Porque Me Tornei Agnóstico

150px-Agnostic_Question_Mark.svgFoi aos dezoito anos que abandonei a religião de meus pais e a tradição da minha família. Cheguei a conclusão de que, devido à grande complexidade do mundo, à variedade das suas culturas e sociedades, e à grandeza insondável do universo, o deus que nós imaginávamos era apenas uma explicação grosseira para responder a perguntas muito difíceis.

De onde viemos? Para onde vamos? Como foi o início de tudo?

As respostas que eu sempre ouvia do pastor enquanto estava sentado no banco da igreja muitas vezes me causavam mais dúvidas do que certeza. Por que deus, se era tão perfeito, ia criar o mundo e pôr o homem nele se ele já sabia que o homem o desonraria? Se deus é amor e é tão bom, porque ele deixa que tanto mal e tanta escuridão tome conta do mundo? As respostas que sempre me davam desde a infância nunca me convenceram totalmente. Assim como José Saramago, eu não queria acreditar, eu queria saber…

Eu via pessoas ao meu lado experimentando a suposta graça divina, e perguntava porque eu não experimentava a mesma sensação da existência de deus. As respostas que recebia eram reprimendas:

Você precisa acreditar, Ricardo… Você não tem fé suficiente…”

E eu ficava sempre triste, confuso e cheio de culpa. Lembro-me quando fiz minha profissão de fé e aceitei Jesus Cristo, o fiz muito mais por medo de queimar no fogo do inferno que por um sentimento de graça recebida.

Eu via todas as religiões do mundo defendendo seus deuses e seus ritos com igual tenacidade e todas estas divindades servirem de desculpas para os homens cometerem loucuras e matarem uns aos outros.

Logo percebi que toda sociedade cria seus próprios deuses, seus próprios dogmas e usa as religiões como um alicerce de segurança contra a desintegração social. Também notei que muitos agrupamentos humanos usavam estas religiões para que alguns continuassem se dando bem em cima de outros…

Foi o homem quem criou um Ser e nele projetou tudo aquilo que nós temos de bom e de ruim.

Se Deus existe, coisa que é bem improvável, ele talvez seja completamente diferente da forma como as sociedades, os profetas e os indivíduos idealizaram.

A noção que temos de deus, bem como os valores e tradições que defendemos como os únicos e definitivos, nada tem de absolutos, são um reflexo do nosso tempo histórico, uma forma que os homens encontraram para dar sentido a uma coisa sem sentido, que é a nossa existência na terra. Cabe a nós, em nossa relação uns com os outros, com quem amamos ou com quem odiamos, criar nossa própria biografia, nosso próprio arsenal de valores e seguir o caminho das pedras e dos espinhos, nunca sucumbindo ao mar desesperador e escuro que nos faz perder a humanidade. Nossa vida, sendo uma dádiva ou um acaso do universo, é um bem pelo qual vale a pena lutar, um bem pelo qual vale a pena preservar. Cabe a nós viver uns pelos outros, apoiando uns aos outros, pois nossa humanidade só existe quando nos relacionamos.

Se existência não tem sentido, então vamos dar sentido a ela cultivando os melhores valores já criados pela humanidade: a fraternidade, a igualdade e a liberdade.

Tornar-se agnóstico, na confortável incerteza de estar além do bem e do mal, tendo consciência de que tudo pode ou não existir, foi uma saída para sentir-me livre da culpa de não acreditar em deus ou em deuses e livre do medo da punição do pecado; foi como uma libertação para mim, como pôr um termo ao sofrimento de estar fazendo algo errado ou traindo um pai vigilante e punitivo…

Pois cada vez tenho mais certeza que, como disse Nietzsche, nossas crenças e tradições são humanas, demasiado humanas…

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A Democracia como Estilo de Vida

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O que é Democracia?

O que é de fato a democracia? Seria um exercício formal de um direito garantido pelo Estado ou uma forma de governo determinada socialmente? Essas e outras peguntas emergem quando tentamos defini-la. Sem dúvida, a democracia é um dos assuntos mais polêmicos na atualidade. Em torno dela se movem grupos, indivíduos e movimentos sociais que lutam para impor a sua definição e modelo sobre a sociedade.

Sabemos que a democracia nasceu na pólis grega, cerca de quinhentos antes de Cristo, e se constituiu como um conjunto de direitos que um determinado grupo, homens provindos da elite agrária, tinham de discutir e influenciar politicamente os rumos da sua cidade. Com o surgimento da idade média, o conceito de democracia ficou esquecido e só voltou a ter força sob uma nova roupagem, com o surgimento do iluminismo e da ideologia liberal, sob a ideia de que todo homem era um indivíduo com o direito de propriedade, de voto, de associação e de ir e vir; estes eram os direitos de primeira geração surgidos no seculo XVIII. A partir do inicio do seculo XX, nasceu uma nova gama de garantias, eram os direitos de segunda geração, cuja gênese veio da luta dos excluídos para viver numa sociedade mais justa. Eles se configuram como o direito ao trabalho, à saúde e à educação, cujo sujeito passivo é o Estado que, do diálogo e debate entre governantes e governados, atribuiu-se a ele o dever de promovê-los. Por fim, temos o direitos de terceira geração, cujo titular não é o indivíduo, mas grupos humanos como a família, a nação e as minorias étnicas em geral; como exemplo podemos citar a Carta das Nações Unidas, o direito do consumidor e ao meio ambiente, são direcionados ao indivíduo em sua singularidade social e cultural.

Contudo, a democracia deve ser vista muito mais do que um conjunto de direitos definidos pelo estado. Ela não se resume no exercício formal e passivo dessas garantias e não pode ser diminuída na segurança de ter uma propriedade, na garantia de votar e de se associar ou, até mesmo, na espera relutante de que o Estado provedor venha ao socorro de quem precisa.

A democracia deve ter, antes de tudo, uma dimensão ativa, critica e social. Ativa, pois os direitos e garantias fundamentais devem ser constantemente vigiados pela sociedade civil; critica, porque os cidadãos devem, ante de tudo, propor soluções para os problemas sociais e apresentar formas para que todos os direitos previstos na constituição possam ser implementados e massificados para a maior parte possível da população; social, pois parte da concepção de que o indivíduo não é auto suficiente na sociedade, ele está sempre entrando em relação com outros indivíduos, influenciando os seus semelhantes e sendo influenciado por eles.

Portanto, a democracia deve ser muito mais que apenas direitos, mas um estilo de vida, cujo escopo é o individualismo heróico, isto é, a luta de cidadãos ativos pela radicalização das garantias democráticas para toda a sociedade. Em outras palavras, pela democratização politica, formal e, acima de tudo, social. Ela não é apenas liberdade mas, acima de tudo, igualdade e fraternidade.

No Brasil, um dos países mais desiguais do mundo, a ênfase dos movimentos democráticos deve ser a igualdade, pois é através dela, e só por dela, que se criam condições para a equidade politica, a liberdade e a fraternidade entre os demais indivíduos e grupos sociais.

Quando falo em movimentos sociais, grupos ou indivíduos que atuam a partir da premissa da democracia como um estilo de vida, penso justamente em organizações de base, movimentos pela democratização da terra, pela democratização da habitação ou pelos direitos das minorias étnicas. Estes seriam, ao meu ver, movimentos genuinamente modernos e progressistas, pois militam por uma causa, ou um direito, que deve ser estendido para todos os brasileiros. São avançados porque fazem da sociedade civil um palco de realização da utopia moderna em sua completude.

Quanto a movimentos que vão na direção contrária, ou seja, os que não são pautados pelos ideais modernos de democracia, liberdade, igualdade e fraternidade, me vem a mente grupos como os Revoltados on Line e similares, pois lutam em prol não de uma causa, não se focam na reforma social ou na massificação de direitos, mas apenas na reprodução da ordem existente e na luta contra um grupo de pessoas ou uma pessoa específica.

Sem embargo, leitor amigo, a democracia, para se fortalecer no Brasil, deve ser radicalizada através de um estilo de vida realmente democrático de toda a população brasileira. Só assim veremos que nossos direitos civis, políticos e econômicos deixarão de ser a letra morta da lei. Precisamos ir sempre para frente, pois a tradição, o passado e a desigualdade são uma jaula de ferro que deve ser superada.