Conto: República dos Lobos

O sol estava a pino, jogava seus raios fritadores sobre aquelas criaturas que estavam jogadas pelas calçadas em ruínas; edredons, corotes, pinos de cocaína e charutos de crack estavam espalhavam-se aqui e ali, bem como alguns restos de uma fogueira usada para esquentar as noites frias da cidade. Alguns vira-latas perambulavam cheirando qualquer coisa ou perseguindo os pombos.

Um sujeito magrelo e desdentado, chamavam-no Dentinho, chegou perto de um pequeno grupo que dividia uma garrafa de pinga e disse:

Hoje tô afim de meter o lôco em alguém…”

Todas as quatro criaturas que estavam bebendo o ignoraram.

Percebendo que ninguém ia lhe responder, insistiu:

E essa pinga ai? Me dá um gole…”

Quer um gole, então toma…” Respondeu o Paraíba, um sujeito cabeçudo e de cabelos espetados, logo antes de desferir um pesado golpe de uma lasca de garrafa no rosto do outro….

Dentinho caiu com as mãos na face, enquanto o agressor falava alto e provocava: “Vem, seu filho da puta, vem…”

Logo vários moradores de rua foram ver a briga. Ninguém ousou intrometer.

O outro levantou-se, tinha um corte profundo na bochecha, o que deixava os dentes a mostra e um pedaço de carne viva que balançava gotejando sangue, feito um morto vivo dos filmes de George Romero.

Olha o que tu fez, seu puto!” Dentinho pegou um pedaço de concreto do chão e correu atrás do Paraíba. Mas foi em vão. Não conseguiu alcançá-lo. Sem fôlego, sentou-se na calçada, tentando estacar o sangramento com uma das mãos.;

Cara, vai pro hospital ver isso, tu tá perdendo muito sangue…” Aconselhou uma vadia, cujos braços eram cheios de marcas de agulhas, que conhecia o sujeito desfigurado.

Dentinho levantou-se, mas cambaleava, o sangue jorrava pelo seu rosto e empapava a camisa. Sumiu ao dobrar a esquina tentando chegar até o hospital.

O Paraíba, por sua vez, ficou dando voltas na rua, com os ombros levantados e com a cabeça baixa, falando:

Eu sou foda, mexeu comigo, se fodeu, se fodeu legal…” Mantinha ainda nas mãos a garrafa que gotejava sangue do seu antagonista.

Cara, sai daqui… Isso ainda sobrar pra você…” Falou um velho pingaiada, que estava deitado na calçada bebendo coquetel de cachaça com etanol.

Que nada, eu sou foda…” O outro respondia, em tom triunfante.

A pequena multidão de viciados e vagabundos que tinha se formado para ver a briga dispersou-se.

Sou eu que manda aqui nessa porra agora, eu…”

O sujeito não teve tempo de terminar a frase, pois um golpe o atingiu fortemente na nuca. Caiu tonto, sem conseguir esboçar reação. Foi um colega de dentinho que veio para a desforra. Paraíba ainda tentou erguer as mãos para proteger o rosto, mas foi em vão. Um pedaço de ferro desceu com toda a força contra a lobo temporal do sujeito, cujo sangue espirrou por todo o lado feito um balão de suco de morango estourando. Paraíba ficou ali, estirado. Impossível dizer se estava vivo ou morto.

Mais um dia agitado na República dos Lobos…

Poema: Meu Sonho

Em outra ocasião escrevi que Alvares de Azevedo era um péssimo poeta e um ótimo contista (leia aqui). Contudo, é preciso acrescentar que, embora a Lira dos Vintes Anos seja repleta de poemas toscos, há alguns versos seus que ainda se salvam. O melhor deles, na minha opinião, é Meu Sonho, um poema que fala sobre um misterioso cavaleiro andante numa atmosfera soturna e opressiva.

EU:

Cavaleiro das armas escuras,

Onde vais pelas trevas impuras

Com a espada sanguenta na mão?

Por que brilham teus olhos ardentes

E gemidos nos lábios frementes

Vertem fogo do teu coração?

Cavaleiro, quem és? — O remorso?

Do corcel te debruças no dorso…

E galopas do vale através…

Oh! da estrada acordando as poeiras

Não escutas gritar as caveiras

E morder-te o fantasma nos pés?

Onde vais pelas trevas impuras,

Cavaleiro das armas escuras,

Macilento qual morto na tumba?…

Tu escutas… Na longa montanha

Um tropel teu galope acompanha?

E um clamor de vingança retumba?

Cavaleiro, quem és? que mistério…

Quem te força da morte no império

Pela noite assombrada a vagar?

O FANTASMA:

Sou o sonho de tua esperança,

Tua febre que nunca descansa,

O delírio que te há de matar!…

Crônica: Laércio

Por Thiago Limeira

Está chovendo. Chovendo como há tempos não chovia. E nesta noite fria, só consigo pensar em duas coisas: Uma é passado, a outra é.

Ele costumava me chamar para eu colocar músicas no computador para ele ouvir. Racionais. Madonna. Ndee Naldino. Robério e seus teclados. We are the world. Ele ouvia de tudo, mas eram sempre as mesmas músicas que ele costumava pedir. Às vezes, me era um teste de paciência atender aos seus diversos pedidos. “Thiaguinho isso”, “Thiaguinho aquilo”, “Ô Thiaguinho”. Bah. Era o jeito dele, e eu sabia. E ele era um dos moradores mais porcos do abrigo. Me lembro uma vez que, após duas semanas na rua, bebendo, ele retornou com aquele conhecido e já esperado aspecto de espantalho. Magro, sujo, bafo de cachaça, completamente repugnante. Uma vez, de tão bêbado, deitou no chão e começou a girar. Mas voltando ao assunto. Ele passara duas semanas na rua, e não tirara a meia que estava utilizando nem uma única vez durante estas duas semanas. E ele tinha uma doença na parte inferior da perna. As meias estavam podres, imagine você a situação. E eu tive de tirá-las de seu pé pois o lazarento era folgado e bêbado demais para fazer isto. Foi nojento. Me lembro até hoje do cheiro. E era um tormento convencê-lo a ir tomar banho. Como eu disse, sua higiene era precária. E ele, mesmo já estando morto devido a quarenta anos de uso intenso de álcool e outras drogas, ainda incomodava outros moradores que moravam debaixo do mesmo teto. E foram exatamente as desavenças que, muitas vezes, o fizeram sair do abrigo para ir beber. Quando ele saia com a mochila nas costas, já sabíamos, só o veríamos dali a uma semana ou até mais tempo. E ele sempre voltava, mas voltava cada vez pior. E os remédios foram inúteis. Difícil combater uma falta de sentido, uma grande desilusão amorosa (como fiquei sabendo) e quarenta anos de vício com um mero coquetel de remédios. Nada mudou, no fim das contas.

Mas agora ele não vai mais voltar, e não ouvirei mais o “Thiaguinho isto”, “Thiaguinho aquilo” como ele costumava dizer. E os moradores e a faxineira não reclamarão mais de seus escarros. E logo todos o esquecerão. Mas talvez eu, eu e estas linhas não. “Ô Thiaguinho, coloca uma música aqui pra mim”. Ainda me lembro. Espero sempre me lembrar. Daquele puto velho, bêbado, perdido e desiludido. Mais ou menos igual a eu mesmo.

Thiago Limeira é escritor, autor de Alguém (2015)

Conto: O Presente

Ela ainda teve tempo tentar proteger-se com os braços e soltar um grito de desespero quando desferi um pesado golpe que atingiu a parte esquerda do seu crânio; caíra de joelhos, gemendo muito, colocou as mãos no lugar onde a cabeça soltava grandes quantidades de sangue que escorria pelas mechas negras e pingavam pela ponta dos cabelos no chão frio — exatamente como a goteira da torneira da sua cozinha…

 O cão, como se sentisse o aroma do sangue da sua dona, começou a latir descontroladamente, dando pulos frenéticos contra a portão do quintal, como se tentasse arrombá-la para prestar-lhe socorro; ouvi também outros cachorros latirem loucamente, atendendo aos gritos do companheiro, mas ali eles não tinham qualquer controle sobre situação, apensa eu…

Dominado por um estado de euforia maléfica, que só posso explicar como a combinação causada pela fúria causada pelo seu sarcasmo, os goles de cachaça, o esforço da martelada que esquentara-me os nervos e a visão do sangue que escorria da sua cabeça, atingi Márcia com mais um segundo e mais pesado golpe, ela despencou no chão, meio de lado; a quantidade de sangue que a martelada fez espirar foi considerável; agonizando, retorcia-se sobre o próprio sangue; martelei seu crânio mais uma vez, e outra vez, e mais outra vez, martelei dezenas de vezes, enquanto dizia:

“Está gostando do meu presente… Está gostando do meu presente?” E a cada martelada que eu desferia, repetia, entre uma gargalhada estridente e insana: “Está gostando do meu presente…”

Só finalizei quando a exaustão me dominara; sua cabeça não passava de todo disforme e repugnante, com pedaços de cérebros e sangue coagulado escorrendo horrivelmente por entre as aberturas…

Retirado do livro A Obra-Prima de Amarildo e Outros Contos Indecorosos.

Poema: Blues dos Refugiados

Dizem que esta cidade tem dez milhões de almas
Umas vivem em palácios, outras em mansardas;
contudo não há lugar para nós, minha querida, não há lugar para nós.

Uma vez tivemos uma pátria e julgávamos que era bela.
Olha para o mapa e lá a encontrarás;
mas não poderemos regressar tão cedo, minha querida, não podere-
mos regressar tão cedo.

O cônsul deu um murro na mesa e disse:
se não têm passaportes estão oficialmente mortos;
mas nós ainda estamos vivos, minha querida, ainda estamos vivos.

Lá em baixo no adro um velho teixo
todas as primaveras floresce de novo:
e os velhos passaportes não florescem, minha querida, os velhos
passaportes não florescem.

Fui a um comissariado e ofereceram-me uma cadeira.
disseram polidamente para voltar no ano seguinte:
mas onde iremos agora, minha querida, onde iremos agora?

Fui a um comício público; o orador levantou-se e disse:
se os deixarmos cá dentro, roubar-nos-ão o pão de cada dia;
estava a falar de mim e de ti, minha querida, a falar de mim e de ti.

Ouves um ruído como um trovão roncando no céu?
É Hitler sobre a Europa dizendo: «Eles têm de morrer!»
Nós estávamos no Seu pensamento, minha querida, estávamos no
Seu pensamento.

Vi um cão de luxo de jaqueta apertada com um alfinete
vi uma porta aberta e um gato entrando;
mas não eram judeus alemães, minha querida, não ale-
mães.

Desci ao porto e parei no cais
vi os peixes a nadar. Como são livres!
a dez pés de distância, minha querida, só a dez pés distância

Passeei pelo bosque; há pássaros nas árvores,
não têm políticos e cantam livremente.
Não são da raça humana, minha querida, não são da raça humana

Sonhei que vira um edifício com mil andares
mil janelas e mil portas;
nenhuma delas era nossa, minha querida, nenhuma

Corri à estação para apanhar o expresso,
pedi dois bilhetes para a Felicidade;
mas todas as carruagens estavam cheias, minha querida, todas as
carruagens estavam cheias.

Fui parar a uma grande planície, no meio da neve a cair
dez mil soldados marchavam de um lado para o outro
olhando para mim e para ti, minha querida, olhando para mim e
para ti. 

W. H. Auden (1907-1973) foi uma dos maiores poetas ingleses do século XX.

Tradução de Jorge Emílio

Conto: Victor Martinez

“Já estava aponto de desfalecer, seu corpo entrara num estágio entre a dormência e a atividade; apenas o enorme barulho da chuvarada o mantinha acordado. Em meio ao ruído confuso do ambiente lá fora, seus ouvidos divisaram algo bem singular… Tentou levantar-se para ver o que era; um ruído vindo da porta; com esforço, tomando a mesa para apoiar o braço; escorregou, a cadeira caíra para trás, ainda susteve-se em pé graças à mesa; as pernas tremiam; o corpo doía; parecia haver uma chama consumindo-o por dentro, nem parecia ter sido vodka o que ingeriu, mas ácido; logo que teve esta conjectura, os braços escapuliram do móvel, tinha dado alguns passos para frente; caiu violentamente no chão frio, sua irritabilidade estava multiplicada por dez vezes em virtude da dor excessiva; ao cair, batera o joelho violentamente no solo, outra dor aguda o tomou de assalto; deu um grito de raiva e aflição; fraturou o joelho, tinha certeza; o barulho que ouvia parou subitamente… Acomodou-se de bruços para cima, observava o teto, impotente para fazer algo, esperava. Esperava o que? Nem mesmo ele sabia; talvez a maldita dor sumir, o álcool dissolver em seu sangue, a morte tocar-lhe o rosto… Sentiu-se como uma criança indefesa perdida numa enorme cidade, mas esta cidade era sua casa, e seu terror era si próprio, não havia ninguém para salvá-lo, começou a chorar, sentia-se parvo, muito mais lerdo que antes. Os anos passaram e ele não era nada mais que um espírito infausto temente á si próprio e á todos, temia olhar para dentro de seu abismo, temia que seu abismo olhasse para dentro dele, temia a visão das trevas, temia que o véu soturno o dominasse de vez. Era ateu, mas temia o céu, temia o inferno, temia o Criador e temia Lúcifer; temia a gloria e o fracasso; temia a alegria e a tristeza. Era descrente e religioso, era herege e devoto, era beato e pagão, era seu deus e seu demônio. Não sabia o que era o júbilo. Quanto à temeridade, à amargura, à consternação, não mais se dava conta, tanto tempo vivera no porto da miséria, no caminho de vermes, na sofreguidão espiritual; perdera o ímpeto revolucionário, perdera a força da lucidez, o fulgor, a agressividade… Tinha tudo e não tinha nada, tinha a mundo e não tinha espírito. Austeridade, aspereza, tudo isso lhe fora disciplinado, era dócil, não sabia mais se rebelar. Assim como Arthur Rimbaud, amores o crucificaram e colocaram sua dignidade à prova, apostaram sua posse, e ganharam… Fizeram confeites e anedotas, gracejaram e o ludibriaram, a desgraça foi seu deus… Jamais verá o natal sobre a terra, a claridade divina…”

Trecho do conto Victor Martinez, retirado do livro A Obra-Prima de Amarildo e Outros Contos Indecorosos, de Ricardo Lima. 

Lançamento do meu livro “A Obra-Prima de Amarildo e Outros Contos Indecorosos”

a obra prima de amarildo(1).jpgOs contos que ai vão são uma coletânea de algumas histórias que andei escrevendo entre os anos de 2005 e 2010. O livro demorou para ser publicado, pois uma série de intercorrências surgiram na minha vida. Estes são contos urbanos, por assim dizer, que retratam o mal-estar e o desespero de se viver nas grandes cidades. Meus personagens são, em sua maioria, desgarrados que, de alguma forma, ou não conseguem se inserir ou são o produto mais nefasto do mundo moderno: assassinos, pedófilos, viciados em drogas, alcoólatras e outras figuras pouco estimadas… O leitor pode perguntar-me porque eu, um amazonense típico, não procuro escrever sobre as belezas naturais no meu Estado, sobre a vida do ribeirinho, do ciclo da borracha e todos estes temas que abundam na literatura canônica sobre a Amazônia. Respondo que nasci e passei boa parte da minha vida em Manaus, uma capital de quase dois milhões de habitantes onde a barbárie e a desigualdade se reproduzem como em qualquer outra cidade miserável do globo. Estas são, portanto, a matéria-prima da maioria das minhas histórias: coisas que vi, que ouvi e que vivi. Também não escrevo sobre as delicias ingênuas da floresta porque muitos autores regionais já o fazem. Se eu me propusesse a fazê-lo, com certeza não lograria o mesmo êxito.

No mais, só gostaria de dizer que estes contos possuem uma influência de autores como Balzac, Zola, Poe, Tolkien, Lovecraft, Engrácio, Machado de Assis e Graciliano Ramos.

Espero que o leitor tenha bons momentos de fruição lendo minhas histórias. Se não gostar, farei como Machado de Assis — te darei um piparote e direi adeus…

 

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