Porque Me Tornei Agnóstico

150px-Agnostic_Question_Mark.svgFoi aos dezoito anos que abandonei a religião de meus pais e a tradição da minha família. Cheguei a conclusão de que, devido à grande complexidade do mundo, à variedade das suas culturas e sociedades, e à grandeza insondável do universo, o deus que nós imaginávamos era apenas uma explicação grosseira para responder a perguntas muito difíceis.

De onde viemos? Para onde vamos? Como foi o início de tudo?

As respostas que eu sempre ouvia do pastor enquanto estava sentado no banco da igreja muitas vezes me causavam mais dúvidas do que certeza. Por que deus, se era tão perfeito, ia criar o mundo e pôr o homem nele se ele já sabia que o homem o desonraria? Se deus é amor e é tão bom, porque ele deixa que tanto mal e tanta escuridão tome conta do mundo? As respostas que sempre me davam desde a infância nunca me convenceram totalmente. Assim como José Saramago, eu não queria acreditar, eu queria saber…

Eu via pessoas ao meu lado experimentando a suposta graça divina, e perguntava porque eu não experimentava a mesma sensação da existência de deus. As respostas que recebia eram reprimendas:

Você precisa acreditar, Ricardo… Você não tem fé suficiente…”

E eu ficava sempre triste, confuso e cheio de culpa. Lembro-me quando fiz minha profissão de fé e aceitei Jesus Cristo, o fiz muito mais por medo de queimar no fogo do inferno que por um sentimento de graça recebida.

Eu via todas as religiões do mundo defendendo seus deuses e seus ritos com igual tenacidade e todas estas divindades servirem de desculpas para os homens cometerem loucuras e matarem uns aos outros.

Logo percebi que toda sociedade cria seus próprios deuses, seus próprios dogmas e usa as religiões como um alicerce de segurança contra a desintegração social. Também notei que muitos agrupamentos humanos usavam estas religiões para que alguns continuassem se dando bem em cima de outros…

Foi o homem quem criou um Ser e nele projetou tudo aquilo que nós temos de bom e de ruim.

Se Deus existe, coisa que é bem improvável, ele talvez seja completamente diferente da forma como as sociedades, os profetas e os indivíduos idealizaram.

A noção que temos de deus, bem como os valores e tradições que defendemos como os únicos e definitivos, nada tem de absolutos, são um reflexo do nosso tempo histórico, uma forma que os homens encontraram para dar sentido a uma coisa sem sentido, que é a nossa existência na terra. Cabe a nós, em nossa relação uns com os outros, com quem amamos ou com quem odiamos, criar nossa própria biografia, nosso próprio arsenal de valores e seguir o caminho das pedras e dos espinhos, nunca sucumbindo ao mar desesperador e escuro que nos faz perder a humanidade. Nossa vida, sendo uma dádiva ou um acaso do universo, é um bem pelo qual vale a pena lutar, um bem pelo qual vale a pena preservar. Cabe a nós viver uns pelos outros, apoiando uns aos outros, pois nossa humanidade só existe quando nos relacionamos.

Se existência não tem sentido, então vamos dar sentido a ela cultivando os melhores valores já criados pela humanidade: a fraternidade, a igualdade e a liberdade.

Tornar-se agnóstico, na confortável incerteza de estar além do bem e do mal, tendo consciência de que tudo pode ou não existir, foi uma saída para sentir-me livre da culpa de não acreditar em deus ou em deuses e livre do medo da punição do pecado; foi como uma libertação para mim, como pôr um termo ao sofrimento de estar fazendo algo errado ou traindo um pai vigilante e punitivo…

Pois cada vez tenho mais certeza que, como disse Nietzsche, nossas crenças e tradições são humanas, demasiado humanas…

Perry Anderson – A origem das manifestações políticas

Em termos de dinâmica da ação política, você sempre precisa lembrar que provavelmente o material mais inflamável que existe é a injustiça.”

Em vídeo inédito, Perry Anderson, historiador e ensaísta político britânico, discute os motivos pelos quais as pessoas se engajam em manifestações políticas. Segundo Anderson, o que politiza e mobiliza as pessoas é a realidade em que as coisas pioram em vez de melhorarem. Não é a esperança de crescimento, mas sim o sentimento de injustiça.

A Inquisição Protestante

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Muitos evangélicos falam da Inquisição Católica, mas poucos sabem sobre a Inquisição Protestante.

Alemanha

Bandos protestantes esfolaram os monges da abadia de São Bernardo, em Bremen, passaram sal em suas carnes vivas e depois os penduraram no campanário.

Em Augsburgo, em 1528, cerca de 170 anabatistas foram aprisionados por ordem do Poder Público. Muitos foram queimados vivos; outros foram marcados com ferro em brasa nas bochechas ou tiveram a língua cortada.

Em 1537, o Conselho Municipal publicou um decreto que proibia o culto católico e estabelecia o prazo de oito dias para que os católicos abandonassem a cidade. Ao término desse prazo, soldados passaram a perseguir os que não aceitaram a nova fé. Igrejas e mosteiros foram profanados, imagens foram derrubadas, altares e o patrimônio artístico-cultural foram saqueados, queimados e destruídos. Também em Frankfurt, a lei determinou a total suspensão do culto católico e a estendeu a todos os estados alemães.

O teólogo protestante Meyfart descreveu uma tortura que ele mesmo presenciou: “Um espanhol e um italiano foram os que sofreram esta bestialidade e brutalidade. Nos países católicos não se condena um assassino, um incestuoso ou um adúltero a mais de uma hora de tortura (sic). Porém, na Alemanha, a tortura é mantida por um dia e uma noite inteira; às vezes, até por dois dias; outras vezes, até por quatro dias e, após isto, é novamente iniciada. Esta é uma história exata e horrível, que não pude presenciar sem também me estremecer. “

Inglaterra

Seis monges Cartuxos e o bispo de Rochester foram sumariamente enforcados. Na época da imperadora Isabel, cerca de 800 católicos eram assassinados por ano e Jesuítas foram assassinados ou torturados. Um ato do Parlamento inglês, em 1562, decretou que “cada sacerdote romano deve ser pendurado, decapitado e esquartejado; a seguir, deve ser queimado e sua cabeça exposta num poste em local público”.

Suíça

O descobridor da circulação do sangue foi queimado em Genebra, por ordem de Calvino. No distrito de Thorgau, um missionário zwingliano liderou um bando protestante que saqueou, massacrou e destruiu o mosteiro local, inclusive a biblioteca e o acervo artístico-cultural.

Em Zurique, foi ordenada a retirada de todas as imagens religiosas, relíquias e enfeites das igrejas; até mesmo os órgãos foram proibidos. A catedral ficou vazia, como continua até hoje. Os católicos foram proibidos de ocupar cargos públicos; o comparecimento aos sermões católicos implicava em penas e castigos físicos e, sob a ordem de “severas penas”, era proibido ao povo possuir imagens e quadros religiosos em suas casas.

Ainda em Zurique, a Missa foi prescrita em 1525. A isto, seguiu-se a queima dos mosteiros e a destruição em massa de templos. Os bispos de Constança, Basiléia, Lausana e Genebra foram obrigados a abandonar suas cidades e o território. Um observador contemporâneo, Willian Farel, escreveu: “Ao sermão de João Calvino na antiga igreja de São Pedro, seguiram-se desordens em que se destruíram imagens, quadros e tesouros antigos das igrejas”.

Irlanda

Quando Henrique VIII iniciou a perseguição protestante contra os católicos, existiam mais de mil monges dominicanos no país, dos quais apenas dois sobreviveram à perseguição.

Escócia

Durante um período de seis anos, John Knox, pai do presbiteranismo, mandou queimar na fogueira cerca de 1.000 mulheres, acusadas de bruxaria.

O saque de Roma

O Saque de Roma foi um dos episódios mais sangrentos da Reforma Protestante.

No dia 6 de maio de 1527, legiões luteranas do exército imperial de Carlos V invadiram a cidade. Um texto veneziano, daquela época, afirma que: “o inferno não é nada quando comparado com a visão da Roma atual”. Os soldados luteranos nomearam Lutero “papa de Roma”. Todos os doentes do Hospital do Espírito Santo foram massacrados em seus leitos.

Os palácios foram destruídos por tiros de canhões, com seus habitantes dentro. Os crânios dos Apóstolos São João e Santo André serviram para os jogos esportivos das tropas. Centenas de cadáveres de religiosas, leigas e crianças violentadas – muitas com lanças incrustadas na região genital – foram atirados no rio Tibre. As igrejas, inclusive a Basílica de São Pedro, foram convertidas em estábulos e celebraram-se missas profanas. Gregorio afirma a respeito: “Alguns soldados embriagados colocaram ornamentos sacerdotais em um asno e obrigaram um sacerdote a conferir-lhe a comunhão. O sacerdote engoliu a forma e seus algozes o mataram mediante terríveis tormentos”.

Conta o Padre. Mexia: “Depois disso, sem diferenciar o sagrado e o profano, toda a cidade foi roubada e saqueada, inexistindo qualquer casa ou templo que não foi roubado ou algum homem que não foi preso e solto apenas após o resgate”. O butim foi de 10 milhões de ducados, uma soma astronômica para a época.

Dos 55.000 habitantes de Roma, sobreviveram apenas 19.000.
Os “Grandes Reformadores Protestantes” e o emprego da violência:

Lutero

Em 1520, escreveu em seu “Epítome”: (…) francamente declaro que o verdadeiro anticristo encontra-se entronizado no templo de Deus e governa em Roma (a empurpurada Babilônia), sendo a Cúria a sinagoga de Satanás (…) Se a fúria dos romanistas não cessar, não restará outro remédio senão os imperadores, reis e príncipes reunidos com forças e armas atacarem a essa praga mundial, resolvendo o assunto não mais com palavras, mas com a espada (…) Se castigamos os ladrões com a forca, os assaltantes com a espada, os hereges com a fogueira; por que não atacamos com armas, com maior razão, a esses mestres da perdição, a esses cardeais, a esses papas, a todo esse ápice da Sodoma romana, que tem perpetuamente corrompido a Igreja de Deus, lavando assim as nossas mãos em seu sangue?”

Em um folheto intitulado “Contra a Falsamente Chamada Ordem Espiritual do Papa e dos Bispos”, de julho de 1522, ele declarou: “Seria melhor que se assassinassem todos os bispos e se arrasassem todas as fundações e claustros para que não se destruísse uma só alma, para não falar já de todas as almas perdidas para salvar os seus indignos fraudadores e idólatras. Que utilidade tem os que assim vivem na luxúria, alimentando-se com o suor e o sangue dos demais?”

Em outro folheto, “Contra a Horda dos Camponeses que Roubam e Assassinam”, ele dizia aos príncipes: “Empunhai rapidamente a espada, pois um príncipe ou senhor deve lembrar neste caso que é ministro de Deus e servidor da Sua ira (Romanos 13) e que recebeu a espada para empregá-la contra tais homens (…) Se pode castigar e não o faz – mesmo que o castigo consista em tirar a vida e derramar sangue – é culpável de todos os assassinatos e todo o mal que esses homens cometerem”.

Em julho de 1525, Lutero escrevia em sua “Carta Aberta sobre o Livro contra os Camponeses”:

“Se acreditam que esta resposta é demasiadamente dura e que seu único fim e fazer-vos calar pela violência, respondo que isto é verdade. Um rebelde não merece ser contestado pela razão porque não a aceita. Aquele que não quer escutar a Palavra de Deus, que lhe fala com bondade, deve ouvir o algoz quando este chega com o seu machado (…) Não quero ouvir nem saber nada sobre misericórdia”.

Sobre os judeus, assim dizia em suas famosas “Cartas sobre a Mesa”: “Quem puder que atire-lhes enxofre e alcatrão; se alguém puder lançá-los no fogo do inferno, tanto que melhor (…) E isto deve ser feito em honra de Nosso Senhor e do Cristianismo. Sejam suas casas despedaçadas e destruídas (…) Sejam-lhes confiscados seus livros de orações e talmudes, bem como toda a sua Bíblia. Proíba-se seus rabinos de ensinar, sob pena de morte, de agora em diante. E se tudo isso for pouco, que sejam expulsos do país como cães raivosos”.

Em seus “Comentários ao Salmo 80?, Lutero aconselhava aos governantes que aplicassem a pena de morte a todos os hereges.

Melanchton, o teólogo luterano da Reforma, aceitou ser o presidente da inquisição protestante, com sede na Saxônia. Ele apresentou um documento, em 1530, no qual defendia o direito de repressão à espada contra os anabatistas. Lutero acrescentou de próprio punho uma nota em que dizia: “Isto é de meu agrado”. Convencido de que os anabatistas arderiam no fogo do inferno, Melanchton os perseguia com a justificativa de que “por que precisamos ter mais piedade com essas pessoas do que Deus?”

Calvino

Em seus “Institutos”, declarou: “Pessoas que persistem nas superstições do anticristo romano devem ser reprimidas pela espada”. Em 1547, James Gruet publicou uma nota criticando Calvino e foi preso, torturado no potro duas vezes por dia durante um mês e, finalmente, sentenciado à morte por blasfêmia. Seus pés foram pregados a uma estaca e sua cabeça foi cortada. Em 1555, os irmãos Comparet foram acusados de libertinagem, executados e esquartejados. Seus restos mortais foram exibidos em diferentes partes de Genebra.

Zwínglio

Em 1525, começou a perseguir os anabatistas de Zurique. As penas iam desde o afogamento no lago ou em rios, até a fogueira.

Protestantes versus Protestantes

Os reformadores também lutavam entre si..

Lutero disse: “Ecolampaio, Calvino e outros hereges semelhantes possuem demônios sobre demônios, têm corações corrompidos e bocas mentirosas”. Por ocasião da morte de Zwínglio, afirmou: “Que bom que Zwínglio morreu em campo de batalha! A que classe de triunfo e a que bem Deus conduziu os seus negócios!”, e também: “Zwínglio está morto e condenado por ser ladrão, rebelde e levar outros a seguir os seus erros”.
Zwínglio também atacava Lutero: “O demônio apoderou-se de Lutero de tal modo que até nos faz crer que o possui por completo. Quando é visto entre os seus seguidores, parece realmente que uma legião o possui”.

Acerca da Reforma, disse Rosseau: “A Reforma foi intolerante desde o seu berço e os seus autores são contados entre os grandes repressores da Humanidade”. Em sua obra “Filosofia Positiva”, escreveu: “A intolerância do Protestantismo certamente não foi menor do que a do Catolicismo e, com certeza, mais reprovável”.

Texto original de Marcelo “Druyan” Esteves.

Fonte: deldebbio.com.br/2009/02/16/a-inquisicao-protestante

Ditadura Nunca Mais

  Com a desculpa de livrar o Brasil de uma ditadura comunista, a alta cúpula do exército, setores da classe média, a elite agrária, financeira e industrial derrubaram um governo democraticamente eleito. O resultado foi levar o Brasil a um período de censuras, violações dos direitos humanos e toda sorte de barbáries cujo o fim era tão somente manter uma ordem supostamente justa. Como é possível livrar-se de uma suposta ditadura sanguinária impondo outra igualmente sanguinária? Me parece que muita gente que clama pela volta daqueles anos não aprendeu ou não quer aprender algo sobre as lições da história…

 

Amazônia, Estado e Capital Internacional

O processo de inclusão da Amazônia na realidade brasileira e mundial possui uma dinâmica descontínua, repleta de avanços e recuos, onde seus fios de ligação com a conjuntura brasileira e internacional tornam-se, dependendo do momento histórico e do arranjo das forças dominantes, mais fortes ou mais tênues, cujo inicio remonta à chegada dos europeus no continente americano, quando ela passa a integrar o comercio mundial, fornecendo as chamadas drogas do sertão — produto muito valorizado na Europa.

A partir do inicio do século XIX e inicio do século XX, a região passa a ter um importante papel no desenvolvimento do modo de produção capitalista em sua etapa fordista/taylorista — é o esteio daquilo que Zygmunt Bauman chama de modernidade sólida — ao fornecer goma elástica não processada para o mercado internacional. Quando a região perde concorrência para o látex asiático, seu principal modo de produção perde impulso e sua relevância econômica na política nacional e internacional se retrai drasticamente, mas seus laços com o resto do país não desaparecem por completo — o fornecimento de látex para o mercado nacional ainda exista, embora bastante rarefeito.

Na década de 1960, a região passa a ter um dos maiores e mais dramáticos projetos de desenvolvimento regional de sua história: a Operação Amazônia. A partir daí, a estagnação econômica que enfraquecia a comunicação da região com as esferas nacionais e globais quebra-se com o implemento de grandiosos empreendimentos transnacionais, fruto de articulações políticas entre as elites locais, nacionais e internacionais, cuja intenção era tornar a Região Amazônica, considerado até então como um grande espaço vazio, num palco adequado na reprodução do capital. O Governo autoritário criou todo um ambiente propício para a vinda de empreendimentos agrícolas, mineradores e industriais que definitivamente ligam a Amazônia ao capitalismo nacional e transnacional, por meio de uma dependência considerada pelas autoridades da época como real e necessária. Uma das maiores conseqüência deste novo paradigma de inserção do Hiléia Amazônico na conjuntura global foi o deslocamento de um contingente de milhares de pessoas de todas as partes do Brasil, especialmente do nordeste.

A operação Amazônia, enquanto um exercício de economia política do estado autoritário, está diretamente ligada à ideologia Autoritária Modernizante, estudada por Luis Carlos Bresser Pereira no texto: “Seis interpretações sobre o Brasil”, de 1982. Foi um projeto idealizado por Golbery de Solto e Silva e por Roberto Oliveira Campos nos anos cinqüenta (enquanto o primeiro lança um livro chamado Aspectos “Geo políticos do Brasil”, em 1952, o segundo tentava conciliar uma ideologia do desenvolvimento com uma ideologia da segurança), ambos integrantes da escola superior de guerra. Tornou-se o sistema de pensamento hegemônico no Brasil a partir do golpe de 1964, resultado de uma aliança entre capital internacional, tecnoburocracia militar e civil, da burguesia agro-exportadora e da burguesia industrial.

Acredita-se que a criação desse projeto se deva ao General presidente Humberto de Alencar Castelo Branco (1964-1967) que, ao ter sobrevoado a Amazônia num avião, teria cunhado a frase: “Uma terra sem homens para homens sem terra.” Mas o presidente estava redondamente errado. A Amazônia não sofria e nunca sofreu com o suposto vazio demográfico, pois antes da chegada dos grandes empreendimentos agrícolas e industriais e dos milhares de migrantes nordestinos que seriam usados como de mão de obra, já havia aqui dezenas de tribos indígenas, posseiros descendentes dos seringueiros nordestinos que vieram para a região entre os anos de 1880 e 1920, povoados que formaram-se a partir de antigos quilombos ainda na época do império e uma considerável população ribeirinha descendentes de indígenas que exercia uma agricultura e uma pesca de subsistência.

O grande problema é que os tecnoburocratas civis e militares que planejaram e executaram a Operação Amazônia não levaram em conta as necessidades destas populações e nem as peculiaridades ambientais da região. O resultado foi o genocídio de dezenas de etnias indígenas e a expulsão de outro tanto contingente populacional que não se encaixava no novo modelo desenvolvimentista. Zygmunt Bauman no livro Modernidade e Ambivalência, ao discorrer sobre as raízes sociais dos estados nacionais e suas implicações para as culturais locais, afirma que uma das principais características do Estado, em condições de Modernidade Sólida, é a eliminação de todo e qualquer traço cultural que não se encaixe no seu modelo de desenvolvimento. A homogeneização cultural e social deveria ser o pré-requisito fundamental para a supremacia do capital e do Estado. O dramático processo de estupro social e étnico a que foram submetidas às populações tradicionais na Amazônia, estão diretamente ligadas a esse contexto em que a idéia do Estado Nacional, como um grande jardineiro social, deve-se extinguir toda ambivalência. Todos os grupos sociais que não pudessem ser aproveitados pelo capital ou não servissem para a consolidação do estado deveriam ser eliminados como se elimina ervas daninhas de um jardim — trata-se apenas de retirar aqueles que estão no caminho do sistema.

No inicio do século XXI, com o fim da guerra fria, e a conseqüente esgotamento do modo de produção taylorista/fordista que sustentavam a modernidade sólida, começa a tomar corpo formas organizacionais chamada por muitos especialistas de produção flexível, cuja ênfase não está mais na produção, mas na pesquisa e na inovação tecnológica. Também ocorre uma reorganização do esquema político internacional, com o esgotamento da liderança político econômica dos E.U.A, da crise dos estados nacionais e do surgimento de novas formas de organização política que passam a agir paralelamente ás instituições públicas. O sociólogo inglês Ulrich Beck chama este novo fenômeno de Sub-política — a volta dos indivíduos a vida publica.

Em termos de Amazônia, isso significa que o capital nacional e internacional encontram novas formas de ocupar a região, bem como o surgimento de dezenas de movimentos sociais criados pelos mesmos grupos sociais outrora perseguidos pelo Estado Jardineiro e suas políticas homogeneizadoras. Estes grupos, agora organizados e conhecedores do funcionamento das políticas publicas, passam a reivindicar o reconhecimento pelo estado e pela sociedade a legitimidade de suas demandas e de sua própria existência enquanto grupo social. Estes novos grupos, organizações indígenas, pequenos agricultores, partidários de religiões de matriz africana, homossexuais, prostitutas e outras organizações em prol dos direitos humanos em geral, à revelia do grande e lento organismo que se tornara o aparelho estatal, passam a influenciar a agenda de formulação de políticas públicas — o antropólogo Marshall Sallins chama este fenômeno de autoconsciência cultural.

A Amazônia, agora, passa a ser vista pelo Brasil e pela comunidade internacional não mais como uma fronteira que precisa ser ocupada via industrialização com insumos estrangeiros, mas como uma fronteira bio genética que deve ser compreendida, catalogada e transformada num produto no mercado internacional. Assim, os novos empreendimentos — não mais industriais, e sim de pesquisa — aqui se instalam através de uma aliança entre as elites locais, a revelia do obsoleto Estado nacional, e entre alguns movimentos sociais para melhor exploração de suas riquezas genéticas.

È possível perceber que as formas de inserção da Amazônia, no cenário internacional e nacional obedeceu, e ainda obedece, á diversas etapas de um processo descontinuo que, iniciada no período colonial, sempre esteve em sintonia com as demandas do capital mercantil no período colonial (enquanto fornecedor das drogas do sertão), do capital imperialista no período da borracha, do capital dependente e monopolista no período de implantação da Operação Amazônia (enquanto palco das políticas homogeneizadoras do Estado Nacional) e, finalmente, do capital flexível no século XXI, como fronteira biogenética.

A identidade da Amazônia está, portanto, umbilicalmente determinada às formas de como o capital e o estado brasileiro exploram seu espaço e reorganizam politicamente as forças sociais que nela habitam.

Amaldiçoado: A Vida e a Obra de Edgar Allan Poe (Parte I)

Dir-se-ia que a Natureza, e creio que isso já foi muitas vezes observado, torna a vida bastante dura àqueles de quem deseja extrair grandes coisas.

Charles Baudelaire

Tal assertiva do autor de Flores do Mal se encaixa perfeitamente na vida deste ilustre maldito da literatura mundial, o norte americano Edgar Allan Poe, autor do clássico poema O Corvo.

Na primeira metade do século XIX, época em que viveu Edgar Allan Poe, nos Estados Unidos, mesmo depois de décadas de sua independência, ainda estava lutando para se firmar como nação. O país recebia uma quantidade enorme de imigrantes europeus e asiáticos gerando uma grande variedade social e cultural. A conquista do oeste estava a todo vapor, efetuada pelos imigrantes que, sem oportunidades no leste, punham-se na conquista de novos territórios em carroças cavalos ou por via fluvial, expulsavam ou dizimavam as populações indígenas. As novas terras eram usadas para agricultura, pastagens e na procura de metais preciosos. As contradições sociais geradas pelo desenvolvimento do norte e do leste frente ao sul escravocrata fariam em breve o país entrar em guerra civil (1861-1865).

No plano literário, os Estados Unidos ainda não tinham se solidificado. Muito da produção cultural norte americana ainda seguia os modelos europeus, em especial o inglês. O que levaria ao escritor britânico Sydney Smith a dizer, em 1820, que a América, quarenta anos depois da independência, ainda não tinham dado nenhuma contribuição relevante para a arte ou para a ciência.

É neste contexto conturbado e de luta pela solidificação cultural e social que Edgar Allan Poe está inserido. Um dos principais fundadores da literatura americana e renovador das letras mundiais, sua obra pode também ser lida, tanto como a expressão de suas fobias e sofrimentos que teve em vida, como uma metáfora da conturbada sociedade em que viveu.     

Sua vida foi amarga, repleta de decepções e perdas. Nasceu em Boston em 1809 e faleceu em 1849, quando já tinha atingido plena maturidade literária. Perdera os pais ainda na infância, dois atores fracassados, vitimados pela tuberculose — o irmão também era tuberculoso, e a irmã, epilética.

Depois da morte dos pais foi adotado por um casal aristocrata de Richmond, chamados David e Elizabeth Allan. Entre os anos de 1815 e 1820, a família mudo-se para Inglaterra onde o pequeno Edgar estudou em instituições particulares de renome como Stoke Newington, em Londres, recebendo uma esmerada educação. Quando retornou a América, entrou na Universidade de Virginia, a mais aristocrática universidade do sul dos Estados Unidos, fundada por Thomas Jefferson.

Contudo, o clima burguês da instituição em muito desgostava o jovem Edgar. Os alunos seguiam hábitos extremamente austeros e puritanos. Exatamente o contrario da personalidade inquietante do poeta. Avesso a rotinas, detestando todo e qualquer convencionalismo da vida cotidiana, Poe entregava-se aos excessos de uma vida boêmia; bebia, blasfemava contra a religião e contra os valores morais mais caros aos burgueses da Universidade. A fama de devasso logo espalhou-se, chegando aos ouvidos das famílias dos alunos, o que acarretou inevitavelmente na sua expulsão. A noticia caiu como uma bomba na mansão dos Allan, deteriorando ainda mais a relação entre David e Edgar, que já vinham se desentendendo em virtude do vicio de jogo do futuro escritor.

Depois de passar um tempo servindo ao exercito, sob o nome de Edgar Allan Perry, ingressou na academia militar por influência de seu pai, mas acabou expulso por insubordinação.

Com este acontecimento Edgar e David nunca mais se falaram.

Sem qualquer perspectiva em Richmond, Poe vai para a sua cidade natal, Boston, na Nova Inglaterra. Onde passou a morar com sua Tia, a Senhorita Clemm e sua filha, Virginia Clemm, que em pouco tempo seria a esposa de Poe e grande amor de sua vida.

Para sobreviver colaborava em inúmeras revistas, onde publicou seus mais famosos contos, dava palestras e chegou a ser editor da Burton´s Gentleman Magazine e, mais tarde tornou-se sub-editor da Evening Mirror — mesmo assim a vida não era fácil para os escritores da época, e passou toda a sua vida adulta amargando uma vida miserável.

Com Virginia, foi morar numa pequena e destruída casa, onde o casal passava dias inteiros sem comer. Foi ali que sua amada esposa morreu tuberculosa, numa cama fétida sendo coberta apenas por um velho capote militar de West Point.

A morte da mulher em muito o afetou, e Poe, que já tinha problemas com álcool, começou a beber ainda mais. Alguns amigos, como Jonh Sartain, notou no escritor já alguns sintomas de desequilíbrio mental.

Túmulo de Edgar Allan Poe

Em setembro de 1849, encontraram-no desfalecido numa sarjeta de Baltimore, levado para o hospital, faleceu alguns dias depois balbuciando frases desconexas, entre as quais: “It´s All Over now, write Eddy is no more…”         

A Escravidão nos Seringais

Servidao Humana na SelvaVim pro Amazonas ganhar dinheiro, e não ganhei foi nada… O negócio da seringa só dava pra gente se aviar… Vivia naquela ilusão… Se eu tivesse no Ceará não queria saber mais do Amazonas.

Relato de um Seringueiro do Rio Madeira

Michel Foucault, influenciado por Friedrich Nietzsche, afirmara que por detrás da pompa dos hinos nacionais cantando a glória do nascimento da pátria, se esconde milhares de vidas sacrificadas nas guerras de unificação; e por detrás do mito da criação do mundo, encenando a beleza do jardim do Éden e a ingênua harmonia entre Adão e Eva, se esconde, na verdade, o parentesco com o macaco e, por sua vez, o cinzento laço com o verme…

A história, segundo o pensador francês, está repleta destas lendas que escondem um lado obscuro no fundo dos seus épicos versos, criados em favor de uma determinada gama de interesses. Cabe ao sociólogo e ao historiador desvendá-los — efetuando a arqueologia dos períodos históricos e das relações sociais.

Um dos exemplos mais típicos no Amazonas de fatos históricos mascarados por interesses escusos são as propagandas e historiografias oficiais com relação ao período áureo da borracha, mostrando-o como um tempo de grandes realizações, tanto no terreno das obras públicas quanto no âmbito social, ressaltando a riqueza produzida neste período e o aperfeiçoamento cultural pelo qual Manaus passara (a belle epóque, que nosso governo teima em reproduzir, de forma caricatural, em festivais de opera) nos quase trinta anos de pulsação da economia gomífera, como um dos períodos dos mais interessantes que a Paris dos Tristes Trópicos já teve.

Tal forma de ver a historia e as sociedades, tão comum em historiadores a direita do espectro político e na propaganda de governos populistas, interessados em criar uma bandeira pela qual possam arrancar certos dividendos políticos, nada mais é do que uma forma de mascarar a verdadeira e perversa dinâmica da qual é regida os períodos históricos e, em questão, a economia extrativa. Longe de ser um período de requinte social e cultural, o fausto da economia gomífera foi caracterizada pela exploração compulsória de homens e mulheres sob o regime hediondo do aviamento, e pelo fato absurdo de que, como dissera Euclides da Cunha, o homem trabalhava para escravizar-se.

Muitos já foram os estudos efetuados sobre o período áureo da economia gomífera, principalmente do ponto de vista histórico — a Ilusão do Fausto de Edinea Mascarenhas Dias é um dos exemplos mais famosos. Faltava, entretanto, um estudo de precisões mais sociológicas que enfocasse o modo de produção extrativista a partir não de acontecimentos ou datas, mas a partir das suas relações sociais e de como estes homens se comportavam frente à dicotomia de uma floresta cheia de perigos e de um sistema de compra e troca tão impiedoso.

Servidão Humana na Selva: O Aviamento e o Barracão nos seringais na Amazônia, de Carlos Correia Teixeira, vem tapar este buraco na sociologia sobre o modo de produção extrativista e se juntar ao seleto hall de obras que pensam a Amazônia criticamente, em contraposição a forma linear e conservadora de pensadores convencionais como André Vidal de Araújo, Álvaro Maia ou Samuel Bechimol. Apesar de ser um estudo efetuado na década de setenta, foi tese de mestrado do escritor, Servidão Humana está longe de ser um estudo defasado, longe disso, é um ensaio que vai até o cerne do acontecimento histórico, achando as descontinuidades das relações do seringal, destrinchando seu lado cinzento, recompondo arqueologicamente suas contradições, os dramas do trabalhador da seringa, seus sofrimentos e mesmo seus raros momentos de felicidade, sentindo-se um verdadeiro artista ao defumar a borracha: “é o maior prazer do mundo!” era a frase de um trabalhador contida do livro.

Dialogando com varias vertentes da sociologia, como por exemplo com o esquema de dominação patrimonial de Max Weber, o autor, contudo, centra-se no legado teórico de Karl Marx para a sua análise de cada um dos aspectos das relações tecidas no seringal.

Muito interessante é a afirmação de que o barracão é a nossa versão dos engenhos, criando uma complexa rede de relações sociais que ainda não foram devidamente estudadas — pelo menos no que tange a sociologia.

O seringal, segundo Carlos Teixeira, mesmo depois de quase um século passado desde o fim da preponderância extrativista, sua organização persistiu e ultrapassou mais de um século.

Mais de trezentos mil nordestinos vieram para a região Amazônica a partir da década de setenta do século XIX. Boa parte destes pobres diabos provenientes do Ceará — iludidos com a promessa de enriquecimento fácil. Contudo, quando aqui chegavam, o véu de suas ilusões era brutalmente estraçalhado pela cruel realidade de ter estarem sujeitos a um regime que, já os fazendo endividados desde o momento em que ali chegavam, os fazia trabalhar mais de dezoito horas por dia.

Sozinhos nos seringais, sem uma legislação trabalhista ou qualquer autoridade que pudesse inferir por eles, os seringueiros eram largados aos próprios caprichos do seringalista, que os explorava desde a adulteração dos preços das mercadorias vendidas no barracão, até nos pesos da borracha quando de sua venda ao senhoril. Muitas eram os historias de abusos e crueldades contra o seringueiro que tentasse fugir ou cogitasse vender a borracha ao regatão — vale dizer que este era um fator de instabilidade ao poder tirânico do seringalista, travar negócios clandestinamente com o seringueiro. Teixeira menciona uma história, contada pelos seringueiros mais antigos, de um grande buraco cheio de cobras onde o patrão costumava jogar aqueles que fizessem frente ao seu poder.

Os seringalistas, verdadeiros senhores feudais na selva, nunca tiveram, de fato, uma mentalidade empreendedora. Sua forma de gerir seus negócios estava muito mais para um pré-capitalismo rudimentar de típico de nobrezas decadentes. Não se preocupavam em aperfeiçoar as técnicas de trabalho em seus seringais. A situação como estava já os satisfazia. Hauriam enormes lucros de suas propriedades, gozavam de enorme conforto, tinham ao redor de si esposas, servos e amantes. Seus filhos estudavam nas melhores escolas do país e do exterior. No final de cada fabrico iam gastar suas fortunas nos centros econômicos do Brasil ou da Europa. Tinham o poder de colocar seus apadrinhados nas esferas de poder para que defendessem seus interesses frente ao Estado. Eram na verdade, uma casta parasita que desfrutava os privilégios de uma economia predatória e de enclave, cujos resultados estavam voltados para fora — não é assim o mesmo com o nosso decadente pólo industrial?

Durante a época da pesquisa o escritor detectou que ocorria uma flagrante mudança nas relações produzidas no seringal. Outrora predominantemente as relações do toco: em que o seringueiro tinha uma casa disponibilizada pelo patrão, assim como as estradas, equipamento e mercadorias para consumo e de sua família, assim deveria fornecer determinada quantidade de borracha por fabrico ao senhoril; entretanto, o toco vinha a transmutar-se em regime de gleba, onde o seringueiro passa a arrendar uma faixa de terra com sua família e, além de extrair a borracha, desenvolve a agricultura, pagando ao seringalista o aluguel desta em víveres ou em dinheiro.

A servidão humana, infelizmente, não era uma característica típica nos seringais da Amazônia, estendendo-se também para outros ramos da atividade capitalista, como por exemplo, o grande latifúndio monocultor do sul do Pará e sul do Amazonas, onde milhares de vidas são reduzidas e reles condição de coisa.

Quem sabe para a próxima edição o autor providencia um capitulo sobre a situação atual dos seringais estudados no livro, Juma e Três Casas, e outro sobre formas de organização sindical dos seringueiros na região estudada — a região do Rio Madeira, onde também nascera Carlos Teixeira.

Servidão Humana na Selva torna-se, desde seu lançamento, uma referencia obrigatória para quem estiver interessado em estudar os seringais, suas contradições, desmandos e crueldades com que essa variante do modo capitalista de produção subordina o homem.