Epicuro: sobre a vida e a Morte

epicuroAcostuma-te a ideia de que a morte para nós não é nada, visto que todo bem e todo mal reside nas sensações. A consciência clara de que a morte não significa nada para nós proporciona a fruição da vida efêmera, sem querer acrescentar-lhe tempo infinito e eliminando o desejo de imortalidade.

Não existe nada de terrível na vida para quem está perfeitamente convencido de que não há nada de terrível em deixa de viver. É tolo, portanto, quem diz ter medo da morte, não porque a chegada desta lhe trará sofrimento, mas porque o aflige a própria espera: aquilo que não nos perturba quando presente não deveria afligir-nos enquanto está sendo esperado.

Então, o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos. A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos, nem para os mortos, já que para aqueles ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui. E, no entanto, a maioria das pessoas ora foge da morte como se fosse o maior dos males, ora a deseja como descanso dos males da vida.

O sábio, porém, em desdenha viver, nem teme deixar de viver; para ele, viver não é um fardo e não viver não é uma mal. Assim com opta pela comida mais saborosa e não pela mais abundante, do mesmo modo colhe os doces frutos de um tempo bem vivido, ainda que breve.

Quem aconselha o jovem a viver bem e o velho a morrer bem não passa de um tolo, não só pela fato que a vida tem de agradável a ambos, mas também porque se deve ter exatamente o mesmo cuidado em honestamente viver e em honestamente morrer.

Nunca devemos nos esquecer de que o futuro não é nem totalmente nosso, nem totalmente não nosso, para não sermos obrigados a esperá-lo como se tivesse por vir com toda certeza, nem nos desesperarmos com se não estivesse por vir jamais.

O conhecimento seguro dos desejos leva direcionar toda escolha a toda recusa para a saúde do corpo e para a serenidade do espírito, visto que esta é a finalidade da vida feliz: em razão desse fim praticamos todas as nossas ações, para nos afastarmos da dor e do medo.

Adaptado de Carta sobre a Felicidade.

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Machado de Assis e a Filosofia dos Epitáfios

Saí, afastando-me dos grupos e fingindo ler os epitáfios. E, aliás, gosto dos epitáfios; eles são, entre a gente civilizada, uma expressão daquele pio e secreto egoísmo que induz o homem a arrancar à morte um farrapo ao menos da sombra que passou. Daí vem, talvez, a tristeza inconsolável, dos sabem os seus mortos na vala comum; parece-lhes que a podridão anônima os alcança a eles mesmos.

(Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas)

The Walking Dead e a Distopia Moderna

imagesImagine um mundo em que toda a sociedade como a conhecemos ruiu. O estado, a policia, a escola e todas as instituições simplesmente deixaram de existir. O que há são apenas cidades devastadas com pequenos grupos de indivíduos miseráveis vagando como vagabundos; acrescente a isso que pelo mundo espalham-se uma quantidade infindável de zumbis, dezenas de milhares, tantas quanto são as estrelas do céu, cujo único propósito é se alimentar de carne humana…

Este é o pano de fundo do qual se desenvolve The Walking Dead. Uma famosa Hq, criada por Robert Kirkman, que tornou-se uma conceituada série televisiva dirigida por Frank Darabond.  Nela acompanhamos as desventuras de um grupo de sobreviventes, liderados pelo ex-policial Rick Grimes, vagando por cidades devastadas em busca de salvação. Ao contrário de outras obras que trataram do tema, TWD não se preocupa com as causas que levaram a epidemia ou mesmo com as articulações do governo na tentativa de barrar o avanço dos zumbis sobre as cidades. O espectador é jogado, assim como os personagens da trama, de chofre nesse mundo caótico e cinzento. Apenas percebemos o mundo pela lente dos personagens, que também não sabem quase nada do que aconteceu. O que sabemos sobre natureza do desastre vem apenas de informações desencontradas, pedaços desarticulados e fragmentários de relatos provindos dos sobreviventes. Eles, assim como nós, são pequenas formigas indefesas e sem rumo vagando pela vastidão aterrorizante de um mundo assombrado pelo desastre e pela morte.

Uma das inovações do universo criado por Kirkman é justamente no desenvolvimento emocional dos personagens. Eles não são apenas receptáculos dos fenômenos como em outras obras de terror, como acontece principalmente nas obras de Lovecraft — que ajudou a popularizar na narrativa de terror/fantástico. Os indivíduos que vemos se movimentar em TWD não são peças de um tabuleiro, são pessoas com histórias, medos, aspirações, ambições e desejos. O desastre e a morte de seus entes queridos pesam sobre seus ombros. Quando os vemos agindo e reagindo diante das dificuldades, notamos que, provavelmente, faríamos do mesmo modo… Apesar da realidade apresentada ser completamente fantástica, os desdobramentos dela sobre o mundo são extremamente realistas. Sentimos os terrores, os dilemas e as situações que os testam até os limites da insanidade.

Este mundo cinzento, sem esperança e pestilento, onde as brumas da morte vagam como uma presença sempre sentida, sempre próxima e quase sempre fatal, remete a insegurança, a condição de guerra de todos contra todos e a possibilidade de morte violenta, outrora descrita por Hobbes, de um estado pré-histórico ou de completa falência do contrato social. O resultado desse cenário é o estabelecimento de pequenas tribos que estabelecem suas próprias leis, costumes, crenças, mas acabam por ser submetido por outras comunidades mais fortes — vejamos o caso dos Salvadores quando submetem HillTop e Alexandria.

O fim do contrato social e a emergência da guerra de todos contra todos leva, inevitavelmente, a destruição de todas as desigualdades e niveladores sociais antes endêmicos na sociedade. Agora, a hecatombe social propicia o surgimento de novas hierarquizações. Aquele que era apenas um entregador de pizza, agora, torna-se um dos mais destacados membros do grupo (Glen); outro que era só um pai de família com um emprego sem perspectiva torna-se o líder de uma grande comunidade (Philip, o governador); o policial tímido de uma insignificante cidade virá, com o fim da estrutura sistêmica da sociedade, a ser o líder implacável que passará pelas mais duras provações (Rick Grimes), só para citar alguns exemplos. A meu ver, a estrutura da trama é semelhante a de estórias de aventura e mitologia, como Crônicas de Nárnia, Senhor dos Anéis, O Hobbit ou as historias de terror de Lovecraft, por exemplo. Nelas os personagens são apenas medíocres cidadãos de suas respectivas comunidades que são jogados contra a sua vontade num mundo completamente novo que promete aventuras, duras provações e descobertas; um mundo, enfim, que modificará completamente toda sua subjetividade a ponto de não enxergarem com o mesmo olhar seu passado, seu presente ou seu futuro. A hecatombe zumbi, portanto, não opera apenas como um destruidor das antigas hierarquizações de um mundo falido pela corrupção, mas também com um deslocador da própria visão de mundo dos personagens. A mudança ocorre num nível hermenêutico. Graças aos estudos sobre ideologia de Mannheim e, mais remotamente, as reflexões de Marx e Engels em A Ideologia Alemã, que os homens tem maneiras de pensar que são extremamente induzidas por suas formas de vivencia e por seu contexto sócio histórico. As mudanças de pensar dos indivíduos de uma sociedade ocorreria apenas se as estruturas desta sociedade fossem brutalmente abalados. Não é o que ocorre com os personagens de TWD? Todas as suas certezas que antes eram seguradas por um mundo onde as instituições pareciam mais firmes foi brutalmente destruída e, com ela, todas, ou quase todas suas ideias de normalidade e moralidade tiveram que ser revistas. Aqui o que reina é a incerteza, a maldição e a morte. O mundo realmente acabou? Ainda é possível reconstruir as coisas como eram antes? As antigas leis que tínhamos antes ainda podem ser postas em práticas se criarmos uma comunidade ou temos que começar do zero, como fizeram nossos ancestrais?

Contudo, os grandes astros da trama não são Rick Grimes e seu grupo, são os zumbis. Eles são os elementos dinamizadores do enredo. São o elemento anárquico, ambivalente e destruidor. Os zumbis são a variável do qual o Estado e a sociedade não foram capazes de medir, controlar e homogeneizar. Eles são a ambivalência materializada. A contradição social extrema. O lado negro revelado. O impensável, o incalculável, o indizível e o incontrolável. Os Walkers são a materialização do fracasso social, do fim da modernidade e de um projeto de civilização.

O fim e o fracasso da construção iluminista de sociedade — é isso que o seriado representa. Portanto, TWD situa-se no hall de histórias distópicas que povoam a literatura e as artes desde o inicio do século XX, entre as quais estão 1984, de George Orwell e a Guerra dos Mundos de H.G. Wells, que mostram um projeto falido de modernidade, de civilização e de sociedade. A distopia mostra todo o lado escuro do progresso e como esse lado obscuro pode, a qualquer momento e inevitavelmente, emergir e se apossar de tudo o que temos, de tudo que acreditamos e de tudo o que somos. As obras literárias distópicas foram muito comuns na primeira metade do século XX sua descrença em relação ao progresso material da sociedade diverge radicalmente das obras utópicas, que foram tão famosas na literatura e no pensamento social moderno entre os séculos XVI e final do século XIX. O desenvolvimento do capitalismo, os avanços da ciência e o esfacelamento dos laços feudais fizeram com que o homem moderno tivesse uma crença absoluta de que a estes valores, se radicalizados, poderiam levar indiscutivelmente ao melhoramento progressivo da humanidade, eis a utopia idealizada.

O pensamento utópico se espraiou tanto pela literatura quanto pelo pensamento filosófico e social, seus principais representantes foram Thomas Mann, Thoreau, Rousseau, Whitman e o pensamento socialista do século XIX, dentro do qual a teoria marxiana é o seu maior e mais consistente expoente. Mas o que aconteceu para que a crença na modernidade e no progresso se transformasse num profundo ceticismo em relação ao futuro da humanidade? A partir de quando isso aconteceu? A resposta está justamente nos desdobramentos colaterais que a expansão ininterrupta do capital trouxe para a humanidade. Se a partir das ruinas do feudalismo e até o fim do século XIX a sociedade europeia plantou as sementes e viu crescer e florescer essa estrondosa árvore chamada de modernidade, foi no século XX que percebemos que ela estava repleta de ervas daninhas e que seu seus galhos começaram a nos envolver e nos prender com ou uma grade de ferro. Foi no século XX que notamos as consequências do modo de vida moderno: duas grandes e devastadoras guerras, uma crise brutal do capitalismo, a divisão do mundo em dois blocos de poder, os riscos de uma grande guerra nuclear, lutas dos povos dominados da Ásia e África se emanciparem frente as potencias europeias e a queda de hegemonia das velhas nações do velho mundo. Todos esses processos se deram a custa de milhares de vidas humanas e acabou sendo inevitável que o pensamento social da época captasse as nuances da tragédia da modernidade no século XX e, ao passar pelo seu filtro critico, concluísse que o capitalismo não significava uma libertação da humanidade, mas simplesmente, como dissera Weber, a criação de uma nova grade de ferro que só se esfacelaria quando a ultima camada de carvão fóssil fosse consumida. Agora, na contemporaneidade, há novas ameaças sobre a humanidade. O processo de radicalização da modernidade, liquefação de todas as instituições criadas por esta nos mostrou que estamos, mais do que nunca, jogados num mar tempestuoso, guiando um barco que navega sem rumo, sem objetivo, onde a certeza de nossas coordenadas pode ser radicalmente mudada dependendo do sabor do vento ou das marés. A modernidade liquida, a nova modernidade do mundo atual, trouxe consigo a ameaça de um desastre natural, de epidemias proporcionadas por germes criados em laboratório, de guerras por recursos naturais, por implosão de nossos valores mais caros e formações de radicalismos e de fundamentalismos religiosos, econômicos, morais e etc. Só o que parece mais firme para nós, pobres homens modernos, é a incerteza e o niilismo — nada tem sentido, nada parece valer a pena e o proposito das coisas simplesmente desmoronou.

TWD espraia-se nessa preocupação muito forte no mundo atual. A sociologia, a economia, a filosofia, a historia e todas as outras ciências humanas estão preocupadas as consequências trazidas por séculos de modernização, de racionalização, de industrialização e de expansão ininterrupta do capitalismo moderno. TWD, a meu ver, é uma metáfora da falência de nosso projeto de civilização. Os zumbis, o desespero, o niilismo dos personagens são alegorias que propiciam uma ontologia ou uma alegoria dos dilemas da modernidade liquida. A aclamada Hq de Kirkman, em toda a sua complexidade dos temas tratados, do jogo hermenêutico de destruição dos valores e visão de mundo dos personagens, da desintegração completa da sociedade e da emergência de novas desigualdades e hierarquizações e da vivencia num mundo onde apenas a incerteza é a única coisa mais firme nesse mundo cinzento é, por assim dizer, uma metáfora perfeita da distopia em que vivemos.

Por isso ela faz tanto sucesso; de reverenciada historia em quadrinhos a uma bem sucedida serie televisiva, seu segredo não está num enredo de uma história genérica de terror, pois tantos filmes de mortos vivos já foram produzidos, mas na maneira como trata seus temas, seus personagens e, acima de tudo, consegue tocar nossa subjetividade como uma distopia da vida moderna.

Em meio ao niilismo extremo ainda há esperança. Mesmo sabendo de todo o horror que os cerca, a intenção de continuar a qualquer custo, de procurar um lugar que ofereça a possibilidade de um novo recomeço, como em Alexandria. È um dos ímpetos mais incríveis do homem moderno é continuar, apesar de tudo, da dor, do horror, da morte, das guerras e das epidemias.

A luta para a superação da distopia ainda é possível.

Lost e a Filosofia

Uma das ideias mais difundidas no Brasil sobre a filosofia é de que ela é um discurso de difícil compreensão. Isso se deve em parte pela falta do hábito de leitura do brasileiro, cuja indolência mental o impede de dialogar com um texto de linguagem mais elaborada e, também, pelo próprio processo de encastelamento que a disciplina se alienou ao longo de sua institucionalização.

Isso que dizer que a filosofia foi ficando cada vez distanciada dos problemas do homem comum e se detendo em assuntos que tinham relevância apenas para os acadêmicos da universidade.

Mas essa tendência, hegemônica em períodos recentes, está cedendo lugar para uma nova postura dos filósofos em relação a esferas da vida social que antes eram vistas de maneira pejorativa. Se antes o discurso filosófico, por exemplo, se ocupava apenas da arte tradicional, detendo-se nas imprecações dos incompreensíveis artistas abstratos, agora ela passa a centrar sua atenção nos fenômenos da cultura de massa, como o cinema popular, as novelas e as séries de televisão. A filosofia, assim, despe-se de uma racionalidade cansada e dedica-se aos fenômenos da vida cotidiana.

O livro A filosofia de Lost, do italiano Simone Regazzoni, é um exemplo dos novos rumos que o discurso filosófico está tomando nos últimos decênios. Com um estilo simples e ligeiro, o pensador analisa os principais assuntos abordados por uma das mais bem sucedidas séries de televisão da contemporaneidade.

Usando um amplo arco de pensadores como Gramsci, Freud, Derrida, Rousseau e Heidegger, Regazzoni considera Lost um verdadeiro fenômeno transmidial que extrapolou suas fronteiras midiáticas tradicionais e tomou conta de outras mídias como a internet, o cinema e a literatura. Sua grandeza, segundo Regazzoni, está na capacidade dos seus roteiristas J.J. Abrams e Damon Lindelof em fundir elementos da cultura erudita, da cultura pop e dos filmes B.

O estilo do seriado é não-linear, e sua atmosfera, as vezes cômica, as vezes épica, é quase sempre angustiante. Lost é um verdadeiro drama filosófico que discute a condição moderna e sua implicações para a humanidade.

A busca pela verdade. Entretanto, a influência filosófica de Lost não reside apenas no fato de que os personagens possuem nomes de filósofos como Rousseau, Locke ou Desmond David Hume. O que o seriado quer propor com isso é a premissa de que todos os homens são filósofos e, portanto, portadores de uma filosofia e de um visão de mundo específica. Isso é evidente quando tomamos conta de que cada personagem possui uma opinião sobre as coisas a sua volta, uma perspectiva dos acontecimentos, uma lenda pessoal*. Seus episódios são sempre apresentados pela ótica de determinado personagem. O que está em jogo no seriado é um tema que vem sendo discutido desde os primórdios da filosofia — a busca pela verdade. E cada um dos sobreviventes é uma verdade que está em luta constante contra outras verdades.

Indo mais a fundo, e isso é uma metáfora de um drama especificamente moderno, todas as nossas antigas certezas se esfacelaram diante da razão, e agora, em pleno século XXI, até mesmo a razão sofre um processo de critica severa que, segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, se tornou incapaz de controlar o mundo social e natural. Hoje, a única coisa que parece sólida é a incerteza, a insegurança e a ansiedade. A modernidade libertou as forças da sociedade das amarras de ferro da tradição e com isso povoou o mundo de uma variedades de visões, de perspectivas e de filosofias, e onde cada indivíduo ou grupo social veste-se ou despe-se de delas dependendo do seu lugar no mundo ou da mudança da conjuntura social ou politica. O que vemos e o que vivenciamos, portanto, não é a Verdade, apenas mais uma perspectiva influenciada pela nossa história de vida e pelo nosso lugar no modo de produção-informação. Se há tantas verdades em luta, então todas elas são equivalentes. Nenhuma é mais válida que a outra. Nenhuma pode explicar mais coisas que a outra. Porque buscar pela Verdade, então, se conforme nos diz Regazzoni: ela permanece opaca, impenetrável, irredutível a clareza de evidência?

Eu diria mais: porque buscar pela verdade se ela não existe?

Tortura. O fato de haver em Lost um personagem que foi um torturador profissional não pode ser reduzido ao intento de que os autores estavam sendo influenciados pelo cenário politico contemporâneo. Para Regazzoni, o tema cujo epicentro é a personagem Sayd possui muito mais complexidade. No seriado, a tortura não pouca ninguém, é praticada deliberadamente por todos os grupos da trama. Esta forma deliberada de praticar um ato cruel está em sintonia com das declarações do ex-vice-presidente Dick Cheney, quando admitiu o uso de métodos leves de tortura para arrancar confissões de terroristas. Isso não pôs fim à hipocrisia, mas tornou a tortura normalizada, aceita e almejada em determinadas circunstâncias. A tortura foi elevada á um principio universal. O enunciado de uma coisa acabou por mudar seu próprio conteúdo.

A Ilha. Ela não é apenas um mero pano de fundo onde a ação dos personagens se desenrola. Ela é o personagem principal da trama. Uma bem elaborada metáfora ou manifestação de deus. Assim como Jeová do velho testamento, ela está sempre à espreita, enviando sonhos proféticos, visões e instruções para os seus personagens. Locke, o homem dono do sentimento oceânico e predestinado a ser o líder espiritual, quando se refere a deus, diz ilha. Ele não acredita que deus o tenha curado de sua deficiência nas pernas, mas que a Ilha o curou. Num dos episódios da primeira temporada, por exemplo, ele diz a Jack, eu vi o âmago a desta Ilha, e o que eu vi foi lindo. Quando ele está dando socos na escotilha, no final da primeira temporada e diz, porque você fez isso comigo? Ele não se refere a deus, mas a Ilha.

O livro faz uma verdadeira arqueologia filosófica ao expor temas que no seriado parecem apenas implícitos ou escamoteados pelo desenrolar da trama. Talvez os roteiristas sequer imaginavam que sua narrativa poderia ser um terreno fértil para discussões de assuntos como os que foram detectados por Simoni Regazzoni. Toda obra prima ultrapassa as verdadeiras intenções de seus realizadores e diz coisas que seus autores sequer desconfiam.

A filosofia de Lost é uma boa opção para o estudante de ciências humanas interessado em estudar a cultura de massa, fenômenos transmidiais ou a nova tendência individual media da televisão. Para o fã da série, uma ótima fonte para discutir alguns aspectos do programa que vão muito além do mero espetáculo.

*Paulo Coelho não me agrada, mas o termo presente n’O Alquimista se aplica muito bem ao contexto.

Conhecimento e Educação em Kant

Considerado como um dos grandes filósofos da era moderna e um dos grandes críticos ao pensamento metafísico medieval, Emmanuel Kant (1724-1804) representa uma verdadeira revolução para a historia da filosofia.

O filósofo  está incluído na nova tradição do pensamento ocidental que postula a supremacia da razão natural como premissa básica para o desvendamento objetivo da realidade. Ao conceder a razão o monopólio do conhecimento, os homens tornar-se-ão livres de quaisquer imprecações religiosas que o impeçam de conhecer, manipular e desvendar os mistérios do mundo — eis o ideal mais caro ao iluminismo, que minaria todas as antigas concepções medievais.

Ao contrário da filosofia clássica, ou metafísica, que defendia a preocupação em especular sobre a essência do mundo e das coisas, a filosofia moderna, que começa a surgir no século XVI, vai se concentrar na questão do conhecimento, debater a capacidade do ser humano em apreender esta própria realidade, discutir este processo e estabelecer seus limites para o ato de conhecer. Os filósofos modernos, entre os quais está incluido Kant, mostram que não há como chegar a essência das coisas, a única saída, portanto, é dedicar-se aos conhecimento dos fenômenos — aquilo que é percebido pelos nossos sentidos. Assim será possível compreender o mundo e tornar-se um co-criador da realidade circundante.

Para criar a sua própria teoria, Kant une duas correntes de pensamento aparentemente opostas do pensamento ocidental: o empirismo do inglês Hume e o inatismo do francês Descartes. Para o autor de Critica da Razão Prática, o conteúdo do conhecimento se dá a partir das informações sensíveis aos sentidos e organizado por uma estrutura inata presente no sujeito conhecedor que organiza, analisa, cataloga e sistematiza os dados. A mente humana, portanto, não é uma tabula rasa onde as informações são armazenadas mecanicamente, e nem uma estrutura em que as idéias estariam já previamente escritas. O ato de conhecer é um processo de síntese e não de analise. Kant mostra que o sujeito conhecedor não é um ser passivo diante da realidade, mas alguém que assimila os dados e os interpreta de uma maneira singular.

Além das intuições sensíveis e das formas únicas de cada individuo em organizar o conhecimento, existe uma terceira faculdade: a razão, responsável pelas idéias. Metafísicos como Aristóteles, Platão e Tomas de Aquino erraram ao confundir os objetos da idéia e do pensamento como se fossem conteúdos do conhecimento. O simples fato de imaginar as idéias de alma e deus não são suficientes inferir que estas entidades existam para se tornarem objetos de conhecimento. Apenas a ciência possui a primazia do ato de conhecer e apenas os fenômenos sensíveis podem ser conhecidos.

Entretanto, as categorias de alma e deus, mesmo não sendo conhecidas, devem ser pressupostas, pois elas são condições básicas para a fundamentação da moralidade, requisito indispensável da convivência humana. Os homens praticam o ato moral não como uma circunstância histórica ou cultural, mas como uma força universal de caráter transcendental — para Kant, o fato de o homem ser um ser moral demonstra a existência de alma e a existência de deus.

Portanto, para o aperfeiçoamento da sociedade, a ética deve ser seguida do mesmo modo que esforço de incorporação do conhecimento cientifico, pois ambas fazem parte da estrutura da experiência humana.

Apesar de não ter escrito diretamente sobre educação, sua filosofia aborda o tema de maneira transversal em toda a sua obra. Para ele a razão de ser de toda sociedade basicamente é a construção da emancipação coletiva e individual. Para isso é necessária a busca incessante da disciplina; não a disciplina opressiva, mas uma disciplina que o possibilitasse controlar seus instintos e tornar-se um cidadão autônomo, prudente e capaz de resolver de forma pacifica as circunstancia adversas que o mundo e sua época lhe apresentam. Para que isso se concretizasse, Kant defendia a expansão do conhecimento cientifico, do ensino da arte e da estética.

As concepções do pensador alemão sobre a função da ciência e do conhecimento seguem a corrente progressista da época em que a razão instrumental, instrumento útil para a manipulação do mundo em prol da humanidade (diga-se capitalismo) tentava ganhar terreno contra os poderes constituídos na época: a igreja católica, a nobreza e a monarquia, que impediam que novas forças sociais se desenvolvessem plenamente. Nos tempos atuais estas premissas, antes revolucionárias, tornaram-se o próprio senso comum e um valor passível de criticas e revisões.

Apesar de seu esforço para o aperfeiçoamento humano, a razão instrumental foi responsável por várias conseqüências nefasta para a humanidade; contribuiu para a hiper exploração dos povos oprimidos — antes no papel de colônias e agora metamorfoseados em paises emergentes; assim como a concepção de que a natureza deveria ser manipulada e alterada em favor do homem propiciou uma devastação irresponsável e sem precedentes do tecido ambiental do planeta.

Embora passível de crítica, as lições kantianas a respeito do conhecimento e da educação, apesar de transpassadas por toda uma gama de preocupações eminentemente históricas, fornece reflexões sobre questões bastante atuais, como de onde viemos, para onde vamos, o quê e para quê devemos aprender.