Porque Me Tornei Agnóstico

150px-Agnostic_Question_Mark.svgFoi aos dezoito anos que abandonei a religião de meus pais e a tradição da minha família. Cheguei a conclusão de que, devido à grande complexidade do mundo, à variedade das suas culturas e sociedades, e à grandeza insondável do universo, o deus que nós imaginávamos era apenas uma explicação grosseira para responder a perguntas muito difíceis.

De onde viemos? Para onde vamos? Como foi o início de tudo?

As respostas que eu sempre ouvia do pastor enquanto estava sentado no banco da igreja muitas vezes me causavam mais dúvidas do que certeza. Por que deus, se era tão perfeito, ia criar o mundo e pôr o homem nele se ele já sabia que o homem o desonraria? Se deus é amor e é tão bom, porque ele deixa que tanto mal e tanta escuridão tome conta do mundo? As respostas que sempre me davam desde a infância nunca me convenceram totalmente. Assim como José Saramago, eu não queria acreditar, eu queria saber…

Eu via pessoas ao meu lado experimentando a suposta graça divina, e perguntava porque eu não experimentava a mesma sensação da existência de deus. As respostas que recebia eram reprimendas:

Você precisa acreditar, Ricardo… Você não tem fé suficiente…”

E eu ficava sempre triste, confuso e cheio de culpa. Lembro-me quando fiz minha profissão de fé e aceitei Jesus Cristo, o fiz muito mais por medo de queimar no fogo do inferno que por um sentimento de graça recebida.

Eu via todas as religiões do mundo defendendo seus deuses e seus ritos com igual tenacidade e todas estas divindades servirem de desculpas para os homens cometerem loucuras e matarem uns aos outros.

Logo percebi que toda sociedade cria seus próprios deuses, seus próprios dogmas e usa as religiões como um alicerce de segurança contra a desintegração social. Também notei que muitos agrupamentos humanos usavam estas religiões para que alguns continuassem se dando bem em cima de outros…

Foi o homem quem criou um Ser e nele projetou tudo aquilo que nós temos de bom e de ruim.

Se Deus existe, coisa que é bem improvável, ele talvez seja completamente diferente da forma como as sociedades, os profetas e os indivíduos idealizaram.

A noção que temos de deus, bem como os valores e tradições que defendemos como os únicos e definitivos, nada tem de absolutos, são um reflexo do nosso tempo histórico, uma forma que os homens encontraram para dar sentido a uma coisa sem sentido, que é a nossa existência na terra. Cabe a nós, em nossa relação uns com os outros, com quem amamos ou com quem odiamos, criar nossa própria biografia, nosso próprio arsenal de valores e seguir o caminho das pedras e dos espinhos, nunca sucumbindo ao mar desesperador e escuro que nos faz perder a humanidade. Nossa vida, sendo uma dádiva ou um acaso do universo, é um bem pelo qual vale a pena lutar, um bem pelo qual vale a pena preservar. Cabe a nós viver uns pelos outros, apoiando uns aos outros, pois nossa humanidade só existe quando nos relacionamos.

Se existência não tem sentido, então vamos dar sentido a ela cultivando os melhores valores já criados pela humanidade: a fraternidade, a igualdade e a liberdade.

Tornar-se agnóstico, na confortável incerteza de estar além do bem e do mal, tendo consciência de que tudo pode ou não existir, foi uma saída para sentir-me livre da culpa de não acreditar em deus ou em deuses e livre do medo da punição do pecado; foi como uma libertação para mim, como pôr um termo ao sofrimento de estar fazendo algo errado ou traindo um pai vigilante e punitivo…

Pois cada vez tenho mais certeza que, como disse Nietzsche, nossas crenças e tradições são humanas, demasiado humanas…

Epicuro: sobre a vida e a Morte

epicuroAcostuma-te a ideia de que a morte para nós não é nada, visto que todo bem e todo mal reside nas sensações. A consciência clara de que a morte não significa nada para nós proporciona a fruição da vida efêmera, sem querer acrescentar-lhe tempo infinito e eliminando o desejo de imortalidade.

Não existe nada de terrível na vida para quem está perfeitamente convencido de que não há nada de terrível em deixa de viver. É tolo, portanto, quem diz ter medo da morte, não porque a chegada desta lhe trará sofrimento, mas porque o aflige a própria espera: aquilo que não nos perturba quando presente não deveria afligir-nos enquanto está sendo esperado.

Então, o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos. A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos, nem para os mortos, já que para aqueles ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui. E, no entanto, a maioria das pessoas ora foge da morte como se fosse o maior dos males, ora a deseja como descanso dos males da vida.

O sábio, porém, em desdenha viver, nem teme deixar de viver; para ele, viver não é um fardo e não viver não é uma mal. Assim com opta pela comida mais saborosa e não pela mais abundante, do mesmo modo colhe os doces frutos de um tempo bem vivido, ainda que breve.

Quem aconselha o jovem a viver bem e o velho a morrer bem não passa de um tolo, não só pela fato que a vida tem de agradável a ambos, mas também porque se deve ter exatamente o mesmo cuidado em honestamente viver e em honestamente morrer.

Nunca devemos nos esquecer de que o futuro não é nem totalmente nosso, nem totalmente não nosso, para não sermos obrigados a esperá-lo como se tivesse por vir com toda certeza, nem nos desesperarmos com se não estivesse por vir jamais.

O conhecimento seguro dos desejos leva direcionar toda escolha a toda recusa para a saúde do corpo e para a serenidade do espírito, visto que esta é a finalidade da vida feliz: em razão desse fim praticamos todas as nossas ações, para nos afastarmos da dor e do medo.

Adaptado de Carta sobre a Felicidade.

The Walking Dead e a Distopia Moderna

imagesImagine um mundo em que toda a sociedade como a conhecemos ruiu. O estado, a policia, a escola e todas as instituições simplesmente deixaram de existir. O que há são apenas cidades devastadas com pequenos grupos de indivíduos miseráveis vagando como vagabundos; acrescente a isso que pelo mundo espalham-se uma quantidade infindável de zumbis, dezenas de milhares, tantas quanto são as estrelas do céu, cujo único propósito é se alimentar de carne humana…

Este é o pano de fundo do qual se desenvolve The Walking Dead. Uma famosa Hq, criada por Robert Kirkman, que tornou-se uma conceituada série televisiva dirigida por Frank Darabond.  Nela acompanhamos as desventuras de um grupo de sobreviventes, liderados pelo ex-policial Rick Grimes, vagando por cidades devastadas em busca de salvação. Ao contrário de outras obras que trataram do tema, TWD não se preocupa com as causas que levaram a epidemia ou mesmo com as articulações do governo na tentativa de barrar o avanço dos zumbis sobre as cidades. O espectador é jogado, assim como os personagens da trama, de chofre nesse mundo caótico e cinzento. Apenas percebemos o mundo pela lente dos personagens, que também não sabem quase nada do que aconteceu. O que sabemos sobre natureza do desastre vem apenas de informações desencontradas, pedaços desarticulados e fragmentários de relatos provindos dos sobreviventes. Eles, assim como nós, são pequenas formigas indefesas e sem rumo vagando pela vastidão aterrorizante de um mundo assombrado pelo desastre e pela morte.

Uma das inovações do universo criado por Kirkman é justamente no desenvolvimento emocional dos personagens. Eles não são apenas receptáculos dos fenômenos como em outras obras de terror, como acontece principalmente nas obras de Lovecraft — que ajudou a popularizar na narrativa de terror/fantástico. Os indivíduos que vemos se movimentar em TWD não são peças de um tabuleiro, são pessoas com histórias, medos, aspirações, ambições e desejos. O desastre e a morte de seus entes queridos pesam sobre seus ombros. Quando os vemos agindo e reagindo diante das dificuldades, notamos que, provavelmente, faríamos do mesmo modo… Apesar da realidade apresentada ser completamente fantástica, os desdobramentos dela sobre o mundo são extremamente realistas. Sentimos os terrores, os dilemas e as situações que os testam até os limites da insanidade.

Este mundo cinzento, sem esperança e pestilento, onde as brumas da morte vagam como uma presença sempre sentida, sempre próxima e quase sempre fatal, remete a insegurança, a condição de guerra de todos contra todos e a possibilidade de morte violenta, outrora descrita por Hobbes, de um estado pré-histórico ou de completa falência do contrato social. O resultado desse cenário é o estabelecimento de pequenas tribos que estabelecem suas próprias leis, costumes, crenças, mas acabam por ser submetido por outras comunidades mais fortes — vejamos o caso dos Salvadores quando submetem HillTop e Alexandria.

O fim do contrato social e a emergência da guerra de todos contra todos leva, inevitavelmente, a destruição de todas as desigualdades e niveladores sociais antes endêmicos na sociedade. Agora, a hecatombe social propicia o surgimento de novas hierarquizações. Aquele que era apenas um entregador de pizza, agora, torna-se um dos mais destacados membros do grupo (Glen); outro que era só um pai de família com um emprego sem perspectiva torna-se o líder de uma grande comunidade (Philip, o governador); o policial tímido de uma insignificante cidade virá, com o fim da estrutura sistêmica da sociedade, a ser o líder implacável que passará pelas mais duras provações (Rick Grimes), só para citar alguns exemplos. A meu ver, a estrutura da trama é semelhante a de estórias de aventura e mitologia, como Crônicas de Nárnia, Senhor dos Anéis, O Hobbit ou as historias de terror de Lovecraft, por exemplo. Nelas os personagens são apenas medíocres cidadãos de suas respectivas comunidades que são jogados contra a sua vontade num mundo completamente novo que promete aventuras, duras provações e descobertas; um mundo, enfim, que modificará completamente toda sua subjetividade a ponto de não enxergarem com o mesmo olhar seu passado, seu presente ou seu futuro. A hecatombe zumbi, portanto, não opera apenas como um destruidor das antigas hierarquizações de um mundo falido pela corrupção, mas também com um deslocador da própria visão de mundo dos personagens. A mudança ocorre num nível hermenêutico. Graças aos estudos sobre ideologia de Mannheim e, mais remotamente, as reflexões de Marx e Engels em A Ideologia Alemã, que os homens tem maneiras de pensar que são extremamente induzidas por suas formas de vivencia e por seu contexto sócio histórico. As mudanças de pensar dos indivíduos de uma sociedade ocorreria apenas se as estruturas desta sociedade fossem brutalmente abalados. Não é o que ocorre com os personagens de TWD? Todas as suas certezas que antes eram seguradas por um mundo onde as instituições pareciam mais firmes foi brutalmente destruída e, com ela, todas, ou quase todas suas ideias de normalidade e moralidade tiveram que ser revistas. Aqui o que reina é a incerteza, a maldição e a morte. O mundo realmente acabou? Ainda é possível reconstruir as coisas como eram antes? As antigas leis que tínhamos antes ainda podem ser postas em práticas se criarmos uma comunidade ou temos que começar do zero, como fizeram nossos ancestrais?

Contudo, os grandes astros da trama não são Rick Grimes e seu grupo, são os zumbis. Eles são os elementos dinamizadores do enredo. São o elemento anárquico, ambivalente e destruidor. Os zumbis são a variável do qual o Estado e a sociedade não foram capazes de medir, controlar e homogeneizar. Eles são a ambivalência materializada. A contradição social extrema. O lado negro revelado. O impensável, o incalculável, o indizível e o incontrolável. Os Walkers são a materialização do fracasso social, do fim da modernidade e de um projeto de civilização.

O fim e o fracasso da construção iluminista de sociedade — é isso que o seriado representa. Portanto, TWD situa-se no hall de histórias distópicas que povoam a literatura e as artes desde o inicio do século XX, entre as quais estão 1984, de George Orwell e a Guerra dos Mundos de H.G. Wells, que mostram um projeto falido de modernidade, de civilização e de sociedade. A distopia mostra todo o lado escuro do progresso e como esse lado obscuro pode, a qualquer momento e inevitavelmente, emergir e se apossar de tudo o que temos, de tudo que acreditamos e de tudo o que somos. As obras literárias distópicas foram muito comuns na primeira metade do século XX sua descrença em relação ao progresso material da sociedade diverge radicalmente das obras utópicas, que foram tão famosas na literatura e no pensamento social moderno entre os séculos XVI e final do século XIX. O desenvolvimento do capitalismo, os avanços da ciência e o esfacelamento dos laços feudais fizeram com que o homem moderno tivesse uma crença absoluta de que a estes valores, se radicalizados, poderiam levar indiscutivelmente ao melhoramento progressivo da humanidade, eis a utopia idealizada.

O pensamento utópico se espraiou tanto pela literatura quanto pelo pensamento filosófico e social, seus principais representantes foram Thomas Mann, Thoreau, Rousseau, Whitman e o pensamento socialista do século XIX, dentro do qual a teoria marxiana é o seu maior e mais consistente expoente. Mas o que aconteceu para que a crença na modernidade e no progresso se transformasse num profundo ceticismo em relação ao futuro da humanidade? A partir de quando isso aconteceu? A resposta está justamente nos desdobramentos colaterais que a expansão ininterrupta do capital trouxe para a humanidade. Se a partir das ruinas do feudalismo e até o fim do século XIX a sociedade europeia plantou as sementes e viu crescer e florescer essa estrondosa árvore chamada de modernidade, foi no século XX que percebemos que ela estava repleta de ervas daninhas e que seu seus galhos começaram a nos envolver e nos prender com ou uma grade de ferro. Foi no século XX que notamos as consequências do modo de vida moderno: duas grandes e devastadoras guerras, uma crise brutal do capitalismo, a divisão do mundo em dois blocos de poder, os riscos de uma grande guerra nuclear, lutas dos povos dominados da Ásia e África se emanciparem frente as potencias europeias e a queda de hegemonia das velhas nações do velho mundo. Todos esses processos se deram a custa de milhares de vidas humanas e acabou sendo inevitável que o pensamento social da época captasse as nuances da tragédia da modernidade no século XX e, ao passar pelo seu filtro critico, concluísse que o capitalismo não significava uma libertação da humanidade, mas simplesmente, como dissera Weber, a criação de uma nova grade de ferro que só se esfacelaria quando a ultima camada de carvão fóssil fosse consumida. Agora, na contemporaneidade, há novas ameaças sobre a humanidade. O processo de radicalização da modernidade, liquefação de todas as instituições criadas por esta nos mostrou que estamos, mais do que nunca, jogados num mar tempestuoso, guiando um barco que navega sem rumo, sem objetivo, onde a certeza de nossas coordenadas pode ser radicalmente mudada dependendo do sabor do vento ou das marés. A modernidade liquida, a nova modernidade do mundo atual, trouxe consigo a ameaça de um desastre natural, de epidemias proporcionadas por germes criados em laboratório, de guerras por recursos naturais, por implosão de nossos valores mais caros e formações de radicalismos e de fundamentalismos religiosos, econômicos, morais e etc. Só o que parece mais firme para nós, pobres homens modernos, é a incerteza e o niilismo — nada tem sentido, nada parece valer a pena e o proposito das coisas simplesmente desmoronou.

TWD espraia-se nessa preocupação muito forte no mundo atual. A sociologia, a economia, a filosofia, a historia e todas as outras ciências humanas estão preocupadas as consequências trazidas por séculos de modernização, de racionalização, de industrialização e de expansão ininterrupta do capitalismo moderno. TWD, a meu ver, é uma metáfora da falência de nosso projeto de civilização. Os zumbis, o desespero, o niilismo dos personagens são alegorias que propiciam uma ontologia ou uma alegoria dos dilemas da modernidade liquida. A aclamada Hq de Kirkman, em toda a sua complexidade dos temas tratados, do jogo hermenêutico de destruição dos valores e visão de mundo dos personagens, da desintegração completa da sociedade e da emergência de novas desigualdades e hierarquizações e da vivencia num mundo onde apenas a incerteza é a única coisa mais firme nesse mundo cinzento é, por assim dizer, uma metáfora perfeita da distopia em que vivemos.

Por isso ela faz tanto sucesso; de reverenciada historia em quadrinhos a uma bem sucedida serie televisiva, seu segredo não está num enredo de uma história genérica de terror, pois tantos filmes de mortos vivos já foram produzidos, mas na maneira como trata seus temas, seus personagens e, acima de tudo, consegue tocar nossa subjetividade como uma distopia da vida moderna.

Em meio ao niilismo extremo ainda há esperança. Mesmo sabendo de todo o horror que os cerca, a intenção de continuar a qualquer custo, de procurar um lugar que ofereça a possibilidade de um novo recomeço, como em Alexandria. È um dos ímpetos mais incríveis do homem moderno é continuar, apesar de tudo, da dor, do horror, da morte, das guerras e das epidemias.

A luta para a superação da distopia ainda é possível.

Arte, Ciência e Sociologia

O interesse do artista na forma é o interesse do cientista na estrutura. Em cada um, o desejo de visão e entendimento é dominante. Cada um trabalha empiricamente; luta para comunicar sua descoberta através de um padrão ou uma estrutura formal que requer técnica para ser dominado. R. Nisbet

O desenvolvimento do pensamento moderno durante os dois últimos séculos acabou por criar e propagar uma imagem de que a ciência e a arte são coisas completamente diferentes. Ou seja, tornou-se senso comum a tese de que a mente cientifica é impulsionada pelo estudo sério, pelo apego rígido a métodos previamente aprovados e pelas observações empíricas mais elementares; enquanto que o artista seria movido pela beleza, pelo dom da inspiração e pela ojeriza a sociedade.

Mas para o sociólogo Robert Nisbet em seu ensaio A Sociologia como uma forma de Arte, essa forma de imaginar estas duas esferas do pensamento humano não poderiam estar mais equivocadas, pois tanto ciência quanto arte são, na verdade, duas representações diferentes de uma característica humana — a busca pela verdade. Tanto o artista quanto o cientista estão preocupados em compreender o universo e se comunicar, por meio de sua subjetividade, com o mundo a sua volta.

Se recuarmos até o Renascimento, veremos que o artístico e o cientifico eram manifestações diferentes de uma mesma mente criativa.

“O homem da Renascença viu o mundo a sua volta a partir do vantajoso ponto de vista do artista cientista; não algo para ser reverenciado ou para manipular, mas para entender e dominar (…)” (pg. 119-120)

Esta separação radical entre arte e ciência começou a ganhar espaço a partir da revolução industrial e da revolução francesa, quando, com os processos levantados pelos movimentos sociais e pela divisão do trabalho criaram a concepção de que artistas e cientistas trabalhavam de maneiras extremamente antagônicas. No século XIX essa aparente separação radicalizou-se com o romantismo. Imaginava-se que o artista era movido pelo gênio e pela inspiração, nunca através de estudos constantes e da experimentação — preocupado com a arte e com a beleza, isolava-se do mundo como um antídoto contra a civilização industrial. Do outro lado estava a ciência, recrutada para as fileiras da sociedade capitalista e totalmente englobada pela tecnologia utilitarista “fazendo dela não mais o que havia sido por séculos, fundamentalmente a atividade da mente reflexiva, mas uma profissão governada pelos códigos e critérios do serviço, tal como o direito, a engenharia e a medicina.”

Assim, a ciência do tipo aplicado foi ganhando espaço entre as universidades americanas e européias. Acreditou-se que a ciência estaria preocupada apenas com a realidade, enquanto a arte serviria apenas para aguçar e agradar aos sentidos.

Espalhou-se e idéia de que a ciência, diferentemente da arte, flui através dos mesmos canais metódicos e sistemáticos que os negócios ou o direito ou a medicina. Sentia-se que o crucial não era a reflexão livre, a intuição e a imaginação. Mas a rigorosa aderência aos procedimentos. A maquina na fábrica havia provado que a habilidade poderia ser transferida do homem para a tecnologia, fazendo da engenhosidade humana um item dispensável. Não poderia o método ser análogo da maquina? Muitas gerações de americanos pensavam que sim, escolas e colégios ficaram cheios de estudantes aprendendo fielmente o que se pensava ser método cientifico — não, infelizmente, como uma ajuda ao raciocínio, mas como um substituto dele. (Pg.115-116)

Mas o artista também procura, tanto quanto o cientista, interpretar a realidade. Ele procura apreender o mundo a sua volta através de sua subjetividade e comunica sua visão da Verdade Universal para a sociedade.

A sensibilidade do artista o faz captar as novas relações geradas no interior do tecido social; o faz sentir, primeiro que o cientista, pequenas mudanças que anunciam eventos que ainda estão por surgir — a intuição da mente cientifica para a sociedade é muito mais clarividente que a da mente cientifica, cuja percepção para os novos eventos se processa de maneira mais lenta.

Os problemas e as respostas que formam o núcleo da cultura moderna são o trabalho, não dos Úteis da sociedade, mas dos Visionários, daqueles que se perdem em conjecturas e que, sem saber para onde estão indo, vão por isso mais longe. (pg.120)

Reduzir as ciências humanas em simples manuais metodológicos, questionários e técnicas de tabulação, apenas tolda a capacidade dos alunos em desenvolver sua própria imaginação icônica e avançar mais longe em suas pesquisas — limitar a realidade em simples tabelas estatísticas restringe a capacidade critica do pesquisador e o que resta é somente as “generalizações superficiais da pratica do senso comum”.

O sociólogo americano Robert Nisbet (1913-1996): arte e ciência caminham juntas.

Se observarmos os grandes nomes da sociologia, Giddens com a sua teoria dos sistemas peritos e da modernização reflexiva; Beck com seus estudos sobre a sub-política; Bauman com sua tese da modernidade liquida; Weber a dominação racional; Simmel e suas reflexões sobre o dinheiro e sobre a vida nas grandes cidades; Durkheim e o fato social; Faoro e o patronato político; Holanda e seu homem cordial; perceberemos que suas inovações e reflexões perspicazes não vieram através de um apego rígido aos velhos e antiquados manuais de pesquisa técnica, foram sobretudo fruto de um cultivo intenso da atividade intelectual, com a leitura de um imenso arco teórico, que abarca filosofia, sociologia, historia, literatura, psicologia, psicanálise e tantas outras áreas que lhe permitiram reagir ao mundo que os cercava, desenvolver a perspicácia, inteligência imaginativa e a intuição para inovar, ir adiante e tornarem-se hoje dignos dos louvores que hoje recebem.

Somos dependentes, segundo Nisbet, destes conceitos da mesma forma que os artistas são dependentes de seus mestres. Assim como o escritor ainda aprende algo ao reler Balzac; o pintor ao estudar os traços de Van Gogh; o músico apreende algo ao escutar Antonius Rex ou Bach; nós ainda aprendemos muito ao reler As conseqüências da Modernidade, O suicídio ou O capital.

A arte abomina sistemas, e assim procede tudo o que é criativo. A historia é o cemitério dos sistemas e é precisamente por isso que Simmel e Cooley e Summer mantêm-se atuais e valiosos para nós hoje e porque poucos lêem Spencer ou Ward. Com qual freqüência os construtores de sistemas produzem estudantes que são criativos e viáveis? O sistema mata, o insight dá vida. O que resta hoje do nominalismo, do realismo, do sensacionalismo, do pragmatismo e de todos os outros sistemas que uma vez desfilaram nas terras da Europa? Mortos, todos mortos. (Pg. 129)

Não se forma um estudante nas ciências humanas ou sociais fazendo-o analisar os velhos e antiquados sistemas e métodos de pesquisa, mas sim apresentado-o toda a riqueza da cultura e do pensamento humano, pois como afirma Nisbet: “Sistemas tornam-se facilmente burocracias do espírito, sujeitos as mesmas normas e regulamentações insignificantes.”

Conhecimento e Educação em Kant

Considerado como um dos grandes filósofos da era moderna e um dos grandes críticos ao pensamento metafísico medieval, Emmanuel Kant (1724-1804) representa uma verdadeira revolução para a historia da filosofia.

O filósofo  está incluído na nova tradição do pensamento ocidental que postula a supremacia da razão natural como premissa básica para o desvendamento objetivo da realidade. Ao conceder a razão o monopólio do conhecimento, os homens tornar-se-ão livres de quaisquer imprecações religiosas que o impeçam de conhecer, manipular e desvendar os mistérios do mundo — eis o ideal mais caro ao iluminismo, que minaria todas as antigas concepções medievais.

Ao contrário da filosofia clássica, ou metafísica, que defendia a preocupação em especular sobre a essência do mundo e das coisas, a filosofia moderna, que começa a surgir no século XVI, vai se concentrar na questão do conhecimento, debater a capacidade do ser humano em apreender esta própria realidade, discutir este processo e estabelecer seus limites para o ato de conhecer. Os filósofos modernos, entre os quais está incluido Kant, mostram que não há como chegar a essência das coisas, a única saída, portanto, é dedicar-se aos conhecimento dos fenômenos — aquilo que é percebido pelos nossos sentidos. Assim será possível compreender o mundo e tornar-se um co-criador da realidade circundante.

Para criar a sua própria teoria, Kant une duas correntes de pensamento aparentemente opostas do pensamento ocidental: o empirismo do inglês Hume e o inatismo do francês Descartes. Para o autor de Critica da Razão Prática, o conteúdo do conhecimento se dá a partir das informações sensíveis aos sentidos e organizado por uma estrutura inata presente no sujeito conhecedor que organiza, analisa, cataloga e sistematiza os dados. A mente humana, portanto, não é uma tabula rasa onde as informações são armazenadas mecanicamente, e nem uma estrutura em que as idéias estariam já previamente escritas. O ato de conhecer é um processo de síntese e não de analise. Kant mostra que o sujeito conhecedor não é um ser passivo diante da realidade, mas alguém que assimila os dados e os interpreta de uma maneira singular.

Além das intuições sensíveis e das formas únicas de cada individuo em organizar o conhecimento, existe uma terceira faculdade: a razão, responsável pelas idéias. Metafísicos como Aristóteles, Platão e Tomas de Aquino erraram ao confundir os objetos da idéia e do pensamento como se fossem conteúdos do conhecimento. O simples fato de imaginar as idéias de alma e deus não são suficientes inferir que estas entidades existam para se tornarem objetos de conhecimento. Apenas a ciência possui a primazia do ato de conhecer e apenas os fenômenos sensíveis podem ser conhecidos.

Entretanto, as categorias de alma e deus, mesmo não sendo conhecidas, devem ser pressupostas, pois elas são condições básicas para a fundamentação da moralidade, requisito indispensável da convivência humana. Os homens praticam o ato moral não como uma circunstância histórica ou cultural, mas como uma força universal de caráter transcendental — para Kant, o fato de o homem ser um ser moral demonstra a existência de alma e a existência de deus.

Portanto, para o aperfeiçoamento da sociedade, a ética deve ser seguida do mesmo modo que esforço de incorporação do conhecimento cientifico, pois ambas fazem parte da estrutura da experiência humana.

Apesar de não ter escrito diretamente sobre educação, sua filosofia aborda o tema de maneira transversal em toda a sua obra. Para ele a razão de ser de toda sociedade basicamente é a construção da emancipação coletiva e individual. Para isso é necessária a busca incessante da disciplina; não a disciplina opressiva, mas uma disciplina que o possibilitasse controlar seus instintos e tornar-se um cidadão autônomo, prudente e capaz de resolver de forma pacifica as circunstancia adversas que o mundo e sua época lhe apresentam. Para que isso se concretizasse, Kant defendia a expansão do conhecimento cientifico, do ensino da arte e da estética.

As concepções do pensador alemão sobre a função da ciência e do conhecimento seguem a corrente progressista da época em que a razão instrumental, instrumento útil para a manipulação do mundo em prol da humanidade (diga-se capitalismo) tentava ganhar terreno contra os poderes constituídos na época: a igreja católica, a nobreza e a monarquia, que impediam que novas forças sociais se desenvolvessem plenamente. Nos tempos atuais estas premissas, antes revolucionárias, tornaram-se o próprio senso comum e um valor passível de criticas e revisões.

Apesar de seu esforço para o aperfeiçoamento humano, a razão instrumental foi responsável por várias conseqüências nefasta para a humanidade; contribuiu para a hiper exploração dos povos oprimidos — antes no papel de colônias e agora metamorfoseados em paises emergentes; assim como a concepção de que a natureza deveria ser manipulada e alterada em favor do homem propiciou uma devastação irresponsável e sem precedentes do tecido ambiental do planeta.

Embora passível de crítica, as lições kantianas a respeito do conhecimento e da educação, apesar de transpassadas por toda uma gama de preocupações eminentemente históricas, fornece reflexões sobre questões bastante atuais, como de onde viemos, para onde vamos, o quê e para quê devemos aprender.

Sentenças

Estes tempos são tempos de caos; as opiniões são uma disputa; os partidos são uma confusão; ainda não foi criada uma linguagem para as novas idéias; nada é mais difícil do que dar uma boa definição de si mesmo em religião, em filosofia, em política. Sente-se, conhece-se, vive-se e, se necessário, morre-se por uma causa, mas não se pode denominá-la. É uma problema desta época classificar as coisas e os homens… O mundo embaralhou o seu catálogo.

Lamartine (1790-1869)