Crônica: Memórias de uma Casa em Ruínas

Era uma antiga casa de estilo colonial, situada numa das avenidas mais movimentadas da capital amazonense.

Em décadas precedentes fora a residência de grandes barões da borracha, acolhendo o luxo e o poder das oligarquias do ouro branco de tempos passados. Era ali, no grande paço de jardins floridos, onde eram tratadas as questões que mudariam os caminhos do Amazonas, tudo regado a vinho e uísque.

Depois da crise que pôs fim a farra do látex ela se tornou um modesto e genérico prédio público de onde a burocracia fria e sem vida de um Estado em ruínas despachava seus milhares de oficios, requerimentos e atos administrativos.

A ascensão da Zona Franca na segunda metade do século mais uma vez a transformou, tornando-a uma famosa importadora dessas quinquilharias tecnológicas que levam as pessoas a loucura. Nessa época ela estava sempre movimentada, viva e ululante, em muito parecendo as glórias que vivera no início do século.

Só que mais uma vez veio a crise lá pelos anos noventa e ela não conseguiu se adaptar e foi abandonada, feito o bagaço de uma fruta que jogamos no lixo.

A importadora faliu, o poder púbico não quis utilizá-la e os barões da borracha já tinham desaparecido.

Hoje, o teto está desabado, as paredes cheias de rachaduras e tomadas pelo mofo. Os únicos visitantes que de vez em quando aparecem por lá para prestigiar a casa são alguns cracudos, prostitutas gonorrentas e travecos em estado positivo.

A decadência envolve a casa em ruínas e destrói todas as suas recordações de séculos passados.

Enquanto ela recebe as visitas de figuras tão destruídas quanto ela, o mundo lá fora segue rápido e impiedoso, destruindo e mudando tudo, feito um grande triturador de concreto.

Anúncios

Conto: O Evento na Ponta Negra

Durante os sábados á noite me apetece caminhar pela Ponta Negra. Sempre, por volta das dezenove horas, costumo descer do prédio onde moro para ficar perambulando pelos calçadões da praia, sentindo o vento tocando no rosto e observando as pessoas passeando com seus bichos de estimação. Observo os vendedores ambulantes, os populares que vão se dirigindo aos pontos de ônibus, os bêbados perambulando com uma garrafa de pinga nas mãos, os pais com seus filhos inquietos e as belas gostosas endinheiradas que gostam de praticar corrida nesse horário.

Minha caminhada sempre dura entre trinta e sessenta minutos. Coloco um fone de ouvido e vou admirando toda essa ecologia de tipos que passam pela minha frente. Deslizo por eles como mais um anônimo, sem lar, sem pensamentos, sem propósitos, sem alma… Nesses momentos me perco do mundo e esqueço as mesquinharias do trabalho e as intrigas familiares.

Este seria mais uma noite comum de caminhada caso não estivesse ocorrendo no anfiteatro da praia um evento patrocinado por um pregador fundamentalista muito famoso nacionalmente. È muito comum acontecer todo tipo de celebrações naquele lugar. A paisagem do Rio Negro e a floresta verde e escura assomando do outro lado no Iranduba, somado a brisa constante e agradável que vem do rio, faz com que os organizadores de muitos eventos que ocorram em Manaus acabem por escolher a Ponta Negra como um dos lugares para realizar seus eventos de massa.

Era o caso dos pentecostais e neopentecostais. Quando descobriram as vantagens do lugar, logo passaram a requisitar a Ponta Negra uma ou até duas vezes por mês para seus mega cultos.

Nunca me perturbou eventos religiosos ali, perto da minha casa, mas sempre tive reservas quanto aos religiosos radicais. Muitas das suas mais caras bandeiras, como a oposição ao direito feminino do aborto e às cotas, a recusa ao reconhecimento da união civil entre casais homo afetivos ou a maneira pouco respeitosa como muitos se referiam á religiões de cosmologia africana, faziam com que eu, um liberal de esquerda, agnóstico e militante pelos direitos humanos, visse com reservas tudo o que representavam.

Havia muitos presentes na celebração. Acredito que mais de três mil pessoas. Eu simplesmente não conseguia caminhar sem me desviar de alguém a cada cinco segundos.  O evento ainda não tinha começado e dezenas de pessoas não paravam de chegar, a maioria em ônibus fretados pelas congregações. Senhoras, senhores, famílias numerosas, mulheres lindas, outras nem tanto… Todos bem vestidos. A cerimonia religiosa, para essas pessoas, não era apenas uma evento formal, mas uma celebração, um momento de êxtase e de renovação. Por isso precisavam dar para deus o que eles tinham de melhor. No caso, a paz de espirito e suas melhores roupas.

Enquanto caminhava perguntei a uma senhora ali perto do que tratava aquele evento.

“È para a gente mostrar a força do povo de deus contra o exercito do maligno!”

“Não entendi, senhora…”

“É para mostrar como deus se desagrada dessa gente pecaminosa que pratica homossexualismo e adora falsos deuses…”

“Mas por que eles desagradam a deus, minha senhora?” Nesse momento eu já tinha notado o teor do evento. Mas queria explorar um pouco mais a subjetividade do meu informante…

“Porque é antinatural… Deus fez homem e mulher pra ficarem juntos e não pra ficarem fazendo imoralidade por ai… Essa gente precisa aceitar Jesus…”

Ai eu disse: “Minha senhora… Acho que é Jesus quem precisa aceitar vocês…”

Enquanto a mulher, desconcertada por ter ouvido algo que não esperava, procurava desesperadamente alguma palavra para me recriminar, eu virei as costas e sai dali rindo comigo mesmo, pensando:

“Vinguei-me do Infeliciano…”

O Banquete de Natal

Na véspera de natal do ano de 2010, fui envolvido numa situação que jamais imaginaria um dia estar. Estávamos numa festa na área de convivência do edifício onde Cláudio Paiva morava. Já era quase meia noite. Ouvíamos centenas de fogos anunciando iminência da data que em séculos anteriores era conhecido como o solstício de verão. Os convivas da festa bebiam vinho e exultavam com a festividade que, em tempos recentes, funcionava mais como uma prévia do final de ano que como a antiga celebração do nascimento do Galileu.

Eu bebia com dois amigos, próximo a piscina. Um deles era Roberto Mendes, advogado tributarista que presta bons serviços ao partido do governador. Homem alto e de expressão muito séria, já com os seus quarenta e quatro anos. O outro é Adalberto Romanelli; tem pouco mais de cinqüenta, muito branco e com cabelos grisalhos e olhos cinzentos. É dono de uma das mais conceituadas peixarias da cidade. Na churrasqueira outros se divertiam sentados a mesa bebendo e rindo alto. Todos os convidados ali eram pessoas muito próximas do poder e do dinheiro que movia Manaus. Tocava no aparelho de som portátil algumas canções aleatórias de MPB. As pessoas relembravam antigos contos de uma juventude que há pouco tempo havia passado.

Como sempre acontece com quem está bebendo muito, a vontade de esvaziar a bexiga me impôs uma ida ao toalete. Pedi permissão para subir para o apartamento e usar o banheiro, pois a latrina do espaço de festas estava ocupada. Depois que aliviei as necessidades fisiológicas, lavei a mão e fiquei por alguns minutos olhando-me no espelho do banheiro. Fiquei assim, por alguns minutos, sem qualquer razão aparente. Talvez porque festas nunca tivessem sido a minha diversão favorita, talvez porque em datas de final de ano sempre fora tomado por uma melancolia meio poética e meio niilista que, se imiscuindo no coração, parece a nevoa que toma conta das florestas e vales na época das chuvas.

Certas lembranças não muito confortáveis vieram-me a mente, como os momentos que tive com Paula e as conseqüências do meu gênio mulherengo que fizeram com que nós nos separássemos definitivamente…

“O que diabos eu estou fazendo aqui?” Foi a pergunta que me veio.

Lavei o rosto. Limpei as mãos e, quando sai do banheiro, Suzana, mulher de Claudio, estava ali, no corredor, me observando com um copo de vinho chileno na mão.

“Você demorou…” Disse ela.

Era uma mulher com seus trinta a quatro anos. Cabelos muito negros que caiam até o ombro. Olhos castanhos claros e um busto proeminente escondido por detrás do vestido azul que modelava os quadris pequenos.

“Você quer ir ao banheiro? Não me dei conta de que mais gente queria usar…”

“Não… Não quero…” Tomou um gole de vinho.

“Estão me esperando?”

“Só eu que tava te esperando…” Ela colocou calmamente o copo já quase vazio sobre o criado mudo e prosseguiu. “Todos estão distraídos lá na frente… O estúpido do meu marido tá dando em cima da Deise…”

“Como é?”

“Não se faça de burro, Beto…” Ela parou por um momento, como se tentasse engolir algo que estivesse quase a sair pela garganta.

“Vocês são amigos desde a infância… Eu sei que você dava cobertura para ele se encontrar com as piriguetes lá da Zona Leste…”

“Suzana, eu acho que você está enganada… Eu nunca…”

“Cala a boca e me beija…”

Mal acabou de formular essa ultima frase e caiu sobre meus braços, tapando a minha boca com os lábios dela e enchendo-me do seu hálito com cheiro de vinho e volúpia.

Confesso que não resisti por muito tempo. Nem poderia. E não queria. A sensação de ter uma mulher tremendo de desejo e luxuria nos braços é uma sensação que poucos homens, ou talvez nenhum, conseguem resistir. Embora ela não seja mais ou menos encantadora que as mulheres que costumo sair, Suzana sempre me pareceu ter um charme que em muito me fascinava. Um jeito próprio de falar, uma maneira peculiar de ajeitar o cabelo ou mesmo o jeito de se vestir que me atraia…

Mas sempre mantive esse fascínio comigo. Não fazia comentários sobre isso para evitar embaraços.

“Não era pro meu bico…” Pensava.

E quem poderia imaginar que Suzana Meirelles, pediatra com um dos mais importantes consultórios de Manaus, casada com o empresário e filho de um Senador da República, estaria se jogando nos meus braços, implorando para fazê-la minha? Eu, Alberto Souza, um professor universitário e escritor da tragédia manauara…

A porta do banheiro estava aberta e rumamos para lá.

Depois de beijos desesperados. Levantei seu vestido, tirei sua calcinha e penetrei nela ali mesmo, no banheiro. Depois ejaculei dentro. Não tive pena. Todo aquele tesão acumulado, que esperava há anos por ela, foi finalmente posto pra fora.

Não posso precisar quanto tempo demorou. Estávamos exaustos. Ela arrumou o cabelo daquele jeito que eu gostava tanto, pós a calcinha, ajeitou o vestido e enxugou o rosto de suor.

“Preciso voltar logo…” Disse, saindo ás pressas.

Limpei o meu pênis, estava melado com sêmen de vagina de burguesa, e fui para a varanda da cobertura onde observei por muitos minutos as avenidas do Adrianópolis tomadas por aquelas centenas de luzes vermelhas, sons de sirene, buzinas e ranger de motores… Eu não conseguia, embora eu tentasse, pensar em nada mais profundo que isso:

“Puta que paril… Que situação mais louca…”

Quando voltei, vi Claudio e alguns outros na mesa jogando dominó. Suzana também estava lá. Ela parecia feliz. Agia com muita naturalidade, sentada ao lado do marido e apoiada em seu ombro enquanto ele preparava as peças para iniciar sua jogada. Por debaixo da mesa tive a impressão de ter visto Deise passar a ponta do pé pelo calcanhar de Claudio. Mas era só uma impressão, porque eu já estava completamente bêbado.

“Ei, cara… Se perdeu, foi?” disse Claudio, em tom de galhofa. Ele era um cara bastante forte. Sobrancelhas grossas sobre os olhos claros, pele bronzeada e cabelos muito finos que eram sempre penteados para trás.

“Me perdi nas pernas da sua esposa…” Tive vontade de responder. Mas apenas disse: “Não…”

“Suzana disse que você não estava passando bem…”

“È… Parece que sim…” Enquanto respondia isso, a mulher de Claudio me observava com um olhar ameaçador e ao mesmo tempo cheio de cumplicidade.

Sentei a mesa onde as pessoas estavam e fiquei olhando os convivas jogarem as peças de marfim na mesa enquanto soltavam grunhidos primitivos, feito macacos.

Alguns convidados se jogaram na piscina com roupa e tudo. Gargalhavam e bebiam uísque Red Label na boca da garrafa…

“Feliz Natal!” Ouvi alguém da rua gritando…

Em Família

Assim que a ambulância chegou no Pronto Socorro do São Raimundo e os paramédicos precipitaram-se para tirar a maca do veículo que levava o ferido, ocorreu o impensável. O pobre coitado deu um suspiro sinistro, seguido de um esgar abafado vindo das gargantas, as pupilas arregalaram-se como se naquele momento estivesse perante o próprio diabo e sucumbiu depois de muita agonia.

Os paramédicos entreolharam-se meio constrangidos. Aquela cena já viram muitas vezes, nem precisavam de aparelhos para constatar o que acontecera. O que parecia mais experiente disse:

“Esse já era…”

“A hemorragia foi intensa concomitante a perfurações em vários orgãos…” Disse o médico legista Bartolomeu Félix, muito satisfeito em conceder uma entrevista para um popular tablóide da cidade.

A vida é mesmo muito imprevisível. Há cerca de uma hora, esse pobre diabo chamado Octávio Ribeiro, quarenta e dois anos, metalúrgico há quase quinze, casado e com um filho, voltava para casa, naquele final de tarde de sexta-feira abafada, num micro ônibus lotação entalado de gente. Ele nem sequer imaginava que seria a sua última viagem para junto de sua família e que em breve estaria de mãos dadas com o capiroto.

Mas como tudo isso foi acontecer? Perguntará o leitor. Pois bem, vamos ter que voltar algumas horas anteriores ao assassinato e penetrar no lar de Ribeiro, pouco antes d’ ele chegar…

Dona Maria Clara acaba de voltar com o pequeno Serginho da casa de um amiga que ficava ali mesmo no bairro da Compensa. Ela abriu o pequeno portão de tábuas de madeira e passou pelo pátio com o filho atrás, seguindo-a como um cortesão. Assim que abriu a porta, o menino entrou e correu para o quarto, pegou um carrinho de madeira e ficou a perambular pela casa, fantasiando alguma aventura fantástica.

Ela estava feliz. Finalmente começaria a trabalhar num salão de beleza e a mãe já superava a dengue hemorrágica. Tinha voltado do hospital dois dias antes e estava aliviada ao perceber que a velha recuperava o vigor físico, o corado da pele, o força na voz…

Pelo relógio de parede viu que eram seis e meia da tarde. O claro do dia recuava. O marido com certeza chegaria em pouco tempo. Teve a idéia de fazer um programa diferente com ele quando voltasse. Tomou banho, colocou sua roupa preferida, aquele vestido verde que ele tanto gostava, perfumou-se com as suas melhores loções e ficou admirando-se em frente ao espelho. Tinha pouco mais de trinta e cinco anos, a pele era queimada, as sobrancelhas grossas e olhos muito escuros. A idade já começava a mostrar seus sinais pelas pequenas rugas no rosto, pelo ventre já notadamente saliente e pelos seios que perdiam a batalha para a gravidade — o vestido já não cabia tão bem, apertava-lhe as gorduras. Arrumou os cabelos crespos, penteando-os com esmero. Maquiou-se, colocou sombras nos olhos, aprumou as sobrancelhas e embelezou as maçãs do rosto.  Depois pegou sua bolsa, tirou doze reais e disse a Serginho:

“Vai lá no Buiú comprar uma caixinha de cerveja…”

O menino relutou em ir, tão entretido estava estava com seus maquinações sem importâncias. Mas como a mãe ameaçou dar-lhe uma bordoada, ele pegou o dinheiro e saiu resmungando, andando em marcha lenta.

“Anda logo, seu preguiçoso!” Disse a mulher, já impaciente.

O outro correu, maquinando vingar-se.

Em pouco tempo o garoto voltou com uma caixinha de doze cervejas, trazia-a desajeitadamente, com muita dificuldade, cambaleando feito um bêbado e por pouco não deixou a bebida cair.

“Põe na geladeira…” Ordenou Maria Clara.

O menino obedeceu, muito suado. Internamente crispava de raiva.

“Cadê o troco? Tá bom…”

Enquanto Serginho foi para o quarto ligar o videogame, a mulher guardou o trocado de cinco reais na bolsa de couro sintético preto, ligou o aparelho de som, colocou um CD de música sertaneja, foi até a geladeira e pegou uma latinha de cerveja. Sentou no sofá da sala e ficou com o pensamento no marido. Imaginando sua cara de satisfação ao saber o que ela preparara para ele — boa musica, cerveja gelada e um bom momento só a dois. Lembrava que há muito tempo os dois não faziam isso. Ela, ocupada em arranjar um novo emprego; ele, auto escravizando-se em horas extras lá no distrito para cobrir os buracos no orçamento.

Mas agora isso não mais importava. Podiam terminar a casa, comprar um computador para o Serginho, um televisão de plasma e fazer um segundo andar com três quartinhos para alugar, conforme tinham planejado há dois anos.

Percebera que o noite já se instalara por completo e vários dos vizinhos estavam em frente das suas casas, sentados em cadeiras de plástico, ouvindo música, bebendo qualquer coisa e confabulando fatos sem importância. Olhou para o relógio, dezessete e vinte da noite. O marido não chegava. Maria ficou imaginando se ele não tinha ficado até mais tarde para fazer hora extra. Com certeza não. Lembrava-se de que, quando saíra hoje de manhã, dissera que naquele dia sentia-se muito cansado para ficar até mais tarde. Foi até a geladeira e pegou outra cerveja. Percebeu que na caixa só restavam três latinhas. Ficou  surpresa em ter bebido tanto em tão pouco tempo. Voltou para o sofá. Onde estaria o marido? Lembrou-se de que uma das amigas tinham falado sobre uma mulher da rua perto da feira que estava de caso com Octávio. No inicio não deu muita importância, mas agora, com sua demora sem explicação, toda aquela conversa começou a ganhar proporções de quase verdade. Deu um suspiro de raiva. Tomou a cerveja com pressa, quase virando.

“Serginho, vai comprar mais cerveja!” Gritou.

O filho não respondeu.

“Serginho!”

Nenhuma resposta.

“Sergio, seu filho da puta!”

Levantou-se do sofá irritada e foi caminhando até o quarto do filho, quando abriu a porta, deparou-se com ele inerte em frente à televisão, jogando Doom. Pegou-o pelo braço e entre os gemidos do pequeno colocou-o de pé.

“Me obedeça…”

“Sai fora! Sai fora!” Gritou o menino, enquanto tentava largar-se e fugir.

“Me respeita!” Disse Maria, bufando de raiva, e começou a dar umas surras em Serginho.

“Tá pensando que eu sou o quê, hein?” A mão descia pesada no corpo do moleque.

“Ai, ai, ai…”

 Foi exatamente quando o garoto dava estes gritos que Octávio Ribeiro chegou em casa. Estava um verdadeiro trapo. Uma mochila velha nas costas, calça jeans furada e desbotada e uma camisa surrada com o símbolo da empresa. Cabelo desarrumado, olheiras na face e exalando um forte miasma de transpiração. Logo que abriu o portão, aqueles gritos de moleque desesperado entraram-lhe pelos tímpanos. Caminhou com rapidez para dentro da casa.

“O que aconteceu?” Perguntou o homem, ao presenciar o suplicio do filho.

“Este menino não quer me obedecer…” E dava-lhe bordoadas mais fortes.

“Pai, pai, me ajuda…” O menino tentava correr para junto de Octávio, mas a mãe segurava-o com mais força.

“Larga ele, mulher. È só uma criança…”

“Era só o que me faltava, tu do lado desse peste…”

“Tu não tá vendo que ele tá gritando? Deixa ele!” Disse, enfurecido, após separar os dois a força.

Serginho correu chorando para o quarto e se escondeu.

“Me respeita!” Gritou Maria. “Quem tu pensa que é para me enfrentar na frente do meu filho, hein?”

“Tu tava espancando ele, caralho!”

“Fala direito comigo, seu safado!” Ela gritou entre lágrimas. “Tá pensando que eu sou aquela rameira que tu come lá da rua da feira?”

“Como é que é?”

Serginho observava tudo pela porta entre aberta do quarto.

“Pensa que eu não sei! Todo mundo sabe! Seu cafajeste!” Ela avançou com ímpeto para cima de Otávio.

“Tu fala muita merda… Me larga!” Ele pegou a mulher pelos braços e jogou-a  sobre a sofá.

“Vagabundo! Vagabundo!” Gritava, com lágrimas nos olhos.

“Para de gritar, porra… Isso já tá ficando insuportável…” Disse ele, mais alto ainda.

Maria Clara levantou-se do sofá, correu para a cozinha, tomou uma faca suja que estava sobre a pia e pulou para cima do marido. Ele não teve tempo de esboçar uma reação. A esposa penetrou dezenas de vezes a lâmina no corpo do homem, enquanto ele resvalava no chão e uma poça de sangue se formava.

Serginho via tudo pela porta entreaberta, enquanto dava gritos de horror…

Blaze em Manaus: Uma Aula de Heavy Metal

Depois de Paul Dianno em 1997 e do próprio Iron Maiden em 2009 (leia aqui a resenha do show), o competente Blaze Bayley também fez uma bem sucedida apresentação em Manaus, no dia nove de Abril, na cervejaria Fellice, na turnê de divulgação do seu ultimo disco Promise and Terror, lançado no inicio de 2010.

A banda encarregada do pré-show, Veludo Branco, de Roraima, fez o seu papel apresentando um Hard Rock seguro e bem tocado, executando músicas próprias e pequenos trechos do Led Zepellin e Black Sabbath — pena que o público não deu o merecido valor para o power trio.

Quando o relógio da maioria das pessoas já passava da meia noite, Bayley iniciou sua apresentação. Exatamente neste momento, todo o público veio para junto do palco e assistimos uma verdadeira aula de heavy metal, começando com a destruidora Madness and Sorow, segunda faixa do poderoso Promise and Terror. A banda apresentava uma coesão impressionante, as guitarras da dupla Jay Walsh e Nicolas Bermudes estavam muito bem entrosadas, detonando com riff´s avassaladores e solos muito bem construídos; o baixista David Bermudez não deixava a desejar com uma boa presença de palco e uma técnica apurada; o baterista Larry Peterson parecia uma máquina, não parava nenhum momento para respirar e descia o braço na caixa e nos pratos da cozinha; quanto ao chefe, o tenor Blaze Bayley, percebia-se a grande evolução em sua técnica vocal, assim como em sua presença de palco; com um carisma contagiante, o britânico não parava para agitar: levantava os braços, mandava quem estava parado bater cabeça (“bang your head, mother fuckers!”), apertava a mão dos fãs e agradecia toda hora pelo apoio recebido.

Durante os raros intervalos em que o vocalista fez para dar uma palavra ao publico, falou sobre a mudança de sua antiga gravadora para o seu recém montado selo, Blaze Bayley Recodings, e que agora, como artista independente, ele consegue fazer algo que não fazia antes — tocar em varias cidades do mundo. Também disse com grande razão: “vocês tem poder, os fãs do Brasil tem o poder, o poder de fazer uma banda grande, de fazer heróis, cada um de vocês aqui tem o poder, vocês tem a coragem de pensar por vocês mesmos, vocês tem a coragem de acreditar em seu próprio coração, e todos aqui sabem que vocês escutam a musica que escolheram, não o que a MTV manda ouvir, mas o estilo musical que vocês escolheram.”

Entre as musicas tocadas podemos destacar The Brave, City of Bones, Faceless e Leap Of Faith; embora estas canções tiveram uma grande resposta dos fãs, não há duvida de que as faixas dos tempos da Donzela e Ferro empolgaram mais: Man on the Edge, Lord Of The Flies, Futureal e The Classman. Entretanto, falando como admirador de Blaze desde os tempos de Iron, senti falta de clássicos como Sign Of the Cross, 2 A.M, e When Two Worlds Collide, que com certeza se sairiam muito bem ao vivo. Também considero que Blaze poderia ter explorado mais o interessante disco Tenth Dimension, do qual só foram executadas apenas duas músicas, a porrada Kill and Destroy e a medíocre Speed Of Light. Músicas marcantes do Tenth como End Dream, Nothing Will Stop me, Meant To be ou a sombria Strange to the light mereciam estar no set list.

O show fechou com a pesadíssima Robot, com todos os músicos e público exaustos de tanto bater cabeça e agitar. Com a grande receptividade que os fãs brindaram Blaze Bayley, não há duvida de que poderemos vê-lo outras vezes aqui na Paris dos Tristes Trópicos — da próxima vez os promotores do futuro show resolvam realizá-lo num lugar maior e assim baratear o ingresso, pois o preço salgado deixou muita gente de fora: 60 reais a pista e 80 o VIP.

A casa não teve lotação máxima. Mas o show foi excelente e a organização merece seu mérito pelo evento. Entretanto, houve problemas graves, como a questão da divulgação do horário do show: no ingresso estava ás dez horas, enquanto que nos cartazes pendurados no estabelecimento estava: “show a meia noite”; outro erro foi a confusão sobre quem seria a banda pré-show, a gerente do Fellice disse que seria uma banda de Santa Catarina, indicada pessoalmente por Bayley, enquanto que a organizadora do evento afirmou se tratar de um grupo de Roraima; também foi avisado que as pessoas que comprassem o ingresso VIP teriam direito a uma camisa e a uma sessão de autógrafos com o cantor, mas qual foi a nossa decepção quando vimos que a camisa não era boa, parecia as camisas dos funcionários do Fellice; quanto a sessão de autógrafos, uma desorganização total, muitas pessoas que tinham comprado o ingresso VIP justamente para ter o CD autografado e tirar uma foto com o vocalista, como foi o meu caso, ficaram de fora — puxaram Blaze sem mais nem menos para conceder entrevista para a TV Cultura. No final da execução de Kill and Destroy o microfone do cantor teve alguns problemas técnicos, que felizmente foram logo resolvidos, e uma das guitarras estava baixa demais — quase não dava para ouvir seus solos.

Ao contrário do ressentido Paul Dianno, que critica seu antigo grupo em todas as entrevistas que concede e chama Steve Harris de Hitler, mas ironicamente ganha a vida tocando as músicas de sua época no Maiden, Blaze Bayley segue em uma carreira solo cada vez mais bem sucedida tanto de critica quanto de público — firmando aos poucos seu trabalho na cena metálica mundial através de bons shows como o que ocorreu em aqui em Manaus.

A Escravidão nos Seringais

Servidao Humana na SelvaVim pro Amazonas ganhar dinheiro, e não ganhei foi nada… O negócio da seringa só dava pra gente se aviar… Vivia naquela ilusão… Se eu tivesse no Ceará não queria saber mais do Amazonas.

Relato de um Seringueiro do Rio Madeira

Michel Foucault, influenciado por Friedrich Nietzsche, afirmara que por detrás da pompa dos hinos nacionais cantando a glória do nascimento da pátria, se esconde milhares de vidas sacrificadas nas guerras de unificação; e por detrás do mito da criação do mundo, encenando a beleza do jardim do Éden e a ingênua harmonia entre Adão e Eva, se esconde, na verdade, o parentesco com o macaco e, por sua vez, o cinzento laço com o verme…

A história, segundo o pensador francês, está repleta destas lendas que escondem um lado obscuro no fundo dos seus épicos versos, criados em favor de uma determinada gama de interesses. Cabe ao sociólogo e ao historiador desvendá-los — efetuando a arqueologia dos períodos históricos e das relações sociais.

Um dos exemplos mais típicos no Amazonas de fatos históricos mascarados por interesses escusos são as propagandas e historiografias oficiais com relação ao período áureo da borracha, mostrando-o como um tempo de grandes realizações, tanto no terreno das obras públicas quanto no âmbito social, ressaltando a riqueza produzida neste período e o aperfeiçoamento cultural pelo qual Manaus passara (a belle epóque, que nosso governo teima em reproduzir, de forma caricatural, em festivais de opera) nos quase trinta anos de pulsação da economia gomífera, como um dos períodos dos mais interessantes que a Paris dos Tristes Trópicos já teve.

Tal forma de ver a historia e as sociedades, tão comum em historiadores a direita do espectro político e na propaganda de governos populistas, interessados em criar uma bandeira pela qual possam arrancar certos dividendos políticos, nada mais é do que uma forma de mascarar a verdadeira e perversa dinâmica da qual é regida os períodos históricos e, em questão, a economia extrativa. Longe de ser um período de requinte social e cultural, o fausto da economia gomífera foi caracterizada pela exploração compulsória de homens e mulheres sob o regime hediondo do aviamento, e pelo fato absurdo de que, como dissera Euclides da Cunha, o homem trabalhava para escravizar-se.

Muitos já foram os estudos efetuados sobre o período áureo da economia gomífera, principalmente do ponto de vista histórico — a Ilusão do Fausto de Edinea Mascarenhas Dias é um dos exemplos mais famosos. Faltava, entretanto, um estudo de precisões mais sociológicas que enfocasse o modo de produção extrativista a partir não de acontecimentos ou datas, mas a partir das suas relações sociais e de como estes homens se comportavam frente à dicotomia de uma floresta cheia de perigos e de um sistema de compra e troca tão impiedoso.

Servidão Humana na Selva: O Aviamento e o Barracão nos seringais na Amazônia, de Carlos Correia Teixeira, vem tapar este buraco na sociologia sobre o modo de produção extrativista e se juntar ao seleto hall de obras que pensam a Amazônia criticamente, em contraposição a forma linear e conservadora de pensadores convencionais como André Vidal de Araújo, Álvaro Maia ou Samuel Bechimol. Apesar de ser um estudo efetuado na década de setenta, foi tese de mestrado do escritor, Servidão Humana está longe de ser um estudo defasado, longe disso, é um ensaio que vai até o cerne do acontecimento histórico, achando as descontinuidades das relações do seringal, destrinchando seu lado cinzento, recompondo arqueologicamente suas contradições, os dramas do trabalhador da seringa, seus sofrimentos e mesmo seus raros momentos de felicidade, sentindo-se um verdadeiro artista ao defumar a borracha: “é o maior prazer do mundo!” era a frase de um trabalhador contida do livro.

Dialogando com varias vertentes da sociologia, como por exemplo com o esquema de dominação patrimonial de Max Weber, o autor, contudo, centra-se no legado teórico de Karl Marx para a sua análise de cada um dos aspectos das relações tecidas no seringal.

Muito interessante é a afirmação de que o barracão é a nossa versão dos engenhos, criando uma complexa rede de relações sociais que ainda não foram devidamente estudadas — pelo menos no que tange a sociologia.

O seringal, segundo Carlos Teixeira, mesmo depois de quase um século passado desde o fim da preponderância extrativista, sua organização persistiu e ultrapassou mais de um século.

Mais de trezentos mil nordestinos vieram para a região Amazônica a partir da década de setenta do século XIX. Boa parte destes pobres diabos provenientes do Ceará — iludidos com a promessa de enriquecimento fácil. Contudo, quando aqui chegavam, o véu de suas ilusões era brutalmente estraçalhado pela cruel realidade de ter estarem sujeitos a um regime que, já os fazendo endividados desde o momento em que ali chegavam, os fazia trabalhar mais de dezoito horas por dia.

Sozinhos nos seringais, sem uma legislação trabalhista ou qualquer autoridade que pudesse inferir por eles, os seringueiros eram largados aos próprios caprichos do seringalista, que os explorava desde a adulteração dos preços das mercadorias vendidas no barracão, até nos pesos da borracha quando de sua venda ao senhoril. Muitas eram os historias de abusos e crueldades contra o seringueiro que tentasse fugir ou cogitasse vender a borracha ao regatão — vale dizer que este era um fator de instabilidade ao poder tirânico do seringalista, travar negócios clandestinamente com o seringueiro. Teixeira menciona uma história, contada pelos seringueiros mais antigos, de um grande buraco cheio de cobras onde o patrão costumava jogar aqueles que fizessem frente ao seu poder.

Os seringalistas, verdadeiros senhores feudais na selva, nunca tiveram, de fato, uma mentalidade empreendedora. Sua forma de gerir seus negócios estava muito mais para um pré-capitalismo rudimentar de típico de nobrezas decadentes. Não se preocupavam em aperfeiçoar as técnicas de trabalho em seus seringais. A situação como estava já os satisfazia. Hauriam enormes lucros de suas propriedades, gozavam de enorme conforto, tinham ao redor de si esposas, servos e amantes. Seus filhos estudavam nas melhores escolas do país e do exterior. No final de cada fabrico iam gastar suas fortunas nos centros econômicos do Brasil ou da Europa. Tinham o poder de colocar seus apadrinhados nas esferas de poder para que defendessem seus interesses frente ao Estado. Eram na verdade, uma casta parasita que desfrutava os privilégios de uma economia predatória e de enclave, cujos resultados estavam voltados para fora — não é assim o mesmo com o nosso decadente pólo industrial?

Durante a época da pesquisa o escritor detectou que ocorria uma flagrante mudança nas relações produzidas no seringal. Outrora predominantemente as relações do toco: em que o seringueiro tinha uma casa disponibilizada pelo patrão, assim como as estradas, equipamento e mercadorias para consumo e de sua família, assim deveria fornecer determinada quantidade de borracha por fabrico ao senhoril; entretanto, o toco vinha a transmutar-se em regime de gleba, onde o seringueiro passa a arrendar uma faixa de terra com sua família e, além de extrair a borracha, desenvolve a agricultura, pagando ao seringalista o aluguel desta em víveres ou em dinheiro.

A servidão humana, infelizmente, não era uma característica típica nos seringais da Amazônia, estendendo-se também para outros ramos da atividade capitalista, como por exemplo, o grande latifúndio monocultor do sul do Pará e sul do Amazonas, onde milhares de vidas são reduzidas e reles condição de coisa.

Quem sabe para a próxima edição o autor providencia um capitulo sobre a situação atual dos seringais estudados no livro, Juma e Três Casas, e outro sobre formas de organização sindical dos seringueiros na região estudada — a região do Rio Madeira, onde também nascera Carlos Teixeira.

Servidão Humana na Selva torna-se, desde seu lançamento, uma referencia obrigatória para quem estiver interessado em estudar os seringais, suas contradições, desmandos e crueldades com que essa variante do modo capitalista de produção subordina o homem.