com uma música instrumental de nome curioso: Surfando no Igarapé do 40, seguida pela jazzística Dizzy´s surf. O disco finaliza com o belo Bistrô Blues, uma cativante canção bem na linha jazz. 

Apesar de ter demorado alguns anos para o lançamento de seu primeiro debut, o Soda Billy já desponta com uma das melhores bandas do norte, quiçá do Brasil, no ramo do Jazz, Blues e Rockabilly. Se você é um amante da boa música, está farto de todas essas excrescências que tocam nas rádios e procura algo realmente diferente, o disco destes manauaras é uma ótima opção.    

Como me tornei um fã destes rapazes logo quando escutei a primeira música do disco, espero que o próximo trabalho não demore tanto, e que possam explorar mais sua influencia Jazz e os vocais femininos.  

We are Motörhead: minha homenagem a Lemmy

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O disco We are Motorhead, de 2001

A morte do grande Lemmy Kilmister no fim de 2015 fez com que a cena do heavy metal terminasse o ano de luto. Considerado como uma das maiores figuras do rock e do metal mundial, baixista respeitado, compositor de mão cheia e dono de uma voz marcante, o ex-líder do Motorhead conseguia criar canções que hoje são referência no mundo da música.

Como grande fã da banda, resolvi fazer minha homenagem ao grande músico falecido com uma resenha sobre o primeiro, e ainda meu favorito, disco que escutei deles: We are Motorhead.

Adquiri esse disco logo quando foi lançado, no ano de 2001, quando eu tinha meus dezessete anos. Lembro-me que o comprei junto com outros dois discos: The Gathering, do Testament e Brave New World, do Iron Maiden. Logo que coloquei o disco para tocar foi amor a primeira vista; canções diretas, riff´s matadores e a voz cortante de Lemmy cantando sobre beber, arranjar confusão e fugir da cadeia mostravam porque o Motorhead era considerado um dos monstros sagrados do Metal mundial.

Sou suspeito para falar, mas não se pode destacar uma música deste disco, todas são de altíssima qualidade, seja a faixa de abertura See Me Burnning; a lenta e pesada Slow Dance; a rápida Stay Out the Jail; a cadenciada Wake The Dead ou mesmo a balada One More Fucking Time. São canções que tanto poderiam constar sem problemas nos shows da banda quanto o ouvinte poderia escutar várias vezes sem nunca enjoar.

O disco ainda traz um cover do Sex Pistols, God Save The Queen, que ficou

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Lemmy Kilmister (1945-2015)

muito bem na voz de Lemmy.

Sem dúvida, o trio Lemmy Kilmister, Mikkey Dee e Phil Campbell estão em sua melhor forma neste disco.

O petardo finaliza com chave de ouro com a pesadíssima We Are Motorhead, uma espécie de convocação/saudação de todos os fãs da banda para curtir um bom rock and roll.

We are Motörhead – born to kick your ass

Obrigado por tudo, Lemmy.

Noite na Taverna: uma pequena obra-prima

azevedoDeixai-me fumar o meu charuto!”

A.Azevedo

Lembro que quando estudei a literatura de Alvares de Azevedo (1831-1852) na escola, lemos apenas os seus poemas, não demos nenhuma nota sobre sua produção em prosa. O que foi uma pena, pois o nosso maior romântico foi um poeta extremamente medíocre. Sua Lira Dos Vinte Anos (1853) é um livro com uma quantidade enorme de poemas ruins de rimas muitas vezes preguiçosas, apenas um ou outro que se salva; o melhor deles, sem dúvida, é Meu Sonho, na melhor inspiração Byroniana.

O autor nasceu no século XIX, em São Paulo, filho da elite cafeeira paulista, ingressou na faculdade de direito e morreu de tuberculose aos vinte e poucos anos. Era um autêntico filho do século XIX. Romântico extremado, leitor ávido de Shakespeare e Byron, cantou sobre a morte, amores impossíveis e sobre o tédio da vida. Era um liberal. No seu discurso de formatura, defendeu os ventos que a revolução francesa soprara pela Europa. Influenciou quase todos os escritores de sua geração e das seguintes no Brasil, incluindo pesos pesados como Machado de Assis e José de Alencar.

Contudo, a grande genialidade de Azevedo, pelos menos para mim, está em seus contos, publicados em 1855 sob o nome de Noite na Taverna. O livro é uma coletânea de histórias trágicas e soturnas onde seus personagens, Solfieri, Bertram, Gennaro, Claudius Hemann e Johann, narram suas desventuras passadas sentados numa taverna qualquer e rodeados de prostitutas.

São personagens extremamente angustiados, pois não sentem qualquer propósito de viver. São todos cheios de vícios e levam uma vida vazia, regada basicamente a alcool, drogas e sexo. As histórias que compartilham são sempre de amores passados, cujo fim termina sempre em tragédia e morte. O tom do livro é extremamente pessimista, cinzento e cínico, mostrando que para estes personagens a vida é um sofrimento e a única forma de escapar dela é beber e transar até que o fim chegue.

Particularmente, gostei muito do capítulo de Solfieri (leia aqui), que abre o livro, e sua incrível cena de necrofilia.

O livro todo se passa na Europa, e não tem qualquer ligação com a biografia do seu autor. Apesar qualidade acima da média, Noite na Taverna foi como um fruto exótico da obra de um escritor que morreu aos vinte e poucos anos. Quem dera se ele tivesse vivido mais e se dedicado mais a história curta. Com certeza teria criado grandes obras.

Mas a Fortuna desejou que fosse diferente.

Recomendo Noite na Taverna para aqueles admiradores de histórias de fantasia, suspense e terror.

Ecos de Maquiavel em Game of Thrones

thumb_game-of-thrones-003-flvNos últimos anos temos sido brindados por uma grande quantidade de séries que abordam de maneira eficaz as relações de poder. Exemplos não faltam: Roma, The Tudors. The Borgias ou House Of Cards… Mas entre estes belos trabalhos, um tem se destacado. Me refiro a Game of Thrones, produzido pela HBO e baseado na ambiciosa obra homônima do escritor americano George R. R. Martin.

Nela vemos a história do grande Reino de Westeros, um mundo que, como já disse o próprio autor, é diferente e ao mesmo tempo parecido com o nosso. Seu Rei é Robert da Casa Baratheon, cuja morte acaba resultando num impasse, pois descobre-se que seu filho herdeiro, Joffrey, é, na verdade, um bastardo fruto de um relacionamento incestuoso entre a rainha e o próprio irmão. Isso gera uma verdadeira guerra civil entre os pretendentes ao trono, como os irmãos mais velhos do falecido Rei: Reinly e Stannis Baratheon; os partidários do recém- coroado, aliados da Casa Lannister, da qual pertence a rainha; a senhora da antiga dinastia deposta por Robert, Daenerys Targaryen; e mesmo os senhores de outras casas que pensam em separar-se para formar um reino independente, como é o caso dos Starks de Winterfel ou dos Greyjoys das Ilhas de Ferro. Além disso, há o surgimento de uma ameaça terrível que vem do extremo norte, capaz de destruir todo o mundo conhecido.

O seriado, e por conseguinte, a própria obra literária, tem sido aclamada por público e critica, atingido grandes índices de audiência e de vendas de livros. Muitos tem apontado inúmeras qualidades na história, como a complexidade do enredo, os personagens convincentes e os detalhes que fazem com que As Crônicas de Gelo e Fogo sejam extremamente cativantes, tornando-a um verdadeiro fenômeno na cultura pop.

Mas, particularmente, uma das coisas que mais tem chamado minha atenção, tanto no seriado quanto nos livros, é o realismo politico que norteia a obra. A luta incessante pelo poder ou pela sobrevivência entre os mais variados grupos políticos ou personagens, onde questão ética é muitas vezes esquecida. Portanto, os meios cruéis são os mais empregados para se conseguir o objetivo desejado: como matar crianças, chacinar camponeses, trair aliados, executar mulheres grávidas ou vender o apoio a uma causa por alguns punhados de ouro. Muitas vezes, aqueles que se prendem a valores como honra e honestidade, logo perdem o poder, sendo mortos e aniquilados; enquanto os espertos, os traiçoeiros, os dissimulados, os mesquinhos e os cruéis, não tendo sobre si o peso da moral e da ética, o que limitaria seu escopo de ação, estariam, assim, muito mais livres e com muito mais opções e estratagemas para usar na arena da disputa política…

Isso me fez lembrar o quanto o pensamento de Nicolau Maquiavel parece permear, mesmo que indiretamente, a trama da história. Num artigo que escrevi anteriormente (leia aqui), mostrei como a questão da ordem e a relação entre ação e oportunidade, Virtú e Fortuna, respectivamente, eram os dos temas mais essenciais em O Príncipe. O autor viveu numa época em que sua terra, a Itália, estava dividida a assolada por guerras intestinas. Para ele, a única forma de resolver este problema era um líder politico, pragmático e inteligente, capaz de saber ler a conjuntura de seu tempo e agir no momento e no grau certo, unificando o país, pondo fim ao caos e expulsando as forças estrangeiras.

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Nicolau Maquiavel (1469-1527): o poder serve para manter a paz e a ordem.

No decorrer dos séculos, Maquiavel foi associado ao oportunismo político e a ideia de que qualquer meio era justificável desde que o poder fosse conquistado. Nada mais falso a respeito do pensador de Florença. O valor supremo para ele era a paz e a ordem. O poder só deveria ser assumido e os meios para tê-lo só se justificariam se a intenção fosse manter a paz. Em determinado trecho de O Príncipe, pergunta: O que é melhor, o príncipe ser sempre bom com os seus súditos e deixar que eles entrem em guerras internas e causar a devastação do reino, ou ser energético, sendo muitas vezes violento, mas assegurar a paz e prosperidade? Obviamente, o autor optou pela segunda alternativa. O poder só valia a pena de ser conquistado e mantido a qualquer custo se ele estivesse sendo guiado pela manutenção da paz e da prosperidade. Entre ser temido e ser amado, o ideal é que seja os dois; mas na impossibilidade disso, o líder deve escolher ser temido, pois os homens comumente não sentem medo do amor e são venais e traiçoeiros, contudo, eles jamais traem aqueles a quem temem — pois pactos sem a espada não passam de palavras…

Em Game of Thrones, vemos uma situação semelhante à Itália dos tempos de Nicolau,  entre os séculos XV e XVI, muito embora a inspiração de Martin tenha sido a Inglaterra nos tempos da Guerra das Duas Rosas: um país dividido, assolado pela guerra civil e sujeito a invasões estrangeiras. Se o nosso autor estivesse vivo hoje e se deparasse com a obra, ele apenas diria que o verdadeiro merecedor do Trono de Ferro seria aquele que, conquistando o poder, tivesse habilidade suficiente para manter a ordem e, assim, criar uma era de prosperidade para beneficiar o povo. Ele não se deteria sobre questões de sucessão, pois os governos e as dinastias passam, ou de charme e bondade pessoal, isso é insuficiente para governar. Sem embargo, ele se deteria numa análise objetiva. Qual pretenso Rei conhece de fato Westeros (suas alianças politicas, as forças e fraquezas das grandes casas e o caráter de seu povo) e sabe manejar o poder para a sua finalidade suprema: a manutenção da paz?

Se olharmos para os três reis que restaram, vemos que a prova de fogo nesse quesito se aproxima para ambos. A Senhora da Casa Targaryen, uma líder de perfil reformadora e carismática (uma mãe dos pobres?) luta para impor leis e costumes estranhos as cidades que conquistou. Já o Mestre da Casa Baratheon, general experiente e implacável, rígido de vontade e com grande senso de dever (conquistar o Trono de Ferro para impor a ordem é seu objetivo fundamental) se vê diante de um duplo impasse: conquistar o norte para a sua causa e repelir a ameaça vinda para além da muralha. Já o jovem Rei da Dinastia Lannister e Baratheon (sic), sofre com a falta de experiencia, com a perda com dois de seus mais competentes conselheiros e com a instabilidade dos aliados.

Não há dúvida de que Game of Thrones é uma grande peça de entretenimento. Vibramos com a trama, nos identificamos com seus personagens, torcemos por eles e nos revoltamos quando morrem. Mas, se lermos a obra para além de uma novela de fantasia, e a enfocarmos a partir da questão da competição pelo poder, teremos ai um bom ponto de partida para discutir o sentido e os usos da política.

House of Cards: os limites da democracia liberal

Chouse-of-cardsonsiderado como um dos seriados mais aclamados e polêmicos da atualidade, House Of Cards, produzido pela Netflix, demonstra de maneira realista os bastidores, a competição e a luta pelo poder dentro do país mais poderoso do mundo, os Estados Unidos da América.

Nela vemos a história de um congressista democrata, Frank UnderWood, que, depois de ter trabalhado duro pela vitória do candidato a presidência de seu partido, Garret Walker, se vê traído ao perceber que o vencedor não cumprira a promessa de nomeá-lo como Chefe de Estado. Isso detona toda a trama da história. Agora, o deputado, para vingar-se, tentar subir na esfera de poder pelos seus próprios meios, nem que isso signifique trair aliados, espalhar notícias falsas pela imprensa para derrubar adversários, dar maus conselhos ao presidente para prejudicá-lo ou até mesmo matar pessoas capazes de representar algum problema para seus planos.

A maneira como é mostrado a ascensão de Underwood, um verdadeiro Ricardo III moderno, ao mover-se gradativamente de satélite para o centro irradiador do poder, é extremamente convincente, retratando as negociatas, as traições, o jogo duplo de todos os atores políticos e econômicos num pragmatismo seco e chocante. Tudo isso temperado pelas reflexões ácidas do protagonista, como por exemplo, quando ele, ao conquistar finalmente a presidência, graças as suas artimanhas que resultaram no processo de impeachment do presidente Walker, diz: Eu me tornei presidente dos Estados Unidos sem ter ganhado um único voto…

Contudo, a saga, baseada na novela de mesmo nome de Michael Dobbs, se torna interessante não apenas pelo que ela mostra, mas também pelo que ela não mostra. Nela vemos deputados, senadores, prostitutas, lobistas, jornalistas carreiristas e assessores em uma competição constante, numa luta de todos contra todos, de grupos sustentados por poderes econômicos, onde alianças podem se desfazer conforme as circunstâncias ou conforme as intenções dissimuladas dos competidores. Mas, nessa luta incessante pelo poder, onde fica o zelo pelo bem público, os projetos de lei para aperfeiçoar a sociedade, os homens comprometidos com a coletividade? Mais ainda, onde estão os movimentos populares para pressionar pela reforma social? Esses, quando aparecem na série, apenas surgem de maneira colateral, não como coadjuvantes, mas como figurantes de um cenário. Surgem discretamente, feito instrumentos das negociatas politicas e logo somem, como nos episódios em que Underwood usou um projeto de reforma educacional para ganhar visibilidade no congresso, ou quando o sindicato dos professores são usados como instrumentos para mostrar a força do protagonista. Vemos que, em House of Cards, a Politicalha, para usar as palavras de Ruy Barbosa, ganha relevo sobre a Política. O zelo pelo bem público é atropelado pelo poderio econômico, pelo carreirismo de políticos que são verdadeiros sociopatas e por assessores mais interessados em manter o emprego e ajudar seus empregadores a aniquilar rivais, nem que isso custe destruir reputações lançando notícias falsas com ajuda de jornalistas venais.

Num mundo como esse os bem-intencionados terminam manipulados ou são cuspidos do jogo de poder.

Qualquer semelhança com a história politica do Brasil, desde a colônia, até os tempos atuais, não é mera coincidência…

Mas porque esse fenômeno acontece? Seria um processo que ocorre apenas por uma questão individual, pela desonestidade de nossos líderes ou seria uma consequência inesperada criada pela nossa própria sociedade, baseada no modelo liberal representativo?

Para responder essa pergunta precisamos reportar ao sociólogo alemão Max Weber (1864-1920), que se interessou em estudar o processo formação do estado moderno na Alemanha, a burocratização e a racionalização de todas as esferas da vida que, para ele, eram tônica da sociedade moderna. Apesar de liberal, Weber via com olhos céticos o processo de expansão do que ele chamava de capitalismo racional com relação a fins. O pensador também observou com muita atenção a consolidação das democracias liberais em todo o mundo, especialmente em seu país. Para ele, a partir do momento que a democracia liberal se firma como modo de governar dominante, ou se rotiniza, elas passam não mais a exercer as suas funções originais, no caso lutar pelo aperfeiçoamento da sociedade e pelo bem da população, mas trabalhar em prol de sua própria manutenção. Sem embargo, a nossa democracia e seus líderes, ao invés de estarem sintonizados com as demandas gerais da sociedade que os sustenta, se voltam para os seus próprios interesses. Não a toa, o sociólogo dizia que esse processo criava uma grade de ferro que pesava sobre os indivíduos e só teria fim quando a ultima tonelada de carvão fóssil fosse queimada.

Essa é a razão pelo qual vemos nossos congressistas, não apenas brasileiros, mas em vários outros países, conseguem aprovar com tanta facilidade emendas que aumentam seus salários, expandem suas verbas de gabinete, amplificam o número de assessores ou aprovam leis que beneficiam grandes blocos econômicos que patrocinaram suas campanhas; ao mesmo tempo, projetos de maior urgência para a população em geral são esquecidos.

São os mecanismos institucionais que se rotinizam e passam a trabalhar em prol de si mesmos, deixando de lado o real motivo pelo qual foram criados.

Isso prova que, ao contrário do que é alardeado pela mídia, o chamado Estado de Direito e a Democracia Representativa, longe de serem considerados a melhor forma existente ou a única possível, se trata de uma forma de governo extremamente limitada e distorcida, sujeita a desviar-se muito facilmente de sua função original.

Weber
O Sociólogo alemão Max Weber.

Embora House of Cards acerte em mostrar como funciona os mecanismos do poder, retratando o Congresso como uma casa de arrivistas, não chega, pelo menos ainda, a mostrar uma solução para uma reformar politica. Todos os inimigos de Underwood foram completamente destruídos. Também pudera, esse é um dos paradoxos da industria supostamente autônoma do entretenimento. Embora saiba dos defeitos da ordem social, uma saída nunca é esboçada, pois a própria Netflix se beneficia dela financiando vários lobistas na Casa Branca para fazer com que os interesses da empresa nunca sejam esquecidos… Apesar de toda torpeza que vemos nos personagens que lutam desesperadamente pelo poder corruptor e corrompido, este se apresenta como a única saída possível: ruim com ele, pior sem ele.

Cabe a sociedade, como o verdadeiro patrão do Estado e do Congresso, pressionar cada vez mais para que os procedimentos e as formas de financiamento de campanha sejam cada vez mais transparentes, sujeitando-se a uma gestão democrática e condizentes com as demandas da maior parte da sociedade: os trabalhadores.

House of Cards, ou melhor, os limites da democracia liberal.

Sociologia em Estado Puro: o pensamento de Florestan Fernandes

Florestan_blogA obra de Florestan Fernandes representa uma verdadeira revolução no pensamento social do brasileiro. As reflexões do autor sobre a formação da sociedade burguesa no Brasil, os estudos sobre as etnias indígenas, integração do negro a ordem social competitiva ou os dilemas de uma sociedade em mudança, são apenas alguns dos principais problemas que estão presentes em seu pensamento.

Fernandes soube dialogar com várias correntes teóricas aparentemente antagônicas (Mannheim, Marx, Weber, Parsons ou Durkheim), mas sempre tendo em vista a preocupação com relação a desigualdade social, riqueza e pobreza, ao desenvolvimento autônomo e heterônomo; sua obra é hoje um clássico absoluto da sociologia brasileira. Talvez o melhor do que a ciência social tupiniquim já criou.

A presente tese de doutorado, transformada em livro e lançada em 2009, A Sociologia de Florestan Fernandes, de Renan Freitas Pinto, mostra um panorama geral dos principais assuntos tratados pelo grande sociólogo ao longo das quatro décadas de trabalho. É um livro instigante, que mostra de forma extremamente clara o complexo pensamento do maior dos sociólogos brasileiros. Torna-se uma boa escolha não apenas para aqueles que estão interessados em conhecer o pensamento de Florestan Fernandes, mas também para outros que, já tendo intimidade com sua sociologia, pretendem ler uma densa pesquisa que explora a fundo os meandros de um clássico absoluto. Mas esta obra não é apenas recomendada para sociólogos, mas a todos aqueles que procuram respostas para compreender porque o Brasil e, por conseguinte, a própria América Latina, é um lugar tão injusto.

Em tempos atuais, de grandes agitações e turbulências para a sociedade brasileira, onde um modelo de desenvolvimento parece estar se esgotando e a Nova República entra em declínio, o pensamento critico de Florestan Fernandes pode apresentar respostas em relação a qual caminho devemos escolher, o caminho da democracia plena ou manter a anomia de um país com grandes desigualdades.

O presente livro é um belo exemplo de uma boa sociologia. Uma sociologia crítica, que vai na raiz do problema. Em outras palavras, uma sociologia em estado puro.

The X-Factor: um disco maldito

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All my dark dreams drift like smoke in the breeze.

Look For the Truth

Quero falar hoje, leitor amigo, de um disco que em outubro fará dezessete anos de existência. Um petardo do qual em torno dele há toda uma atmosfera áspera, cinzenta, polêmica e que representa uma verdadeira descontinuidade em todo o conjunto da obra da donzela de ferro: The X-Factor.

Muitos fãs do Iron Maiden consideram o primeiro disco com Blaze Bayley nos vocais como um fracasso total. As musicas não parecem ter a mesma empolgação de antes, as letras também não era mais as mesmas e, principalmente, as linhas graves e sombrias dos vocais do novo integrante eram supostamente inferiores as do seu antecessor.

Do ponto de vista comercial, X-factor realmente pode ser considerado com pequeno fracasso — não chegou a alcançar as três primeiras posições nas paradas inglesas. Mas e a partir da concepção de uma obra de arte propriamente dita, The X-factor é de fato um fracasso?

Acredito que as discussões em torno desse disco sejam tomadas a partir de uma perspectiva equivocada. È preciso compreendê-lo dentro de seu próprio contexto, das questões que estão envolvidas para a sua realização e, acima de tudo, da proposta que o disco está disposto a apresentar e quais idéias ele defende.

O ano de 1994 tinha sido um ano ruim para a banda de Steve Harris. Do ponto de vista pessoal, o líder, além de passar por um processo traumático de divorcio, ainda amargara o falecimento do pai no mesmo período. Na vida profissional as coisas não estavam nada bem. Ainda que o disco anterior, Fear Of The Dark, tenha vendido milhões de cópias ao redor do mundo, recuperado o status da banda após o fracasso do injustiçado No Prayer For The Dying e mantido a banda em evidência numa época em que o grunge dominava o mercado, o carismático vocalista, Bruce Dickinson, resolve deixar a donzela para se dedicar a careira solo.

A saída do músico e historiador era um verdadeiro golpe nas estruturas da maior banda de Heavy Metal de todos os tempos. Como o Iron seguiria sem a voz que se tornou sua marca registrada durante tantos anos? O timbre potente de Bruce Dickinson estava de tal maneira identificado com a sonoridade da Donzela que alguns não enxergavam um futuro para o Maiden — muitos da imprensa e grande parte dos fãs já falavam em Harris, Murray e cia. pendurarem as botas.

Encerrar as atividades, entretanto, era algo impensável para Steve Harris. O Iron Maiden era seu projeto de vida. Sofreu pelo Maiden para fundá-lo, sofreu para mantê-lo unido e sofreu para levá-lo adiante. Tantas dificuldades tinha passado para levar seu sonho à frente que, agora, diante de mais uma grande adversidade, ele simplesmente não podia deixar-se submeter. O Iron se destacou entre milhares de outras bandas de metal da década de oitenta, sobreviveu a várias substituições de integrantes durante a sua trajetória e tinha passado quase ileso á febre grunge dos inicio dos anos noventa. Porque o grupo resvalaria perante a saída de um integrante?
Era o momento de limpar os destroços, reformar as fundações e reerguer outra vez o prédio em ruínas.

E foi o que o Sr. Harris fez.

Um concurso foi feito para a escolha do novo vocalista e o vencedor acabou sendo um certo Blaze Bayley. Na época pouco se sabia sobre o novo vocalista, apenas que fora os vocais de uma banda de Hard/Heavy chamada Wolfsbane, que a mesma já tinha sido atração de abertura de vários shows para a donzela na turnê do No Prayer For the Dying e que seu timbre era mais grave que o do Sr. Dickinson.

Um ponto curioso é que o Iron Maiden apenas decidiu entrar em estúdio para compor a gravar quando o novo vocalista fosse devidamente efetivado. Isso significava que não era apenas Bayley que deveria se adaptar a banda, mas o grupo também deveria se adaptar a Blaze.

O resultado de meses de trabalho duro no Barnyard Studios foi o The X-Factor.

Todo o conceito do disco era diferente do que a banda tinha feito até então. Um grupo que sempre apostara em músicas épicas, com suas letras narrando batalhas históricas e feitos heróicos (talvez um reflexo das várias guerras ganhas pela banda no terreno do show bussiness), agora lança um disco em que o eu lírico falava de vazio existencial, auto destruição, traumas de guerra e etc.; a capa mostrava um Eddie humanizado, e os tons de toda a arte do álbum girando entre o cinza e o negro — divergindo completamente do traço colorido e similar ao de histórias em quadrinhos que caracterizava os discos anteriores.

Não há duvida de que os temas mais cinzentos (e adultos) explorados pela banda eram um reflexo do momento peculiar do qual o líder, e consequentemente sua banda, estava passado. Sem Dickinson, o futuro era incerto; Harris, por sua vez, sofrendo um verdadeiro inferno astral no plano da vida privada, captou todas essa vibrações para a música. O momento era de incertezas (por isso o nome do disco), mas era necessário seguir em frente. As brigas, as decepções, as perdas, as mudanças no plano da vida de seu líder e do grupo afetaram de tal maneira o Iron que, mesmo continuando, eles não seriam mais os mesmos.

The X-Factor, portanto, é um amalgama de todos esses sentimentos.

O disco inicia-se de maneira bastante peculiar, cantos gregorianos, uma introdução a cargo do baixo de Steve Harris e uma linha vocal sombria de Blaze, quase um lamento:

Eleven Saintly Shrouded men/Shilouettes Stand against the sky/one in front with a cross held hight/ come to wash my sins away.

Em seguida a canção vai aos poucos ganhando intensidade até que percebemos que realmente estamos diante de uma obra prima chamada Sign Of The Cross, de apenas onze minutos, um épico com parentescos muito próximos a Alexander the Great e Rimer of the ancient Mariner, com sua atmosfera cativante, suas linhas melódicas grandiosas e ao mesmo tempo tristes, além de dois solos de guitarras matadores. Muitos dizem que essa canção foi composta por Steve Harris baseado no romance Em Nome da Rosa, de Umberto Eco. Outros dizem que em Sign Of The Cross, Harris expõe a maneira como lidou com a morte do pai. Este que vos escreve prefere imaginar que foram as duas coisas — foi a partir de uma musica baseada numa história de assassinato na idade média que o compositor encontrou o tom correto para expor seus sentimentos sobre o luto, perda e consternação.

Em seguida o disco nos mostra uma canção mais rock-n roll, mas não menos sombria, chama-se Lord Of the Flies. Baseada num livro de mesmo nome, que narra uma historia de um grupo de meninos que sobrevivem a um desastre e começam a construir uma sociedade própria numa ilha onde passam a viver. A ideia principal da historia é a tese ateísta (do qual eu sou adepto) de que a sociedade cria seus próprios deuses. A música possui linhas fortes e um solo de guitarra matador. O massacre sonoro continua com Man on the Edge — preferida dos fãs e baseada no filme Um dia de Fúria.

Na faixa de número quatro, Fortunes Of War, o grupo diminui um pouco a velocidade num clima mais melancólico e cinzento, em que Blaze Bayley narra os horrores de um soldado que, enviado de volta para casa depois de uma guerra, sofre com os traumas causados pelos horrores que presenciara no front.

Em Look For the Truth, embora seja uma canção cujo eu lírico expressa com competência a sensação de angustia, de paranóia e de pesadelo, musicalmente falando considero-a, ao lado de The Unbeliever, uma das mais fracas do disco.

Outras canções de destaque são The Aftermarth, que possui o melhor solo de guitarra do disco e um os melhores já produzidos pelo Maiden, Jugmente of heaven, cujo andamento acelerado lembra muito a pegada do disco Fear Of the Dark e Blood on The World Hands com a já famosa linha introdutória do baixo de Steve Harris, uma música que, se não possui tanto peso, é bastante interessante de se ouvir.

Logo somos apresentados a sombria The Edge Of the Darkness, inspirada no filme Apocalypse Now, de Francis Ford Copolla e, mais uma vez, a banda se interessa não pelos aspectos heróicos da guerra (se é que eles existem) mas pelas feridas que ela causa no interior dos homens que dela participam.

When you´ve faced the heart of the darkness/even your soul begins to bend

Nesta canção a voz grave de Blaze narra as desventuras de um soldado na busca do Coronel Kurtz, o insano oficial americano perdido em meio a floresta do Vietnã.

O mais próximo de uma balada que o disco possui é a belíssima 2.a.m, com suas belas linhas de guitarras dobradas.

È realmente interessante como muitos fãs depreciam este disco. Mas o que há de errado nele? Todos os elementos que fizerem o Iron Maiden ser o que é hoje estão presentes: cavalgadas, guitarras dobradas, solos melódicos e pegajosos… Dizem que o problema era a voz de Blaze, também não vem ao caso. Embora The Sign of the Cross tenha caído bem na voz de Dickinson, normalmente as musicas da era Bayley normalmente não ficam bem com a voz de Bruce. Este disco, enquanto proposta da banda em mudar um pouco a sonoridade e abordar assuntos já explorados pelo grupo a partir de uma perspectiva mais sombria, conseguiu o resultado esperado. Ele não é muito pesado em termos de timbres das guitarras, mas o baixo está em alturas incríveis exercendo definitivamente o papel de regente da banda. Não é o peso em si que torna o The X-Factor um álbum tão cativante, mas justamente seu clima cinzento e as letras belíssimas que o perpassam.

Pode-se dizer também que Blaze Bayley é um péssimo vocalista. Não é verdade. O sujeito está numa carreira solo aclamada pela critica, lançando discos cada vez mais maduros e pesados.

O problema de The X-Factor está justamente no contexto em que foi escrito. Sem Bruce Dickinson, os fãs com certeza torceriam o nariz para qualquer outro vocalista substituto ou negariam qualquer mudança na sonoridade da banda.

Para mim, considero o The X-Factor um dos melhores discos de Heavy Metal já lançados durante a segunda metade da década de noventa e um dos mais injustiçados na carreira da donzela. È um disco cult, desses que não possuem tantos admiradores, mas dono de um distinto valor musical que só os headbangers menos preconceituosos são capazes de reconhecer.