Max Weber e a Jaula de Aço do Capitalismo Moderno

WeberUma das facetas mais interessantes a cerca do sociólogo de Munique é o seu pessimismo cultural referente às mudanças pelas quais a Alemanha e o mundo estavam vivendo no final do século XIX e início do século XX, conforme é explorado na obra de Michel Lowy, A Jaula de Aço: Max Weber e o Marxismo Weberiano (2014).

Por pessimismo cultural (Kulturpessimismus) entende-se como uma desconfiança perante as mudanças causadas pelo capitalismo e pela técnica numa sociedade em acelerada transformação. Ele era uma marca da elite acadêmica alemã do período, que sentia-se ameaçada diante da modernização e apontavam para a dissolução da comunidade e dos valores genuínos no labirinto do anonimato, da impessoalidade e da tecnologia, conforme relata Fritz Ringer em O Declínio dos Mandarins Alemães: a comunidade acadêmica alemã (1969).

O pessimismo cultural pode assumir muitas formas, sendo um dos seus mais conhecidos representantes Friedrich Nietzsche, a quem Weber admirava, e estava presente em muitos espectros políticos. Na direita ele assumiu uma preocupação com a decadência das elites e da nação; à esquerda tomou forma como uma desconfiança com relação ao mundo burguês, à liberdade, e à racionalidade instrumental e o que elas poderiam trazer para a vida dos trabalhadores e do homem comum.

Sua origem remonta ao surgimento do romantismo, no início do século XIX. Não pode ser tomado como simplesmente uma corrente literária, mas umas das principais formas de sensibilidade moderna diante das consequências do iluminismo e do capitalismo — que começava a se tornar um sistema mundial. Era um protesto contra a nascente sociedade moderna em nome de valores do passado, como a honra a lealdade e a moralidade. Havia a oposição entre Kultur, considerada como uma série de valores éticos, culturais e religiosos e a civilização, tido como o universo da técnica, da impessoalidade, do cálculo e da burocracia. Portanto, nessa visão de mundo temos a oposição irreconciliável entre a comunidade orgânica do passado longínquo e a sociedade moderna fundada no mercado e no contrato social (Lowy, p. 43).

Para compreender o pessimismo cultural de Weber precisamos remontar a sua tese sobre a formação do capitalismo desenvolvida no fundamental A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (1904), onde apresenta o nascimento do capital como resultado da ação social de determinados grupos, as seitas protestantes do final de idade media e início da era moderna, cuja singularidade cultural se caracterizava por uma visão do trabalho como um meio de adoração a deus. Ascéticas, disciplinadas, desprezando os prazeres mundanos, voltado para a acumulação dividendos e enxergando a riqueza como uma prova da salvação divina, as ceitas protestantes acabaram por dar forma, mesmo que sem a intenção, à ação social do moderno empreendedor capitalista do nosso mundo — calculista, disciplinado e devotado ao trabalho e a acumulação de fortuna.

O protestante quis ligar-se a deus através de uma ética do trabalho e conseguiu, mas o custo disso foi a criação de uma sociedade que, em vez de prometer a libertação do homem, criou novas formas de servidão. A ascese puritana, conforme Weber afirma, quer criar o bem mas sempre cria o mal. Ao se tornar a forma de sociabilidade dominante, perdemos o senso de universalidade e em seu lugar fomos forçados a adotar a especialização extrema, perdendo a liberdade e a capacidade de escolha. O poderoso arcabouço da maquinaria e da técnica moderna, que é a ciência posta a serviço do capital, determina com um poder de coerção nunca antes visto o destino de milhares de homens e mulheres que se transformam em coisas, em bucha para alimentar o canhão do mundo industrial; tudo isso talvez só acabará quando a última tonelada de carvão fóssil seja consumida — eis o que é a Jaula de Aço, onipresente, onipotente e inevitável…

O debate diante a destruição do genuíno, do belo, do eterno e sua substituição pelo artificial, pelo número e pelo impessoal era uma das principais pautas de discussão tanto entre a elite acadêmica alemã quanto na sociedade civil. Weber, enquanto atento observador do seu mundo, acompanhou de perto as polêmicas em torno do assunto. Contudo, nosso autor não se filiou completamente ao pessimismo em sua variante conservadora ou à sua vertente critica, ou socialista. A posição dele era mais ambivalente, de onde nasceu sua original e complexa analise do capitalismo. Ele era liberal, acreditava que o capitalismo era o mais eficaz sistema social já criado e era um nacionalista alemão, defendia um estado forte capaz de liderar o processo de construção nacional. Apesar de ver com desconfiança o processo de modernização da sociedade, ele não via como a volta ao passado de valores pré-modernos ou a utopia e a construção de uma sociedade futura poderiam ser saídas viáveis para o mundo contemporâneo. Sua posição era de um individualismo heroico, influenciado por Friedrich Nietzsche, apegado aos verdadeiros valores de universalidade nascidos durante a Renascença, que observa com o um olhar arguto e critico o mundo mudar e ser imerso cada vez mais na Jaula de Aço do capitalismo moderno.

As teses de Weber sobre o capitalismo ainda são extremamente atuais. Enquanto os economistas liberais, bem como todos os outros ideólogos do ortodoxismo vulgar, advogam a retirada das proteções trabalhistas e sociais que os trabalhadores secularmente conquistaram em nome de uma suposta dinamização da economia, percebemos com o capital se descolou da sociedade. A economia, ao invés de servir à sociedade e àqueles que realmente produzem, acabou se tornando um monstrengo controlado por rentistas, por altos burocratas, por megaempresários e pelo capital global.

A tudo isso que as elites nacionais e globais chamam eufemisticamente de ajustes e politica de austeridade, nada mais são do que estrangular o mundo social, o homem comum, o trabalhador… Nós é que somos os ajustáveis, os que devem sofrer com a austeridade, a bucha de canhão a serem queimadas e descartadas pelo arsenal do Capital e sua Jaula de Aço.

Sem embargo, precisamos meditar respeito de que tipo de sociedade queremos, aquela que dá a possibilidade de um desenvolvimento pleno e democrático das virtudes humanas ou esta onde todos estamos aprisionados por um sistema cujos mecanismos de controle estão completamente fora do nosso alcance.

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House of Cards: os limites da democracia liberal

Chouse-of-cardsonsiderado como um dos seriados mais aclamados e polêmicos da atualidade, House Of Cards, produzido pela Netflix, demonstra de maneira realista os bastidores, a competição e a luta pelo poder dentro do país mais poderoso do mundo, os Estados Unidos da América.

Nela vemos a história de um congressista democrata, Frank UnderWood, que, depois de ter trabalhado duro pela vitória do candidato a presidência de seu partido, Garret Walker, se vê traído ao perceber que o vencedor não cumprira a promessa de nomeá-lo como Chefe de Estado. Isso detona toda a trama da história. Agora, o deputado, para vingar-se, tentar subir na esfera de poder pelos seus próprios meios, nem que isso signifique trair aliados, espalhar notícias falsas pela imprensa para derrubar adversários, dar maus conselhos ao presidente para prejudicá-lo ou até mesmo matar pessoas capazes de representar algum problema para seus planos.

A maneira como é mostrado a ascensão de Underwood, um verdadeiro Ricardo III moderno, ao mover-se gradativamente de satélite para o centro irradiador do poder, é extremamente convincente, retratando as negociatas, as traições, o jogo duplo de todos os atores políticos e econômicos num pragmatismo seco e chocante. Tudo isso temperado pelas reflexões ácidas do protagonista, como por exemplo, quando ele, ao conquistar finalmente a presidência, graças as suas artimanhas que resultaram no processo de impeachment do presidente Walker, diz: Eu me tornei presidente dos Estados Unidos sem ter ganhado um único voto…

Contudo, a saga, baseada na novela de mesmo nome de Michael Dobbs, se torna interessante não apenas pelo que ela mostra, mas também pelo que ela não mostra. Nela vemos deputados, senadores, prostitutas, lobistas, jornalistas carreiristas e assessores em uma competição constante, numa luta de todos contra todos, de grupos sustentados por poderes econômicos, onde alianças podem se desfazer conforme as circunstâncias ou conforme as intenções dissimuladas dos competidores. Mas, nessa luta incessante pelo poder, onde fica o zelo pelo bem público, os projetos de lei para aperfeiçoar a sociedade, os homens comprometidos com a coletividade? Mais ainda, onde estão os movimentos populares para pressionar pela reforma social? Esses, quando aparecem na série, apenas surgem de maneira colateral, não como coadjuvantes, mas como figurantes de um cenário. Surgem discretamente, feito instrumentos das negociatas politicas e logo somem, como nos episódios em que Underwood usou um projeto de reforma educacional para ganhar visibilidade no congresso, ou quando o sindicato dos professores são usados como instrumentos para mostrar a força do protagonista. Vemos que, em House of Cards, a Politicalha, para usar as palavras de Ruy Barbosa, ganha relevo sobre a Política. O zelo pelo bem público é atropelado pelo poderio econômico, pelo carreirismo de políticos que são verdadeiros sociopatas e por assessores mais interessados em manter o emprego e ajudar seus empregadores a aniquilar rivais, nem que isso custe destruir reputações lançando notícias falsas com ajuda de jornalistas venais.

Num mundo como esse os bem-intencionados terminam manipulados ou são cuspidos do jogo de poder.

Qualquer semelhança com a história politica do Brasil, desde a colônia, até os tempos atuais, não é mera coincidência…

Mas porque esse fenômeno acontece? Seria um processo que ocorre apenas por uma questão individual, pela desonestidade de nossos líderes ou seria uma consequência inesperada criada pela nossa própria sociedade, baseada no modelo liberal representativo?

Para responder essa pergunta precisamos reportar ao sociólogo alemão Max Weber (1864-1920), que se interessou em estudar o processo formação do estado moderno na Alemanha, a burocratização e a racionalização de todas as esferas da vida que, para ele, eram tônica da sociedade moderna. Apesar de liberal, Weber via com olhos céticos o processo de expansão do que ele chamava de capitalismo racional com relação a fins. O pensador também observou com muita atenção a consolidação das democracias liberais em todo o mundo, especialmente em seu país. Para ele, a partir do momento que a democracia liberal se firma como modo de governar dominante, ou se rotiniza, elas passam não mais a exercer as suas funções originais, no caso lutar pelo aperfeiçoamento da sociedade e pelo bem da população, mas trabalhar em prol de sua própria manutenção. Sem embargo, a nossa democracia e seus líderes, ao invés de estarem sintonizados com as demandas gerais da sociedade que os sustenta, se voltam para os seus próprios interesses. Não a toa, o sociólogo dizia que esse processo criava uma grade de ferro que pesava sobre os indivíduos e só teria fim quando a ultima tonelada de carvão fóssil fosse queimada.

Essa é a razão pelo qual vemos nossos congressistas, não apenas brasileiros, mas em vários outros países, conseguem aprovar com tanta facilidade emendas que aumentam seus salários, expandem suas verbas de gabinete, amplificam o número de assessores ou aprovam leis que beneficiam grandes blocos econômicos que patrocinaram suas campanhas; ao mesmo tempo, projetos de maior urgência para a população em geral são esquecidos.

São os mecanismos institucionais que se rotinizam e passam a trabalhar em prol de si mesmos, deixando de lado o real motivo pelo qual foram criados.

Isso prova que, ao contrário do que é alardeado pela mídia, o chamado Estado de Direito e a Democracia Representativa, longe de serem considerados a melhor forma existente ou a única possível, se trata de uma forma de governo extremamente limitada e distorcida, sujeita a desviar-se muito facilmente de sua função original.

Weber
O Sociólogo alemão Max Weber.

Embora House of Cards acerte em mostrar como funciona os mecanismos do poder, retratando o Congresso como uma casa de arrivistas, não chega, pelo menos ainda, a mostrar uma solução para uma reformar politica. Todos os inimigos de Underwood foram completamente destruídos. Também pudera, esse é um dos paradoxos da industria supostamente autônoma do entretenimento. Embora saiba dos defeitos da ordem social, uma saída nunca é esboçada, pois a própria Netflix se beneficia dela financiando vários lobistas na Casa Branca para fazer com que os interesses da empresa nunca sejam esquecidos… Apesar de toda torpeza que vemos nos personagens que lutam desesperadamente pelo poder corruptor e corrompido, este se apresenta como a única saída possível: ruim com ele, pior sem ele.

Cabe a sociedade, como o verdadeiro patrão do Estado e do Congresso, pressionar cada vez mais para que os procedimentos e as formas de financiamento de campanha sejam cada vez mais transparentes, sujeitando-se a uma gestão democrática e condizentes com as demandas da maior parte da sociedade: os trabalhadores.

House of Cards, ou melhor, os limites da democracia liberal.

The Walking Dead e a Distopia Moderna

imagesImagine um mundo em que toda a sociedade como a conhecemos ruiu. O estado, a policia, a escola e todas as instituições simplesmente deixaram de existir. O que há são apenas cidades devastadas com pequenos grupos de indivíduos miseráveis vagando como vagabundos; acrescente a isso que pelo mundo espalham-se uma quantidade infindável de zumbis, dezenas de milhares, tantas quanto são as estrelas do céu, cujo único propósito é se alimentar de carne humana…

Este é o pano de fundo do qual se desenvolve The Walking Dead. Uma famosa Hq, criada por Robert Kirkman, que tornou-se uma conceituada série televisiva dirigida por Frank Darabond.  Nela acompanhamos as desventuras de um grupo de sobreviventes, liderados pelo ex-policial Rick Grimes, vagando por cidades devastadas em busca de salvação. Ao contrário de outras obras que trataram do tema, TWD não se preocupa com as causas que levaram a epidemia ou mesmo com as articulações do governo na tentativa de barrar o avanço dos zumbis sobre as cidades. O espectador é jogado, assim como os personagens da trama, de chofre nesse mundo caótico e cinzento. Apenas percebemos o mundo pela lente dos personagens, que também não sabem quase nada do que aconteceu. O que sabemos sobre natureza do desastre vem apenas de informações desencontradas, pedaços desarticulados e fragmentários de relatos provindos dos sobreviventes. Eles, assim como nós, são pequenas formigas indefesas e sem rumo vagando pela vastidão aterrorizante de um mundo assombrado pelo desastre e pela morte.

Uma das inovações do universo criado por Kirkman é justamente no desenvolvimento emocional dos personagens. Eles não são apenas receptáculos dos fenômenos como em outras obras de terror, como acontece principalmente nas obras de Lovecraft — que ajudou a popularizar na narrativa de terror/fantástico. Os indivíduos que vemos se movimentar em TWD não são peças de um tabuleiro, são pessoas com histórias, medos, aspirações, ambições e desejos. O desastre e a morte de seus entes queridos pesam sobre seus ombros. Quando os vemos agindo e reagindo diante das dificuldades, notamos que, provavelmente, faríamos do mesmo modo… Apesar da realidade apresentada ser completamente fantástica, os desdobramentos dela sobre o mundo são extremamente realistas. Sentimos os terrores, os dilemas e as situações que os testam até os limites da insanidade.

Este mundo cinzento, sem esperança e pestilento, onde as brumas da morte vagam como uma presença sempre sentida, sempre próxima e quase sempre fatal, remete a insegurança, a condição de guerra de todos contra todos e a possibilidade de morte violenta, outrora descrita por Hobbes, de um estado pré-histórico ou de completa falência do contrato social. O resultado desse cenário é o estabelecimento de pequenas tribos que estabelecem suas próprias leis, costumes, crenças, mas acabam por ser submetido por outras comunidades mais fortes — vejamos o caso dos Salvadores quando submetem HillTop e Alexandria.

O fim do contrato social e a emergência da guerra de todos contra todos leva, inevitavelmente, a destruição de todas as desigualdades e niveladores sociais antes endêmicos na sociedade. Agora, a hecatombe social propicia o surgimento de novas hierarquizações. Aquele que era apenas um entregador de pizza, agora, torna-se um dos mais destacados membros do grupo (Glen); outro que era só um pai de família com um emprego sem perspectiva torna-se o líder de uma grande comunidade (Philip, o governador); o policial tímido de uma insignificante cidade virá, com o fim da estrutura sistêmica da sociedade, a ser o líder implacável que passará pelas mais duras provações (Rick Grimes), só para citar alguns exemplos. A meu ver, a estrutura da trama é semelhante a de estórias de aventura e mitologia, como Crônicas de Nárnia, Senhor dos Anéis, O Hobbit ou as historias de terror de Lovecraft, por exemplo. Nelas os personagens são apenas medíocres cidadãos de suas respectivas comunidades que são jogados contra a sua vontade num mundo completamente novo que promete aventuras, duras provações e descobertas; um mundo, enfim, que modificará completamente toda sua subjetividade a ponto de não enxergarem com o mesmo olhar seu passado, seu presente ou seu futuro. A hecatombe zumbi, portanto, não opera apenas como um destruidor das antigas hierarquizações de um mundo falido pela corrupção, mas também com um deslocador da própria visão de mundo dos personagens. A mudança ocorre num nível hermenêutico. Graças aos estudos sobre ideologia de Mannheim e, mais remotamente, as reflexões de Marx e Engels em A Ideologia Alemã, que os homens tem maneiras de pensar que são extremamente induzidas por suas formas de vivencia e por seu contexto sócio histórico. As mudanças de pensar dos indivíduos de uma sociedade ocorreria apenas se as estruturas desta sociedade fossem brutalmente abalados. Não é o que ocorre com os personagens de TWD? Todas as suas certezas que antes eram seguradas por um mundo onde as instituições pareciam mais firmes foi brutalmente destruída e, com ela, todas, ou quase todas suas ideias de normalidade e moralidade tiveram que ser revistas. Aqui o que reina é a incerteza, a maldição e a morte. O mundo realmente acabou? Ainda é possível reconstruir as coisas como eram antes? As antigas leis que tínhamos antes ainda podem ser postas em práticas se criarmos uma comunidade ou temos que começar do zero, como fizeram nossos ancestrais?

Contudo, os grandes astros da trama não são Rick Grimes e seu grupo, são os zumbis. Eles são os elementos dinamizadores do enredo. São o elemento anárquico, ambivalente e destruidor. Os zumbis são a variável do qual o Estado e a sociedade não foram capazes de medir, controlar e homogeneizar. Eles são a ambivalência materializada. A contradição social extrema. O lado negro revelado. O impensável, o incalculável, o indizível e o incontrolável. Os Walkers são a materialização do fracasso social, do fim da modernidade e de um projeto de civilização.

O fim e o fracasso da construção iluminista de sociedade — é isso que o seriado representa. Portanto, TWD situa-se no hall de histórias distópicas que povoam a literatura e as artes desde o inicio do século XX, entre as quais estão 1984, de George Orwell e a Guerra dos Mundos de H.G. Wells, que mostram um projeto falido de modernidade, de civilização e de sociedade. A distopia mostra todo o lado escuro do progresso e como esse lado obscuro pode, a qualquer momento e inevitavelmente, emergir e se apossar de tudo o que temos, de tudo que acreditamos e de tudo o que somos. As obras literárias distópicas foram muito comuns na primeira metade do século XX sua descrença em relação ao progresso material da sociedade diverge radicalmente das obras utópicas, que foram tão famosas na literatura e no pensamento social moderno entre os séculos XVI e final do século XIX. O desenvolvimento do capitalismo, os avanços da ciência e o esfacelamento dos laços feudais fizeram com que o homem moderno tivesse uma crença absoluta de que a estes valores, se radicalizados, poderiam levar indiscutivelmente ao melhoramento progressivo da humanidade, eis a utopia idealizada.

O pensamento utópico se espraiou tanto pela literatura quanto pelo pensamento filosófico e social, seus principais representantes foram Thomas Mann, Thoreau, Rousseau, Whitman e o pensamento socialista do século XIX, dentro do qual a teoria marxiana é o seu maior e mais consistente expoente. Mas o que aconteceu para que a crença na modernidade e no progresso se transformasse num profundo ceticismo em relação ao futuro da humanidade? A partir de quando isso aconteceu? A resposta está justamente nos desdobramentos colaterais que a expansão ininterrupta do capital trouxe para a humanidade. Se a partir das ruinas do feudalismo e até o fim do século XIX a sociedade europeia plantou as sementes e viu crescer e florescer essa estrondosa árvore chamada de modernidade, foi no século XX que percebemos que ela estava repleta de ervas daninhas e que seu seus galhos começaram a nos envolver e nos prender com ou uma grade de ferro. Foi no século XX que notamos as consequências do modo de vida moderno: duas grandes e devastadoras guerras, uma crise brutal do capitalismo, a divisão do mundo em dois blocos de poder, os riscos de uma grande guerra nuclear, lutas dos povos dominados da Ásia e África se emanciparem frente as potencias europeias e a queda de hegemonia das velhas nações do velho mundo. Todos esses processos se deram a custa de milhares de vidas humanas e acabou sendo inevitável que o pensamento social da época captasse as nuances da tragédia da modernidade no século XX e, ao passar pelo seu filtro critico, concluísse que o capitalismo não significava uma libertação da humanidade, mas simplesmente, como dissera Weber, a criação de uma nova grade de ferro que só se esfacelaria quando a ultima camada de carvão fóssil fosse consumida. Agora, na contemporaneidade, há novas ameaças sobre a humanidade. O processo de radicalização da modernidade, liquefação de todas as instituições criadas por esta nos mostrou que estamos, mais do que nunca, jogados num mar tempestuoso, guiando um barco que navega sem rumo, sem objetivo, onde a certeza de nossas coordenadas pode ser radicalmente mudada dependendo do sabor do vento ou das marés. A modernidade liquida, a nova modernidade do mundo atual, trouxe consigo a ameaça de um desastre natural, de epidemias proporcionadas por germes criados em laboratório, de guerras por recursos naturais, por implosão de nossos valores mais caros e formações de radicalismos e de fundamentalismos religiosos, econômicos, morais e etc. Só o que parece mais firme para nós, pobres homens modernos, é a incerteza e o niilismo — nada tem sentido, nada parece valer a pena e o proposito das coisas simplesmente desmoronou.

TWD espraia-se nessa preocupação muito forte no mundo atual. A sociologia, a economia, a filosofia, a historia e todas as outras ciências humanas estão preocupadas as consequências trazidas por séculos de modernização, de racionalização, de industrialização e de expansão ininterrupta do capitalismo moderno. TWD, a meu ver, é uma metáfora da falência de nosso projeto de civilização. Os zumbis, o desespero, o niilismo dos personagens são alegorias que propiciam uma ontologia ou uma alegoria dos dilemas da modernidade liquida. A aclamada Hq de Kirkman, em toda a sua complexidade dos temas tratados, do jogo hermenêutico de destruição dos valores e visão de mundo dos personagens, da desintegração completa da sociedade e da emergência de novas desigualdades e hierarquizações e da vivencia num mundo onde apenas a incerteza é a única coisa mais firme nesse mundo cinzento é, por assim dizer, uma metáfora perfeita da distopia em que vivemos.

Por isso ela faz tanto sucesso; de reverenciada historia em quadrinhos a uma bem sucedida serie televisiva, seu segredo não está num enredo de uma história genérica de terror, pois tantos filmes de mortos vivos já foram produzidos, mas na maneira como trata seus temas, seus personagens e, acima de tudo, consegue tocar nossa subjetividade como uma distopia da vida moderna.

Em meio ao niilismo extremo ainda há esperança. Mesmo sabendo de todo o horror que os cerca, a intenção de continuar a qualquer custo, de procurar um lugar que ofereça a possibilidade de um novo recomeço, como em Alexandria. È um dos ímpetos mais incríveis do homem moderno é continuar, apesar de tudo, da dor, do horror, da morte, das guerras e das epidemias.

A luta para a superação da distopia ainda é possível.