Prefeitura de Bubuia

AmazoninoNo artigo De volta a idade das trevas, analisei a vitória de Amazonino Mendes como algo negativo para Manaus, apesar do controvertido desempenho de Serafim Correia como Prefeito. As críticas que me fizeram foram muitas. Contudo, olhando o atual estado de coisas da cidade, o artigo mencionado tinha a sua parcela de razão.

Não fora necessário ter bola de cristal, ser Mãe Diná, ser Mágico de Oz, Walter Mercado e nem ser eleitor de outro candidato para saber que o candidato vencedor não possuía projetos para gerenciar a cidade. Um olhar rápido em suas propostas (sic), na época de campanha já era um prenuncio do que estaria por vir. Idéias que, além de vagas e imprecisas, eram impossíveis de ser postas em prática — realmente era incrível que poucas pessoas tivessem consciência disso.

O novo prefeito prometia fazer um verdadeiro rompimento histórico e implantar um paraíso na terra. Resolveria todos os problemas de Manaus em noventa dias, ampliaria o passa fácil, legalizaria os moto-taxistas e acabaria com o turno da fome — isso eram só algumas das promessas que seriam implementadas nos primeiros três meses de gestão…

Os fatos nos mostram, porém, que a atual administração se afunda nas próprias promessas. Não pode fazer nada pelos moto-taxistas, por exemplo, porque a exploração do transporte de pessoas sobre duas rodas é proibido pela Constituição; não é de seu interesse diminuir para vinte por cento o IPTU, porque a receita repassada pelo Governo Federal aos municípios diminuiu em virtude da crise, e com certeza a prefeitura não vai querer se livrar de uma valiosa verba como esta, o estigma fica para o Antecessor que atualizara a planilha de custos.

O turno da fome também não tem hora para acabar, o prefeito eleito se comprometeu que o extinguiria a partir do primeiro dia de gestão. A prefeitura já se incumbiu de aumentar a contingente de alunos que não podem ser matriculados nos horários normais para estudar das dez as duas.

As ditas carretas que serviriam como Prefeitura Itinerante, vagando pela cidade para coletar as reivindicações dos populares (como se fosse possível administrar Manaus em cima de ônibus) ou para dar internet de graça para os moradores, um serviço que seria muito caro e ineficiente, pois a internet móvel de Manaus ainda é muito ruim, também parece ter sido esquecida.

A atual gestão também amarga enfrentar o processo de compra de votos, as provas são extremamente contundentes, e há grandes chances de que o Prefeito não seja absolvido.

O escândalo de Walace Souza já começa a respingar no vice Prefeito. Os vereadores de oposição já até cogitaram chamá-lo para dar maiores esclarecimentos na câmara — a manobra tem sido barrada pelos vereadores de apoio da prefeitura.

A base de Amazonino, como Mirtes Sales e Leonel Feitosa (os mesmos que gastaram horrores com cartão corporativo) afirmam que a suposta inércia da atual administração vem do fato de terem herdado uma prefeitura bagunçada, e as verbas repassadas pelo Governo Federal terem diminuído. Entretanto, desde o segundo semestre de 2007 vários analistas econômicos afirmavam (como pesos pesados como Paul Grugman e Allan Grespan) que uma terrível crise estaria por vir, afetando todo o globo, e a arrecadação do Estado despencaria, limitando a capacidade de investimentos; portanto, se a base da coligação de Amazonino não adequara as suas propostas para esse pequeno detalhe, é algo que significa, no mínimo, incompetência…

Sociedade Contra o Estado

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Amazonino, Gilberto e Eduardo Braga: todos farinha do mesmo saco

Quando um povo não se acha identificado com o seu governo, quando este fica aquém das expectativas populares, as manifestações começam e os gritos de indignação surgem.

Foi o que aconteceu na ultima quinta feira (07 de maio) quando cinco mil estudantes (dado não confirmado) se reuniram a frente da Prefeitura em manifestação para pressionar o Prefeito, e a classe política como um todo, pela manutenção da meia passagem.

Foi quase uma semana inteira com protestos em vários pontos da cidade, com os estudantes das universidades públicas e secundaristas, amarrando os gargalos estratégicos da cidade, gritando a palavra de ordem: sou estudante, não sou otário, não vou pagar vida mole de empresário.

A mídia conservadora e organizações estudantis de fachada tacharam os estudantes que protestavam de baderneiros. Desafio-os então a usar, durante uma semana apenas, o nosso aconchegante sistema de transporte coletivo, também apelidado de navio negreiro, em horários de rush, e saber o porquê de ele não valer nem dez por cento da taxa atual cobrada.

Os empresários de ônibus, enquanto alardeiam a iminência da bancarrota, não conseguem convencer a população em sua relutância para não mostrar a sua planilha de custos, e nem o porquê de não terem melhorado a frota em 2007 — uma de suas contrapartidas que justificava o reajuste da taxa para dois reais.

Mas e ai?

Pois é, leitor amigo. Já estamos entrando no quinto mês da nova velha administração e esta ainda não fez jus aos votos que a elegeu.

Amazonino pensava que ainda era possível governar a cidade com os mesmos métodos de antes, prometendo picanha, mas servindo carne de pescoço, prometendo uísque Black Label, mas servindo cachaça Amansa Corno, deixando o dito pelo não dito…

Contudo, Manaus mudou; nossa cidade não é mais um porto de lenhas, está mais complexa, vários segmentos da sociedade civil estão mais organizados e pressionam os poderes públicos pelo cumprimento de seu papel.

A informação não é mais monopolizada pelos tradicionais latifundiários da mídia, hoje pululam vários sites de mídia alternativa fazendo uma fiscalização eficiente do Estado, disponibilizando informação gratuita e segura.

Não é mais tão fácil esquecer promessas mirabolantes feitas durante a campanha, pois todas elas são automaticamente armazenadas no youtube por usuários anônimos…

Aquilo que foi a ruína de Serafim Correia também está significando o Calcanhar de Aquiles de Amazonino Mendes.

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Karl Marx e a Revista Veja.

No artigo anterior, Um espectro ronda o mundo, abordei a volta das teorias de Marx ao centro do debate intelectual e como seus conceitos nunca perderam a vitalidade. Agora, o caso é tecer alguns comentários sobre o que a imprensa conservadora acha desse retorno, em especial uma das latifundiárias da mídia brasileira, a conhecida Revista VEJA.

O semanário de Roberto Civita, arquétipo do jornalismo neocon da imprensa nacional, também resolveu fazer mais uma de suas “profundas analises” sobre o fórum de Davos e sobre a presença, mesmo que discreta, do materialismo histórico nas discussões…

Era mais um dessas corriqueiras matérias disfarçadas de panfletos tão comuns da revista (estranhamente, ela nem sequer foi assinada), publicada na edição do dia 4 de fevereiro, intitulada O Fórum Social de Davos.

A ira de Veja contra o autor de O Capital não é novidade, assim como seu total desconhecimento em lidar com os conceitos marxianos. Contudo, o que mais surpreendeu, foi a visão completamente ingênua da dinâmica da crise — algo impensável para uma revista considerada a terceira maior do mundo. A revista afirmava categoricamente que o problema não estava na configuração do sistema enquanto tal, mas simplesmente na decisão de alguns “incapazes” em gerir a economia.

Tomando uma perspectiva totalmente anti-histórica sobre o processo econômico-social, Veja esvazia o debate e mascara as reais distorções inerentes ao sistema capitalista; ao advogar a visão de que o capitalismo é apenas feito de indivíduos e de suas ações isoladas, ela esquece que estes mesmos indivíduos tecem relações entre si por meio do trabalho, criando e sofrendo conseqüências imprevistas no tecido social… Já dizia o bom Durkheim: as consciências particulares, unindo-se, agindo e reagindo uma sobre as outras, fundindo-se, dão origem a uma realidade nova que é a consciência da sociedade.

A revista, ainda por cima, sempre com aquele tom descabido, como se ela estivesse falando de meninos do maternal que de repente fazem uma travessura, criou uma cartilha para os dirigentes perguntarem-se a sim mesmos durante as discussões:

“O que EU fiz de errado que ajudou a nos colocar nessa encrenca.” Antes de voltar para casa, seria uma boa idéia cobrar deles um depoimento de despedida com o tema: “O que EU farei para que a crise seja menos cruel de que se anuncia e não mais se repita.” Como o eu sumiu de Davos, a visão sistêmica e coletivista do determinismo histórico marxista se instalou, mesmo que pouca gente tenha dado conta disso.

A matéria não poderia ter sido mais bizarra…

Considerar o processo histórico como algo natural, principalmente a constituição mais recente da sociedade como o estágio mais avançado e inevitável, é uma concepção típica dos segmentos sociais que dela se beneficiam, como já constatara Thoreau: O homem rico (…) é um ser vendido á instituição que o enriquece. Entretanto, é realmente grotesco um semanário se imbuir de uma certeza postiça e proclamar a invalidez de um pensador que, dentro das limitações teóricas do século XIX, conseguiu fazer uma das maiores analises do sistema capitalista.

Algum filósofo foi consultado? Algum economista? Algum sociólogo? Nenhuma menção, nenhuma referência… Apenas conjecturas vãs… Apenas o velho estilo venenoso e acusador…

Não é a toa que a “Qualidade Veja de fazer Jornalismo” é campeã de processos judiciais e amargou no ano passado a maior queda do número de assinantes entre as revistas semanais.