Conto: República dos Lobos

O sol estava a pino, jogava seus raios fritadores sobre aquelas criaturas que estavam jogadas pelas calçadas em ruínas; edredons, corotes, pinos de cocaína e charutos de crack estavam espalhavam-se aqui e ali, bem como alguns restos de uma fogueira usada para esquentar as noites frias da cidade. Alguns vira-latas perambulavam cheirando qualquer coisa ou perseguindo os pombos.

Um sujeito magrelo e desdentado, chamavam-no Dentinho, chegou perto de um pequeno grupo que dividia uma garrafa de pinga e disse:

Hoje tô afim de meter o lôco em alguém…”

Todas as quatro criaturas que estavam bebendo o ignoraram.

Percebendo que ninguém ia lhe responder, insistiu:

E essa pinga ai? Me dá um gole…”

Quer um gole, então toma…” Respondeu o Paraíba, um sujeito cabeçudo e de cabelos espetados, logo antes de desferir um pesado golpe de uma lasca de garrafa no rosto do outro….

Dentinho caiu com as mãos na face, enquanto o agressor falava alto e provocava: “Vem, seu filho da puta, vem…”

Logo vários moradores de rua foram ver a briga. Ninguém ousou intrometer.

O outro levantou-se, tinha um corte profundo na bochecha, o que deixava os dentes a mostra e um pedaço de carne viva que balançava gotejando sangue, feito um morto vivo dos filmes de George Romero.

Olha o que tu fez, seu puto!” Dentinho pegou um pedaço de concreto do chão e correu atrás do Paraíba. Mas foi em vão. Não conseguiu alcançá-lo. Sem fôlego, sentou-se na calçada, tentando estacar o sangramento com uma das mãos.;

Cara, vai pro hospital ver isso, tu tá perdendo muito sangue…” Aconselhou uma vadia, cujos braços eram cheios de marcas de agulhas, que conhecia o sujeito desfigurado.

Dentinho levantou-se, mas cambaleava, o sangue jorrava pelo seu rosto e empapava a camisa. Sumiu ao dobrar a esquina tentando chegar até o hospital.

O Paraíba, por sua vez, ficou dando voltas na rua, com os ombros levantados e com a cabeça baixa, falando:

Eu sou foda, mexeu comigo, se fodeu, se fodeu legal…” Mantinha ainda nas mãos a garrafa que gotejava sangue do seu antagonista.

Cara, sai daqui… Isso ainda sobrar pra você…” Falou um velho pingaiada, que estava deitado na calçada bebendo coquetel de cachaça com etanol.

Que nada, eu sou foda…” O outro respondia, em tom triunfante.

A pequena multidão de viciados e vagabundos que tinha se formado para ver a briga dispersou-se.

Sou eu que manda aqui nessa porra agora, eu…”

O sujeito não teve tempo de terminar a frase, pois um golpe o atingiu fortemente na nuca. Caiu tonto, sem conseguir esboçar reação. Foi um colega de dentinho que veio para a desforra. Paraíba ainda tentou erguer as mãos para proteger o rosto, mas foi em vão. Um pedaço de ferro desceu com toda a força contra a lobo temporal do sujeito, cujo sangue espirrou por todo o lado feito um balão de suco de morango estourando. Paraíba ficou ali, estirado. Impossível dizer se estava vivo ou morto.

Mais um dia agitado na República dos Lobos…

Conto: O Presente

Ela ainda teve tempo tentar proteger-se com os braços e soltar um grito de desespero quando desferi um pesado golpe que atingiu a parte esquerda do seu crânio; caíra de joelhos, gemendo muito, colocou as mãos no lugar onde a cabeça soltava grandes quantidades de sangue que escorria pelas mechas negras e pingavam pela ponta dos cabelos no chão frio — exatamente como a goteira da torneira da sua cozinha…

 O cão, como se sentisse o aroma do sangue da sua dona, começou a latir descontroladamente, dando pulos frenéticos contra a portão do quintal, como se tentasse arrombá-la para prestar-lhe socorro; ouvi também outros cachorros latirem loucamente, atendendo aos gritos do companheiro, mas ali eles não tinham qualquer controle sobre situação, apensa eu…

Dominado por um estado de euforia maléfica, que só posso explicar como a combinação causada pela fúria causada pelo seu sarcasmo, os goles de cachaça, o esforço da martelada que esquentara-me os nervos e a visão do sangue que escorria da sua cabeça, atingi Márcia com mais um segundo e mais pesado golpe, ela despencou no chão, meio de lado; a quantidade de sangue que a martelada fez espirar foi considerável; agonizando, retorcia-se sobre o próprio sangue; martelei seu crânio mais uma vez, e outra vez, e mais outra vez, martelei dezenas de vezes, enquanto dizia:

“Está gostando do meu presente… Está gostando do meu presente?” E a cada martelada que eu desferia, repetia, entre uma gargalhada estridente e insana: “Está gostando do meu presente…”

Só finalizei quando a exaustão me dominara; sua cabeça não passava de todo disforme e repugnante, com pedaços de cérebros e sangue coagulado escorrendo horrivelmente por entre as aberturas…

Retirado do livro A Obra-Prima de Amarildo e Outros Contos Indecorosos.

Conto: Victor Martinez

“Já estava aponto de desfalecer, seu corpo entrara num estágio entre a dormência e a atividade; apenas o enorme barulho da chuvarada o mantinha acordado. Em meio ao ruído confuso do ambiente lá fora, seus ouvidos divisaram algo bem singular… Tentou levantar-se para ver o que era; um ruído vindo da porta; com esforço, tomando a mesa para apoiar o braço; escorregou, a cadeira caíra para trás, ainda susteve-se em pé graças à mesa; as pernas tremiam; o corpo doía; parecia haver uma chama consumindo-o por dentro, nem parecia ter sido vodka o que ingeriu, mas ácido; logo que teve esta conjectura, os braços escapuliram do móvel, tinha dado alguns passos para frente; caiu violentamente no chão frio, sua irritabilidade estava multiplicada por dez vezes em virtude da dor excessiva; ao cair, batera o joelho violentamente no solo, outra dor aguda o tomou de assalto; deu um grito de raiva e aflição; fraturou o joelho, tinha certeza; o barulho que ouvia parou subitamente… Acomodou-se de bruços para cima, observava o teto, impotente para fazer algo, esperava. Esperava o que? Nem mesmo ele sabia; talvez a maldita dor sumir, o álcool dissolver em seu sangue, a morte tocar-lhe o rosto… Sentiu-se como uma criança indefesa perdida numa enorme cidade, mas esta cidade era sua casa, e seu terror era si próprio, não havia ninguém para salvá-lo, começou a chorar, sentia-se parvo, muito mais lerdo que antes. Os anos passaram e ele não era nada mais que um espírito infausto temente á si próprio e á todos, temia olhar para dentro de seu abismo, temia que seu abismo olhasse para dentro dele, temia a visão das trevas, temia que o véu soturno o dominasse de vez. Era ateu, mas temia o céu, temia o inferno, temia o Criador e temia Lúcifer; temia a gloria e o fracasso; temia a alegria e a tristeza. Era descrente e religioso, era herege e devoto, era beato e pagão, era seu deus e seu demônio. Não sabia o que era o júbilo. Quanto à temeridade, à amargura, à consternação, não mais se dava conta, tanto tempo vivera no porto da miséria, no caminho de vermes, na sofreguidão espiritual; perdera o ímpeto revolucionário, perdera a força da lucidez, o fulgor, a agressividade… Tinha tudo e não tinha nada, tinha a mundo e não tinha espírito. Austeridade, aspereza, tudo isso lhe fora disciplinado, era dócil, não sabia mais se rebelar. Assim como Arthur Rimbaud, amores o crucificaram e colocaram sua dignidade à prova, apostaram sua posse, e ganharam… Fizeram confeites e anedotas, gracejaram e o ludibriaram, a desgraça foi seu deus… Jamais verá o natal sobre a terra, a claridade divina…”

Trecho do conto Victor Martinez, retirado do livro A Obra-Prima de Amarildo e Outros Contos Indecorosos, de Ricardo Lima. 

Lançamento do meu livro “A Obra-Prima de Amarildo e Outros Contos Indecorosos”

a obra prima de amarildo(1).jpgOs contos que ai vão são uma coletânea de algumas histórias que andei escrevendo entre os anos de 2005 e 2010. O livro demorou para ser publicado, pois uma série de intercorrências surgiram na minha vida. Estes são contos urbanos, por assim dizer, que retratam o mal-estar e o desespero de se viver nas grandes cidades. Meus personagens são, em sua maioria, desgarrados que, de alguma forma, ou não conseguem se inserir ou são o produto mais nefasto do mundo moderno: assassinos, pedófilos, viciados em drogas, alcoólatras e outras figuras pouco estimadas… O leitor pode perguntar-me porque eu, um amazonense típico, não procuro escrever sobre as belezas naturais no meu Estado, sobre a vida do ribeirinho, do ciclo da borracha e todos estes temas que abundam na literatura canônica sobre a Amazônia. Respondo que nasci e passei boa parte da minha vida em Manaus, uma capital de quase dois milhões de habitantes onde a barbárie e a desigualdade se reproduzem como em qualquer outra cidade miserável do globo. Estas são, portanto, a matéria-prima da maioria das minhas histórias: coisas que vi, que ouvi e que vivi. Também não escrevo sobre as delicias ingênuas da floresta porque muitos autores regionais já o fazem. Se eu me propusesse a fazê-lo, com certeza não lograria o mesmo êxito.

No mais, só gostaria de dizer que estes contos possuem uma influência de autores como Balzac, Zola, Poe, Tolkien, Lovecraft, Engrácio, Machado de Assis e Graciliano Ramos.

Espero que o leitor tenha bons momentos de fruição lendo minhas histórias. Se não gostar, farei como Machado de Assis — te darei um piparote e direi adeus…

 

Para Baixar o livro gratuitamente, clique em: A Obra Prima de Amarildo – Ricardo Lima

 

Conto: O Convalescente

Desde que cheguei daquela boate, ás três da manhã naquele ano de 2011, já sentia uma estranha sensação percorrendo todo meu corpo. Era uma espécie de estremecimento dos membros, seguido de uma fraqueza e um aperto na garganta. Também havia uma coisa indescritível, como uma vertigem, muito embora as vertigens não fossem precedidas de uma onda de calor, que começava nos pés e subia lentamente até o último fio de cabelo, causando-nos um mal estar no peito.

Meu amigo deixou-me em frente da minha residência. O álcool me dificultava o caminhar. Entrei em casa sem pressa, escovei os dentes e, já quase dando graças a deus, quase porque não acredito nem um pouco nele, joguei-me sobre a cama coberta de desalinhados panos roxos.

Embora estivesse me sentindo bêbado e doente — o mal estar no corpo começava a ficar mais forte — não tinha sono. Fiquei observando as sombras cambaleantes do meu quarto enquanto relembrava os lances daquela noite. Lembro-me de não ter estranhado nem um pouco um amigo gay se pegando com uma colega lésbica… Também não podia esquecer aquela garçonete, uma morena exuberante em todos os sentidos; rosto fino e de curvas bastante agradáveis; olhos grandes, claros e levemente ovais; cabelo levemente tingido de castanho (ou seria vermelho?) amarrado naquele discreto rabo de cavalo que balançava enquanto ela andava rápido de mesa em mesa para atender aos clientes (cujos fios muito finos de sua cabeleira tocavam candidamente aquela nuca bronzeada); também me fascinou aqueles lábios bastante cheios e avermelhados que, juntos, formavam um coração escarlate; seus modos bem medidos, sua maneira de portar-se esbelta, altiva; e o tom firme e ao mesmo tempo suave da voz… Não posso deixar de frisar, leitor amigo, pois os homens sabem do que falo, da delicia das curvas daquele corpo, que mesmo o antiquado avental laranja do estabelecimento não escamoteava por completo; aquelas pernas grossas davam passos firmes sobre o sapato de plataforma e as ancas arrebitadas, bem redondas, suculentas, seguida daquela aprazível cintura fina, desses tipos raros de cintura feminina, muito convidativa ao toque, que combinavam com o busto arqueado de seios bem redondos…

Por Deus, como eu queria tomá-la em meus braços, enchê-la de carícias e dizer-lhe as coisas mais belas!

Depois de ter bebido por volta de quinze cervejas e ter pedido cerca de trezentas canções ao trio que tocava música popular brasileira no pequeno palco improvisado, pedi a um garçom uma caneta e lhe perguntei o nome de tão bela fêmea que sempre me atendia com um sorriso nos lábios carnudos:

“Ah… Aquela é a Josy…”

Rabisquei rapidamente num lenço de papel já meio úmido: A fim de uma boa conversa? Me Ligue. Seguido do meu número de celular. Um professor da faculdade, certa vez, disse-me que eu deveria melhorar minha caligrafia, pois corrigir minha prova era um exercício de paciência. Agora, bêbado, sem coordenação motora e, o mais importante, lembrando de tão valioso conselho do velho mestre, desconfiei que as esboçadas linhas não estavam legíveis. Por precaução mostrei ao meu amigo que, depois de ter examinado demoradamente o manuscrito e feito uma careta, disse:

“Ta bom…”

“Entrega para a Josy…” Disse ao funcionário, que me obedeceu.

Enquanto estava estirado sobre minha cama, relembrando este e outros lances, uma sonolência aguda se apoderou de todo o meu corpo e, como se eu fosse um moribundo dando seus últimos suspiros, adormeci.

Não tive uma boa noite de sono. Coisas horríveis assaltaram-me, como monstros me perseguindo, pessoas mortas que voltavam para me acusar e mulheres do passado que diziam o quanto eu as fizera sofrer…

Acordei suado, fraco e incapaz de levantar-me.  Todo o meu corpo parecia incapaz de esboçar qualquer movimento ou fazer as tarefas mais pueris. Foi a custo que consegui ir ao banheiro, tomar banho e escovar os dentes. Minha visão estava turva. Não pude fazer desjejum, meu estômago não suportaria nem mesmo um pequeno pedaço de pão.

Todo sábado pela manhã eu deveria fazer as compras na feira. Mas estava tão fraco que desisti. Voltei para a cama e fiquei com a mente na mais profunda inércia.

Eu me revirava em cima da cama, e mesmo deitado, a convalescença só aumentava. Logo senti aquilo que nos últimos tempos tornou-se um dos meus maiores terrores — uma crise de hipertensão. Normalmente quando a variação de pressão me ataca, ela vem seguida de uma crise de arritmia. É uma sensação de terror iminente, algo intangível, mas que aos nossos olhos parece perfeitamente factível, quase como inevitável.

Fiquei sentado na cama com a mão no peito, minha visão estava turva, rodava. Eu podia sentir meu sangue correndo rápido pelo meu corpo — pulsando pelo meu ventre, subindo pelo meu pescoço e alcançando meu crânio. Parecia que eu estava gelado. Estaria mesmo? Fui cambaleando até o espelho do banheiro e o que vi foi um rosto pálido, olhos fundos e lábios sem cor. Virando a cabeça podia ver minha jugular pulsando freneticamente como se estivesse a ponto de explodir. Meu terror aumentava. Olhei no relógio, eram nove horas da manhã. Todos em casa ainda estavam dormindo. Minha irmã era enfermeira. Deveria falar com ela? Desisti. Prefiro ir ao inferno mil vezes a dirigir minha palavra àquela mulher.

Eu convalescia cada vez mais. Meu coração parecia que ia rasgar meu peito e sair pulando pelo mundo. Peguei o telefone, liguei para meu amigo. Mas ele não atendeu. Liguei para outro colega que era enfermeiro. Caiu na caixa postal. E agora? Lembrei-me de um macete para arrefecer aquele terrível demônio — ficar debaixo do chuveiro durante cinco minutos e em seguida tomar um chá de alho.

Corri para o toalete, tirei a roupa de qualquer jeito e liguei o chuveiro no máximo tomando o cuidado para colocar a água numa temperatura bem baixa. Mas eu não conseguia respirar. Fiquei de cócoras, enquanto a água gelada descia aos galões em cima de mim.

“Que coisa mais ridícula…” Pensei, enquanto me via daquela maneira constrangedora debaixo do chuveiro.

Já me sentia melhor, podia perceber que meu coração já estava mais calmo. Desliguei o chuveiro e fui até o espelho. Estava menos pálido. Minutos depois, na cozinha, enquanto eu fervia água para aquele horrível chá de alho com camomila, o telefone toca.

“E ai meu…” Era um amigo da faculdade.

“Oi, tudo bem?”

“O que tem pra hoje?”

“Porra nenhuma…”

“Como não? Vai ter uma festa lá na Daniele…”

“Cara… Acho que hoje não vai dar…”

“Por quê?” Percebi que ele ficou meio contrariado.

“Estou de lua hoje… Não tô a fim de sair…”

Lembro-me de nós termos conversado sobre outras coisas — que hoje parecem completamente sem importância. Quando ouvi o borbulhar da água no fogão, inventei uma desculpa qualquer e fui fazer meu maldito chá.

Não se pode dizer que era a bebida mais gostosa do mundo. Preferia mil vezes uma cerveja… Ainda que a água tivesse restabelecido parte das minhas forças, ainda estava muito fraco e foi a custo que consegui tomar tudo.

Fui para o sofá e fiquei ali por muito tempo, deitado, só de toalha, não me importava se eu estava molhando todo o canapé. Um silêncio agradável imperava por todos os cantos que só era cortado pelo tique-taque do relógio de parede, pelo canto de alguns passarinhos que vinham fazer algazarra numa planta da varanda de casa ou por algum resquício de voz humana que teimava em entrar pelos meus ouvidos. Coloquei a mão na jugular e percebi que minha pulsação estava normalizando. Aliviei-me. Naquele momento sentia-me feliz. Em breve minha mãe despertaria e com certeza ia reclamar de alguma coisa que eu não fiz direito ou deixei de fazer. Minha irmã, com aquela cara de poucos amigos se entocaria no quarto e fingiria não precisar de ninguém.

Mas quem se importa?

Lembrei-me de Josy. Tive vontade de rir. Como é que eu fui tão petulante? Aquela mulher devia receber no mínimo uns quarenta bilhetes como aqueles de homens muito mais interessantes que eu. Com certeza meu recado de caligrafia horrível estaria no fundo de uma privada ou num lixeiro qualquer.

Mas quem se importa?

Eu estava bem. Não tremia mais, minha pulsação com certeza estaria normalizada e logo recuperaria as forças. Enquanto isso não acontecia, deixava-me ficar ali, estirado sobre o canapé, me deleitando com o silêncio entrecortado pelo barulho do relógio, com o som dos pássaros ou de alguma voz que ecoava ao longe…

Era só naqueles momentos solitários que eu encontrava a felicidade.

 

Uma história sobre rompimento e separação.

deixando para atrásEm 2012 li na revista Cult um conto sobre um homem que, após romper com a esposa, está se preparando para deixar em definitivo o apartamento onde eles viviam juntos. Eu achei as circunstancias com que a história trabalhava bastante interessantes e resolvi criar a minha própria versão do fato. O resultado é o conto que ai vai. Espero que gostem.

Deixando para Atrás

Orlando olhou melancólico para os seus pertences em volta, a mala verde com alça lilás, a mochila preta surrada e a pequena bolsa onde estava guardado o notebook velho e lento como um jaboti de oitenta anos. Tudo estava acomodado sobre o sofá de pele escura. De pé, aprumou as calças. Deixou-se ali, no meio da sala, observando tanto os aqueles objetos reunidos quanto o ambiente em volta, que agora parecia tão triste — as paredes, a televisão e os dvd´s que estavam espalhados. Não queria ir embora. Pensou estupidamente que, se detendo por alguns minutos a mais poderia evitar, sem saber como, aquele rompimento definitivo com Duda, que estava propositalmente ausente naquele dia. Riu do próprio pensamento. Achou-o estúpido.

Ficou a remoer alguns acontecimentos passados de sua vida com ela e, quando mais mergulhava nessas lembranças, mais se enternecia. Lembrou-se da época em que se conheceram, ainda na faculdade. Ele era um consumidor inveterado da doce erva e cursava o quarto período do curso de História, enquanto ela era como uma típica garota de dezessete anos recém-saída do ensino médio, cheia de mimos e deslumbrada de ter acabado de ser admitida no curso de serviço social da Federal. Também rememorou a singular tensão sexual que logo surgiu entre eles: os sorrisos, os olhares desajeitados e as palavras que, por mais tivessem sido milimetricamente ensaiadas, sempre saiam desencontradas. Não demorou muito para começarem a sair. Também demorou menos ainda para que estabelecessem aquele pacto que muitos chamam de relacionamento sério e quase nada para que começassem a morar juntos. Não é preciso mencionar que os pais de Duda, dois bem altos burocratas do Tribunal de Contas do Estado do Amazonas, reprovaram a união:

“Um maconheiro, minha filha!”

Mas, como os corações jovens são os mais impetuosos, energéticos e, por conseguinte, os mais imprudentes, estas ingênuas almas, acreditando piamente no amor pelo amor e na felicidade imanente provinda dele, uniram-se.

Foram morar numa pequena instância, entre as milhares que pululavam no bairro do Coroado. Para pagar as contas, resolveram trabalhar. Ele dava aula para o ensino médio numa escola particular. Duda resolveu pegar um estágio numa dessas secretarias do Estado, conseguida com a ajuda do pai dela, amigo de infância de um senador. De manhã tinham aula e se falavam rapidamente na hora do intervalo. Quando dava meio dia almoçavam juntos e, já por volta das treze horas, corriam pegar o ônibus que lhes enviaria para a labuta. À noite, já cansados, entravam na terceira jornada, que era cuidar da administração do pequeno apartamento.

Repassou as brigas, as discussões, as cenas de ciúmes que não demoraram a aparecer e todos os episódios de franca intolerância que ambos passaram a nutrir um em relação ao outro, apenas quatro meses depois de terem ido morar juntos. Por algum motivo que não podia explicar, lembrou-se do dia, quando tinha apenas dez anos, em que fora levado por seu pai ao clube dos funcionários da empresa onde trabalhava, uma dessas firmas estrangeiras que faziam rios de dinheiro na Zona Franca de Manaus. Quando estava na piscina, tomou um pouco da agua cheia de cloro nas mãos e viu as aguas se desvanecerem por entre os dedos magros e pequenos.

“È assim que as coisas acontecem…” Pensou. “Se desmancham como água entre os dedos..”

Respirou fundo antes de abrir a porta e contraiu o semblante, como se estivesse sentindo uma grande dor.

“Talvez ela volte para a casa dos pais…” Disse.

Quando se encontrassem pelos corredores da universidade, seria com aquele patético constrangimento sempre comum entre casais recém-separados: olhares rápidos, bochechas coradas, comentários em voz baixa de amigos em comum e cumprimentos secos e ligeiros… Talvez  ela nem sequer olhasse para a cara dele, preferindo baixar a cabeça ou simplesmente mudar o trajeto para passar o mais longe possível de Orlando.

Ou talvez até já estivesse com outro…

A ideia, para dizer a verdade quase um desejo, de que ela ligaria um ou dois dias depois da separação ainda lhe encheu de um pouco de otimismo. Mas sabia que ela não ligaria, nunca mais…

“Merda de vida…” Pensou, logo após trancar a porta do apartamento.

Conto: A Defesa da Tese

O dia mais esperado da vida do jovem pesquisador tinha finalmente chegado. Naquela manhã quente ele defenderia diante de uma banca de três pós-doutores a sua incrível e original tese de doutorado. Depois de quatro árduos anos pesquisando, lendo, escrevendo, revirando arquivos, realizando entrevistas, cruzando dados e combinando teorias, finalmente a pesquisa estava pronta para ver a luz do mundo. Era para ele como uma filha querida, como uma obra de arte que aos poucos vai se formando, ganhando alma e desenvolvendo sua própria personalidade até que era chegada a hora de ela colocar os pés no mundo, já adulta e sair por ai, de congresso a congresso, de pesquisador a pesquisador, solta pela cena acadêmica para um destino glorioso…

Não foi fácil a gestação da sua querida filha, que naquele dia teria de passar pela avaliação rigorosa daqueles três medalhões do mundo acadêmico. Foram anos de intensa investigação, de insônias, de sofrimentos, de noites perdidas na solidão do gabinete de estudos, de tentativas fracassadas de inserção no campo de pesquisa, de confusão quanto aos dados colhidos, de broncas do professor orientador, de crises de hipertensão, de ansiedade, de estresse, de relacionamentos perdidos e de uma confusão extrema da vida pessoal do pobre jovem.

Mas para o seu alivio, tudo aquilo tinha passado.

Naquele dia levantou-se cedo. Não tivera uma boa noite de sono. Tinha lapsos de ansiedade enquanto olhava para o teto do quarto e imaginava as piores coisas possíveis, como sendo humilhado pela banca em virtude de sua própria incompetência e sendo sumariamente reprovado.

Também imaginava a gargalhada geral da audiência, o que lhe deixava inevitavelmente mais aflito. Quando esses pensamentos viam-lhe a mente sentia umas palpitações no peito, os olhos marejavam e um calor subia-lhe a fronte. Embora tentasse espantar essas conjecturas vãs, elas dominavam-no, brincavam com sua mente, embaralhavam suas certezas e prostravam seu espirito.

A hora para a defesa estava agendada para as oito horas da manhã. Embora no relógio fosse pouco mais de cinco e meia, tomou café com pressa, banhou-se desesperado e se vestiu sem passar a roupa, uma calça de pano preto e uma camisa de botão azul. Isso lhe conferiu um ar extremamente desleixado. Não se despediu da família que àquela hora estava ainda desfrutando da parte final do sono. Enquanto terminava os últimos preparativos murmurava a fala que fora cuidadosamente ensaiada para a apresentação. Entrou no carro e dirigiu para o maior evento da sua vida dos últimos quatro anos.

Chegou ao Centro de Estudos Sociais Avançados da Universidade quando ela ainda estava parcialmente vazia. O estacionamento tinha poucos carros e ele colocou o seu debaixo de uma frondosa árvore. Foi até a lanchonete e ficou tomando litros de café, se mexendo convulsivamente na cadeira e enxugando as mãos suadas na calça.

Quando a secretaria de pós-graduação foi aberta, ele foi resolver alguns trâmites legais que necessitavam de atenção. A funcionária do recinto, quando o viu, perguntou:

“Tudo bem com você?”

“Estou bem…” Respondeu, enquanto pegava com as mãos tremendo alguns papeis para assinar.

Foi para a sala onde ocorreria a palestra. Arrumou o notebook, o data show, as cadeiras e as águas que ele e a banca examinadora tomariam.

Sentou por um momento numa das cadeiras e ficou olhando para o chão. Suava muito e as mãos tremiam.

“Eu tenho que me controlar…” Disse de si para si.

Mas não conseguia. Por mais que pensasse em coisas para se reconfortar como “Só vou dividir os resultados da pesquisa” ou se lembrasse dos comentários do orientador “Esse trabalho vai virar referência, não tenho dúvidas.” Ele não se convencia. Levantou-se. Ficou andando de um lugar para o outro murmurando coisas sem nexo. Voltou a sentar-se. Sentia-se tonto e o coração estava disparado. Pegou um copo de água e bebeu tudo de um único gole. Foi quando estava deixando o copo sobre a mesa que chegou um dos amigos para vir assistir a apresentação.

“E ai, preparado?” Disse rindo o conhecido, enquanto tocava o ombro do doutorando.

“Sim, melhor impossível…” Disse sem olhar nos olhos do interlocutor.

“Hoje vai ser bem legal… Uma etapa que termina e outra que começa…”

“Vai ser o meu fuzilamento…”

“Como?”

“Deixa pra lá, mano…”

Os dois foram sentar-se.

Aos poucos outras pessoas foram chegando para assistir a apresentação daquela pesquisa que muitos comentavam como uma das mais originais dos últimos anos e que inaugurava uma nova linha de estudos sociais naquela região brasileira tão maltratada pelas agências financiadoras nacionais. Quanto mais chegavam pessoas, mas o pobre diabo se exasperava.

“Vieram ver o meu fuzilamento…” Pensava.

Uma garota muito bonita, de cabelos loiros e curtos, olhos claros e seios grandes veio ter com ele.

“Oi, meu nome é Márcia…”

“O meu é Gilberto, prazer…”

“O prazer é nosso…” Disse com um sorriso. “Eu estou no primeiro ano do mestrado… Minha orientadora disse que a minha pesquisa tem a ver com a sua e que seria uma boa eu ler o seu trabalho…”

“Será?”

“Acho que sim… Estou ansiosa para ver sua apresentação…”

“Muito obrigado…” Ele suava como um condenado que trabalhava nas prisões da Devil´s Island.

Quando ele ia falar mais alguma coisa, os três professores, seu orientador e dois doutores convidados que integrariam a banca de avaliação, entraram e houve um burburinho entre a audiência.

“Boa sorte…” Disse a garota antes de ir sentar-se.

Nesse momento todos foram para os seus lugares e o coração de Gilberto quase sai pela boca.

“É agora…”

“E ai, rapaz… Parabéns… Gostei do trabalho…” Disse-lhe um dos professores logo antes colocar sua pasta sobre a mesa e acomodar-se.
Em resposta, Gilberto apenas acenou com a cabeça.

“Meu filho, é hora de você arrebentar…” Falou seu orientador.

Gilberto estava com o coração quase a rasgar do peito e sair por ai, correndo desgovernado como um cavalo selvagem.

“Vou me foder…” Pensou.

“Eu gostaria de agradecer todos que vieram aqui acompanhar e prestigiar a defesa de tese do aluno Gilberto Moreira Paes, aluno do Programa de Pós-Graduação…” Disse seu orientador ao fazer o pronunciamento de solenidade.

O pesquisador apenas olhava para baixo enquanto se afundava na própria confusão mental.

“Vemos aqui uma fusão de duas correntes teóricas como fundamentação empírica que nenhum pesquisador de nossos círculos fizera até agora… O resultado foi a descortinação de aspectos de nossa realidade que não tínhamos notado…” Não adiantava. Mesmo que ele ouvisse todos esses elogios, sua mente estava embaralhada. Seu corpo tremia de pânico, os pelos da nuca arrepiavam-se e a têmpora transpirava muito suor. A camisa debaixo do seu sovaco já estava completamente molhada.

Agora vamos passar a palavra para o Gilberto que terá total liberdade para expor sua pesquisa sem se incomodar com o tempo.
Gilberto ajeitou-se na cadeira, enxugou o suor da testa e preparou-se para falar. Toda a plateia encheu-se de expectativa. Era o momento que todos esperavam para conhecer de perto a tese e saber como o jovem pesquisador fez para chegar àquelas conclusões polêmicas e desafiadoras.

Os alunos do mestrado e da iniciação cientifica olhavam para ele com admiração, os doutorandos com uma pontada de inveja e a banca, especialmente o orientador, olhavam-no com grande satisfação.

“Bem… Esse trabalho…” Começou Gilberto.

Contudo, não teve tempo de terminar a frase. Um colapso nervoso tomou conta de todo o seu corpo. Um raio envolveu sua visão, que escureceu.

Seu corpo enrijeceu-se e ele caiu ali no chão, sem sentidos.

Não é preciso dizer ao leitor que foi um pânico enorme na sala. Muitos choravam. Outros colocavam as mãos no rosto de pânico. Chamaram a ambulância e levaram o pobre coitado, que ficou entre a vida e a morte por quase três semanas na Unidade de Tratamento Intensivo lutando contra um acidente vascular cerebral.

No final a lesão neurológica venceu e Gilberto Paes foi enterrado entre os prantos da família e o pesar da comunidade universitária que sentiu ter perdido um promissor talento.

A única coisa que aquele pobre diabo deixou ao mundo foi uma tese que passou a ser estudada, interpretada e quase venerada por uma quase infinidade de estudantes e pesquisadores que tentavam achar nela as chaves da interpretação das coisas.