Lançamento do meu livro “A Obra-Prima de Amarildo e Outros Contos Indecorosos”

a obra prima de amarildo(1).jpgOs contos que ai vão são uma coletânea de algumas histórias que andei escrevendo entre os anos de 2005 e 2010. O livro demorou para ser publicado, pois uma série de intercorrências surgiram na minha vida. Estes são contos urbanos, por assim dizer, que retratam o mal-estar e o desespero de se viver nas grandes cidades. Meus personagens são, em sua maioria, desgarrados que, de alguma forma, ou não conseguem se inserir ou são o produto mais nefasto do mundo moderno: assassinos, pedófilos, viciados em drogas, alcoólatras e outras figuras pouco estimadas… O leitor pode perguntar-me porque eu, um amazonense típico, não procuro escrever sobre as belezas naturais no meu Estado, sobre a vida do ribeirinho, do ciclo da borracha e todos estes temas que abundam na literatura canônica sobre a Amazônia. Respondo que nasci e passei boa parte da minha vida em Manaus, uma capital de quase dois milhões de habitantes onde a barbárie e a desigualdade se reproduzem como em qualquer outra cidade miserável do globo. Estas são, portanto, a matéria-prima da maioria das minhas histórias: coisas que vi, que ouvi e que vivi. Também não escrevo sobre as delicias ingênuas da floresta porque muitos autores regionais já o fazem. Se eu me propusesse a fazê-lo, com certeza não lograria o mesmo êxito.

No mais, só gostaria de dizer que estes contos possuem uma influência de autores como Balzac, Zola, Poe, Tolkien, Lovecraft, Engrácio, Machado de Assis e Graciliano Ramos.

Espero que o leitor tenha bons momentos de fruição lendo minhas histórias. Se não gostar, farei como Machado de Assis — te darei um piparote e direi adeus…

 

Para Baixar o livro gratuitamente, clique em: A Obra Prima de Amarildo – Ricardo Lima

 

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Conto: O Convalescente

Desde que cheguei daquela boate, ás três da manhã naquele ano de 2011, já sentia uma estranha sensação percorrendo todo meu corpo. Era uma espécie de estremecimento dos membros, seguido de uma fraqueza e um aperto na garganta. Também havia uma coisa indescritível, como uma vertigem, muito embora as vertigens não fossem precedidas de uma onda de calor, que começava nos pés e subia lentamente até o último fio de cabelo, causando-nos um mal estar no peito.

Meu amigo deixou-me em frente da minha residência. O álcool me dificultava o caminhar. Entrei em casa sem pressa, escovei os dentes e, já quase dando graças a deus, quase porque não acredito nem um pouco nele, joguei-me sobre a cama coberta de desalinhados panos roxos.

Embora estivesse me sentindo bêbado e doente — o mal estar no corpo começava a ficar mais forte — não tinha sono. Fiquei observando as sombras cambaleantes do meu quarto enquanto relembrava os lances daquela noite. Lembro-me de não ter estranhado nem um pouco um amigo gay se pegando com uma colega lésbica… Também não podia esquecer aquela garçonete, uma morena exuberante em todos os sentidos; rosto fino e de curvas bastante agradáveis; olhos grandes, claros e levemente ovais; cabelo levemente tingido de castanho (ou seria vermelho?) amarrado naquele discreto rabo de cavalo que balançava enquanto ela andava rápido de mesa em mesa para atender aos clientes (cujos fios muito finos de sua cabeleira tocavam candidamente aquela nuca bronzeada); também me fascinou aqueles lábios bastante cheios e avermelhados que, juntos, formavam um coração escarlate; seus modos bem medidos, sua maneira de portar-se esbelta, altiva; e o tom firme e ao mesmo tempo suave da voz… Não posso deixar de frisar, leitor amigo, pois os homens sabem do que falo, da delicia das curvas daquele corpo, que mesmo o antiquado avental laranja do estabelecimento não escamoteava por completo; aquelas pernas grossas davam passos firmes sobre o sapato de plataforma e as ancas arrebitadas, bem redondas, suculentas, seguida daquela aprazível cintura fina, desses tipos raros de cintura feminina, muito convidativa ao toque, que combinavam com o busto arqueado de seios bem redondos…

Por Deus, como eu queria tomá-la em meus braços, enchê-la de carícias e dizer-lhe as coisas mais belas!

Depois de ter bebido por volta de quinze cervejas e ter pedido cerca de trezentas canções ao trio que tocava música popular brasileira no pequeno palco improvisado, pedi a um garçom uma caneta e lhe perguntei o nome de tão bela fêmea que sempre me atendia com um sorriso nos lábios carnudos:

“Ah… Aquela é a Josy…”

Rabisquei rapidamente num lenço de papel já meio úmido: A fim de uma boa conversa? Me Ligue. Seguido do meu número de celular. Um professor da faculdade, certa vez, disse-me que eu deveria melhorar minha caligrafia, pois corrigir minha prova era um exercício de paciência. Agora, bêbado, sem coordenação motora e, o mais importante, lembrando de tão valioso conselho do velho mestre, desconfiei que as esboçadas linhas não estavam legíveis. Por precaução mostrei ao meu amigo que, depois de ter examinado demoradamente o manuscrito e feito uma careta, disse:

“Ta bom…”

“Entrega para a Josy…” Disse ao funcionário, que me obedeceu.

Enquanto estava estirado sobre minha cama, relembrando este e outros lances, uma sonolência aguda se apoderou de todo o meu corpo e, como se eu fosse um moribundo dando seus últimos suspiros, adormeci.

Não tive uma boa noite de sono. Coisas horríveis assaltaram-me, como monstros me perseguindo, pessoas mortas que voltavam para me acusar e mulheres do passado que diziam o quanto eu as fizera sofrer…

Acordei suado, fraco e incapaz de levantar-me.  Todo o meu corpo parecia incapaz de esboçar qualquer movimento ou fazer as tarefas mais pueris. Foi a custo que consegui ir ao banheiro, tomar banho e escovar os dentes. Minha visão estava turva. Não pude fazer desjejum, meu estômago não suportaria nem mesmo um pequeno pedaço de pão.

Todo sábado pela manhã eu deveria fazer as compras na feira. Mas estava tão fraco que desisti. Voltei para a cama e fiquei com a mente na mais profunda inércia.

Eu me revirava em cima da cama, e mesmo deitado, a convalescença só aumentava. Logo senti aquilo que nos últimos tempos tornou-se um dos meus maiores terrores — uma crise de hipertensão. Normalmente quando a variação de pressão me ataca, ela vem seguida de uma crise de arritmia. É uma sensação de terror iminente, algo intangível, mas que aos nossos olhos parece perfeitamente factível, quase como inevitável.

Fiquei sentado na cama com a mão no peito, minha visão estava turva, rodava. Eu podia sentir meu sangue correndo rápido pelo meu corpo — pulsando pelo meu ventre, subindo pelo meu pescoço e alcançando meu crânio. Parecia que eu estava gelado. Estaria mesmo? Fui cambaleando até o espelho do banheiro e o que vi foi um rosto pálido, olhos fundos e lábios sem cor. Virando a cabeça podia ver minha jugular pulsando freneticamente como se estivesse a ponto de explodir. Meu terror aumentava. Olhei no relógio, eram nove horas da manhã. Todos em casa ainda estavam dormindo. Minha irmã era enfermeira. Deveria falar com ela? Desisti. Prefiro ir ao inferno mil vezes a dirigir minha palavra àquela mulher.

Eu convalescia cada vez mais. Meu coração parecia que ia rasgar meu peito e sair pulando pelo mundo. Peguei o telefone, liguei para meu amigo. Mas ele não atendeu. Liguei para outro colega que era enfermeiro. Caiu na caixa postal. E agora? Lembrei-me de um macete para arrefecer aquele terrível demônio — ficar debaixo do chuveiro durante cinco minutos e em seguida tomar um chá de alho.

Corri para o toalete, tirei a roupa de qualquer jeito e liguei o chuveiro no máximo tomando o cuidado para colocar a água numa temperatura bem baixa. Mas eu não conseguia respirar. Fiquei de cócoras, enquanto a água gelada descia aos galões em cima de mim.

“Que coisa mais ridícula…” Pensei, enquanto me via daquela maneira constrangedora debaixo do chuveiro.

Já me sentia melhor, podia perceber que meu coração já estava mais calmo. Desliguei o chuveiro e fui até o espelho. Estava menos pálido. Minutos depois, na cozinha, enquanto eu fervia água para aquele horrível chá de alho com camomila, o telefone toca.

“E ai meu…” Era um amigo da faculdade.

“Oi, tudo bem?”

“O que tem pra hoje?”

“Porra nenhuma…”

“Como não? Vai ter uma festa lá na Daniele…”

“Cara… Acho que hoje não vai dar…”

“Por quê?” Percebi que ele ficou meio contrariado.

“Estou de lua hoje… Não tô a fim de sair…”

Lembro-me de nós termos conversado sobre outras coisas — que hoje parecem completamente sem importância. Quando ouvi o borbulhar da água no fogão, inventei uma desculpa qualquer e fui fazer meu maldito chá.

Não se pode dizer que era a bebida mais gostosa do mundo. Preferia mil vezes uma cerveja… Ainda que a água tivesse restabelecido parte das minhas forças, ainda estava muito fraco e foi a custo que consegui tomar tudo.

Fui para o sofá e fiquei ali por muito tempo, deitado, só de toalha, não me importava se eu estava molhando todo o canapé. Um silêncio agradável imperava por todos os cantos que só era cortado pelo tique-taque do relógio de parede, pelo canto de alguns passarinhos que vinham fazer algazarra numa planta da varanda de casa ou por algum resquício de voz humana que teimava em entrar pelos meus ouvidos. Coloquei a mão na jugular e percebi que minha pulsação estava normalizando. Aliviei-me. Naquele momento sentia-me feliz. Em breve minha mãe despertaria e com certeza ia reclamar de alguma coisa que eu não fiz direito ou deixei de fazer. Minha irmã, com aquela cara de poucos amigos se entocaria no quarto e fingiria não precisar de ninguém.

Mas quem se importa?

Lembrei-me de Josy. Tive vontade de rir. Como é que eu fui tão petulante? Aquela mulher devia receber no mínimo uns quarenta bilhetes como aqueles de homens muito mais interessantes que eu. Com certeza meu recado de caligrafia horrível estaria no fundo de uma privada ou num lixeiro qualquer.

Mas quem se importa?

Eu estava bem. Não tremia mais, minha pulsação com certeza estaria normalizada e logo recuperaria as forças. Enquanto isso não acontecia, deixava-me ficar ali, estirado sobre o canapé, me deleitando com o silêncio entrecortado pelo barulho do relógio, com o som dos pássaros ou de alguma voz que ecoava ao longe…

Era só naqueles momentos solitários que eu encontrava a felicidade.

 

Uma história sobre rompimento e separação.

deixando para atrásEm 2012 li na revista Cult um conto sobre um homem que, após romper com a esposa, está se preparando para deixar em definitivo o apartamento onde eles viviam juntos. Eu achei as circunstancias com que a história trabalhava bastante interessantes e resolvi criar a minha própria versão do fato. O resultado é o conto que ai vai. Espero que gostem.

Deixando para Atrás

Orlando olhou melancólico para os seus pertences em volta, a mala verde com alça lilás, a mochila preta surrada e a pequena bolsa onde estava guardado o notebook velho e lento como um jaboti de oitenta anos. Tudo estava acomodado sobre o sofá de pele escura. De pé, aprumou as calças. Deixou-se ali, no meio da sala, observando tanto os aqueles objetos reunidos quanto o ambiente em volta, que agora parecia tão triste — as paredes, a televisão e os dvd´s que estavam espalhados. Não queria ir embora. Pensou estupidamente que, se detendo por alguns minutos a mais poderia evitar, sem saber como, aquele rompimento definitivo com Duda, que estava propositalmente ausente naquele dia. Riu do próprio pensamento. Achou-o estúpido.

Ficou a remoer alguns acontecimentos passados de sua vida com ela e, quando mais mergulhava nessas lembranças, mais se enternecia. Lembrou-se da época em que se conheceram, ainda na faculdade. Ele era um consumidor inveterado da doce erva e cursava o quarto período do curso de História, enquanto ela era como uma típica garota de dezessete anos recém-saída do ensino médio, cheia de mimos e deslumbrada de ter acabado de ser admitida no curso de serviço social da Federal. Também rememorou a singular tensão sexual que logo surgiu entre eles: os sorrisos, os olhares desajeitados e as palavras que, por mais tivessem sido milimetricamente ensaiadas, sempre saiam desencontradas. Não demorou muito para começarem a sair. Também demorou menos ainda para que estabelecessem aquele pacto que muitos chamam de relacionamento sério e quase nada para que começassem a morar juntos. Não é preciso mencionar que os pais de Duda, dois bem altos burocratas do Tribunal de Contas do Estado do Amazonas, reprovaram a união:

“Um maconheiro, minha filha!”

Mas, como os corações jovens são os mais impetuosos, energéticos e, por conseguinte, os mais imprudentes, estas ingênuas almas, acreditando piamente no amor pelo amor e na felicidade imanente provinda dele, uniram-se.

Foram morar numa pequena instância, entre as milhares que pululavam no bairro do Coroado. Para pagar as contas, resolveram trabalhar. Ele dava aula para o ensino médio numa escola particular. Duda resolveu pegar um estágio numa dessas secretarias do Estado, conseguida com a ajuda do pai dela, amigo de infância de um senador. De manhã tinham aula e se falavam rapidamente na hora do intervalo. Quando dava meio dia almoçavam juntos e, já por volta das treze horas, corriam pegar o ônibus que lhes enviaria para a labuta. À noite, já cansados, entravam na terceira jornada, que era cuidar da administração do pequeno apartamento.

Repassou as brigas, as discussões, as cenas de ciúmes que não demoraram a aparecer e todos os episódios de franca intolerância que ambos passaram a nutrir um em relação ao outro, apenas quatro meses depois de terem ido morar juntos. Por algum motivo que não podia explicar, lembrou-se do dia, quando tinha apenas dez anos, em que fora levado por seu pai ao clube dos funcionários da empresa onde trabalhava, uma dessas firmas estrangeiras que faziam rios de dinheiro na Zona Franca de Manaus. Quando estava na piscina, tomou um pouco da agua cheia de cloro nas mãos e viu as aguas se desvanecerem por entre os dedos magros e pequenos.

“È assim que as coisas acontecem…” Pensou. “Se desmancham como água entre os dedos..”

Respirou fundo antes de abrir a porta e contraiu o semblante, como se estivesse sentindo uma grande dor.

“Talvez ela volte para a casa dos pais…” Disse.

Quando se encontrassem pelos corredores da universidade, seria com aquele patético constrangimento sempre comum entre casais recém-separados: olhares rápidos, bochechas coradas, comentários em voz baixa de amigos em comum e cumprimentos secos e ligeiros… Talvez  ela nem sequer olhasse para a cara dele, preferindo baixar a cabeça ou simplesmente mudar o trajeto para passar o mais longe possível de Orlando.

Ou talvez até já estivesse com outro…

A ideia, para dizer a verdade quase um desejo, de que ela ligaria um ou dois dias depois da separação ainda lhe encheu de um pouco de otimismo. Mas sabia que ela não ligaria, nunca mais…

“Merda de vida…” Pensou, logo após trancar a porta do apartamento.

Conto: A Defesa da Tese

O dia mais esperado da vida do jovem pesquisador tinha finalmente chegado. Naquela manhã quente ele defenderia diante de uma banca de quatro pós-doutores a sua incrível e original tese de doutorado. Depois de quatro árduos anos pesquisando, lendo, escrevendo, revirando arquivos, realizando entrevistas, cruzando dados e combinando teorias, finalmente a pesquisa estava pronta para ver a luz do mundo. Era para ele como uma filha querida, como uma obra de arte que aos poucos vai se formando, ganhando alma e desenvolvendo sua própria personalidade até que era chegada a hora de ela colocar os pés no mundo, já adulta e sair por ai, de congresso a congresso, de pesquisador a pesquisador, solta pela cena acadêmica para um destino glorioso…

Não foi fácil a gestação da sua querida filha, que naquele dia teria que passar pela avaliação rigorosa daqueles medalhões do mundo acadêmico. Foram anos de intensa investigação, de insônias, de sofrimentos, de noites perdidas na solidão do gabinete de estudos, de tentativas fracassadas de inserção no campo de pesquisa, de confusão quanto aos dados colhidos, de broncas do professor orientador, de crises de hipertensão, de ansiedade, de estresse, de relacionamentos perdidos e de uma confusão extrema da vida pessoal do pobre jovem.

Mas para o seu alivio, tudo aquilo tinha passado.

Naquele dia levantou-se cedo. Não tivera uma boa noite de sono. Tinha lapsos de ansiedade enquanto olhava para o teto do quarto e imaginava as piores coisas possíveis, como sendo humilhado pela banca em virtude de sua própria incompetência e sendo sumariamente reprovado.

Também imaginava a gargalhada geral da audiência, o que lhe deixava inevitavelmente mais aflito. Quando esses pensamentos viam-lhe a mente sentia umas palpitações no peito, os olhos marejavam e um calor subia-lhe a fronte. Embora tentasse espantar essas conjecturas vãs, elas dominavam-no, brincavam com sua mente, embaralhavam suas certezas e prostravam seu espirito.

A hora para a defesa estava agendada para as oito horas da manhã. Embora no relógio fosse pouco mais de cinco e meia, tomou café com pressa, banhou-se desesperado e se vestiu sem passar a roupa, uma calça de pano preto e uma camisa de botão azul. Isso lhe conferiu um ar extremamente desleixado. Não se despediu da família que àquela hora estava ainda desfrutando da parte final do sono. Enquanto terminava os últimos preparativos murmurava a fala que fora cuidadosamente ensaiada para a apresentação. Entrou no carro e dirigiu para o maior evento da sua vida dos últimos quatro anos.

Chegou ao Centro de Estudos Sociais Avançados da Universidade quando ela ainda estava parcialmente vazia. O estacionamento tinha poucos carros e ele colocou o seu debaixo de uma frondosa árvore. Foi até a lanchonete e ficou tomando litros de café, se mexendo convulsivamente na cadeira e enxugando as mãos suadas na calça.

Quando a secretaria de pós-graduação foi aberta, ele foi resolver alguns trâmites legais que necessitavam de atenção. A funcionária do recinto, quando o viu, perguntou:

“Tudo bem com você?”

“Estou bem…” Respondeu, enquanto pegava com as mãos tremendo alguns papeis para assinar.

Foi para a sala onde ocorreria a palestra. Arrumou o notebook, o data show, as cadeiras e as águas que ele e a banca examinadora tomariam.

Sentou por um momento numa das cadeiras e ficou olhando para o chão. Suava muito e as mãos tremiam.

“Eu tenho que me controlar…” Disse de si para si.

Mas não conseguia. Por mais que pensasse em coisas para se reconfortar como “Só vou dividir os resultados da pesquisa” ou se lembrasse dos comentários do orientador “Esse trabalho vai virar referência, não tenho dúvidas.” Ele não se convencia. Levantou-se. Ficou andando de um lugar para o outro murmurando coisas sem nexo. Voltou a sentar-se. Sentia-se tonto e o coração estava disparado. Pegou um copo de água e bebeu tudo de um único gole. Foi quando estava deixando o copo sobre a mesa que chegou um dos amigos para vir assistir a apresentação.

“E ai, preparado?” Disse rindo o conhecido, enquanto tocava o ombro do doutorando.

“Sim, melhor impossível…” Disse sem olhar nos olhos do interlocutor.

“Hoje vai ser bem legal… Uma etapa que termina e outra que começa…”

“Vai ser o meu fuzilamento…”

“Como?”

“Deixa pra lá, mano…”

Os dois foram sentar-se.

Aos poucos outras pessoas foram chegando para assistir a apresentação daquela pesquisa que muitos comentavam como uma das mais originais dos últimos anos e que inaugurava uma nova linha de estudos sociais naquela região brasileira tão maltratada pelas agências financiadoras nacionais. Quanto mais chegavam pessoas, mas o pobre diabo se exasperava.

“Vieram ver o meu fuzilamento…” Pensava.

Uma garota muito bonita, de cabelos loiros e curtos, olhos claros e seios grandes veio ter com ele.

“Oi, meu nome é Márcia…”

“O meu é Gilberto, prazer…”

“O prazer é nosso…” Disse com um sorriso. “Eu estou no primeiro ano do mestrado… Minha orientadora disse que a minha pesquisa tem a ver com a sua e que seria uma boa eu ler o seu trabalho…”

“Será?”

“Acho que sim… Estou ansiosa para ver sua apresentação…”

“Muito obrigado…” Ele suava como um condenado que trabalhava nas prisões da Devil´s Island.

Quando ele ia falar mais alguma coisa, os três professores, seu orientador e dois doutores convidados que integrariam a banca de avaliação, entraram e houve um burburinho entre a audiência.

“Boa sorte…” Disse a garota antes de ir sentar-se.

Nesse momento todos foram para os seus lugares e o coração de Gilberto quase sai pela boca.

“É agora…”

“E ai, rapaz… Parabéns… Gostei do trabalho…” Disse-lhe um dos professores logo antes colocar sua pasta sobre a mesa e acomodar-se.
Em resposta, Gilberto apenas acenou com a cabeça.

“Meu filho, é hora de você arrebentar…” Falou seu orientador.

Gilberto estava com o coração quase a rasgar do peito e sair por ai, correndo desgovernado como um cavalo selvagem.

“Vou me foder…” Pensou.

“Eu gostaria de agradecer todos que vieram aqui acompanhar e prestigiar a defesa de tese do aluno Gilberto Moreira Paes, aluno do Programa de Pós-Graduação…” Disse seu orientador ao fazer o pronunciamento de solenidade.

O pesquisador apenas olhava para baixo enquanto se afundava na própria confusão mental.

“Vemos aqui uma fusão de duas correntes teóricas como fundamentação empírica que nenhum pesquisador de nossos círculos fizera até agora… O resultado foi a descortinação de aspectos de nossa realidade que não tínhamos notado…” Não adiantava. Mesmo que ele ouvisse todos esses elogios, sua mente estava embaralhada. Seu corpo tremia de pânico, os pelos da nuca arrepiavam-se e a têmpora transpirava muito suor. A camisa debaixo do seu sovaco já estava completamente molhada.

Agora vamos passar a palavra para o Gilberto que terá total liberdade para expor sua pesquisa sem se incomodar com o tempo.

Gilberto ajeitou-se na cadeira, enxugou o suor da testa e preparou-se para falar. Toda a plateia encheu-se de expectativa. Era o momento que todos esperavam para conhecer de perto a tese e saber como o jovem pesquisador fez para chegar àquelas conclusões polêmicas e desafiadoras.

Os alunos do mestrado e da iniciação cientifica olhavam para ele com admiração, os doutorandos com uma pontada de inveja e a banca, especialmente o orientador, olhavam-no com grande satisfação.

“Bem… Esse trabalho…” Começou Gilberto.

Contudo, não teve tempo de terminar a frase. Um colapso nervoso tomou conta de todo o seu corpo. Um raio envolveu sua visão, que escureceu.

Seu corpo enrijeceu-se e ele caiu ali no chão, sem sentidos.

Não é preciso dizer ao leitor que foi um pânico enorme na sala. Muitos choravam. Outros colocavam as mãos no rosto de pânico. Chamaram a ambulância e levaram o pobre coitado, que ficou entre a vida e a morte por quase três semanas na Unidade de Tratamento Intensivo lutando contra um acidente vascular cerebral.

No final a lesão neurológica venceu e Gilberto Paes foi enterrado entre os prantos da família e o pesar da comunidade universitária que sentiu ter perdido um promissor talento.

A única coisa que aquele pobre diabo deixou ao mundo foi uma tese que passou a ser estudada, interpretada e quase venerada por uma quase infinidade de estudantes e pesquisadores que tentavam achar nela a chave da interpretação das coisas.

Conto: O Evento na Ponta Negra

Durante os sábados á noite me apetece caminhar pela Ponta Negra. Sempre, por volta das dezenove horas, costumo descer do prédio onde moro para ficar perambulando pelos calçadões da praia, sentindo o vento tocando no rosto e observando as pessoas passeando com seus bichos de estimação. Observo os vendedores ambulantes, os populares que vão se dirigindo aos pontos de ônibus, os bêbados perambulando com uma garrafa de pinga nas mãos, os pais com seus filhos inquietos e as belas gostosas endinheiradas que gostam de praticar corrida nesse horário.

Minha caminhada sempre dura entre trinta e sessenta minutos. Coloco um fone de ouvido e vou admirando toda essa ecologia de tipos que passam pela minha frente. Deslizo por eles como mais um anônimo, sem lar, sem pensamentos, sem propósitos, sem alma… Nesses momentos me perco do mundo e esqueço as mesquinharias do trabalho e as intrigas familiares.

Este seria mais uma noite comum de caminhada caso não estivesse ocorrendo no anfiteatro da praia um evento patrocinado por um pregador fundamentalista muito famoso nacionalmente. È muito comum acontecer todo tipo de celebrações naquele lugar. A paisagem do Rio Negro e a floresta verde e escura assomando do outro lado no Iranduba, somado a brisa constante e agradável que vem do rio, faz com que os organizadores de muitos eventos que ocorram em Manaus acabem por escolher a Ponta Negra como um dos lugares para realizar seus eventos de massa.

Era o caso dos pentecostais e neopentecostais. Quando descobriram as vantagens do lugar, logo passaram a requisitar a Ponta Negra uma ou até duas vezes por mês para seus mega cultos.

Nunca me perturbou eventos religiosos ali, perto da minha casa, mas sempre tive reservas quanto aos religiosos radicais. Muitas das suas mais caras bandeiras, como a oposição ao direito feminino do aborto e às cotas, a recusa ao reconhecimento da união civil entre casais homo afetivos ou a maneira pouco respeitosa como muitos se referiam á religiões de cosmologia africana, faziam com que eu, um liberal de esquerda, agnóstico e militante pelos direitos humanos, visse com reservas tudo o que representavam.

Havia muitos presentes na celebração. Acredito que mais de três mil pessoas. Eu simplesmente não conseguia caminhar sem me desviar de alguém a cada cinco segundos.  O evento ainda não tinha começado e dezenas de pessoas não paravam de chegar, a maioria em ônibus fretados pelas congregações. Senhoras, senhores, famílias numerosas, mulheres lindas, outras nem tanto… Todos bem vestidos. A cerimonia religiosa, para essas pessoas, não era apenas uma evento formal, mas uma celebração, um momento de êxtase e de renovação. Por isso precisavam dar para deus o que eles tinham de melhor. No caso, a paz de espirito e suas melhores roupas.

Enquanto caminhava perguntei a uma senhora ali perto do que tratava aquele evento.

“È para a gente mostrar a força do povo de deus contra o exercito do maligno!”

“Não entendi, senhora…”

“É para mostrar como deus se desagrada dessa gente pecaminosa que pratica homossexualismo e adora falsos deuses…”

“Mas por que eles desagradam a deus, minha senhora?” Nesse momento eu já tinha notado o teor do evento. Mas queria explorar um pouco mais a subjetividade do meu informante…

“Porque é antinatural… Deus fez homem e mulher pra ficarem juntos e não pra ficarem fazendo imoralidade por ai… Essa gente precisa aceitar Jesus…”

Ai eu disse: “Minha senhora… Acho que é Jesus quem precisa aceitar vocês…”

Enquanto a mulher, desconcertada por ter ouvido algo que não esperava, procurava desesperadamente alguma palavra para me recriminar, eu virei as costas e sai dali rindo comigo mesmo, pensando:

“Vinguei-me do Infeliciano…”

O Banquete de Natal

Na véspera de natal do ano de 2010, fui envolvido numa situação que jamais imaginaria um dia estar. Estávamos numa festa na área de convivência do edifício onde Cláudio Paiva morava. Já era quase meia noite. Ouvíamos centenas de fogos anunciando iminência da data que em séculos anteriores era conhecido como o solstício de verão. Os convivas da festa bebiam vinho e exultavam com a festividade que, em tempos recentes, funcionava mais como uma prévia do final de ano que como a antiga celebração do nascimento do Galileu.

Eu bebia com dois amigos, próximo a piscina. Um deles era Roberto Mendes, advogado tributarista que presta bons serviços ao partido do governador. Homem alto e de expressão muito séria, já com os seus quarenta e quatro anos. O outro é Adalberto Romanelli; tem pouco mais de cinqüenta, muito branco e com cabelos grisalhos e olhos cinzentos. É dono de uma das mais conceituadas peixarias da cidade. Na churrasqueira outros se divertiam sentados a mesa bebendo e rindo alto. Todos os convidados ali eram pessoas muito próximas do poder e do dinheiro que movia Manaus. Tocava no aparelho de som portátil algumas canções aleatórias de MPB. As pessoas relembravam antigos contos de uma juventude que há pouco tempo havia passado.

Como sempre acontece com quem está bebendo muito, a vontade de esvaziar a bexiga me impôs uma ida ao toalete. Pedi permissão para subir para o apartamento e usar o banheiro, pois a latrina do espaço de festas estava ocupada. Depois que aliviei as necessidades fisiológicas, lavei a mão e fiquei por alguns minutos olhando-me no espelho do banheiro. Fiquei assim, por alguns minutos, sem qualquer razão aparente. Talvez porque festas nunca tivessem sido a minha diversão favorita, talvez porque em datas de final de ano sempre fora tomado por uma melancolia meio poética e meio niilista que, se imiscuindo no coração, parece a nevoa que toma conta das florestas e vales na época das chuvas.

Certas lembranças não muito confortáveis vieram-me a mente, como os momentos que tive com Paula e as conseqüências do meu gênio mulherengo que fizeram com que nós nos separássemos definitivamente…

“O que diabos eu estou fazendo aqui?” Foi a pergunta que me veio.

Lavei o rosto. Limpei as mãos e, quando sai do banheiro, Suzana, mulher de Claudio, estava ali, no corredor, me observando com um copo de vinho chileno na mão.

“Você demorou…” Disse ela.

Era uma mulher com seus trinta a quatro anos. Cabelos muito negros que caiam até o ombro. Olhos castanhos claros e um busto proeminente escondido por detrás do vestido azul que modelava os quadris pequenos.

“Você quer ir ao banheiro? Não me dei conta de que mais gente queria usar…”

“Não… Não quero…” Tomou um gole de vinho.

“Estão me esperando?”

“Só eu que tava te esperando…” Ela colocou calmamente o copo já quase vazio sobre o criado mudo e prosseguiu. “Todos estão distraídos lá na frente… O estúpido do meu marido tá dando em cima da Deise…”

“Como é?”

“Não se faça de burro, Beto…” Ela parou por um momento, como se tentasse engolir algo que estivesse quase a sair pela garganta.

“Vocês são amigos desde a infância… Eu sei que você dava cobertura para ele se encontrar com as piriguetes lá da Zona Leste…”

“Suzana, eu acho que você está enganada… Eu nunca…”

“Cala a boca e me beija…”

Mal acabou de formular essa ultima frase e caiu sobre meus braços, tapando a minha boca com os lábios dela e enchendo-me do seu hálito com cheiro de vinho e volúpia.

Confesso que não resisti por muito tempo. Nem poderia. E não queria. A sensação de ter uma mulher tremendo de desejo e luxuria nos braços é uma sensação que poucos homens, ou talvez nenhum, conseguem resistir. Embora ela não seja mais ou menos encantadora que as mulheres que costumo sair, Suzana sempre me pareceu ter um charme que em muito me fascinava. Um jeito próprio de falar, uma maneira peculiar de ajeitar o cabelo ou mesmo o jeito de se vestir que me atraia…

Mas sempre mantive esse fascínio comigo. Não fazia comentários sobre isso para evitar embaraços.

“Não era pro meu bico…” Pensava.

E quem poderia imaginar que Suzana Meirelles, pediatra com um dos mais importantes consultórios de Manaus, casada com o empresário e filho de um Senador da República, estaria se jogando nos meus braços, implorando para fazê-la minha? Eu, Alberto Souza, um professor universitário e escritor da tragédia manauara…

A porta do banheiro estava aberta e rumamos para lá.

Depois de beijos desesperados. Levantei seu vestido, tirei sua calcinha e penetrei nela ali mesmo, no banheiro. Depois ejaculei dentro. Não tive pena. Todo aquele tesão acumulado, que esperava há anos por ela, foi finalmente posto pra fora.

Não posso precisar quanto tempo demorou. Estávamos exaustos. Ela arrumou o cabelo daquele jeito que eu gostava tanto, pós a calcinha, ajeitou o vestido e enxugou o rosto de suor.

“Preciso voltar logo…” Disse, saindo ás pressas.

Limpei o meu pênis, estava melado com sêmen de vagina de burguesa, e fui para a varanda da cobertura onde observei por muitos minutos as avenidas do Adrianópolis tomadas por aquelas centenas de luzes vermelhas, sons de sirene, buzinas e ranger de motores… Eu não conseguia, embora eu tentasse, pensar em nada mais profundo que isso:

“Puta que paril… Que situação mais louca…”

Quando voltei, vi Claudio e alguns outros na mesa jogando dominó. Suzana também estava lá. Ela parecia feliz. Agia com muita naturalidade, sentada ao lado do marido e apoiada em seu ombro enquanto ele preparava as peças para iniciar sua jogada. Por debaixo da mesa tive a impressão de ter visto Deise passar a ponta do pé pelo calcanhar de Claudio. Mas era só uma impressão, porque eu já estava completamente bêbado.

“Ei, cara… Se perdeu, foi?” disse Claudio, em tom de galhofa. Ele era um cara bastante forte. Sobrancelhas grossas sobre os olhos claros, pele bronzeada e cabelos muito finos que eram sempre penteados para trás.

“Me perdi nas pernas da sua esposa…” Tive vontade de responder. Mas apenas disse: “Não…”

“Suzana disse que você não estava passando bem…”

“È… Parece que sim…” Enquanto respondia isso, a mulher de Claudio me observava com um olhar ameaçador e ao mesmo tempo cheio de cumplicidade.

Sentei a mesa onde as pessoas estavam e fiquei olhando os convivas jogarem as peças de marfim na mesa enquanto soltavam grunhidos primitivos, feito macacos.

Alguns convidados se jogaram na piscina com roupa e tudo. Gargalhavam e bebiam uísque Red Label na boca da garrafa…

“Feliz Natal!” Ouvi alguém da rua gritando…

Em Família

Assim que a ambulância chegou no Pronto Socorro do São Raimundo e os paramédicos precipitaram-se para tirar a maca do veículo que levava o ferido, ocorreu o impensável. O pobre coitado deu um suspiro sinistro, seguido de um esgar abafado vindo das gargantas, as pupilas arregalaram-se como se naquele momento estivesse perante o próprio diabo e sucumbiu depois de muita agonia.

Os paramédicos entreolharam-se meio constrangidos. Aquela cena já viram muitas vezes, nem precisavam de aparelhos para constatar o que acontecera. O que parecia mais experiente disse:

“Esse já era…”

“A hemorragia foi intensa concomitante a perfurações em vários orgãos…” Disse o médico legista Bartolomeu Félix, muito satisfeito em conceder uma entrevista para um popular tablóide da cidade.

A vida é mesmo muito imprevisível. Há cerca de uma hora, esse pobre diabo chamado Octávio Ribeiro, quarenta e dois anos, metalúrgico há quase quinze, casado e com um filho, voltava para casa, naquele final de tarde de sexta-feira abafada, num micro ônibus lotação entalado de gente. Ele nem sequer imaginava que seria a sua última viagem para junto de sua família e que em breve estaria de mãos dadas com o capiroto.

Mas como tudo isso foi acontecer? Perguntará o leitor. Pois bem, vamos ter que voltar algumas horas anteriores ao assassinato e penetrar no lar de Ribeiro, pouco antes d’ ele chegar…

Dona Maria Clara acaba de voltar com o pequeno Serginho da casa de um amiga que ficava ali mesmo no bairro da Compensa. Ela abriu o pequeno portão de tábuas de madeira e passou pelo pátio com o filho atrás, seguindo-a como um cortesão. Assim que abriu a porta, o menino entrou e correu para o quarto, pegou um carrinho de madeira e ficou a perambular pela casa, fantasiando alguma aventura fantástica.

Ela estava feliz. Finalmente começaria a trabalhar num salão de beleza e a mãe já superava a dengue hemorrágica. Tinha voltado do hospital dois dias antes e estava aliviada ao perceber que a velha recuperava o vigor físico, o corado da pele, o força na voz…

Pelo relógio de parede viu que eram seis e meia da tarde. O claro do dia recuava. O marido com certeza chegaria em pouco tempo. Teve a idéia de fazer um programa diferente com ele quando voltasse. Tomou banho, colocou sua roupa preferida, aquele vestido verde que ele tanto gostava, perfumou-se com as suas melhores loções e ficou admirando-se em frente ao espelho. Tinha pouco mais de trinta e cinco anos, a pele era queimada, as sobrancelhas grossas e olhos muito escuros. A idade já começava a mostrar seus sinais pelas pequenas rugas no rosto, pelo ventre já notadamente saliente e pelos seios que perdiam a batalha para a gravidade — o vestido já não cabia tão bem, apertava-lhe as gorduras. Arrumou os cabelos crespos, penteando-os com esmero. Maquiou-se, colocou sombras nos olhos, aprumou as sobrancelhas e embelezou as maçãs do rosto.  Depois pegou sua bolsa, tirou doze reais e disse a Serginho:

“Vai lá no Buiú comprar uma caixinha de cerveja…”

O menino relutou em ir, tão entretido estava estava com seus maquinações sem importâncias. Mas como a mãe ameaçou dar-lhe uma bordoada, ele pegou o dinheiro e saiu resmungando, andando em marcha lenta.

“Anda logo, seu preguiçoso!” Disse a mulher, já impaciente.

O outro correu, maquinando vingar-se.

Em pouco tempo o garoto voltou com uma caixinha de doze cervejas, trazia-a desajeitadamente, com muita dificuldade, cambaleando feito um bêbado e por pouco não deixou a bebida cair.

“Põe na geladeira…” Ordenou Maria Clara.

O menino obedeceu, muito suado. Internamente crispava de raiva.

“Cadê o troco? Tá bom…”

Enquanto Serginho foi para o quarto ligar o videogame, a mulher guardou o trocado de cinco reais na bolsa de couro sintético preto, ligou o aparelho de som, colocou um CD de música sertaneja, foi até a geladeira e pegou uma latinha de cerveja. Sentou no sofá da sala e ficou com o pensamento no marido. Imaginando sua cara de satisfação ao saber o que ela preparara para ele — boa musica, cerveja gelada e um bom momento só a dois. Lembrava que há muito tempo os dois não faziam isso. Ela, ocupada em arranjar um novo emprego; ele, auto escravizando-se em horas extras lá no distrito para cobrir os buracos no orçamento.

Mas agora isso não mais importava. Podiam terminar a casa, comprar um computador para o Serginho, um televisão de plasma e fazer um segundo andar com três quartinhos para alugar, conforme tinham planejado há dois anos.

Percebera que o noite já se instalara por completo e vários dos vizinhos estavam em frente das suas casas, sentados em cadeiras de plástico, ouvindo música, bebendo qualquer coisa e confabulando fatos sem importância. Olhou para o relógio, dezessete e vinte da noite. O marido não chegava. Maria ficou imaginando se ele não tinha ficado até mais tarde para fazer hora extra. Com certeza não. Lembrava-se de que, quando saíra hoje de manhã, dissera que naquele dia sentia-se muito cansado para ficar até mais tarde. Foi até a geladeira e pegou outra cerveja. Percebeu que na caixa só restavam três latinhas. Ficou  surpresa em ter bebido tanto em tão pouco tempo. Voltou para o sofá. Onde estaria o marido? Lembrou-se de que uma das amigas tinham falado sobre uma mulher da rua perto da feira que estava de caso com Octávio. No inicio não deu muita importância, mas agora, com sua demora sem explicação, toda aquela conversa começou a ganhar proporções de quase verdade. Deu um suspiro de raiva. Tomou a cerveja com pressa, quase virando.

“Serginho, vai comprar mais cerveja!” Gritou.

O filho não respondeu.

“Serginho!”

Nenhuma resposta.

“Sergio, seu filho da puta!”

Levantou-se do sofá irritada e foi caminhando até o quarto do filho, quando abriu a porta, deparou-se com ele inerte em frente à televisão, jogando Doom. Pegou-o pelo braço e entre os gemidos do pequeno colocou-o de pé.

“Me obedeça…”

“Sai fora! Sai fora!” Gritou o menino, enquanto tentava largar-se e fugir.

“Me respeita!” Disse Maria, bufando de raiva, e começou a dar umas surras em Serginho.

“Tá pensando que eu sou o quê, hein?” A mão descia pesada no corpo do moleque.

“Ai, ai, ai…”

 Foi exatamente quando o garoto dava estes gritos que Octávio Ribeiro chegou em casa. Estava um verdadeiro trapo. Uma mochila velha nas costas, calça jeans furada e desbotada e uma camisa surrada com o símbolo da empresa. Cabelo desarrumado, olheiras na face e exalando um forte miasma de transpiração. Logo que abriu o portão, aqueles gritos de moleque desesperado entraram-lhe pelos tímpanos. Caminhou com rapidez para dentro da casa.

“O que aconteceu?” Perguntou o homem, ao presenciar o suplicio do filho.

“Este menino não quer me obedecer…” E dava-lhe bordoadas mais fortes.

“Pai, pai, me ajuda…” O menino tentava correr para junto de Octávio, mas a mãe segurava-o com mais força.

“Larga ele, mulher. È só uma criança…”

“Era só o que me faltava, tu do lado desse peste…”

“Tu não tá vendo que ele tá gritando? Deixa ele!” Disse, enfurecido, após separar os dois a força.

Serginho correu chorando para o quarto e se escondeu.

“Me respeita!” Gritou Maria. “Quem tu pensa que é para me enfrentar na frente do meu filho, hein?”

“Tu tava espancando ele, caralho!”

“Fala direito comigo, seu safado!” Ela gritou entre lágrimas. “Tá pensando que eu sou aquela rameira que tu come lá da rua da feira?”

“Como é que é?”

Serginho observava tudo pela porta entre aberta do quarto.

“Pensa que eu não sei! Todo mundo sabe! Seu cafajeste!” Ela avançou com ímpeto para cima de Otávio.

“Tu fala muita merda… Me larga!” Ele pegou a mulher pelos braços e jogou-a  sobre a sofá.

“Vagabundo! Vagabundo!” Gritava, com lágrimas nos olhos.

“Para de gritar, porra… Isso já tá ficando insuportável…” Disse ele, mais alto ainda.

Maria Clara levantou-se do sofá, correu para a cozinha, tomou uma faca suja que estava sobre a pia e pulou para cima do marido. Ele não teve tempo de esboçar uma reação. A esposa penetrou dezenas de vezes a lâmina no corpo do homem, enquanto ele resvalava no chão e uma poça de sangue se formava.

Serginho via tudo pela porta entreaberta, enquanto dava gritos de horror…