Dez anos do belo e pesado A Matter of Life And Death

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A Matter Of Life And Death: pesado, complexo e coeso.

Entre os discos que o Iron Maiden lançou depois da volta de Bruce Dickinson e Adrian Smith, considero o A Matter of Life and Death (2006) o melhor de todos, superior até mesmo ao Brave New World; um disco quase perfeito, nunca canso de ouvi-lo.

Escutei o AMOLAD logo depois que foi lançado. Na época ouvi todo tipo de crítica sobre ele, de que seria um disco mal gravado com músicas tão ruins que pareciam sobras de estúdio do mediano antecessor Dance of Death (2003). Em matéria de música, nestes meus vinte e dois anos de ouvinte dedicados ao bom e velho Heavy Metal, nunca dei muito crédito à opinião alheia, eu sempre soube separar bons trabalhos de porcarias, mesmo se fossem coisas feitas por minhas bandas preferidas, como no caso da donzela.

Quando coloquei a bolacha para ouvir fui conquistado logo na primeira canção. A sonoridade era muito agradável, com melodias épicas e misturando-se à riff´s pesadíssimos, mudanças de andamento, arranjos complexos e letras retratando de forma poética os horrores da guerra. Eu estava diante de uma obra-prima contemporânea do Metal, um trabalho de inegável fôlego criativo. Era incrível como, mesmo depois de tanto tempo de estrada e treze discos de estúdio, o grupo ainda conseguia renovar-se.

Mais uma vez o gênio Steve Harris e seus liderados tinham nos surpreendido.

A Matter (…) chama atenção começando pela capa, que já era um prenúncio da massa sonora que estava a nossa espera: um taque de guerra, marcado com a discreta mas visível face de Eddie, com soldados da segunda guerra mundial, representados como caveiras, manchando num campo de batalha; no céu, misseis e bombas explodindo. O tom dessaturado e cinza da pintura serve para dar a ênfase na atmosfera de morte e desolação. Sem dúvida uma das melhoras capas de disco já feitas pelo grupo — em nada comparado com aquela vergonha que fora a capa do Dance Of Death.

O disco começa bem, com duas canções rápidas, Different World e These Colours Don´t Run, arranjos melódicos e refrões grudentos, dessas que ficam na mente. Depois temos a pesada e arrastada Brighter Than a Thousand Suns seguida da ótima The Pilgrim, que em alguns momentos me lembrou as clássicas Two Minutes to Midnight e Powerslave. The Longest Day, que narra o Dia D, é uma canção realmente épica, com um grau de tensão que vai aumentando conforme a música avança; sua parte instrumental é complexa, os solos bem encaixados, o ouvinte nem sente que ela tem seus quase nove minutos de duração. Em seguida temos uma pausa para a balada bem pauleira chamada Out Of The Shadows. Entre outros destaques temos as duas obras-primas da donzela, The Reincarnation of Benjamin Breeg, com ótimos riffs de guitarra, e The Legacy, que fecha o disco e que possui um agradável arranjo com violões.

O único tropeço de AMOLAD é a música Lord Of Light, cujo tema é preguiçoso e seu desenvolvimento repetitivo. Nem precisava estar presente.

Eu considero que foi neste disco que o Iron Maiden acertou a fórmula de tocar com três guitarras. É possível ouvi-las nitidamente e em muitos momentos cada uma toca um arranjo diferente num todo orgânico.

Embora os dois últimos discos de estúdio The New Frontier (2010) e The Book Of Souls (2015) tenham os seus méritos e sejam bons cada um a sua maneira, nunca mais tive o mesmo arrebatamento estético com um trabalho novo da donzela como quando escutei AMOLAD.

Para mim, a fórmula certa para eles explorarem musicalmente é a contida neste petardo. No próximo álbum de estúdio, espero que eles toquem como no belo e pesado A Matter of Life And Death.

We are Motörhead: minha homenagem a Lemmy

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O disco We are Motorhead, de 2001

A morte do grande Lemmy Kilmister no fim de 2015 fez com que a cena do heavy metal terminasse o ano de luto. Considerado como uma das maiores figuras do rock e do metal mundial, baixista respeitado, compositor de mão cheia e dono de uma voz marcante, o ex-líder do Motorhead conseguia criar canções que hoje são referência no mundo da música.

Como grande fã da banda, resolvi fazer minha homenagem ao grande músico falecido com uma resenha sobre o primeiro, e ainda meu favorito, disco que escutei deles: We are Motorhead.

Adquiri esse disco logo quando foi lançado, no ano de 2001, quando eu tinha meus dezessete anos. Lembro-me que o comprei junto com outros dois discos: The Gathering, do Testament e Brave New World, do Iron Maiden. Logo que coloquei o disco para tocar foi amor a primeira vista; canções diretas, riff´s matadores e a voz cortante de Lemmy cantando sobre beber, arranjar confusão e fugir da cadeia mostravam porque o Motorhead era considerado um dos monstros sagrados do Metal mundial.

Sou suspeito para falar, mas não se pode destacar uma música deste disco, todas são de altíssima qualidade, seja a faixa de abertura See Me Burnning; a lenta e pesada Slow Dance; a rápida Stay Out the Jail; a cadenciada Wake The Dead ou mesmo a balada One More Fucking Time. São canções que tanto poderiam constar sem problemas nos shows da banda quanto o ouvinte poderia escutar várias vezes sem nunca enjoar.

O disco ainda traz um cover do Sex Pistols, God Save The Queen, que ficou

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Lemmy Kilmister (1945-2015)

muito bem na voz de Lemmy.

Sem dúvida, o trio Lemmy Kilmister, Mikkey Dee e Phil Campbell estão em sua melhor forma neste disco.

O petardo finaliza com chave de ouro com a pesadíssima We Are Motorhead, uma espécie de convocação/saudação de todos os fãs da banda para curtir um bom rock and roll.

We are Motörhead – born to kick your ass

Obrigado por tudo, Lemmy.

Carol Of the Bells: uma metáfora do Natal

 

Poucas músicas, para mim, sintetizam de maneira tão forte esse sentimento natalino que domina o imaginário do mundo todo.  Sempre que a escuto lembro-me da atmosfera aconchegante da reunião em família, dos parentes trocando presentes, de assistir Mágico de OZ ou da minha ansiedade, de quando era criança, em saber qual presente eu finalmente ganharia.

Escolhi a versão do Trans-Siberian Orchestar porque ela acrescentou o peso do Heavy Metal, deixando única mas mesmo assim sem perder sua identidade.

The X-Factor: um disco maldito

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All my dark dreams drift like smoke in the breeze.

Look For the Truth

Quero falar hoje, leitor amigo, de um disco que em outubro fará dezessete anos de existência. Um petardo do qual em torno dele há toda uma atmosfera áspera, cinzenta, polêmica e que representa uma verdadeira descontinuidade em todo o conjunto da obra da donzela de ferro: The X-Factor.

Muitos fãs do Iron Maiden consideram o primeiro disco com Blaze Bayley nos vocais como um fracasso total. As musicas não parecem ter a mesma empolgação de antes, as letras também não era mais as mesmas e, principalmente, as linhas graves e sombrias dos vocais do novo integrante eram supostamente inferiores as do seu antecessor.

Do ponto de vista comercial, X-factor realmente pode ser considerado com pequeno fracasso — não chegou a alcançar as três primeiras posições nas paradas inglesas. Mas e a partir da concepção de uma obra de arte propriamente dita, The X-factor é de fato um fracasso?

Acredito que as discussões em torno desse disco sejam tomadas a partir de uma perspectiva equivocada. È preciso compreendê-lo dentro de seu próprio contexto, das questões que estão envolvidas para a sua realização e, acima de tudo, da proposta que o disco está disposto a apresentar e quais idéias ele defende.

O ano de 1994 tinha sido um ano ruim para a banda de Steve Harris. Do ponto de vista pessoal, o líder, além de passar por um processo traumático de divorcio, ainda amargara o falecimento do pai no mesmo período. Na vida profissional as coisas não estavam nada bem. Ainda que o disco anterior, Fear Of The Dark, tenha vendido milhões de cópias ao redor do mundo, recuperado o status da banda após o fracasso do injustiçado No Prayer For The Dying e mantido a banda em evidência numa época em que o grunge dominava o mercado, o carismático vocalista, Bruce Dickinson, resolve deixar a donzela para se dedicar a careira solo.

A saída do músico e historiador era um verdadeiro golpe nas estruturas da maior banda de Heavy Metal de todos os tempos. Como o Iron seguiria sem a voz que se tornou sua marca registrada durante tantos anos? O timbre potente de Bruce Dickinson estava de tal maneira identificado com a sonoridade da Donzela que alguns não enxergavam um futuro para o Maiden — muitos da imprensa e grande parte dos fãs já falavam em Harris, Murray e cia. pendurarem as botas.

Encerrar as atividades, entretanto, era algo impensável para Steve Harris. O Iron Maiden era seu projeto de vida. Sofreu pelo Maiden para fundá-lo, sofreu para mantê-lo unido e sofreu para levá-lo adiante. Tantas dificuldades tinha passado para levar seu sonho à frente que, agora, diante de mais uma grande adversidade, ele simplesmente não podia deixar-se submeter. O Iron se destacou entre milhares de outras bandas de metal da década de oitenta, sobreviveu a várias substituições de integrantes durante a sua trajetória e tinha passado quase ileso á febre grunge dos inicio dos anos noventa. Porque o grupo resvalaria perante a saída de um integrante?
Era o momento de limpar os destroços, reformar as fundações e reerguer outra vez o prédio em ruínas.

E foi o que o Sr. Harris fez.

Um concurso foi feito para a escolha do novo vocalista e o vencedor acabou sendo um certo Blaze Bayley. Na época pouco se sabia sobre o novo vocalista, apenas que fora os vocais de uma banda de Hard/Heavy chamada Wolfsbane, que a mesma já tinha sido atração de abertura de vários shows para a donzela na turnê do No Prayer For the Dying e que seu timbre era mais grave que o do Sr. Dickinson.

Um ponto curioso é que o Iron Maiden apenas decidiu entrar em estúdio para compor a gravar quando o novo vocalista fosse devidamente efetivado. Isso significava que não era apenas Bayley que deveria se adaptar a banda, mas o grupo também deveria se adaptar a Blaze.

O resultado de meses de trabalho duro no Barnyard Studios foi o The X-Factor.

Todo o conceito do disco era diferente do que a banda tinha feito até então. Um grupo que sempre apostara em músicas épicas, com suas letras narrando batalhas históricas e feitos heróicos (talvez um reflexo das várias guerras ganhas pela banda no terreno do show bussiness), agora lança um disco em que o eu lírico falava de vazio existencial, auto destruição, traumas de guerra e etc.; a capa mostrava um Eddie humanizado, e os tons de toda a arte do álbum girando entre o cinza e o negro — divergindo completamente do traço colorido e similar ao de histórias em quadrinhos que caracterizava os discos anteriores.

Não há duvida de que os temas mais cinzentos (e adultos) explorados pela banda eram um reflexo do momento peculiar do qual o líder, e consequentemente sua banda, estava passado. Sem Dickinson, o futuro era incerto; Harris, por sua vez, sofrendo um verdadeiro inferno astral no plano da vida privada, captou todas essa vibrações para a música. O momento era de incertezas (por isso o nome do disco), mas era necessário seguir em frente. As brigas, as decepções, as perdas, as mudanças no plano da vida de seu líder e do grupo afetaram de tal maneira o Iron que, mesmo continuando, eles não seriam mais os mesmos.

The X-Factor, portanto, é um amalgama de todos esses sentimentos.

O disco inicia-se de maneira bastante peculiar, cantos gregorianos, uma introdução a cargo do baixo de Steve Harris e uma linha vocal sombria de Blaze, quase um lamento:

Eleven Saintly Shrouded men/Shilouettes Stand against the sky/one in front with a cross held hight/ come to wash my sins away.

Em seguida a canção vai aos poucos ganhando intensidade até que percebemos que realmente estamos diante de uma obra prima chamada Sign Of The Cross, de apenas onze minutos, um épico com parentescos muito próximos a Alexander the Great e Rimer of the ancient Mariner, com sua atmosfera cativante, suas linhas melódicas grandiosas e ao mesmo tempo tristes, além de dois solos de guitarras matadores. Muitos dizem que essa canção foi composta por Steve Harris baseado no romance Em Nome da Rosa, de Umberto Eco. Outros dizem que em Sign Of The Cross, Harris expõe a maneira como lidou com a morte do pai. Este que vos escreve prefere imaginar que foram as duas coisas — foi a partir de uma musica baseada numa história de assassinato na idade média que o compositor encontrou o tom correto para expor seus sentimentos sobre o luto, perda e consternação.

Em seguida o disco nos mostra uma canção mais rock-n roll, mas não menos sombria, chama-se Lord Of the Flies. Baseada num livro de mesmo nome, que narra uma historia de um grupo de meninos que sobrevivem a um desastre e começam a construir uma sociedade própria numa ilha onde passam a viver. A ideia principal da historia é a tese ateísta (do qual eu sou adepto) de que a sociedade cria seus próprios deuses. A música possui linhas fortes e um solo de guitarra matador. O massacre sonoro continua com Man on the Edge — preferida dos fãs e baseada no filme Um dia de Fúria.

Na faixa de número quatro, Fortunes Of War, o grupo diminui um pouco a velocidade num clima mais melancólico e cinzento, em que Blaze Bayley narra os horrores de um soldado que, enviado de volta para casa depois de uma guerra, sofre com os traumas causados pelos horrores que presenciara no front.

Em Look For the Truth, embora seja uma canção cujo eu lírico expressa com competência a sensação de angustia, de paranóia e de pesadelo, musicalmente falando considero-a, ao lado de The Unbeliever, uma das mais fracas do disco.

Outras canções de destaque são The Aftermarth, que possui o melhor solo de guitarra do disco e um os melhores já produzidos pelo Maiden, Jugmente of heaven, cujo andamento acelerado lembra muito a pegada do disco Fear Of the Dark e Blood on The World Hands com a já famosa linha introdutória do baixo de Steve Harris, uma música que, se não possui tanto peso, é bastante interessante de se ouvir.

Logo somos apresentados a sombria The Edge Of the Darkness, inspirada no filme Apocalypse Now, de Francis Ford Copolla e, mais uma vez, a banda se interessa não pelos aspectos heróicos da guerra (se é que eles existem) mas pelas feridas que ela causa no interior dos homens que dela participam.

When you´ve faced the heart of the darkness/even your soul begins to bend

Nesta canção a voz grave de Blaze narra as desventuras de um soldado na busca do Coronel Kurtz, o insano oficial americano perdido em meio a floresta do Vietnã.

O mais próximo de uma balada que o disco possui é a belíssima 2.a.m, com suas belas linhas de guitarras dobradas.

È realmente interessante como muitos fãs depreciam este disco. Mas o que há de errado nele? Todos os elementos que fizerem o Iron Maiden ser o que é hoje estão presentes: cavalgadas, guitarras dobradas, solos melódicos e pegajosos… Dizem que o problema era a voz de Blaze, também não vem ao caso. Embora The Sign of the Cross tenha caído bem na voz de Dickinson, normalmente as musicas da era Bayley normalmente não ficam bem com a voz de Bruce. Este disco, enquanto proposta da banda em mudar um pouco a sonoridade e abordar assuntos já explorados pelo grupo a partir de uma perspectiva mais sombria, conseguiu o resultado esperado. Ele não é muito pesado em termos de timbres das guitarras, mas o baixo está em alturas incríveis exercendo definitivamente o papel de regente da banda. Não é o peso em si que torna o The X-Factor um álbum tão cativante, mas justamente seu clima cinzento e as letras belíssimas que o perpassam.

Pode-se dizer também que Blaze Bayley é um péssimo vocalista. Não é verdade. O sujeito está numa carreira solo aclamada pela critica, lançando discos cada vez mais maduros e pesados.

O problema de The X-Factor está justamente no contexto em que foi escrito. Sem Bruce Dickinson, os fãs com certeza torceriam o nariz para qualquer outro vocalista substituto ou negariam qualquer mudança na sonoridade da banda.

Para mim, considero o The X-Factor um dos melhores discos de Heavy Metal já lançados durante a segunda metade da década de noventa e um dos mais injustiçados na carreira da donzela. È um disco cult, desses que não possuem tantos admiradores, mas dono de um distinto valor musical que só os headbangers menos preconceituosos são capazes de reconhecer.

Scorpions: a última dose do veneno

Os últimos anos tem sido de perdas para a cena Hard/Heavy mundial. O Pantera se foi; o Type ´O Negative acabou junto com Peter Stelle; Dio também partiu para a região das sombras; Ozzy, pelo jeito, vai morrer num prazo de dez anos; Steve Harris já disse que o Iron Maiden deve lançar no máximo quinze discos, então o New Frontier é o ultimo; o Black Sabbath, pelo jeito, não continua; e o Kiss já está em final de carreira. Por enquanto, o AC/DC e o Metallica lançaram ótimos discos, mas os caras estão ficando velhos. Os grandes nomes que moldaram o rock clássico estão indo embora e atualmente não existem bandas capazes de substituí-los a altura — ironicamente, isso está acontecendo justamente quando o musica pesada volta a explodir em todo o mundo.

Depois de tantas baixas, chegou a vez do Scorpions pendurar as chuteiras, finalizando uma carreira de quase quarenta anos com o bem executado Sting in The Tail, que embora não possua o mesmo peso de um Humanity ou a pegada de um Unbreakable, é muito bem construído. Embora eu esperava, como fã, que a despedida fosse uma junção dos dois últimos trabalhos, não fiquei de todo decepcionado.

Escrevo este pequeno testículo ouvindo o Sting in the Tail e sou tomado por aquela sensação de deja vú. A cada riff, a cada solo e a cada refrão do disco, imagino se já não ouvi isso antes. Isso se deve ao fato de que o trabalho segue à risca o rock dos anos oitenta — refrãos grudentos, bateria abafada, letras festeiras e arranjos em escala pentatônica.

O disco começa com a alegre Raised On Rock, confesso que na primeira vez que a ouvi, seu acorde meio pop me fez odiá-la. Mas agora chego à conclusão de ela é até bem interessante — é o tipo de música muito bom para tocar numa festa.

A próxima é a faixa titulo Sting in te Tail, bem rock´n roll, seria uma boa trilha sonora para uma bela conversa embalada com algumas cervejas. Segue-se a pesada Slave me e a belíssima balada The Good die Young, exatamente como uma boa banda de rock sabe fazer, um acorde pesado, melódico e muito contagiante. A porrada nos tímpanos volta a todo vapor com Rock Zone, a mais pesada do disco, uma verdadeira avalanche sonora capaz de levantar até defunto.

È incrível como os Scorpions são ótimos em fazer musicas pesadas, ao mesmo tempo que são capazes de compor verdadeiras porcarias como Send me an Angel e congêneres. O equivalente destas músicas no disco fica com Lorelei e SLD. São o tipo de canções candidatas a serem regravadas por duplas sertanejas e cantores de bolero. O disco finaliza com a singela The Best Is Yet to Come. Bem sugestivo. Aquele seria mesmo o ultimo álbum?

Sting in the Tail é bem alto astral, uma despedida com a sensação de dever cumprido. Depois de terem levado a bandeira do bom rock´n roll durante todos esses anos, Klaus Meine, Rudolf Schenker, Matthias Jabs, Pavel Maciwoba e James Kottak resolveram passar a bola para as gerações mais novas — mas se depender delas, o hard rock/heavy metal não vai durar muito…

Blaze em Manaus: Uma Aula de Heavy Metal

Depois de Paul Dianno em 1997 e do próprio Iron Maiden em 2009 (leia aqui a resenha do show), o competente Blaze Bayley também fez uma bem sucedida apresentação em Manaus, no dia nove de Abril, na cervejaria Fellice, na turnê de divulgação do seu ultimo disco Promise and Terror, lançado no inicio de 2010.

A banda encarregada do pré-show, Veludo Branco, de Roraima, fez o seu papel apresentando um Hard Rock seguro e bem tocado, executando músicas próprias e pequenos trechos do Led Zepellin e Black Sabbath — pena que o público não deu o merecido valor para o power trio.

Quando o relógio da maioria das pessoas já passava da meia noite, Bayley iniciou sua apresentação. Exatamente neste momento, todo o público veio para junto do palco e assistimos uma verdadeira aula de heavy metal, começando com a destruidora Madness and Sorow, segunda faixa do poderoso Promise and Terror. A banda apresentava uma coesão impressionante, as guitarras da dupla Jay Walsh e Nicolas Bermudes estavam muito bem entrosadas, detonando com riff´s avassaladores e solos muito bem construídos; o baixista David Bermudez não deixava a desejar com uma boa presença de palco e uma técnica apurada; o baterista Larry Peterson parecia uma máquina, não parava nenhum momento para respirar e descia o braço na caixa e nos pratos da cozinha; quanto ao chefe, o tenor Blaze Bayley, percebia-se a grande evolução em sua técnica vocal, assim como em sua presença de palco; com um carisma contagiante, o britânico não parava para agitar: levantava os braços, mandava quem estava parado bater cabeça (“bang your head, mother fuckers!”), apertava a mão dos fãs e agradecia toda hora pelo apoio recebido.

Durante os raros intervalos em que o vocalista fez para dar uma palavra ao publico, falou sobre a mudança de sua antiga gravadora para o seu recém montado selo, Blaze Bayley Recodings, e que agora, como artista independente, ele consegue fazer algo que não fazia antes — tocar em varias cidades do mundo. Também disse com grande razão: “vocês tem poder, os fãs do Brasil tem o poder, o poder de fazer uma banda grande, de fazer heróis, cada um de vocês aqui tem o poder, vocês tem a coragem de pensar por vocês mesmos, vocês tem a coragem de acreditar em seu próprio coração, e todos aqui sabem que vocês escutam a musica que escolheram, não o que a MTV manda ouvir, mas o estilo musical que vocês escolheram.”

Entre as musicas tocadas podemos destacar The Brave, City of Bones, Faceless e Leap Of Faith; embora estas canções tiveram uma grande resposta dos fãs, não há duvida de que as faixas dos tempos da Donzela e Ferro empolgaram mais: Man on the Edge, Lord Of The Flies, Futureal e The Classman. Entretanto, falando como admirador de Blaze desde os tempos de Iron, senti falta de clássicos como Sign Of the Cross, 2 A.M, e When Two Worlds Collide, que com certeza se sairiam muito bem ao vivo. Também considero que Blaze poderia ter explorado mais o interessante disco Tenth Dimension, do qual só foram executadas apenas duas músicas, a porrada Kill and Destroy e a medíocre Speed Of Light. Músicas marcantes do Tenth como End Dream, Nothing Will Stop me, Meant To be ou a sombria Strange to the light mereciam estar no set list.

O show fechou com a pesadíssima Robot, com todos os músicos e público exaustos de tanto bater cabeça e agitar. Com a grande receptividade que os fãs brindaram Blaze Bayley, não há duvida de que poderemos vê-lo outras vezes aqui na Paris dos Tristes Trópicos — da próxima vez os promotores do futuro show resolvam realizá-lo num lugar maior e assim baratear o ingresso, pois o preço salgado deixou muita gente de fora: 60 reais a pista e 80 o VIP.

A casa não teve lotação máxima. Mas o show foi excelente e a organização merece seu mérito pelo evento. Entretanto, houve problemas graves, como a questão da divulgação do horário do show: no ingresso estava ás dez horas, enquanto que nos cartazes pendurados no estabelecimento estava: “show a meia noite”; outro erro foi a confusão sobre quem seria a banda pré-show, a gerente do Fellice disse que seria uma banda de Santa Catarina, indicada pessoalmente por Bayley, enquanto que a organizadora do evento afirmou se tratar de um grupo de Roraima; também foi avisado que as pessoas que comprassem o ingresso VIP teriam direito a uma camisa e a uma sessão de autógrafos com o cantor, mas qual foi a nossa decepção quando vimos que a camisa não era boa, parecia as camisas dos funcionários do Fellice; quanto a sessão de autógrafos, uma desorganização total, muitas pessoas que tinham comprado o ingresso VIP justamente para ter o CD autografado e tirar uma foto com o vocalista, como foi o meu caso, ficaram de fora — puxaram Blaze sem mais nem menos para conceder entrevista para a TV Cultura. No final da execução de Kill and Destroy o microfone do cantor teve alguns problemas técnicos, que felizmente foram logo resolvidos, e uma das guitarras estava baixa demais — quase não dava para ouvir seus solos.

Ao contrário do ressentido Paul Dianno, que critica seu antigo grupo em todas as entrevistas que concede e chama Steve Harris de Hitler, mas ironicamente ganha a vida tocando as músicas de sua época no Maiden, Blaze Bayley segue em uma carreira solo cada vez mais bem sucedida tanto de critica quanto de público — firmando aos poucos seu trabalho na cena metálica mundial através de bons shows como o que ocorreu em aqui em Manaus.