A Modernização Leva a Desordem Moral?

teoTalvez um dos temas de grande sedução nos debates ideológicos, tanto entre conservadores e progressistas, refere-se às consequências da secularização sobre a moralidade coletiva. Conservadores e religiosos em geral afirmam que a religião é imprescindível para a coesão social, enquanto partidários da modernização e da secularização, principalmente ateus militantes, afirmam ser o sentimento religioso uma crendice que tenderá a desaparecer conforme formas modernas de vida forem se alastrando pelo globo.

Para responder essa questão, precisamos reportar a estrutura básica da sociedade pós-tradicional e como ela se diferencia de comunidades dos tempos pré-modernos. O sociólogo Zygmunt Bauman, em seu livro Modernidade Liquida (2001), mostra como as sociedades tradicionais se caracterizavam pela crença numa origem mítica. Fundada por deuses, patriarcas ou heróis, suas leis não poderiam ser modificadas em virtude de seu caráter sagrado; eram sociedades heteronômicas, pois consideravam sua origem extraterrena.

Na modernidade, porém, essas condições mudam. Bauman ainda afirma que a origem deixa de ter uma conotação sobrenatural ou lendária para uma origem histórica, situada no tempo e no espaço. As sociedades modernas, em oposição ao caráter a-histórico de tempos tradicionais, são históricas; suas leis, costumes e origens são tidas como terrenas, seculares e, por isso, sempre submetidas ao debate e reformulação.

Segundo Anthony Giddens, no livro As Consequências da Modernidade (1991), a tradição em condições de modernidade é constantemente reinterpretada e criticada. Não é mais a tradição que condiciona uma comunidade sempre em relação ao passado, mas é o progresso que determina-as sempre em direção ao futuro, num fenômeno chamado de reflexividade, resultado do processo intenso de racionalização e inovação tecnológica, a produção intensa de conhecimento causa fissuras, mudanças e ondulações inesperadas no tecido social, esse resultado contingencial leva inevitavelmente a uma maior produção de conhecimento que, por sua vez, leva a mais mudanças.

Disso resulta em consequências para a moral social. Ela não depende mais de uma tradição, ou de uma religião que são o centro de reprodução da vida. Os indivíduos e grupos estão desgarrados, livres para criar suas próprias crenças morais num mundo onde a inovação e a racionalização tomam conta de todas as esferas da vida. Cabe ao indivíduo, sozinho, criar sua biografia, seus valores e cultivar seu paraíso ou seu inferno.

A consequência, a primeira vista, pode ser uma desordem moral onde tudo seria permitido e onde a religião deixaria de existir.

Entretanto, estamos em meio a um profundo processo de secularização/modernização/racionalização, as religiões continuam a ter certa importância na vida das pessoas e a chamada desordem moral, pelo menos até agora, não ocorreu.

Não há uma relação entre modernização/secularização e desaparecimento das religiões. O fenômeno do fechamento de igrejas que está ocorrendo na Europa (leia mais aqui) não se repetiu nos Estados Unidos, por exemplo, onde sua pujança econômica não parece interferir na sua força religiosa, sendo inclusive um exportador de missionários protestantes para todo o globo. Na América Latina a modernidade não conseguiu destruir a força das religiões, apesar do aumento, no Brasil, do número de agnósticos e ateus (saiba mais aqui).

Em tempos modernos a moral e a religião abandonam o centro do mundo social e refugiam-se na segurança da vida privada. Ela continua tendo sua importância, mas como coadjuvante, não mais como ator principal.

Hans Joas, no artigo A Secularização Leva a Decadência Moral? (2015) discute a possibilidade, mais temida por religiosos e conservadores, de uma suposta crise moral que assolaria a humanidade criada pelo processo de secularização. Afirma que os valores da justiça e do bom senso podem surgir da religião, de processos seculares ou mesmo da união entre ambos, como pode ser constatado no movimento em prol dos Direitos Humanos, que congrega tanto ateus quanto fiéis. Conclui que os valores morais que regem a convivência entre indivíduos de uma mesma sociedade também podem originar-se de catástrofes sociais ou surgir de um movimento genuíno, de dentro da própria sociedade, para regular suas relações. Usando suas próprias palavras:

(…) parece ser decisivo que as próprias estruturas de cooperação humana ou conduzem os indivíduos a manutenção de compromissos de reciprocidade por razões de interesses próprio ou os sensibilizam para o valor da justiça. Este e outros valores moralmente relevantes podem inspirar compromisso através de experiências positivas — sua incorporação em modelos, por exemplo — ou de experiências negativas — como a vivência da injustiça, degradação e violência. (JOAS, p.243. 2015)

O fator religioso seria uma das origens possíveis.

Penso ser impossível ocorrer uma desordem moral num mundo secularizado, pois a própria moral se tornou secular, isto é, ganhou autonomia em relação a religião. Assim muitas morais podem ser erigidas dentro de um mesmo arcabouço cultural da cultura moderna, que cultiva os valores, hoje universais, da liberdade, igualdade e fraternidade.

Sem embargo, cabem aos conservadores e religiosos respeitar a possibilidade de uma moral secular, hoje defendida por ateus, agnósticos e progressistas; como também é preciso que os segundos, ao menos, respeitem a possibilidade de fé dos primeiros.

Quem sabe assim o mundo ficaria menos intolerante e, quem sabe, mais agradável de se viver.

Retornando a pergunta que é o título do artigo: A modernização leva a desordem moral? Eu respondo que não.

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Porque Me Tornei Agnóstico

150px-Agnostic_Question_Mark.svgFoi aos dezoito anos que abandonei a religião de meus pais e a tradição da minha família. Cheguei a conclusão de que, devido à grande complexidade do mundo, à variedade das suas culturas e sociedades, e à grandeza insondável do universo, o deus que nós imaginávamos era apenas uma explicação grosseira para responder a perguntas muito difíceis.

De onde viemos? Para onde vamos? Como foi o início de tudo?

As respostas que eu sempre ouvia do pastor enquanto estava sentado no banco da igreja muitas vezes me causavam mais dúvidas do que certeza. Por que deus, se era tão perfeito, ia criar o mundo e pôr o homem nele se ele já sabia que o homem o desonraria? Se deus é amor e é tão bom, porque ele deixa que tanto mal e tanta escuridão tome conta do mundo? As respostas que sempre me davam desde a infância nunca me convenceram totalmente. Assim como José Saramago, eu não queria acreditar, eu queria saber…

Eu via pessoas ao meu lado experimentando a suposta graça divina, e perguntava porque eu não experimentava a mesma sensação da existência de deus. As respostas que recebia eram reprimendas:

Você precisa acreditar, Ricardo… Você não tem fé suficiente…”

E eu ficava sempre triste, confuso e cheio de culpa. Lembro-me quando fiz minha profissão de fé e aceitei Jesus Cristo, o fiz muito mais por medo de queimar no fogo do inferno que por um sentimento de graça recebida.

Eu via todas as religiões do mundo defendendo seus deuses e seus ritos com igual tenacidade e todas estas divindades servirem de desculpas para os homens cometerem loucuras e matarem uns aos outros.

Logo percebi que toda sociedade cria seus próprios deuses, seus próprios dogmas e usa as religiões como um alicerce de segurança contra a desintegração social. Também notei que muitos agrupamentos humanos usavam estas religiões para que alguns continuassem se dando bem em cima de outros…

Foi o homem quem criou um Ser e nele projetou tudo aquilo que nós temos de bom e de ruim.

Se Deus existe, coisa que é bem improvável, ele talvez seja completamente diferente da forma como as sociedades, os profetas e os indivíduos idealizaram.

A noção que temos de deus, bem como os valores e tradições que defendemos como os únicos e definitivos, nada tem de absolutos, são um reflexo do nosso tempo histórico, uma forma que os homens encontraram para dar sentido a uma coisa sem sentido, que é a nossa existência na terra. Cabe a nós, em nossa relação uns com os outros, com quem amamos ou com quem odiamos, criar nossa própria biografia, nosso próprio arsenal de valores e seguir o caminho das pedras e dos espinhos, nunca sucumbindo ao mar desesperador e escuro que nos faz perder a humanidade. Nossa vida, sendo uma dádiva ou um acaso do universo, é um bem pelo qual vale a pena lutar, um bem pelo qual vale a pena preservar. Cabe a nós viver uns pelos outros, apoiando uns aos outros, pois nossa humanidade só existe quando nos relacionamos.

Se existência não tem sentido, então vamos dar sentido a ela cultivando os melhores valores já criados pela humanidade: a fraternidade, a igualdade e a liberdade.

Tornar-se agnóstico, na confortável incerteza de estar além do bem e do mal, tendo consciência de que tudo pode ou não existir, foi uma saída para sentir-me livre da culpa de não acreditar em deus ou em deuses e livre do medo da punição do pecado; foi como uma libertação para mim, como pôr um termo ao sofrimento de estar fazendo algo errado ou traindo um pai vigilante e punitivo…

Pois cada vez tenho mais certeza que, como disse Nietzsche, nossas crenças e tradições são humanas, demasiado humanas…

Os Segredos da Igreja Universal

bastidoresUm dos fenômenos mais interessantes da história brasileira recente é a sensível mudança no perfil religioso do brasileiro. O surgimento e fortalecimento de várias outras denominações e credos, como o espiritismo, as religiões de matriz afro e os neopentecostais, tem operado num sentido de abalar a hegemonia há muito desfrutada pela igreja católica no mercado da fé.

O livro Nos Bastidores do Reino: a história secreta da Igreja Universal, de autoria de Mario Justino, um ex pastor da referida instituição, trata especificamente da ascensão do credo neopentecostal no Brasil, mostrando todos os atos escusos, alianças e táticas nada divinas que fizeram da Igreja Universal um mega império e tornou Edir Macedo um dos homens mais poderosos do Brasil.

A obra causou enorme polêmica quando foi lançada, em 1995. O Reino chegou a entrar na justiça barrando sua venda, mas a editora recorreu e conseguiu a direito de ter a obra nas livrarias.

Mario Justino narra sua fantástica biografia que é a de um menino pobre que entra para os quadros da Igreja Universal e torna-se um dos seus maiores e mais bem sucedidos pastores. Lá encontra um quadro bem diferente daquele que é apresentado aos fiéis e ao público em geral: um jogo de intrigas e disputas que norteavam os pastores; as pressões para aumentar a todo custo o rendimento das igrejas filiais; os métodos desonestos para convencer os fieis a darem todo o seu dinheiro para a igreja; o autoritarismo de Edir Macedo e as patentes diferenças de classe entre os pastores do baixo e do alto clero; enquanto aqueles exerciam a sua profissão sob as condições mais precárias, sem ao menos receber o suficiente para ir e voltar do seu local de trabalho, forçando muitos a morar nos templos, os pastores da elite gozavam de toda uma série de privilégios, como apartamento pago pelo igreja e direito a viagens internacionais.

Ao contrário das pompas de santidade que hipocritamente exalam dos cultos, dos programas de TV e rádio apresentados pelos pastores, entre os pastores reinava um estilo de vida nada cristão com direito a homossexualismo, drogas e orgias — tudo tendo o cuidado de ser abafado pelo primeiro escalão do Reino, exatamente como fazia a igreja católica.

A pressão psicológica que os métodos da Universal exerciam sobre os pastores fez Justino cair em depressão e se viciar em maconha — ele chegou ao ponto de não conseguir realizar um único sermão sem ter dado o indispensável tapa na pantera… Mas não demora muito para que o desafortunado homem comece a experimentar cocaína e outras drogas injetáveis. Numa das ocasiões compartilha uma seringa e se infecta com o vírus da AIDS. Expulso dos quadros da igreja, humilhado por Macedo e separado de sua família, migra para os Estados Unidos onde experimenta a mais degradante experiência como um viciado em crack e morador de rua dos subúrbios de Nova York. Neste momento um plano toma conta de sua cabeça e passa a se tornar uma obsessão — matar Edir Macedo, o homem responsável pela sua desgraça…

Outro ponto muito interessante é a descrição que o autor faz do sub- mundo de Nova York no capítulo O Dantesco Harlem, onde narra com maestria o cotidiano de mendigos, desocupados, viciados, traficantes e prostitutas, bem como suas regras, seus anseios e seus medos. Este capitulo é salutar ao comprovar a tese exposta pelo sociólogo norte-americano H. Becker em seu hoje clássico livro Outsiders: estudos de sociologia do desvio — grupos considerados a margem da sociedade possuem seus próprios conceitos de normalidade.

Um dos méritos do livro é a capacidade de prender a atenção do leitor logo na primeira linha. O estilo é ligeiro, “visceral” e, acima de tudo, tremendamente sincero. Mas ele padece de algumas falhas. Uma delas é o modo forçado que o autor em alguns momentos tenta imprimir á narrativa, deixando uma impressão ao leitor mais atento de alguém que leu pouco, mas está tentando escrever muito. Isso fica patente quando Justino tenta fazer algumas reflexões sobre a sociedade paulista. O resultado fica apenas ridículo.

Apesar destas pequenas deficiências, típicas de um escritor de primeira viagem, o livro é um verdadeiro documento sobre a dinâmica de uma igreja que, percebendo a alienação do povo brasileiro e sua busca por uma saída à sua miséria material, logrou criar um novo método revolucionário de persuasão que viesse de encontro às ânsias e dissipasse os medos das camadas mais pobres. Resultado: uma igreja que tornou-se um império que abocanhou emissoras de televisão, de rádio, passou a ter ramificações na Europa, Estados Unidos e África, além de ser dona de um respeitável potencial eleitoral.

As célebres palavras de Marx, portanto, nunca fizeram tanto sentido e nunca estiveram tão atuais: A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, tal como o é o espírito de uma situação sem espírito. É o ópio do povo.

A Inquisição Protestante

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Muitos evangélicos falam da Inquisição Católica, mas poucos sabem sobre a Inquisição Protestante.

Alemanha

Bandos protestantes esfolaram os monges da abadia de São Bernardo, em Bremen, passaram sal em suas carnes vivas e depois os penduraram no campanário.

Em Augsburgo, em 1528, cerca de 170 anabatistas foram aprisionados por ordem do Poder Público. Muitos foram queimados vivos; outros foram marcados com ferro em brasa nas bochechas ou tiveram a língua cortada.

Em 1537, o Conselho Municipal publicou um decreto que proibia o culto católico e estabelecia o prazo de oito dias para que os católicos abandonassem a cidade. Ao término desse prazo, soldados passaram a perseguir os que não aceitaram a nova fé. Igrejas e mosteiros foram profanados, imagens foram derrubadas, altares e o patrimônio artístico-cultural foram saqueados, queimados e destruídos. Também em Frankfurt, a lei determinou a total suspensão do culto católico e a estendeu a todos os estados alemães.

O teólogo protestante Meyfart descreveu uma tortura que ele mesmo presenciou: “Um espanhol e um italiano foram os que sofreram esta bestialidade e brutalidade. Nos países católicos não se condena um assassino, um incestuoso ou um adúltero a mais de uma hora de tortura (sic). Porém, na Alemanha, a tortura é mantida por um dia e uma noite inteira; às vezes, até por dois dias; outras vezes, até por quatro dias e, após isto, é novamente iniciada. Esta é uma história exata e horrível, que não pude presenciar sem também me estremecer. “

Inglaterra

Seis monges Cartuxos e o bispo de Rochester foram sumariamente enforcados. Na época da imperadora Isabel, cerca de 800 católicos eram assassinados por ano e Jesuítas foram assassinados ou torturados. Um ato do Parlamento inglês, em 1562, decretou que “cada sacerdote romano deve ser pendurado, decapitado e esquartejado; a seguir, deve ser queimado e sua cabeça exposta num poste em local público”.

Suíça

O descobridor da circulação do sangue foi queimado em Genebra, por ordem de Calvino. No distrito de Thorgau, um missionário zwingliano liderou um bando protestante que saqueou, massacrou e destruiu o mosteiro local, inclusive a biblioteca e o acervo artístico-cultural.

Em Zurique, foi ordenada a retirada de todas as imagens religiosas, relíquias e enfeites das igrejas; até mesmo os órgãos foram proibidos. A catedral ficou vazia, como continua até hoje. Os católicos foram proibidos de ocupar cargos públicos; o comparecimento aos sermões católicos implicava em penas e castigos físicos e, sob a ordem de “severas penas”, era proibido ao povo possuir imagens e quadros religiosos em suas casas.

Ainda em Zurique, a Missa foi prescrita em 1525. A isto, seguiu-se a queima dos mosteiros e a destruição em massa de templos. Os bispos de Constança, Basiléia, Lausana e Genebra foram obrigados a abandonar suas cidades e o território. Um observador contemporâneo, Willian Farel, escreveu: “Ao sermão de João Calvino na antiga igreja de São Pedro, seguiram-se desordens em que se destruíram imagens, quadros e tesouros antigos das igrejas”.

Irlanda

Quando Henrique VIII iniciou a perseguição protestante contra os católicos, existiam mais de mil monges dominicanos no país, dos quais apenas dois sobreviveram à perseguição.

Escócia

Durante um período de seis anos, John Knox, pai do presbiteranismo, mandou queimar na fogueira cerca de 1.000 mulheres, acusadas de bruxaria.

O saque de Roma

O Saque de Roma foi um dos episódios mais sangrentos da Reforma Protestante.

No dia 6 de maio de 1527, legiões luteranas do exército imperial de Carlos V invadiram a cidade. Um texto veneziano, daquela época, afirma que: “o inferno não é nada quando comparado com a visão da Roma atual”. Os soldados luteranos nomearam Lutero “papa de Roma”. Todos os doentes do Hospital do Espírito Santo foram massacrados em seus leitos.

Os palácios foram destruídos por tiros de canhões, com seus habitantes dentro. Os crânios dos Apóstolos São João e Santo André serviram para os jogos esportivos das tropas. Centenas de cadáveres de religiosas, leigas e crianças violentadas – muitas com lanças incrustadas na região genital – foram atirados no rio Tibre. As igrejas, inclusive a Basílica de São Pedro, foram convertidas em estábulos e celebraram-se missas profanas. Gregorio afirma a respeito: “Alguns soldados embriagados colocaram ornamentos sacerdotais em um asno e obrigaram um sacerdote a conferir-lhe a comunhão. O sacerdote engoliu a forma e seus algozes o mataram mediante terríveis tormentos”.

Conta o Padre. Mexia: “Depois disso, sem diferenciar o sagrado e o profano, toda a cidade foi roubada e saqueada, inexistindo qualquer casa ou templo que não foi roubado ou algum homem que não foi preso e solto apenas após o resgate”. O butim foi de 10 milhões de ducados, uma soma astronômica para a época.

Dos 55.000 habitantes de Roma, sobreviveram apenas 19.000.
Os “Grandes Reformadores Protestantes” e o emprego da violência:

Lutero

Em 1520, escreveu em seu “Epítome”: (…) francamente declaro que o verdadeiro anticristo encontra-se entronizado no templo de Deus e governa em Roma (a empurpurada Babilônia), sendo a Cúria a sinagoga de Satanás (…) Se a fúria dos romanistas não cessar, não restará outro remédio senão os imperadores, reis e príncipes reunidos com forças e armas atacarem a essa praga mundial, resolvendo o assunto não mais com palavras, mas com a espada (…) Se castigamos os ladrões com a forca, os assaltantes com a espada, os hereges com a fogueira; por que não atacamos com armas, com maior razão, a esses mestres da perdição, a esses cardeais, a esses papas, a todo esse ápice da Sodoma romana, que tem perpetuamente corrompido a Igreja de Deus, lavando assim as nossas mãos em seu sangue?”

Em um folheto intitulado “Contra a Falsamente Chamada Ordem Espiritual do Papa e dos Bispos”, de julho de 1522, ele declarou: “Seria melhor que se assassinassem todos os bispos e se arrasassem todas as fundações e claustros para que não se destruísse uma só alma, para não falar já de todas as almas perdidas para salvar os seus indignos fraudadores e idólatras. Que utilidade tem os que assim vivem na luxúria, alimentando-se com o suor e o sangue dos demais?”

Em outro folheto, “Contra a Horda dos Camponeses que Roubam e Assassinam”, ele dizia aos príncipes: “Empunhai rapidamente a espada, pois um príncipe ou senhor deve lembrar neste caso que é ministro de Deus e servidor da Sua ira (Romanos 13) e que recebeu a espada para empregá-la contra tais homens (…) Se pode castigar e não o faz – mesmo que o castigo consista em tirar a vida e derramar sangue – é culpável de todos os assassinatos e todo o mal que esses homens cometerem”.

Em julho de 1525, Lutero escrevia em sua “Carta Aberta sobre o Livro contra os Camponeses”:

“Se acreditam que esta resposta é demasiadamente dura e que seu único fim e fazer-vos calar pela violência, respondo que isto é verdade. Um rebelde não merece ser contestado pela razão porque não a aceita. Aquele que não quer escutar a Palavra de Deus, que lhe fala com bondade, deve ouvir o algoz quando este chega com o seu machado (…) Não quero ouvir nem saber nada sobre misericórdia”.

Sobre os judeus, assim dizia em suas famosas “Cartas sobre a Mesa”: “Quem puder que atire-lhes enxofre e alcatrão; se alguém puder lançá-los no fogo do inferno, tanto que melhor (…) E isto deve ser feito em honra de Nosso Senhor e do Cristianismo. Sejam suas casas despedaçadas e destruídas (…) Sejam-lhes confiscados seus livros de orações e talmudes, bem como toda a sua Bíblia. Proíba-se seus rabinos de ensinar, sob pena de morte, de agora em diante. E se tudo isso for pouco, que sejam expulsos do país como cães raivosos”.

Em seus “Comentários ao Salmo 80?, Lutero aconselhava aos governantes que aplicassem a pena de morte a todos os hereges.

Melanchton, o teólogo luterano da Reforma, aceitou ser o presidente da inquisição protestante, com sede na Saxônia. Ele apresentou um documento, em 1530, no qual defendia o direito de repressão à espada contra os anabatistas. Lutero acrescentou de próprio punho uma nota em que dizia: “Isto é de meu agrado”. Convencido de que os anabatistas arderiam no fogo do inferno, Melanchton os perseguia com a justificativa de que “por que precisamos ter mais piedade com essas pessoas do que Deus?”

Calvino

Em seus “Institutos”, declarou: “Pessoas que persistem nas superstições do anticristo romano devem ser reprimidas pela espada”. Em 1547, James Gruet publicou uma nota criticando Calvino e foi preso, torturado no potro duas vezes por dia durante um mês e, finalmente, sentenciado à morte por blasfêmia. Seus pés foram pregados a uma estaca e sua cabeça foi cortada. Em 1555, os irmãos Comparet foram acusados de libertinagem, executados e esquartejados. Seus restos mortais foram exibidos em diferentes partes de Genebra.

Zwínglio

Em 1525, começou a perseguir os anabatistas de Zurique. As penas iam desde o afogamento no lago ou em rios, até a fogueira.

Protestantes versus Protestantes

Os reformadores também lutavam entre si..

Lutero disse: “Ecolampaio, Calvino e outros hereges semelhantes possuem demônios sobre demônios, têm corações corrompidos e bocas mentirosas”. Por ocasião da morte de Zwínglio, afirmou: “Que bom que Zwínglio morreu em campo de batalha! A que classe de triunfo e a que bem Deus conduziu os seus negócios!”, e também: “Zwínglio está morto e condenado por ser ladrão, rebelde e levar outros a seguir os seus erros”.
Zwínglio também atacava Lutero: “O demônio apoderou-se de Lutero de tal modo que até nos faz crer que o possui por completo. Quando é visto entre os seus seguidores, parece realmente que uma legião o possui”.

Acerca da Reforma, disse Rosseau: “A Reforma foi intolerante desde o seu berço e os seus autores são contados entre os grandes repressores da Humanidade”. Em sua obra “Filosofia Positiva”, escreveu: “A intolerância do Protestantismo certamente não foi menor do que a do Catolicismo e, com certeza, mais reprovável”.

Texto original de Marcelo “Druyan” Esteves.

Fonte: deldebbio.com.br/2009/02/16/a-inquisicao-protestante

Conto: O Evento na Ponta Negra

Durante os sábados á noite me apetece caminhar pela Ponta Negra. Sempre, por volta das dezenove horas, costumo descer do prédio onde moro para ficar perambulando pelos calçadões da praia, sentindo o vento tocando no rosto e observando as pessoas passeando com seus bichos de estimação. Observo os vendedores ambulantes, os populares que vão se dirigindo aos pontos de ônibus, os bêbados perambulando com uma garrafa de pinga nas mãos, os pais com seus filhos inquietos e as belas gostosas endinheiradas que gostam de praticar corrida nesse horário.

Minha caminhada sempre dura entre trinta e sessenta minutos. Coloco um fone de ouvido e vou admirando toda essa ecologia de tipos que passam pela minha frente. Deslizo por eles como mais um anônimo, sem lar, sem pensamentos, sem propósitos, sem alma… Nesses momentos me perco do mundo e esqueço as mesquinharias do trabalho e as intrigas familiares.

Este seria mais uma noite comum de caminhada caso não estivesse ocorrendo no anfiteatro da praia um evento patrocinado por um pregador fundamentalista muito famoso nacionalmente. È muito comum acontecer todo tipo de celebrações naquele lugar. A paisagem do Rio Negro e a floresta verde e escura assomando do outro lado no Iranduba, somado a brisa constante e agradável que vem do rio, faz com que os organizadores de muitos eventos que ocorram em Manaus acabem por escolher a Ponta Negra como um dos lugares para realizar seus eventos de massa.

Era o caso dos pentecostais e neopentecostais. Quando descobriram as vantagens do lugar, logo passaram a requisitar a Ponta Negra uma ou até duas vezes por mês para seus mega cultos.

Nunca me perturbou eventos religiosos ali, perto da minha casa, mas sempre tive reservas quanto aos religiosos radicais. Muitas das suas mais caras bandeiras, como a oposição ao direito feminino do aborto e às cotas, a recusa ao reconhecimento da união civil entre casais homo afetivos ou a maneira pouco respeitosa como muitos se referiam á religiões de cosmologia africana, faziam com que eu, um liberal de esquerda, agnóstico e militante pelos direitos humanos, visse com reservas tudo o que representavam.

Havia muitos presentes na celebração. Acredito que mais de três mil pessoas. Eu simplesmente não conseguia caminhar sem me desviar de alguém a cada cinco segundos.  O evento ainda não tinha começado e dezenas de pessoas não paravam de chegar, a maioria em ônibus fretados pelas congregações. Senhoras, senhores, famílias numerosas, mulheres lindas, outras nem tanto… Todos bem vestidos. A cerimonia religiosa, para essas pessoas, não era apenas uma evento formal, mas uma celebração, um momento de êxtase e de renovação. Por isso precisavam dar para deus o que eles tinham de melhor. No caso, a paz de espirito e suas melhores roupas.

Enquanto caminhava perguntei a uma senhora ali perto do que tratava aquele evento.

“È para a gente mostrar a força do povo de deus contra o exercito do maligno!”

“Não entendi, senhora…”

“É para mostrar como deus se desagrada dessa gente pecaminosa que pratica homossexualismo e adora falsos deuses…”

“Mas por que eles desagradam a deus, minha senhora?” Nesse momento eu já tinha notado o teor do evento. Mas queria explorar um pouco mais a subjetividade do meu informante…

“Porque é antinatural… Deus fez homem e mulher pra ficarem juntos e não pra ficarem fazendo imoralidade por ai… Essa gente precisa aceitar Jesus…”

Ai eu disse: “Minha senhora… Acho que é Jesus quem precisa aceitar vocês…”

Enquanto a mulher, desconcertada por ter ouvido algo que não esperava, procurava desesperadamente alguma palavra para me recriminar, eu virei as costas e sai dali rindo comigo mesmo, pensando:

“Vinguei-me do Infeliciano…”