Só a Democracia pode salvar a Democracia

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Quanto vale lutar pela Democracia?

Entre os escombros da Nova República e a ascensão de um novo período histórico onde predominará uma poliarquia limitada, vemos os valores da nossa distorcida social-democracia serem jogados no lixo como uma coisa completamente superada, fora de moda, como algo ideológico…

Mas só costumamos chamar de ideológico aquilo que não concordamos. Russel Kirk, o famoso historiador e militante conservador, disse em sua obra A Política da Prudência (1994) que as ideias extremistas, o progressismo e o socialismo, eram ideológicos. Mas todo arcabouço de ideias que dê explicação ao mundo e sustente uma forma de poder no tempo e do espaço pode ser chamado de ideológico. Portando, temos que dar os nomes aos bois, o limitado e prosaico Kirk é tão ideológico quanto os socialistas, sociais-democratas e liberais que costumava tanto criticar.

A inflexão que estamos vendo hoje, com todo o lamaçal da Nova República, só demonstra as consequências nefastas de uma transição democrática lenta, gradual e segura, arquitetada pelos militares que viam a seu poder se esvair frente a crise econômica e às demandas por eleições livres. A conciliação com toda a banda podre da caserna acabou fazendo com que o Novo herdasse as velhas práticas corruptoras e corrompidas da ditadura e de períodos anteriores menos democráticos.

Disso percebemos que está se proliferando certas ideias sustentadas por candidatos e grupos sociais que se colocam como não-políticos e não-ideológicos. Advogam que, como não possuem nada de politico, são tomados de um conhecimento neutro que os tornam capazes de aplicá-lo para administrar o mundo da vida.

Afastar a politica da sociedade civil e torná-la neutra, como uma técnica que só precisa ser aplicada, é algo perigoso que pode beirar o autoritarismo, pois retira do palco de discussão da Ágora os assuntos de interesse da sociedade. Os tecnocratas não percebem a pluralidade, a historicidade e a complexidade de interesses que norteiam a politica e como ela espelha os conflitos em sociedade. Tudo isso funciona como um afastamento do povo da discussão dos seus problemas. O discurso tecnocrático e da antipolítica aparta as pessoas do poder, das instâncias decisórias e das possibilidades de debater seus principais problemas.

Quem ganha afastando o povo da politica? Quem se favorece tornando as politicas públicas blindadas ao questionamento popular apenas por que estariam sob a roupagem de que são medidas técnicas?

Aqueles que afirmam não ser políticos ou não ideológicos são exatamente o oposto, pois suas ações estão sendo amparadas por grupos políticos e interesses econômicos que estão em disputa pelo Estado e pela hegemonia pelo domínio das ideias na sociedade.

Para superar as distorções da democracia representativa e a nossa secular desigualdade precisamos não de tecnocratas ou de líderes que posam de antipolíticos, que usam a fantasia do não sou político, sou administrador como uma forma de conquistar os mais desavisados. Precisamos de mais politica, de políticos de P maiúsculo, de mais democracia, de pôr na esfera de discussão da Ágora os temas mais espinhosos e polêmicos; este é o único caminho para criar um novo consenso e um novo acordo nacional; não elitista e conciliador com tudo que há de mais podre na sociedade brasileira, mas um acordo Popular, que espelhe as demandas de todos os trabalhadores e supere quinhentos anos de dominação fática sobre o povo.

Talvez o que esteja acontecendo agora, com todos os partidos políticos e principais líderes que forjaram a Carta de 1988 expostos em seus esquemas obscuros, aponte para dois caminhos: ou deixamos os interesses econômicos e as elites forjarem um novo pacto que só interessa a elas; ou o povo pega pelos chifres o processo atual e dobre o Poder para o seu lado de forma inédita na história brasileira. Temos uma chance de limpar o poder politico de suas influências deletérias e ajustar a sociedade brasileira numa direção mais justa e equitativa.

As peças estão na mesa. Cabe aos peões decidir se querem continuar sendo bucha de canhão dos reis, rainhas e bispos ou eliminar seus opressores do tabuleiro e criar as novas regras do jogo.

Só mais Democracia pode salvar a Democracia; apenas mais Política pode salvar a Política.

O jornalismo é o ópio do povo: uma imprensa imbecil para uma legião de imbecis.

pequenosdetalhesNesses tempos de caos, de disputas pela hegemonia do discurso politico e social, de proliferações de imbecis que acreditam estarem ainda no paleolítico, onde nossos políticos mais parecem lobistas disfarçados e onde o dito cidadão de bem mais parece um analfabeto politico que acha os direitos humanos besteira, a imprensa deveria exercer o papel de fomentar o debate e colocar os pontos nos i´s.

Mas infelizmente isso não acontece.

Num mundo onde o que impera é o poder econômico sobre todas as outras esferas da vida, nossa imprensa se comporta como verdadeiros panfletos que agem de acordo com a conveniência do anunciante ou do grupo politico que resolveu apoiar e, os leitores, verdadeiros bárbaros autômatos cujos ídolos são economistas medíocres, panfletistas da revista Veja que conseguiram um diploma de jornalismo sabem o Orixás como, e um astrólogo embusteiro metido a filósofo cujo maior mérito foi se tornar um ideólogo medíocre que trabalha pela hegemonia da estupidez.

Tanto entre a imprensa convencional quanto a dita imprensa alternativa predomina a mesma pobreza de ideias. Ambas não estão interessadas em discutir ou em propor o debate para os rumos do Brasil. Preferem atacar pessoas, fazer jornalismo marrom, servir bovinamente àqueles que os financiam. É esse tipo de narrativa social que queremos?

Nosso jornalismo hoje consegue ser, no máximo, um amontoado de narrativas surreais para entorpecimento dos sentidos de uma legião de imbecis. O entretenimento predomina sobre a notícia e, em seu lugar, fica a fabulação, a espetacularização e a partidarização da realidade.

Porque a nossa mídia se considera uma espécie de senhor de engenho e, a realidade, uma escrava sexual, no direito de bater, mijar e cagar sobre ela.

O jornalismo é o ópio do povo: uma imprensa imbecil para uma legião de imbecis.