Conto: A Matança da Onça*

“No dia que matei essa gata/ Foi um dia de alegria/ Quando tocaram a reboca/ Eram doze horas do dia”

(Versos cantados pelo negro Deolindo que morreu afogado nas águas do Piracuruca e teve os olhos comidos pelos peixes).

De José Magalhães da Costa

Não sei se o moço chegou a conhecer o velho Chico Mascarenhas, matador de onças, que vivia ali nos Araticuns, propriedade de D. Emília Resende. Ah, conheceu, não é, se lembra dele? Pois foi, foi ele mesmo quem me contou esta história, quando eu era menino. Já morreu, faz muitos anos, e está enterrado num cocurutinho de terra, próximo ao Pequizeiro da Veada chamado, na estrada que vai da Varjota para o Curral de Pedra. Bem mesmo ali onde entra uma vereda de gado que vai desembocar no pátio das Palmeiras, também da viúva do Cel. Facundo. Está sepultado lá. Foi ele quem pediu. Disse para o filho Zeca, que queria se enterrar ali. Marcou até o lugar da cova. E é lá mesmo que está repousando, dormindo seu último sono. É, foi ele, o velho Mascarenhas, como era mais conhecido, de verdade, quem me contou este caso, passado com ele no tempo que assistia para os lados de Campo Maior, terra dos carnaubais.

Pois bem. Diz que apareceu uma onça preta canguçu na caatinga do Brasão, que — não sei se o senhor sabe — pega os municípios de Campo Maior, Castelo, antigo Marvão, e Pedro II. A malvada estava acabando com os rebanhos, deixando os criadores da região, coitados, com as mãos na cabeça, sem saber o que inventar para dar fim à monstra da fera. Cadelo que entrasse na mata, não saía mais de lá, não tornava mais à casa do dono, e nem era mais visto rastejando, acuando onça. Podia-se chamar cachorro morto, uma vez um cão caçador. Muito deles, experimentados na caça, no ofício, como o Rompe Nuvens e o Quebra Ferro, que não se aquietavam mais quando viam o rasto duma bichana, puxando o dono na corda, que tinha de soltar logo eles, se não quisesse ser arrastado à força, deram o couro às varas. O Araponga, dum latido de tinir as oiças da gente, que nem o pássaro ferreiro, foi outro que entrou na dança macabra. E assim, muito, muitos animais bons de caça, testados, como o Boto, o Tupã, o Jupi, serviram de refeição pra gatona de fama. Até o Tubarão, que tinha acuado quatro bichas, foi também um dos que a fera passou no papo. Todos eles, e mais uma matilha. Nunca mais que tiveram notícias dos pobres, a não ser através das carniças, dos carangaços encontrados, aqui e ali na mata, ou então pela mancha de gordura deles no chão, no lugar onde ela comera o infeliz. Caçador nenhum tinha então coragem de penetrar na caatinga do Brasão, com medo de ser morto e comido pela temida canguçu. E a gatona fazendo das suas. Passeando solta. De vez em quando sangrando uma criação pra chupar o sangue, comer a fatada, que é o de que ela mais gosta. Aqui, matando um mijolo. Ali, uma marrã de ovelha gorda. Adiante, um poldro de égua, um jumentinho novo. Bodes nem se contava mais: chiqueiros inteiros a danada dizimou, porque, como o senhor não ignora, deve saber, bode é o vivente mais besta que existe na Terra. Não sei se o senhor já teve oportunidade de ver. Se já prestou atenção… Não. Nunca botou, nunca viu, não é? Pois é assim… Aquilo eles vêm num caminho, vereda que seja; a onça escolhe um lugar e fica ali esperando, de tocaia. Quando o magote se aproxima, e vai passando, ela salta no meio, espantando os bichos, que se espalham, mas voltam em seguida, pé ante pé, admirados, bestas. Ela tem saído do ponto, está noutro, mais à frente, e aí é só saltar nos espinhaços da presa. Um, dois, três… e assim por diante: é tantos queira. É só escolher, e saltar em riba. Ocasião que mata só de perversa, pra estruir. Por brincadeira até, parece. Uma vez fui fazer uma partilha dumas miúças na Malhada Grande, pra minha patroa, e quando passava por um tabuleiro perto dum morro onde o morador fez a casa dele – hoje é só tapera – vi três cabritos a menos de dez braças um do outro, mortos, como se a malvada estivesse brincando. Os bichinhos lá, estirados no chão, sangrados, um deles ainda arquejando, berrando fraquinho, os buracos das unhas da malvada no pé da goela.

Pois sim, a onçona fazendo das suas, ganhando nome, crescendo na boca do povo, que não falava de outra coisa, não tinha outro assunto. Até um romance já circulava, contando as proezas e artes da canguçuzona de fama. (Só o Chico Perez, autor do tal livrinho, vendeu mais de um milheiro na feira de Pedro II, que é a melhor do norte do Piauí. Diz que até fila fizeram pra adquirir o panfleto). Foi aí que ocorreu de a bicha pegar um garrote, um barbatão criado, de seu Tertuliano Brandão, do Pedro II, que também possui terras no Brasão, na caatinga velha. Dele ou de outro fazendeiro, não sei bem, não me recordo agora no momento; mas acho que foi de seu Terto, ou então do Coronel Manoel José Cardoso, o maior fazendeiro do norte do Estado, na época que era prefeito de Castelo o valente Ten. Costa Basílio. Ou ainda de algum Bona ou Ibiapina rico de Campo Maior, criador de gado pé-duro e de cavalo campeiro. O certo é que os donos de gado da região se reuniram em assembléia e deliberaram então contratar um matador de onças profissional, mandando buscar o velho na Bilheira, do Desembargador Vicente, no Campo Maior, que era onde ele morada, vivia antes de vir se socar ali nos Araticuns. Contrataram o homem não sei por quantos mil-réis, além da promessa de matarem um boi grande, erado, pra festejarem o acontecimento, quando chegasse a hora de tocar a reboca.

Bom. Foi num ano de seca. Se não me engano, em 32. Ou mais pra trás, em 15. Não sei bem. Só que foi num período de seca braba, ou de inverno ruim, fracateado. Deixa. Vamos pra frente. O que interessa é que o velho foi chamado, trazido pelos fazendeiros pra tirar a fera do pasto. E lá veio ele. E já matutava, quebrando a cabeça, procurando um jeito de melhor fazer a coisa. Com cachorro estava visto que não dava, que até o Lavadeira, que o velho trouxera consigo e tinha na conta do melhor acuador e matador de onças, foi-se, quer dizer, foi, mas não voltou mais. Assim, o jeito que teve foi esperar a bicha na bebida, quando ela descesse pra matar a sede. O custo, a demora era descobrir o lugar onde estivesse bebendo, indo beber. Pra isso teria, teve que ganhar o mato, enfiar-se na caatinga. E foi o que fez. Foi. Afundou-se na caatingona, indo até dentro, muito dentro, no centro da mata. Aí encontrou o que procurava: um choramingozinho d’água numa grota perto dum lajedo com poucas árvores em redor, a maioria plantas rasteiras, como costuma ser a vegetação da caatinga. Era lá que a pilheira estava bebendo. Lá as alpargatas da monstra, no chão. No meio do lajedo, um buraco em formato de pilão, do tamanho duma cojuba, dum coité, e que deu ao velho a idéia, de ficar botando água até acostumar a monstra, pra então poder passar sua tipóiazinha e preparar a espera. A fortuna, que achou, pelo menos, aquela árvore: uma catingueira velha esgalhada… e foi nela que aguardou a gatona.

Contou que uma tarde, uma semana depois de ter penetrado na mata, quando vinha vindo de tardezinha de volta pra casa, pressentiu estar sendo seguido, que atrás de si vinha um bicho, e não era outro, senão a gatona. Vinha só, sozinho. Perdera já o seu Lavadeira, como o senhor viu, e assim o jeito que teve foi logo procurar uma árvore, alta e fina, linheira, que a bicha não abarcasse, nem pudesse subir nela, e onde ele desse de passar a noite sem perigo. E foi o que fez. A valença que encontrou logo um amargoso, e logo subiu nele, ali pernoitando, e vendo dois vaga-lumes gigantes – os olhos da monstra – circularem em torno, pousando num lugar e noutro, mas sempre na mesma altura, focando nele, lá em cima no olho do pau. Quando se desceu de manhã, viu lá o lugar onde a danada estivera acocorada, chega o chão estava limpo, liso, de tanto a bicha abanar com a calda, olhando e esperando que ele descesse da árvore pra então… E foi aí que o velho viu, quando se apeara, botou o pé no chão, em terra, o perigo que correra, o risco em que ia se meter, no caso de ter prosseguido a viagem. Foi. Foi, por sorte que escapara, se salvara. Por milagre mesmo. Não tivesse feito, a história hoje seria outra, muito diferente.

Doutra, vira os restos dum gobila que a perversa matara e comera no fundo dum grotão que ficava próximo à furna que parecia ter sido morada dela, tempos trás, e onde se viam as ossadas de bichos que a monstra arrastava nos dentes, levava nas cacundas lá pra dentro pra comer com os gatinhos. Na caatinga, só se via o rastro, as patonas da pai-d’égua afamada. Onde se pisasse! O chão todo tomado, ladrilhado. Em toda parte o maozão da bicha, olhe lá o tamanho! Era só o que se enxergava, encontrava na mata. Cada buraco que fazia medo! E ele, o velho, caminhando pra lá, botando água numa cabaça, num coité, até ver chegado o dia, a hora da onça beber. Aí foi, carregou bem a lazarina velha (os fazendeiros ainda quiseram lhe dar um 44-papo-amarelo, mas ele não aceitou), trepou-se na árvore, adredemente escolhida, e ficou esperando a gata velha descer pra bebida. O sol tinha se posto, e a noite vinha cambaiando de mansinho para a escuridão, os bichos pequenos, os insetos, que tinham vindo beber, e antes se movimentavam por ali brincando uns com os outros, pararam em respeito à presença do animal que se anunciava, e para que o caçador pudesse ouvir direito as pisadas da canguçu nas folhas secas, rumo à bebida. Reinava então um silêncio pesado, de morte, enorme como as patas do gatão, que agora dispunha de poucas horas de vida.

Como é do conhecimento de todos, onça é bicho treteiro, escovado por arte do Capeta. Malandro que nem urubu. Mais sabido que macaco. Nunca avança de vez, mas devagarinho, tomando chegada de mansinho, assuntando tudo em volta antes. Então, só então, é que parte para a presa, pula em cima da carniça, ou baixa a boca n’água. Tão inteligente, que só anda em círculos, dando voltas. Nunca que se demora num lugar, mas sempre passa pelo mesmo canto por onde andou, tanto que o povo diz: — “aqui é passagem de onça”. É, nunca vai em cima direto, assim não existiria mais caçador vivo! Aquilo ela pega, sai naquele chotão, marchona mole, dela, que não tem quem acompanhe – vai-se com todos os diabos! E nunca volta daquela tirada. E se acontece dela voltar no mesmo dia, ou no outro, naturalmente porque deixou na certa carniça enterrada, ou a caça no lugar é pouca, rara. Aí ela torna. Ou então se lembrou do pasto, como é sabido de todos.

Outra coisa: onça é bicho de bebida certa, e disso todo caçador sabe, e sabia também, de experiência própria, o velho Chico Mascarenhas, matador de mais de uma dúzia de gatas grandes como aquela.

Bem, vamos agora ver como se deu o encontro do velho Honorato com a caça. Já disse que ele, um dia sim outro não ia botar água pra bichona beber, não disse? Pois. Sim, ia. Até que viu que estava viciada. Nem é bem isso. É que, como eu já referi, era tempo de seca, e só tinha água lá, assim foi fácil enganar a fera. Era lá que a danada estava bebendo. Pois bem, o velho subiu na árvore e aprumou-se, esperando o encontro com sua rival, a lazarina velha atravessada nas pernas. Foi quando ouviu pisadas nas folhas secas, à sua frente, e imaginou ser a bichana descendo para a bebida.

– É ela – pensou o velho caçador, todo arrepiado. É. Era, era a hora mesmo. Chegara o momento dos dois ajustarem as contas. Estava já turvo, as coisas se confundindo com a escuridão da noite, que baixava como uma mortalha que cobrisse tudo. O matador sentiu a aproximação do perigo, vendo chegado o instante, o momento, a hora do encontro com a rival – de atirar na gatona afamada. Então, devagarinho, botou a espingarda com o cano pra frente, armou o gatilho, e esperou um pouco: logo avistou aquele vulto escuro, aquela coisa preta, enorme, movendo-se no seu rumo.

– É ela – repetiu ele baixinho, na hora que a lua ia saindo, refletindo os olhos da fera, transformados em dois patacões de ouro, no meio dos quais o velho meteu sua arma, mirando bem e atirando. O tiro estrondou, seguindo-se então de um silêncio pesado, que nem a carga da noite, que acabava de baixar as pestanas. Um silêncio grande como a mata. Um silêncio da hora da morte. Um silêncio como aquele outro, quando a monstra se aproximou da bebida. Silêncio de coisas paradas e mortas. Nada então se mexia. Nem um galho! Nem uma folha! Nada! Nada bulia… Até o vento, aquele ventinho bom, de boca de noite, parara. Não se ouvia sequer o zinir dum mosquito. Silêncio mesmo de meter sobrosso. E o velho ficou com medo, assombradinho. Supondo ter errado o tiro, e a onça ido embora. Mas não. Não. Não era possível que tivesse perdido a munição, a carga da arma, errado a pontaria! Só vendo… Seria possível?! Então foi-se descendo da árvore, com cuidado, que a bicha podia estar viva francamente: sabida… se fazendo de morta pra pegar ele!… Foi escorregando pau abaixo, até tocar, bater o pé no chão, fazendo zoada:

– Chô, onça! Escutou… Nada! E como não visse então nada mexer, bulir, resolveu se aproximar do vulto escuro, do monte preto à sua frente. Aí empurrou o pé na coisa preta, pra ver se realmente estava morta. Deixa que, ao fazer, a monstra rolou fazendo aquela zoada, horrorosa de feia na garganta, como quando se mata um capado grande, cevado, e o animal ronca com o sangue gargulejando no pé da goela, na sangria, dando-nos a suposição de estar ouvindo direitinho o rosnar da maior comedeira de bichos que temos, e o velho aí não teve outro jeito senão perder o respeito às calças, sujando-se todinho, pois a impressão que teve na hora foi que a bicha estivesse vivinha da silva.  Mas não. Não. Estava morta mesmo. Mas que tomou um susto, lá isso tomou.  Um susto grande, o maior de sua vida sem dúvida, segundo o próprio. Não negou. Borrou-se, de verdade, o velho, ele que tinha tirado do pasto muita onça grande. Mas não como aquela. Aquela foi, sem dúvida, a maior bichana que ele já matou. Saiu então para dar a notícia em Castelo. Mas antes de chegar lá, já o povo sabia do acontecimento, estando a cidade em polvorosa, sob um verdadeiro bombardeio de foguetes, em festa, havendo mesmo uma camioneta, com um aparelho de som, de oito bocas, instalado nela, percorrendo a cidade anunciando o feito, considerado como heróico, e convidando o povo de todo o município e circunvizinhanças, onde pisava a gatona, para, reunido, e em procissão, ir fazer a reboca. O serviço também anunciava o grande baile que o clube social de Castelo iria oferecer ao herói Francisco das Chagas Mascarenhas, matador da maior pichana já vista na região, chegando mesmo, um atento vereador, a anunciar no microfone a entrega do título de herói de Castelo, que a Câmara de Vereadores daquela cidade, agora livre, iria conceder ao bravo, corajoso e providente profissional onceiro. No patamar da igreja matriz de Nossa Senhora do Desterro a bandinha de música tocando dobrados e mais dobrados, animando a festa, que não deixava de ser, e o vigário, padre Expedito Carneiro, já estava se paramentando para celebrar missa, de ação de graças, pelo auspicioso evento.  No caminho, muita gente, com o pessoal das barracas carregando suas bancas de café, bolo, frutas e batidinhas para o local onde o velho tinha morto a respeitada e temida canguçu, já então sem as desmedidas e descomunais mãos e presas, e não se sabe como não foi transformada em churrasco pela multidão que para ali se dirigiu, não só da cidade de Castelo, mas de todo o município e quejandos. Gente de todo lado, de tudo quanto é canto onde chegou a notícia.

A festa rolou por três dias, tendo sido declarado feriado municipal em toda a região do Brasão. Festa mesmo de arromba. Bailes de reinado, com música, dança, comida, bebida e tudo, não havendo nenhuma outra mais falada, até então!

O velho Chico Mascarenhas, animado e puxando fogo, dançava abraçado com a cabeça da bicha, que parecia uma carrapeta no meio do salão!

ESTE CONTO IRÁ SER PUBLICADO NA PRÓXIMA OBRA PÓSTUMA DE JOSÉ MAGALHÃES DA COSTA, NA COLEÇÃO COMEMORATIVA AOS 100 ANOS DA ACADEMIA PIAUIENSE DE LETRAS.

*Conto integrante do livro Histórias com Pé e Cabeça…, publicação póstuma, de 2012.

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Menino de Engenho: retrato de um tempo perdido

menino-de-engenho-jose-lins-do-regoGilberto Freyre afirmou que a escravidão, o patriarcalismo e miscigenação de raças e culturas criaram uma nova forma de sociedade no Brasil, uma sociedade tipicamente tropical e baseada no equilíbrio de antagonismos. Isso seria uma característica tipicamente nacional.

O patriarcalismo no Nordeste foi gerado nas grandes lavouras canavieiras, no sudeste nas grandes plantações de café e na Amazônia nos seringais perdidos no meio da selva. O Brasil, portanto, se firma pelas suas especificidades regionais. Num país com suas dimensões continentais e sua diversidade cultural, são as partes que dão sentido ao todo e não o contrário.

Se o grande mestre pernambucano explorou com maestria esse tema da especificidade da cultura brasileira a partir da sociologia, foi José Lins do Rêgo, a partir da literatura, que foi fundo no impacto da lavoura canavieira na diversidade regional do nordeste brasileiro.

Menino de Engenho, primeira obra do autor, é um relato a respeito da vida num grande engenho da região. Ali vemos um retrato de um Brasil onde predominava as antigas relações de mando e obediência, com o senhor de engenho, José Paulino, exercendo seu domínio de forma severa e protetora, isto é, patriarcal. O menino narra tudo, ao mesmo tempo em que descobre o mundo com suas amizades, paixões e iniciações sexuais. Quando lemos nos sentimos transferidos para aquele mundo outrora vivo, cheio de cores, sons e sabores, mas que agora jaz na profundeza da história.

Ali lemos como estavam dispostas as relações desiguais entre os homens e as coisas, com o neto do patriarca descrevendo os trabalhadores do eito, seu avô e filhos, os negros e as negras libertas, os engenhos em decadência, chamados de Fogo Morto, a religiosidade das pessoas e a calmaria que regia aquele mundo aparentemente estático e eterno, surgido com a colonização e que sobreviveu ao Império e à República; e que logo seria modificado pela ação das usinas, novas formas de produção capitalista, levando à decadência os antigos engenhos.

Relato de uma época que não existe mais, Menino de Engenho é um autêntico romance brasileiro, pois vai nas raízes da nossa história e do nosso ethos civilizacional: lusotropical, patriarcal, latino-americano, capitalista e dependente.

Coloco-o ao lado de grandes como Proust, Whitman, Balzac e Flaubert que retrataram como poucos o espírito de um tempo perdido no tempo e no espaço.

Pornopopéia: uma espiral de excessos

pornopopeiajpgUm cineasta fracassado tem diante de si uma tarefa, escrever um roteiro institucional para uma empresa de embutidos de frango. O que seria simples nas mãos de uma pessoa normal, para o personagem em questão, Zé Carlos, se torna algo impossível, pois logo ele deixa-se levar por uma avalanche de sexo, orgias sem camisinha, álcool e drogas, muitas drogas.

Este é basicamente o enredo de Pornopopéia, de Reinado Moraes, uma sucessão de acontecimentos onde todo excesso é cometido, enquanto o personagem vai aos poucos se autodestruindo. A linguagem é direta, coloquial, simples, ágil e repleta de reflexões ácidas e tragicômicas do protagonista em relação ao mundo a sua volta e em relação a si mesmo.

Desacreditado por todos e sem dinheiro, inclusive pela esposa, sem criatividade para escrever e viciado em tudo que seja possível cheirar ou fumar, Zé Carlos passa pelo mais tosco submundo de São Paulo, com suas prostitutas, traficantes, travestis, viciados, velhas endinheiradas carentes de sexo e outras figuras bem peculiares.

Pode-se dizer que é um personagem típico dos nossos tempos, movido por um apetite voraz por qualquer coisa que gere prazer, ele não se preocupa com as consequências dos seus atos, apenas se rende ao gozo dos sentidos, nem que isso gere problemas graves para ele e para outros a sua volta.

Embora seja engraçado e as vezes chocante, vi no livro muito mais que um relato desenfreado de gozadas e nóias.

Zé Carlos é o Homem à Deriva, sem um fim ético pelo qual lutar, sobrevive numa vida nua, desgarrado numa sociedade anômica, ele é um doente numa sociedade doente, como o pus que espirra de uma ferida podre. Interpreto-o como mais uma consequência imprevista de uma sociedade hiperindividualizada e hipercompetitiva na hipermodernidade.

A obra é uma verdadeira epopeia do sexo, das drogas e do desastre.

Silêncio e Escuridão: um Conto de Natal

Dedicado à H.P. Lovecraft.

Eu permanecia quieto em meio às sombras dos meus aposentos, enquanto a tempestade lá fora prenunciava sua fúria sobre toda a cidade de aço, concreto, carne e sangue… Ainda estava em um estado de torpor diante dos delírios que acometeram-me durante o sono. Há muito eu vivia entre as ruínas daquele casarão, procurando evitar todo contato humano e me aprofundando cada vez mais nos estudos das artes ocultas e no uso de substâncias que me conectariam com o mundo superior…

Era quase meia-noite e os fogos de artifícios começavam a tornarem-se mais frequentes. O Natal estava se aproximando. O Chanceler já tinha feito seu tradicional pronunciamento em rede nacional ao lado da casta de homens de fé que lhe apoiavam. A cidade de Sebilia parecia dominada pelo sentimento natalino. Mais um ano de sobrevivência em meio à carnificina.

Eu sempre achei muito curioso que, mesmo depois de tantos séculos de desencantamento e separação total dos homens diante das coisas que o ligavam ao que há mais além dos sentidos, ainda existia lugar para aquela data singela, imaginosa e destituída de importância. Mesmo assim, eles ainda comemoravam, exultando em suas vidas simplórias e passageiras, enquanto eu mergulhava cada vez mais na escuridão como forma de alcançar verdade e a vida eterna antes que minha enfermidade me consumisse por completo…

Um clarão entrou pela janela da câmara principal onde me encontrava e lançou um brilho lúgubre sobre todos os cômodos do lugar, livros velhos, escrivaninhas manchadas e cadeiras cheias de pó. A nave de inspeção da polícia de salvação pública passou rasando bem próximo da janela a procura de elementos subversivos…

Foi exatamente no momento em que o clarão surgiu que vi o Vulto surgir debaixo da soleira da entrada principal. Era grande como um touro. A princípio pensei ser salteadores, então peguei a pistola e apontei para a coisa sob a soleira da porta e inquiri:

“Quem é você?”

Mas o espectro não respondeu.

Sem perder tempo, disparei três vezes contra a coisa. Mas ela não fez qualquer movimento. Foi então que tomei consciência que finalmente minhas buscas tinham cessado, eu tinha conseguido invocar o mais antigo e poderoso entre os espectros da dimensão exterior. Os anos dedicados na busca de antigos pergaminhos que guardavam as maldições do mundo e gastando toda a minha fortuna em estudos científicos sobre outras dimensões provavam que, ali e agora, minha hipótese estava certa. O Além, o Mundo Invertido, o Domínio da Escuridão, guardavam estranhas criaturas detentoras de poder da vida e da morte. Potestades que antes eram acessadas por indivíduos clarividentes em sonhos e visões, mas que, com o conhecimento correto, poderíamos contactá-las…

Eu estava finalmente diante da grande oportunidade da minha vida, talvez da grande descoberta da humanidade…

“Eu te trouxe aqui, agora me mostre todo o seu conhecimento…” Ordenei.

“Que assim seja…” Disse o espectro, com uma voz aterrorizante, parecendo não uma, mas um milhão de pessoas, entre mortas, vivas e as que ainda estarão por nascer…

Então a coisa assomou sobre mim e levou-me para as catacumbas mais escuras das dimensões do silêncio, onde deuses de Neon são adorados em orgias odientas e o Natal é uma data profana, destinada ao sacrifício humano e à ressurreição da monstros milenares…

 

 

Conto: Esboço de uma História Não Escrita

O dia lá fora está cinzento. As nuvens já se formaram e ouço trovões e relâmpagos. O vento parece querer arrancar o mundo enquanto escuto o latido de cães ladrando.

Gosto de dias assim, frios, desbotados e chuvosos. Convidam à introspecção. Meu violão está jogado sobre a cama, tentei esboçar alguns arranjos, mas os músculos da mãos já me doem. O que queria transformar em música resolvi fazer em texto.

De alguma maneira, sinto-me leve. O último mês tem sido proveitoso, melhorei minha atuação no trabalho, meu humor está ótimo, comecei a fazer academia e estou de vento em popa para a pós-graduação. Sinto-me como se só agora estivesse explorando todo meu potencial como Homem.

Nada mal para alguém que, até um tempo atrás, estava preso e sendo sugado por uma parasita disfarçada de namorada.

Foram três anos sem privacidade. Sendo dominado por uma doente que parecia satisfeita em sugar-me sentimentalmente e psicologicamente.

Para falar a verdade, não acredito que eu tenha conseguido ficar tanto tempo  com ela. Nunca gostei daquela mulher, admito. No começo eu só queria curtir, o sexo era bom, mas ela foi se aproximando cada vez mais e pressionando para ter um relacionamento sério. Acabei cedendo. Que mal faria?

No começo eu até gostava dela, mas os surtos de ciúmes e a incrível capacidade que ela tinha de tentar me deixar com raiva por puro esporte, como ela mesma tinha me confessado, começaram a me fazer perder a paciência e o tesão. Na época eu já sentia falta de ser livre, sair com quem eu quisesse sem dar satisfação para quem fosse. Comecei a traí-la. Eu até senti remorso na primeira vez, mas cheguei à conclusão de que ela merecia cada chifre que eu colocava naquela cabeça dura. E passei a fazer tudo muito satisfeito.

O leitor pode estar se perguntando porque eu não terminei logo. Foi o que tentei fazer umas duas vezes. Mas a cena que aquela porra fazia era de tal asco que sentia pena. Então simplesmente me deixava levar, mais uma vez…

Mas não deixava por menos, eu comia deus e o mundo. Principalmente naquela época em que eu já conquistava minha independência. Tinha conseguido um ótimo emprego, comprado um carro e feito o financiamento para comprar um apartamento. Queria usufruir de tudo isso do mais tradicional jeito de Macho Alfa, com as mulheres mais gostosas da cidade e não preso a uma fracassada que sofria de dependência emocional.

Mas eu consegui me livrar daquela praga no começo do ano, quando descobriu que eu tinha comido uma amiga dela, uma morena muito gostosa. Eu não ligava mais pra nada. Foi quando pus um fim definitivo. Aquela desgraçada, que tanto adorava me desgastar e me cobrar de todas as coisas possíveis, perdeu completamente as estribeiras. Disse que ia se matar, se jogar na frente de um caminhão. Que se jogasse, pelo menos ela não ia mais me encher o saco.

Dias depois do término, que eu prefiro chamar de libertação, ela ainda tentou me ameaçar, me perseguir, tentar invadir minha casa, o que me obrigou pedir o auxílio de um amigo policial.

Não sei porque estou escrevendo isso. Talvez uma forma de me pôr para fora todas as lembranças e o sentimento de aprisionamento que vergava sobre mim. Acho que às vezes nós precisamos expurgar os espíritos de alguma forma, seja fodendo uma gostosa, enchendo a cara de cana, fumando um bom baseado ou simplesmente vomitando todo o pus em forma de literatura ou canção.

Lá fora as chuvas começam a cair. No meu celular estou recebendo um monte de mensagens. As vagabundas adoram uma atenção. Normalmente prometo o mundo para elas, que as amo, que vou namorar e toda essa ladainha. Depois que como elas umas cinco vezes começo a desprezar, mas de forma a mantê-la sob o meu radar, pois posso querer transar uma vez ou outra. Você pode dizer que manipulo as pessoas, mas quem nesse mundo não manipula? Os políticos, os pastores os pais, os maridos e os namorados. Todo mundo. Sou apenas um sujeito que sabe jogar o jogo e tem consciência de que, se agisse diferente, não mudaria o mundo.

Então, foda-se.

Está chovendo forte. Um potente caiu perto daqui. Os alarmes dos carros dispararam e o fornecimento de energia foi interrompido. Vou parar com essas lamúrias e tentar dormir um pouco. Mais tarde tem uma gostosa para eu comer…

Crônica: Carta a uma Amiga Distante*

Por Tenório Telles**

Boa companheira,

O mar está inquieto e os ventos sopram. Estou comigo e sigo, apesar dos temores e das dúvidas. É imperativo seguir, embora o corpo fraqueje e o coração hesite. Lá fora a chuva molha o tempo e a terra. Molha também o meu ser, amenizando a minha ânsia. Apesar da inquietação, mantenho-me sereno, resistindo a tudo; sem deixar o desespero tomar conta do meu ânimo. A morte ronda tudo: os sonhos, a política e o convívio social.

*Retirado do livro Viver, de 2011.

** Escritor, poeta e editor amazonense.