Rimbaud e o Natal

RimbaudQuando iremos afinal, além das praias e dos montes, saudar o nascimento do trabalho novo, da nova sabedoria, a fuga dos tiranos e demônios, o fim da superstição, para adorar – os primeiros! o Natal na terra!

O cântico dos céus, a marcha dos povos! Escravos, não amaldiçoemos a vida.

Que venha esse Natal na terra.

Do Livro: Uma temporada no Inferno.

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Carol Of the Bells: uma metáfora do Natal

 

Poucas músicas, para mim, sintetizam de maneira tão forte esse sentimento natalino que domina o imaginário do mundo todo.  Sempre que a escuto lembro-me da atmosfera aconchegante da reunião em família, dos parentes trocando presentes, de assistir Mágico de OZ ou da minha ansiedade, de quando era criança, em saber qual presente eu finalmente ganharia.

Escolhi a versão do Trans-Siberian Orchestar porque ela acrescentou o peso do Heavy Metal, deixando única mas mesmo assim sem perder sua identidade.

O Banquete de Natal

Na véspera de natal do ano de 2010, fui envolvido numa situação que jamais imaginaria um dia estar. Estávamos numa festa na área de convivência do edifício onde Cláudio Paiva morava. Já era quase meia noite. Ouvíamos centenas de fogos anunciando iminência da data que em séculos anteriores era conhecido como o solstício de verão. Os convivas da festa bebiam vinho e exultavam com a festividade que, em tempos recentes, funcionava mais como uma prévia do final de ano que como a antiga celebração do nascimento do Galileu.

Eu bebia com dois amigos, próximo a piscina. Um deles era Roberto Mendes, advogado tributarista que presta bons serviços ao partido do governador. Homem alto e de expressão muito séria, já com os seus quarenta e quatro anos. O outro é Adalberto Romanelli; tem pouco mais de cinqüenta, muito branco e com cabelos grisalhos e olhos cinzentos. É dono de uma das mais conceituadas peixarias da cidade. Na churrasqueira outros se divertiam sentados a mesa bebendo e rindo alto. Todos os convidados ali eram pessoas muito próximas do poder e do dinheiro que movia Manaus. Tocava no aparelho de som portátil algumas canções aleatórias de MPB. As pessoas relembravam antigos contos de uma juventude que há pouco tempo havia passado.

Como sempre acontece com quem está bebendo muito, a vontade de esvaziar a bexiga me impôs uma ida ao toalete. Pedi permissão para subir para o apartamento e usar o banheiro, pois a latrina do espaço de festas estava ocupada. Depois que aliviei as necessidades fisiológicas, lavei a mão e fiquei por alguns minutos olhando-me no espelho do banheiro. Fiquei assim, por alguns minutos, sem qualquer razão aparente. Talvez porque festas nunca tivessem sido a minha diversão favorita, talvez porque em datas de final de ano sempre fora tomado por uma melancolia meio poética e meio niilista que, se imiscuindo no coração, parece a nevoa que toma conta das florestas e vales na época das chuvas.

Certas lembranças não muito confortáveis vieram-me a mente, como os momentos que tive com Paula e as conseqüências do meu gênio mulherengo que fizeram com que nós nos separássemos definitivamente…

“O que diabos eu estou fazendo aqui?” Foi a pergunta que me veio.

Lavei o rosto. Limpei as mãos e, quando sai do banheiro, Suzana, mulher de Claudio, estava ali, no corredor, me observando com um copo de vinho chileno na mão.

“Você demorou…” Disse ela.

Era uma mulher com seus trinta a quatro anos. Cabelos muito negros que caiam até o ombro. Olhos castanhos claros e um busto proeminente escondido por detrás do vestido azul que modelava os quadris pequenos.

“Você quer ir ao banheiro? Não me dei conta de que mais gente queria usar…”

“Não… Não quero…” Tomou um gole de vinho.

“Estão me esperando?”

“Só eu que tava te esperando…” Ela colocou calmamente o copo já quase vazio sobre o criado mudo e prosseguiu. “Todos estão distraídos lá na frente… O estúpido do meu marido tá dando em cima da Deise…”

“Como é?”

“Não se faça de burro, Beto…” Ela parou por um momento, como se tentasse engolir algo que estivesse quase a sair pela garganta.

“Vocês são amigos desde a infância… Eu sei que você dava cobertura para ele se encontrar com as piriguetes lá da Zona Leste…”

“Suzana, eu acho que você está enganada… Eu nunca…”

“Cala a boca e me beija…”

Mal acabou de formular essa ultima frase e caiu sobre meus braços, tapando a minha boca com os lábios dela e enchendo-me do seu hálito com cheiro de vinho e volúpia.

Confesso que não resisti por muito tempo. Nem poderia. E não queria. A sensação de ter uma mulher tremendo de desejo e luxuria nos braços é uma sensação que poucos homens, ou talvez nenhum, conseguem resistir. Embora ela não seja mais ou menos encantadora que as mulheres que costumo sair, Suzana sempre me pareceu ter um charme que em muito me fascinava. Um jeito próprio de falar, uma maneira peculiar de ajeitar o cabelo ou mesmo o jeito de se vestir que me atraia…

Mas sempre mantive esse fascínio comigo. Não fazia comentários sobre isso para evitar embaraços.

“Não era pro meu bico…” Pensava.

E quem poderia imaginar que Suzana Meirelles, pediatra com um dos mais importantes consultórios de Manaus, casada com o empresário e filho de um Senador da República, estaria se jogando nos meus braços, implorando para fazê-la minha? Eu, Alberto Souza, um professor universitário e escritor da tragédia manauara…

A porta do banheiro estava aberta e rumamos para lá.

Depois de beijos desesperados. Levantei seu vestido, tirei sua calcinha e penetrei nela ali mesmo, no banheiro. Depois ejaculei dentro. Não tive pena. Todo aquele tesão acumulado, que esperava há anos por ela, foi finalmente posto pra fora.

Não posso precisar quanto tempo demorou. Estávamos exaustos. Ela arrumou o cabelo daquele jeito que eu gostava tanto, pós a calcinha, ajeitou o vestido e enxugou o rosto de suor.

“Preciso voltar logo…” Disse, saindo ás pressas.

Limpei o meu pênis, estava melado com sêmen de vagina de burguesa, e fui para a varanda da cobertura onde observei por muitos minutos as avenidas do Adrianópolis tomadas por aquelas centenas de luzes vermelhas, sons de sirene, buzinas e ranger de motores… Eu não conseguia, embora eu tentasse, pensar em nada mais profundo que isso:

“Puta que paril… Que situação mais louca…”

Quando voltei, vi Claudio e alguns outros na mesa jogando dominó. Suzana também estava lá. Ela parecia feliz. Agia com muita naturalidade, sentada ao lado do marido e apoiada em seu ombro enquanto ele preparava as peças para iniciar sua jogada. Por debaixo da mesa tive a impressão de ter visto Deise passar a ponta do pé pelo calcanhar de Claudio. Mas era só uma impressão, porque eu já estava completamente bêbado.

“Ei, cara… Se perdeu, foi?” disse Claudio, em tom de galhofa. Ele era um cara bastante forte. Sobrancelhas grossas sobre os olhos claros, pele bronzeada e cabelos muito finos que eram sempre penteados para trás.

“Me perdi nas pernas da sua esposa…” Tive vontade de responder. Mas apenas disse: “Não…”

“Suzana disse que você não estava passando bem…”

“È… Parece que sim…” Enquanto respondia isso, a mulher de Claudio me observava com um olhar ameaçador e ao mesmo tempo cheio de cumplicidade.

Sentei a mesa onde as pessoas estavam e fiquei olhando os convivas jogarem as peças de marfim na mesa enquanto soltavam grunhidos primitivos, feito macacos.

Alguns convidados se jogaram na piscina com roupa e tudo. Gargalhavam e bebiam uísque Red Label na boca da garrafa…

“Feliz Natal!” Ouvi alguém da rua gritando…