Ditadura Nunca Mais

  Com a desculpa de livrar o Brasil de uma ditadura comunista, a alta cúpula do exército, setores da classe média, a elite agrária, financeira e industrial derrubaram um governo democraticamente eleito. O resultado foi levar o Brasil a um período de censuras, violações dos direitos humanos e toda sorte de barbáries cujo o fim era tão somente manter uma ordem supostamente justa. Como é possível livrar-se de uma suposta ditadura sanguinária impondo outra igualmente sanguinária? Me parece que muita gente que clama pela volta daqueles anos não aprendeu ou não quer aprender algo sobre as lições da história…

 

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Tempos de Extremismos

Vivemos numa época conturbada. Parece que as conquistas modernas como democracia, direitos humanos, liberdade e igualdade estão sendo postas em questão diante do processo de anomia no qual está imerso a sociedade brasileira.

A extrema concentração de renda, a corrupção de nosso sistema político, as altas taxas de violência nas áreas mais pobres, o caráter segregador de nossas cidades e a decadência do Estado nacional em tempos de globalização têm dado arrimo para a proliferação de um discurso de caráter profundamente antimoderno e antidemocrático, que se alastra na mentalidade do brasileiro médio. Elas são propagadas por uma grande parcela de jornalistas, políticos e polemistas. Entre os mais conhecidos estão os delírios de Rachel Sheherazade sobre as origens da violência urbana; o fundamentalismo de Bolsonaro que tem como panaceia reduzir a vida social à rotina rígida de um quartel; aos pesadelos anticomunistas de Olavo de Carvalho, que enxerga agentes da KGB e Foro de São Paulo em todas as partes do Brasil e do mundo; ao sectarismo de Reinaldo Azevedo, o caçador de “petralhas”, para quem o Brasil é ruim unicamente pela culpa de Lula, do PT e do Estado e o liberalismo de gabinete de Rodrigo Constantino, que tenta encaixar a vida e o universo dentro da ideologia do deus mercado e da iniciativa individual. São estas e outras proposições que, defendidas por estes e outros polemistas, espraiam-se pelo debate público, compradas por uma grande parcela de indivíduos e que vai ganhando corpo, fundindo-se, entrando em metástase e formando uma representação coletiva própria, típica, fluida, mas ao mesmo tempo tangível o suficiente para ser comprovada empiricamente. Classifico-a de extremismo conservador.

Por ser uma ideia, ideologia ou representação social calcada no senso comum, o extremismo conservador não duvida ou questiona a si mesmo. Ele simplesmente apreende alguns fenômenos dispersos no corpo social, toma-os como lei da vida e enquadra-os em suas leis inexoráveis. Também não leva em conta as nuances sociais e históricas do mundo. Sua cosmologia é monista, petrificada, estanque, rígida. Não consegue interpretar a complexidade da vida. Ao invés de compreender e relacionar, precipita-se, julga e exclui.  È uma ideia profundamente a-histórica.

É bom frisar que este é um processo que não surgiu de um dia para o outro e muito menos é fruto de uma conspiração de forças terríveis que controlam o nosso mundo. Descarto completamente o discurso preguiçoso das conspirações. As contradições estruturais da sociedade brasileira têm alcançado níveis intoleráveis e são, portanto, a principal causa que tem dado as condições para a emergência de um extremismo conservador cuja mentalidade despreza as conquistas democráticas e civis trazidas pela modernidade. Na verdade, para esta representação, é como se a própria modernidade fosse a causadora dos conflitos sociais de que padece o Brasil.

Tornou-se moda dizer que bandido bom é bandido morto, que a pobreza é resultado da preguiça, que políticas de assistência social são humilhação, que a solução para a violência é reduzir a maioridade penal, instituir a pena de morte e que todos os problemas do país são culpa do PT. Não nego que este governo tem sérias deficiências, e todas devem ser apontadas, mas as pessoas confundem o que é ingerência do governo atual com deficiências estruturais que remontam séculos ou com consequências geradas pelas ações de administrações anteriores. Assim, o que está em voga hoje é apontar as soluções fáceis, apontar bodes expiatórios e desconsiderar a multiplicidade causal de nossa situação atual. “Índio e quilombola não presta… Pobre é vagabundo… Criminosos estão abaixo de baratas… A solução é acabar com o Estado, colocar a pena de morte e instituir no Brasil uma constituição com valores cristãos… Abaixo a ameaça comunista!” Diz o fariseu típico ideal, que acredita que o mundinho onde vive, não maior que uma bolha de sabão, corresponde à totalidade da vida.

Sem embargo, a incapacidade de nossas elites intelectuais, políticas, econômicas e de nossa sociedade como um todo em criar um modelo de sociedade autônomo e menos desigual são a causa sui generis para o desfalecimento do contrato social brasileiro. Contudo, ao invés de lutarmos para criar os fios que possam unir as partes de uma sociedade em frangalhos, cultivar os ideais modernos de democracia, igualdade e fraternidade, preferimos optar por seguir um sentido contrário; negar os valores mais caros e construtivos de nossa época e dar uma volta para trás, acreditando que a implantação de uma ditadura, a criação de um Estado policial ou a cassação completa dos direitos civis seriam capazes de reconstruir a solidariedade social.

Mas esse caminho só vai aprofundar ainda mais as contradições estruturais de nossa sociedade, aumentará a violência e o caminho para a desagregação social completa será inevitável. Será como repetir em forma de farsa os tempos tenebrosos das monarquias absolutistas e das ditaduras civis militares com seus abusos e torturas, quando muitos eram presos e julgados por motivos simplesmente arbitrários.

Muitos não percebem que a culpa de nossas distorções sociais não se deve à democracia, às liberdades civis ou aos direitos humanos, mas justamente à falta deles. O processo de modernização brasileiro sempre foi desigual e combinado. Nunca beneficiou a totalidade da população. Nunca levou em conta os de baixo e os que não podiam se adaptar a ele. A modernização brasileira no decorrer da historia sempre teve caráter excludente, uma espécie de darwinismo social mesmo, onde os mais fracos eram simplesmente eliminados, postos para fora da dança civilizacional ou simplesmente incluídos à força, sem levar em conta suas especificidades. A história da civilização brasileira é a história sistemática de assassinatos, roubos, genocídios e espoliação dos mais frágeis.

Enquanto muitos acreditam que instituir a vingança, a barbárie, o revanchismo e a luta de todos contra todos vai transformar o Brasil num paraíso, eu prefiro acreditar na justiça, na igualdade, na fraternidade, na racionalidade da república e no fortalecimento da solidariedade social. Cabe aos progressistas e aos defensores do pensamento crítico levantar essa bandeira.

 Antidemocráticos, antimodernos e extremistas em geral não passarão.