Poema: Blues dos Refugiados

Dizem que esta cidade tem dez milhões de almas
Umas vivem em palácios, outras em mansardas;
contudo não há lugar para nós, minha querida, não há lugar para nós.

Uma vez tivemos uma pátria e julgávamos que era bela.
Olha para o mapa e lá a encontrarás;
mas não poderemos regressar tão cedo, minha querida, não podere-
mos regressar tão cedo.

O cônsul deu um murro na mesa e disse:
se não têm passaportes estão oficialmente mortos;
mas nós ainda estamos vivos, minha querida, ainda estamos vivos.

Lá em baixo no adro um velho teixo
todas as primaveras floresce de novo:
e os velhos passaportes não florescem, minha querida, os velhos
passaportes não florescem.

Fui a um comissariado e ofereceram-me uma cadeira.
disseram polidamente para voltar no ano seguinte:
mas onde iremos agora, minha querida, onde iremos agora?

Fui a um comício público; o orador levantou-se e disse:
se os deixarmos cá dentro, roubar-nos-ão o pão de cada dia;
estava a falar de mim e de ti, minha querida, a falar de mim e de ti.

Ouves um ruído como um trovão roncando no céu?
É Hitler sobre a Europa dizendo: «Eles têm de morrer!»
Nós estávamos no Seu pensamento, minha querida, estávamos no
Seu pensamento.

Vi um cão de luxo de jaqueta apertada com um alfinete
vi uma porta aberta e um gato entrando;
mas não eram judeus alemães, minha querida, não ale-
mães.

Desci ao porto e parei no cais
vi os peixes a nadar. Como são livres!
a dez pés de distância, minha querida, só a dez pés distância

Passeei pelo bosque; há pássaros nas árvores,
não têm políticos e cantam livremente.
Não são da raça humana, minha querida, não são da raça humana

Sonhei que vira um edifício com mil andares
mil janelas e mil portas;
nenhuma delas era nossa, minha querida, nenhuma

Corri à estação para apanhar o expresso,
pedi dois bilhetes para a Felicidade;
mas todas as carruagens estavam cheias, minha querida, todas as
carruagens estavam cheias.

Fui parar a uma grande planície, no meio da neve a cair
dez mil soldados marchavam de um lado para o outro
olhando para mim e para ti, minha querida, olhando para mim e
para ti. 

W. H. Auden (1907-1973) foi uma dos maiores poetas ingleses do século XX.

Tradução de Jorge Emílio

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Conto: Victor Martinez

“Já estava aponto de desfalecer, seu corpo entrara num estágio entre a dormência e a atividade; apenas o enorme barulho da chuvarada o mantinha acordado. Em meio ao ruído confuso do ambiente lá fora, seus ouvidos divisaram algo bem singular… Tentou levantar-se para ver o que era; um ruído vindo da porta; com esforço, tomando a mesa para apoiar o braço; escorregou, a cadeira caíra para trás, ainda susteve-se em pé graças à mesa; as pernas tremiam; o corpo doía; parecia haver uma chama consumindo-o por dentro, nem parecia ter sido vodka o que ingeriu, mas ácido; logo que teve esta conjectura, os braços escapuliram do móvel, tinha dado alguns passos para frente; caiu violentamente no chão frio, sua irritabilidade estava multiplicada por dez vezes em virtude da dor excessiva; ao cair, batera o joelho violentamente no solo, outra dor aguda o tomou de assalto; deu um grito de raiva e aflição; fraturou o joelho, tinha certeza; o barulho que ouvia parou subitamente… Acomodou-se de bruços para cima, observava o teto, impotente para fazer algo, esperava. Esperava o que? Nem mesmo ele sabia; talvez a maldita dor sumir, o álcool dissolver em seu sangue, a morte tocar-lhe o rosto… Sentiu-se como uma criança indefesa perdida numa enorme cidade, mas esta cidade era sua casa, e seu terror era si próprio, não havia ninguém para salvá-lo, começou a chorar, sentia-se parvo, muito mais lerdo que antes. Os anos passaram e ele não era nada mais que um espírito infausto temente á si próprio e á todos, temia olhar para dentro de seu abismo, temia que seu abismo olhasse para dentro dele, temia a visão das trevas, temia que o véu soturno o dominasse de vez. Era ateu, mas temia o céu, temia o inferno, temia o Criador e temia Lúcifer; temia a gloria e o fracasso; temia a alegria e a tristeza. Era descrente e religioso, era herege e devoto, era beato e pagão, era seu deus e seu demônio. Não sabia o que era o júbilo. Quanto à temeridade, à amargura, à consternação, não mais se dava conta, tanto tempo vivera no porto da miséria, no caminho de vermes, na sofreguidão espiritual; perdera o ímpeto revolucionário, perdera a força da lucidez, o fulgor, a agressividade… Tinha tudo e não tinha nada, tinha a mundo e não tinha espírito. Austeridade, aspereza, tudo isso lhe fora disciplinado, era dócil, não sabia mais se rebelar. Assim como Arthur Rimbaud, amores o crucificaram e colocaram sua dignidade à prova, apostaram sua posse, e ganharam… Fizeram confeites e anedotas, gracejaram e o ludibriaram, a desgraça foi seu deus… Jamais verá o natal sobre a terra, a claridade divina…”

Trecho do conto Victor Martinez, retirado do livro A Obra-Prima de Amarildo e Outros Contos Indecorosos, de Ricardo Lima. 

Lançamento do meu livro “A Obra-Prima de Amarildo e Outros Contos Indecorosos”

a obra prima de amarildo(1).jpgOs contos que ai vão são uma coletânea de algumas histórias que andei escrevendo entre os anos de 2005 e 2010. O livro demorou para ser publicado, pois uma série de intercorrências surgiram na minha vida. Estes são contos urbanos, por assim dizer, que retratam o mal-estar e o desespero de se viver nas grandes cidades. Meus personagens são, em sua maioria, desgarrados que, de alguma forma, ou não conseguem se inserir ou são o produto mais nefasto do mundo moderno: assassinos, pedófilos, viciados em drogas, alcoólatras e outras figuras pouco estimadas… O leitor pode perguntar-me porque eu, um amazonense típico, não procuro escrever sobre as belezas naturais no meu Estado, sobre a vida do ribeirinho, do ciclo da borracha e todos estes temas que abundam na literatura canônica sobre a Amazônia. Respondo que nasci e passei boa parte da minha vida em Manaus, uma capital de quase dois milhões de habitantes onde a barbárie e a desigualdade se reproduzem como em qualquer outra cidade miserável do globo. Estas são, portanto, a matéria-prima da maioria das minhas histórias: coisas que vi, que ouvi e que vivi. Também não escrevo sobre as delicias ingênuas da floresta porque muitos autores regionais já o fazem. Se eu me propusesse a fazê-lo, com certeza não lograria o mesmo êxito.

No mais, só gostaria de dizer que estes contos possuem uma influência de autores como Balzac, Zola, Poe, Tolkien, Lovecraft, Engrácio, Machado de Assis e Graciliano Ramos.

Espero que o leitor tenha bons momentos de fruição lendo minhas histórias. Se não gostar, farei como Machado de Assis — te darei um piparote e direi adeus…

 

Para Baixar o livro gratuitamente, clique em: A Obra Prima de Amarildo – Ricardo Lima

 

Conto: O Convalescente

Desde que cheguei daquela boate, ás três da manhã naquele ano de 2011, já sentia uma estranha sensação percorrendo todo meu corpo. Era uma espécie de estremecimento dos membros, seguido de uma fraqueza e um aperto na garganta. Também havia uma coisa indescritível, como uma vertigem, muito embora as vertigens não fossem precedidas de uma onda de calor, que começava nos pés e subia lentamente até o último fio de cabelo, causando-nos um mal estar no peito.

Meu amigo deixou-me em frente da minha residência. O álcool me dificultava o caminhar. Entrei em casa sem pressa, escovei os dentes e, já quase dando graças a deus, quase porque não acredito nem um pouco nele, joguei-me sobre a cama coberta de desalinhados panos roxos.

Embora estivesse me sentindo bêbado e doente — o mal estar no corpo começava a ficar mais forte — não tinha sono. Fiquei observando as sombras cambaleantes do meu quarto enquanto relembrava os lances daquela noite. Lembro-me de não ter estranhado nem um pouco um amigo gay se pegando com uma colega lésbica… Também não podia esquecer aquela garçonete, uma morena exuberante em todos os sentidos; rosto fino e de curvas bastante agradáveis; olhos grandes, claros e levemente ovais; cabelo levemente tingido de castanho (ou seria vermelho?) amarrado naquele discreto rabo de cavalo que balançava enquanto ela andava rápido de mesa em mesa para atender aos clientes (cujos fios muito finos de sua cabeleira tocavam candidamente aquela nuca bronzeada); também me fascinou aqueles lábios bastante cheios e avermelhados que, juntos, formavam um coração escarlate; seus modos bem medidos, sua maneira de portar-se esbelta, altiva; e o tom firme e ao mesmo tempo suave da voz… Não posso deixar de frisar, leitor amigo, pois os homens sabem do que falo, da delicia das curvas daquele corpo, que mesmo o antiquado avental laranja do estabelecimento não escamoteava por completo; aquelas pernas grossas davam passos firmes sobre o sapato de plataforma e as ancas arrebitadas, bem redondas, suculentas, seguida daquela aprazível cintura fina, desses tipos raros de cintura feminina, muito convidativa ao toque, que combinavam com o busto arqueado de seios bem redondos…

Por Deus, como eu queria tomá-la em meus braços, enchê-la de carícias e dizer-lhe as coisas mais belas!

Depois de ter bebido por volta de quinze cervejas e ter pedido cerca de trezentas canções ao trio que tocava música popular brasileira no pequeno palco improvisado, pedi a um garçom uma caneta e lhe perguntei o nome de tão bela fêmea que sempre me atendia com um sorriso nos lábios carnudos:

“Ah… Aquela é a Josy…”

Rabisquei rapidamente num lenço de papel já meio úmido: A fim de uma boa conversa? Me Ligue. Seguido do meu número de celular. Um professor da faculdade, certa vez, disse-me que eu deveria melhorar minha caligrafia, pois corrigir minha prova era um exercício de paciência. Agora, bêbado, sem coordenação motora e, o mais importante, lembrando de tão valioso conselho do velho mestre, desconfiei que as esboçadas linhas não estavam legíveis. Por precaução mostrei ao meu amigo que, depois de ter examinado demoradamente o manuscrito e feito uma careta, disse:

“Ta bom…”

“Entrega para a Josy…” Disse ao funcionário, que me obedeceu.

Enquanto estava estirado sobre minha cama, relembrando este e outros lances, uma sonolência aguda se apoderou de todo o meu corpo e, como se eu fosse um moribundo dando seus últimos suspiros, adormeci.

Não tive uma boa noite de sono. Coisas horríveis assaltaram-me, como monstros me perseguindo, pessoas mortas que voltavam para me acusar e mulheres do passado que diziam o quanto eu as fizera sofrer…

Acordei suado, fraco e incapaz de levantar-me.  Todo o meu corpo parecia incapaz de esboçar qualquer movimento ou fazer as tarefas mais pueris. Foi a custo que consegui ir ao banheiro, tomar banho e escovar os dentes. Minha visão estava turva. Não pude fazer desjejum, meu estômago não suportaria nem mesmo um pequeno pedaço de pão.

Todo sábado pela manhã eu deveria fazer as compras na feira. Mas estava tão fraco que desisti. Voltei para a cama e fiquei com a mente na mais profunda inércia.

Eu me revirava em cima da cama, e mesmo deitado, a convalescença só aumentava. Logo senti aquilo que nos últimos tempos tornou-se um dos meus maiores terrores — uma crise de hipertensão. Normalmente quando a variação de pressão me ataca, ela vem seguida de uma crise de arritmia. É uma sensação de terror iminente, algo intangível, mas que aos nossos olhos parece perfeitamente factível, quase como inevitável.

Fiquei sentado na cama com a mão no peito, minha visão estava turva, rodava. Eu podia sentir meu sangue correndo rápido pelo meu corpo — pulsando pelo meu ventre, subindo pelo meu pescoço e alcançando meu crânio. Parecia que eu estava gelado. Estaria mesmo? Fui cambaleando até o espelho do banheiro e o que vi foi um rosto pálido, olhos fundos e lábios sem cor. Virando a cabeça podia ver minha jugular pulsando freneticamente como se estivesse a ponto de explodir. Meu terror aumentava. Olhei no relógio, eram nove horas da manhã. Todos em casa ainda estavam dormindo. Minha irmã era enfermeira. Deveria falar com ela? Desisti. Prefiro ir ao inferno mil vezes a dirigir minha palavra àquela mulher.

Eu convalescia cada vez mais. Meu coração parecia que ia rasgar meu peito e sair pulando pelo mundo. Peguei o telefone, liguei para meu amigo. Mas ele não atendeu. Liguei para outro colega que era enfermeiro. Caiu na caixa postal. E agora? Lembrei-me de um macete para arrefecer aquele terrível demônio — ficar debaixo do chuveiro durante cinco minutos e em seguida tomar um chá de alho.

Corri para o toalete, tirei a roupa de qualquer jeito e liguei o chuveiro no máximo tomando o cuidado para colocar a água numa temperatura bem baixa. Mas eu não conseguia respirar. Fiquei de cócoras, enquanto a água gelada descia aos galões em cima de mim.

“Que coisa mais ridícula…” Pensei, enquanto me via daquela maneira constrangedora debaixo do chuveiro.

Já me sentia melhor, podia perceber que meu coração já estava mais calmo. Desliguei o chuveiro e fui até o espelho. Estava menos pálido. Minutos depois, na cozinha, enquanto eu fervia água para aquele horrível chá de alho com camomila, o telefone toca.

“E ai meu…” Era um amigo da faculdade.

“Oi, tudo bem?”

“O que tem pra hoje?”

“Porra nenhuma…”

“Como não? Vai ter uma festa lá na Daniele…”

“Cara… Acho que hoje não vai dar…”

“Por quê?” Percebi que ele ficou meio contrariado.

“Estou de lua hoje… Não tô a fim de sair…”

Lembro-me de nós termos conversado sobre outras coisas — que hoje parecem completamente sem importância. Quando ouvi o borbulhar da água no fogão, inventei uma desculpa qualquer e fui fazer meu maldito chá.

Não se pode dizer que era a bebida mais gostosa do mundo. Preferia mil vezes uma cerveja… Ainda que a água tivesse restabelecido parte das minhas forças, ainda estava muito fraco e foi a custo que consegui tomar tudo.

Fui para o sofá e fiquei ali por muito tempo, deitado, só de toalha, não me importava se eu estava molhando todo o canapé. Um silêncio agradável imperava por todos os cantos que só era cortado pelo tique-taque do relógio de parede, pelo canto de alguns passarinhos que vinham fazer algazarra numa planta da varanda de casa ou por algum resquício de voz humana que teimava em entrar pelos meus ouvidos. Coloquei a mão na jugular e percebi que minha pulsação estava normalizando. Aliviei-me. Naquele momento sentia-me feliz. Em breve minha mãe despertaria e com certeza ia reclamar de alguma coisa que eu não fiz direito ou deixei de fazer. Minha irmã, com aquela cara de poucos amigos se entocaria no quarto e fingiria não precisar de ninguém.

Mas quem se importa?

Lembrei-me de Josy. Tive vontade de rir. Como é que eu fui tão petulante? Aquela mulher devia receber no mínimo uns quarenta bilhetes como aqueles de homens muito mais interessantes que eu. Com certeza meu recado de caligrafia horrível estaria no fundo de uma privada ou num lixeiro qualquer.

Mas quem se importa?

Eu estava bem. Não tremia mais, minha pulsação com certeza estaria normalizada e logo recuperaria as forças. Enquanto isso não acontecia, deixava-me ficar ali, estirado sobre o canapé, me deleitando com o silêncio entrecortado pelo barulho do relógio, com o som dos pássaros ou de alguma voz que ecoava ao longe…

Era só naqueles momentos solitários que eu encontrava a felicidade.

 

Noite na Taverna: uma pequena obra-prima

azevedoDeixai-me fumar o meu charuto!”

A.Azevedo

Lembro que quando estudei a literatura de Alvares de Azevedo (1831-1852) na escola, lemos apenas os seus poemas, não demos nenhuma nota sobre sua produção em prosa. O que foi uma pena, pois o nosso maior romântico foi um poeta extremamente medíocre. Sua Lira Dos Vinte Anos (1853) é um livro com uma quantidade enorme de poemas ruins de rimas muitas vezes preguiçosas, apenas um ou outro que se salva; o melhor deles, sem dúvida, é Meu Sonho, na melhor inspiração Byroniana.

O autor nasceu no século XIX, em São Paulo, filho da elite cafeeira paulista, ingressou na faculdade de direito e morreu de tuberculose aos vinte e poucos anos. Era um autêntico filho do século XIX. Romântico extremado, leitor ávido de Shakespeare e Byron, cantou sobre a morte, amores impossíveis e sobre o tédio da vida. Era um liberal. No seu discurso de formatura, defendeu os ventos que a revolução francesa soprara pela Europa. Influenciou quase todos os escritores de sua geração e das seguintes no Brasil, incluindo pesos pesados como Machado de Assis e José de Alencar.

Contudo, a grande genialidade de Azevedo, pelos menos para mim, está em seus contos, publicados em 1855 sob o nome de Noite na Taverna. O livro é uma coletânea de histórias trágicas e soturnas onde seus personagens, Solfieri, Bertram, Gennaro, Claudius Hemann e Johann, narram suas desventuras passadas sentados numa taverna qualquer e rodeados de prostitutas.

São personagens extremamente angustiados, pois não sentem qualquer propósito de viver. São todos cheios de vícios e levam uma vida vazia, regada basicamente a alcool, drogas e sexo. As histórias que compartilham são sempre de amores passados, cujo fim termina sempre em tragédia e morte. O tom do livro é extremamente pessimista, cinzento e cínico, mostrando que para estes personagens a vida é um sofrimento e a única forma de escapar dela é beber e transar até que o fim chegue.

Particularmente, gostei muito do capítulo de Solfieri (leia aqui), que abre o livro, e sua incrível cena de necrofilia.

O livro todo se passa na Europa, e não tem qualquer ligação com a biografia do seu autor. Apesar qualidade acima da média, Noite na Taverna foi como um fruto exótico da obra de um escritor que morreu aos vinte e poucos anos. Quem dera se ele tivesse vivido mais e se dedicado mais a história curta. Com certeza teria criado grandes obras.

Mas a Fortuna desejou que fosse diferente.

Recomendo Noite na Taverna para aqueles admiradores de histórias de fantasia, suspense e terror.

Uma história sobre rompimento e separação.

deixando para atrásEm 2012 li na revista Cult um conto sobre um homem que, após romper com a esposa, está se preparando para deixar em definitivo o apartamento onde eles viviam juntos. Eu achei as circunstancias com que a história trabalhava bastante interessantes e resolvi criar a minha própria versão do fato. O resultado é o conto que ai vai. Espero que gostem.

Deixando para Atrás

Orlando olhou melancólico para os seus pertences em volta, a mala verde com alça lilás, a mochila preta surrada e a pequena bolsa onde estava guardado o notebook velho e lento como um jaboti de oitenta anos. Tudo estava acomodado sobre o sofá de pele escura. De pé, aprumou as calças. Deixou-se ali, no meio da sala, observando tanto os aqueles objetos reunidos quanto o ambiente em volta, que agora parecia tão triste — as paredes, a televisão e os dvd´s que estavam espalhados. Não queria ir embora. Pensou estupidamente que, se detendo por alguns minutos a mais poderia evitar, sem saber como, aquele rompimento definitivo com Duda, que estava propositalmente ausente naquele dia. Riu do próprio pensamento. Achou-o estúpido.

Ficou a remoer alguns acontecimentos passados de sua vida com ela e, quando mais mergulhava nessas lembranças, mais se enternecia. Lembrou-se da época em que se conheceram, ainda na faculdade. Ele era um consumidor inveterado da doce erva e cursava o quarto período do curso de História, enquanto ela era como uma típica garota de dezessete anos recém-saída do ensino médio, cheia de mimos e deslumbrada de ter acabado de ser admitida no curso de serviço social da Federal. Também rememorou a singular tensão sexual que logo surgiu entre eles: os sorrisos, os olhares desajeitados e as palavras que, por mais tivessem sido milimetricamente ensaiadas, sempre saiam desencontradas. Não demorou muito para começarem a sair. Também demorou menos ainda para que estabelecessem aquele pacto que muitos chamam de relacionamento sério e quase nada para que começassem a morar juntos. Não é preciso mencionar que os pais de Duda, dois bem altos burocratas do Tribunal de Contas do Estado do Amazonas, reprovaram a união:

“Um maconheiro, minha filha!”

Mas, como os corações jovens são os mais impetuosos, energéticos e, por conseguinte, os mais imprudentes, estas ingênuas almas, acreditando piamente no amor pelo amor e na felicidade imanente provinda dele, uniram-se.

Foram morar numa pequena instância, entre as milhares que pululavam no bairro do Coroado. Para pagar as contas, resolveram trabalhar. Ele dava aula para o ensino médio numa escola particular. Duda resolveu pegar um estágio numa dessas secretarias do Estado, conseguida com a ajuda do pai dela, amigo de infância de um senador. De manhã tinham aula e se falavam rapidamente na hora do intervalo. Quando dava meio dia almoçavam juntos e, já por volta das treze horas, corriam pegar o ônibus que lhes enviaria para a labuta. À noite, já cansados, entravam na terceira jornada, que era cuidar da administração do pequeno apartamento.

Repassou as brigas, as discussões, as cenas de ciúmes que não demoraram a aparecer e todos os episódios de franca intolerância que ambos passaram a nutrir um em relação ao outro, apenas quatro meses depois de terem ido morar juntos. Por algum motivo que não podia explicar, lembrou-se do dia, quando tinha apenas dez anos, em que fora levado por seu pai ao clube dos funcionários da empresa onde trabalhava, uma dessas firmas estrangeiras que faziam rios de dinheiro na Zona Franca de Manaus. Quando estava na piscina, tomou um pouco da agua cheia de cloro nas mãos e viu as aguas se desvanecerem por entre os dedos magros e pequenos.

“È assim que as coisas acontecem…” Pensou. “Se desmancham como água entre os dedos..”

Respirou fundo antes de abrir a porta e contraiu o semblante, como se estivesse sentindo uma grande dor.

“Talvez ela volte para a casa dos pais…” Disse.

Quando se encontrassem pelos corredores da universidade, seria com aquele patético constrangimento sempre comum entre casais recém-separados: olhares rápidos, bochechas coradas, comentários em voz baixa de amigos em comum e cumprimentos secos e ligeiros… Talvez  ela nem sequer olhasse para a cara dele, preferindo baixar a cabeça ou simplesmente mudar o trajeto para passar o mais longe possível de Orlando.

Ou talvez até já estivesse com outro…

A ideia, para dizer a verdade quase um desejo, de que ela ligaria um ou dois dias depois da separação ainda lhe encheu de um pouco de otimismo. Mas sabia que ela não ligaria, nunca mais…

“Merda de vida…” Pensou, logo após trancar a porta do apartamento.

O prazer de escrever: quando alcançamos a marca de cem posts

SobreaimportanciadaescritaEnfim, cheguei à postagem de número cem nestas Páginas Perdidas. Desde que comecei este blog, lá pelo ano de 2009, minha intenção era apenas criar um lugar onde eu pudesse estocar meus textos que publicava em outros sites. O tempo passou, cheguei a congelar a página, pensando mesmo em destruí-la, mas o tesão por escrever sobre assuntos diversos, como sociologia, literatura e cultura em geral, falou mais alto e retomei este sítio, desta vez com mais afinco, de maneira mais disciplinada, procurando publicar sempre uma vez por semana, relacionando assuntos que, ao meu ver, fossem de interesse para qualquer um que goste de discutir sobre a loucura que é o mundo moderno.

Quantos leitores eu tenho? Cem, cinquenta, vinte, dez? Não me importa muito. O que realmente importa é o prazer de escrever, sabendo que estas palavras estampadas nessas Páginas Perdidas podem ter algum significado para alguém em algum lugar deste mundo globalizado.

Meu objetivo, pelo menos agora, é manter o foco em assuntos culturais, como séries, filmes, livros, publicar pequenos fragmentos de grandes obras e de novelas escritas por mim; e também sobre política e sociedade em geral… A escolha por torná-lo um domínio mais profissional, paginasperdidas.me, foi para aumentar, pelo menos a médio e longo prazo, o tráfego, e explorar o máximo de potencial que um este blog possui, que é ser uma fonte confiável de análises sobre contemporaneidade, num tempo em que a irracionalidade parece ser a lógica. Pretendo dividir, com quem quer que seja, minhas inquietações, anseios e problemas que um jovem sociólogo como eu tem nestes quase dez anos de estudo sobre o social. Trata-se de lançar um olhar que busque muito mais o entendimento do que alimentar a polarização e o clima de torcida que muitos destes coxinhas, militontos e troskos em geral costumam fazer. Os primeiros me chamarão de comunista, os segundos de troskos e os últimos de pelegos… Mas eu não me importo. Escrever, tomando uns goles de café e tendo com trilha sonora algum clássico do jazz ou do heavy metal, me dá muito prazer, é quase um chamado. Se eu fico duas semanas sem ler um livro ou colocar algumas linhas estúpidas no computador, sinto-me mal, oprimido, incapaz de expressar a minha individualidade… Eu necessito disso assim como o viciado precisa do ópio.

Se o leitor gostou, ótimo. Se não gostou, vá a merda.

Que venham mais cem posts no blog.