O Brasil e o Novo Populismo do Século XXI

bolsonaro
Foto: Patricia Rodrigues/ Agência RBS

Estamos entrando em um novo período na história política brasileira. O fim de um ciclo petista que findou-se com o impeachment em 2016 e o interregno de dois anos com o pseudopresidente Michel Temer redundaram naquilo que já se esperava: uma guinada à direita nas relações de poder.

Precisamos entender que esse processo se dá em toda a Europa, por razões que já falamos antes, isto é, pelas consequências imprevistas da globalização, perda de poder do Estado e das deficiências que o poder econômico causa à democracia representativa, criando uma deficiência na representação, o que gera uma falta de identificação do eleitor comum com a máquina politica.

A vitória de Jair Bolsonaro representa, na verdade, a emergência de um novo populismo de direita que se torna cada vez mais forte no século XXI.

Mas o que é populismo?

Conforme a palestra proferida pelos professores Rafael Tauil e Bruno Silva, intitulada O antigo que se tornou moderno: a recondução do populismo aos palanques políticos no século XXI, proferida no dia 6 de novembro, na Semana de Ciências Sociais da Universidade Estadual Paulista de Araraquara, o populismo pode ser compreendido como um fenômeno típico da ascensão da sociedade de massas e de expansão do sufrágio. Sua definição mais resumida e precisa significa a ida do líder ao povo, passando por cima das representações politicas tradicionais, ou seja, sem mediação partidária. O Poder populista capta a vontade das massas desprovidas de representação. Imersa numa sociedade desencantada, injusta e complexa demais para a população situar-se, o líder carismático surge como uma solução politica tangível capaz de protegê-la deste mundo incivilizado. 

Tem um forte teor nacionalista; um caráter de justicialismo, ou seja, de justiça contra o arbítrio sofrido pelo cidadão comum; também congrega em seu âmago um forte personalismo, isto é, a ideia de que apenas o grande líder, detentor de habilidades extraordinárias, é capaz de guiar a nação. Em linhas gerais, o populismo é uma forma de dominação carismática, para pensarmos a partir do conceito de Max Weber.

Outro ponto importante para a compreensão do populismo é que ele tem um traço conciliador. A dominação do líder populista procura apaziguar os conflitos de classe e trazer sob o mesmo pacto moderador tanto os interesses de empresários quanto de trabalhadores. Não existiriam classes sociais, apenas Povo e Nação. Ele unifica as diferenças de gêneros, culturas e econômicas dentro do escopo do nacionalismo.

Enquanto o populismo de esquerda enfoca politicas de expansão dos direitos sociais, onde o líder é visto como um pai dos pobres, o populismo de direita possui uma grande ênfase sobre os costumes e valorização de um modelo especifico de família; escamoteia a discussão a respeito da historicidade do lugar de homens e mulheres nas sociedades; possui um traço marcadamente antipolítico, desvalorizando a politica tradicional; também nota-se um caráter teocrático, com uma valorização da questão religiosa, principalmente grupos ligados ao tele evangelismo e em detrimento da laicidade do Estado Moderno; as pautas neoliberais, com a privatização de várias empresas públicas, alinhamento unilateral aos Estados Unidos; por fim, a xenofobia, com desconfiança em relação aos imigrantes pobres ou de outra religião, sendo creditado a eles as raízes dos problemas nacionais.

O populismo nasce quando há uma crise de hegemonia na sociedade atual e um desequilíbrio tao grande entre ricos e pobres que a conciliação de classes torna-se impossível pela via tradicional. Assim, surge um vácuo de poder que a velha politica e seus partidos não conseguem tapar. Em contexto de vazio de lideranças e crises econômica, política e social, o líder populista e carismático procura manobrar as demandas da massa e procura convencê-las de que é o único capaz de supri-las.

Disto resulta uma outra característica, o bonapartismo, que é o culto à personalidade do grande líder, chefe do executivo, em detrimento do judiciário e do parlamento, que perdem força.

Assim, o populismo de direita possui vários traços da modernização conservadora. Em outras palavras, favorece um modelo de modernização das relações direcionado pelo alto, das estruturas do Estado e em conexão com grandes corporações transnacionais, procurando controlar os processos de desencaixe criados pela dinamização sistêmica.

Há o que os dois professores chamaram de protagonismo dos fatos, um apelo forte ao concreto e a descriminação do trabalho intelectual. Lugares onde predomina a reflexão pura e a pesquisa, como as universidades, passam a ser lugares vistos com desconfiança pelo poder populista, pois a reflexão crítica pode suscitar a desobediência e a descoberta das contradições do regime.

O populismo é muito mais propenso a surgir em países onde o executivo tem uma preponderância sobre os outros poderes. Com um executivo forte, torna-se mais fácil um líder carismático passar por cima das representações parlamentares, dos partidos políticos, do Supremo Tribunal e criar uma forma de governabilidade que dispense intermediários. Em nações onde predomina o parlamentarismo é mais difícil isso acontecer, pois a escolha da liderança depende necessariamente de uma institucionalidade que não deixaria qualquer líder se sobrepor a ela.

O Brasil, país de tradicional autoritarismo na política e onde o executivo sempre teve um papel muito forte ante o legislativo, a ocorrência do líder populista ocorreu basicamente em três momentos da nossa história, com Getúlio Vargas, que encarnou faces oligárquicas, fascistas e trabalhistas; com Lula, com um governo conciliador de centro-esquerda; e agora com Jair Bolsonaro, que tem as principais caraterísticas do populismo de direita contemporâneo — xenofobia, neoliberalismo, teocracia, autoritarismo, nacionalismo e anti-intelectualismo.

Penso que os estudos a cerca desse novo fenômeno da politica devem continuar, procurando ir na sua raiz, expondo suas bases ideológicas e sociais, bem como suas contradições, sem se importar se agradará ou não o líder e seus apoiadores. A ciência humana e social tem como compromisso a interpretação metodológica dos fenômenos da sociedade. Não cabe a ela agradar governantes A, B ou C.

Temos que resistir ao autoritarismo e ao anti-intelectualismo do novo governo. Procurar manter posição, resistir aos ataques contra as conquistas que foram asseguradas durante a Constituição de 1988, defender a autonomia do ensino e resistir ao ataque ao ensino critico e solidário é o que nós, defensores de uma sociedade moderna e mais justa, devemos fazer.

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Bolsonaro e o Brasil Real

Nosso sistema político e nossas instituições têm sido testadas até a exaustão nessa crise politica e econômica que se estende desde 2013. Muitos acreditavam que ela seria resolvida com as eleições de 2018, uma das piores e mais sujas que já vimos, e com a vitória de um estadista capaz de unir o país numa agenda progressista.

As eleições terminaram e o presidente eleito, Jair Messias Bolsonaro, vai ter que enfrentar uma série de problemas que, se ignorados, custarão caro ao seu projeto de poder.

Os dilemas do Brasil Real não esperam, não perdoam e estão acima das ficções ideológicas das nossas elites.

Temos um cenário nada animador para quem se propôs liderar o país. Conforme reportagem da BBC Brasil (veja aqui), nosso PIB tem o segundo pior crescimento da América Latina, só ficando atrás da Venezuela; temos um rombo de 110 bilhões de reais nas contas públicas; uma taxa de desemprego de 11,8 %, mais de dez milhões de pessoas sem trabalho; investimos muito pouco em saúde, apenas 3,8% do PIB, o que é muito pouco, só os EUA gastam quase sete vezes mais que nosso país; na educação cortamos duzentas mil bolsas de pesquisa e temos os piores resultados educacionais nos exames do PISA, ressaltando que o resultado foi ruim tanto em escolas públicas quanto particulares; na segurança pública tivemos mais e sessenta mil mortes violentas; também há aumento a percepção entre a população brasileira de que existe bastante corrupção no país.

A vitória de Bolsonaro não foi tão acachapante. Houve mais votos em branco, nulos e no candidato perdedor que na chapa vencedora (leia aqui). Isso já denota uma falta de hegemonia do novo governo, que já inicia 2019 com alta rejeição. Ele será extremamente cobrado tanto entre aqueles que não votaram nele quanto entre seus eleitores que, aliás, depositam no capitão reformado uma grande expectativa e confiança. Se ele não der uma resposta, pelo menos para a questão do emprego em até dois anos, penso que sua situação vai ficar bem delicada.

O país ainda está dividido e polarizado. O novo presidente precisa abandonar o discurso belicista a apostar na união e na conciliação com todos os trabalhadores e trabalhadoras. Mas eu acho difícil isso ocorrer. Como havia escrito Paulo Nobre para a revista Piauí (leia aqui), não há indícios de que o Novo presidente tenha alguma capacidade de arbitrar conflitos e conciliar interesses divergentes.

Também vai exigir que ele tenha uma ampla capacidade de negociação para criar maioria se quiser governar. Também tenho dúvidas a respeito da capacidade de articulação para criar essa maioria. Apesar dele aparentemente não saber, nosso modelo é o de democracia consensual, onde a governabilidade é criada negociando com as minorias.

Também temos uma bancada cada vez mais conservadora, apartada dos reais problemas do país e com total desconhecimento da constituição brasileira. O voluntarismo infantil dessa bancada inexperiente e mal informada pode criar tanto problemas para o governo quanto para o povo brasileiro, defender a nossa Constituição e o que ela mais tem de progressista é o nosso dever.

Outro problema na equipe de Bolsonaro é a grande quantidade de militares que fazem parte do governo. Sempre que os militares entraram para a política tivemos problemas, foi assim em 1889 com o fim no Império e a instituição de uma república oligárquica, e em 1964 com o encerramento de um ciclo de republicano democrático que só viria a ser recuperado vinte e dois anos depois, com graves consequências para a cidadania brasileira. A vida na caserna não é a mesma em sociedade. O respeito a hierarquia e a obediência incontestável não combinam com a vida civil, marcada pela pluralidade, pela crítica do mundo e por respeito a opiniões diversas. Essa distinção os militares nunca perceberam.

Em entrevista recente (leia aqui), Paulo Guedes, que será a eminência parda do governo, disse que pretendia enterrar o modelo social-democrata no Brasil. Falta conhecimento sociológico ao economista fã de Pinochet; cai no mesmo erro de achar que a economia é o fundamento do social e também revela um completo desconhecimento da nossa Carta de 1988. Nossa constituição é de Centro, social-democrata, com um grande rol de direitos de proteção ao indivíduo. Negar isso é transformar o seu liberalismo em ideologia reacionária e vulgar. Também desconhece que foi a ação do Estado que formou e manteve unido o Brasil, articulado pelos conservadores saquaremas no século XIX, e que foi o Estado que modernizou o Brasil e deu aos tradicionais excluídos do país direitos sociais, questão antes ignorada pela nossa elite da República Oligárquica. Essa via prussiana de modernização, parafraseando as palavas de Lênin, é uma marca da nossa história. Não seremos nunca uma Inglaterra ou os Estados Unidos da América, pois nossa trajetória é totalmente diferente, tentar implantar essas ideologias que hoje são tidas como ciência exata, é cair no Idealismo. Precisamos partir do Brasil Real e dos seus reais problemas. O brasileiro quer emprego e melhores serviços públicos. Não deseja ser jogado no mundo desagregador do mercado à sua própria sorte.

Urge retomar a agenda progressista, implementar um grande projeto de desenvolvimento nacional com investimentos pesados em ciência, tecnologia e educação pública, combinado com projetos de distribuição de renda.

Mas Bolsonaro vai no caminho contrário.

Ao invés de se preocupar com o Brasil Real, joga uma cortina de fumaça com um plano de governo cheio de imprecisões (leia aqui) e se concentra no combate a um inimigo imaginário, a ameaça comunista, e outras pautas imaginosas, como o inexistente Kit Gay e a Escola Sem Partido.

O Brasil não é para amadores. Precisamos de um estadista que seja capaz de pôr em prática o que de melhor há no liberalismo progressista e no socialismo democrático. Não é com frases de efeito ou surfando na rejeição de um Partido fracassado que nosso presidente vai conseguir isso.

O Fim do Consenso?

rede-interativapol-1024x506.pngNão há dúvidas de que o debate político nos últimos anos sofreu uma mudança considerável. Se quisessem ganhar os candidatos precisavam moderar seus discursos para situarem-se no centro do espectro político. Não havia espaços para radicalização, que ficava restrita aos pequenos partidos ideológicos. Se uma chapa desejasse vencer deveria conciliar.

Era o que se considerava como pragmatismo político, sempre transigir para aglutinar tanto os eleitores médios, que não são muito de esquerda ou de direita, quanto as forças politicas de centro; ganhava-se a eleição ao mesmo tempo em que garantia-se maioria no congresso para governar.

As razões para esse modelo ter sido hegemônico dentro da democracia liberal se deve a duas razões. Primeiro, o fim do Socialismo Real, que acabou com qualquer alternativa situada fora do liberalismo; segundo, o enfraquecimento do Estado de bem-estar e o desenvolvimento da globalização, onde o predomínio dos grandes fluxos de capital global retirou o poder do Estado de propor movimentos de economia politica que não estivessem atrelados à solidariedade global.

Isso acabou criando um cenário, a partir de década de noventa, de hegemonia da democracia liberal e da ideia de que havia um consenso a respeito do que deveria ser feito na economia politica do século XXI.

Contudo, vemos nos últimos anos uma polarização nos debates políticos e a emergência de uma extrema direita nacionalista, como nos EUA, Brasil e Europa. Isso sinaliza que o velho modelo consensual parece estar em decadência ou, pelo menos, em crise.

Mas quais as razões disso?

O canal Meteoro Brasil, publicou um vídeo em que apresenta uma interessante analise sobre o processo (veja aqui). Antes, a disputa politica tinha nas grandes mídias tradicionais suas únicas mediadoras. Para expor suas ideias e conquistar seus eleitores, os candidatos precisavam conquistar a simpatia destes atores sociais, pois eram eles quem filtravam as mensagens politicas e tinham o monopólio da comunicação.

Agora, contudo, esse monopólio foi desarticulado pelo surgimento das redes socais. Não é mais preciso passar pelas grandes corporações midiáticas para chegar ao eleitor, agora o Twitter, Facebook, Instagran ou Whatsapp podem fazer o mesmo. Chegando diretamente às pessoas, é preciso ter uma estratégia para chamar atenção dentro do caos que são as mensagens e propagandas das redes virtuais. A melhor maneira para conseguir isto é saindo do discurso legitimamente aceito e partir para uma linguagem que tenha maior impacto sobre as pessoas; o discurso que mais chama atenção, tanto para o bem quanto para mal, é o discurso polarizado, situado fora da zona de legitimação. Deste modo, os candidatos passam a usar de estratégias para conquistar o eleitor com discursos extremos, muitas vezes xenófobos, machistas e racistas, que desafiam a inteligência de qualquer pessoa com o mínimo de bom senso.

A resposta do canal Meteoro Brasil apenas responde em parte a emergência da extrema direita e seu discurso polarizado. A resposta completa não está apenas no surgimento das redes sociais ou de estratégias de marketing para chamar atenção. É preciso analisar a questão tanto a nível global quanto a nível nacional. Do ponto de vista global, a emergência do mercado globalizado como instância privilegiada do social, e o consequente esvaziamento da capacidade de manobra dos Estados Nacionais, não foi capaz de responder integralmente às demandas sociais, como redes de proteção aos desfavorecidos, correção das desigualdades sociais, geração do pleno emprego, estabilidade social para ampla parcela da população e menos corrupção na política. Nacionalmente, nossa democracia, nascida tardiamente com a Nova República e a Constituição de 1988, se coloca dentro deste contexto. A demanda dos trabalhadores e trabalhadoras sempre foi por melhores serviços públicos e por uma maior transparência nas instituições representativas.

Essas contradições, contudo, não foram resolvidas. Mas apenas potencializadas por uma estrutura emperrada, distante da população e tomada por interesses econômicos escusos. Diante da descrença no modelo tradicional e conciliatório de fazer politica, o discurso e práticas polarizadas ganham terreno, principalmente se eles apresentarem soluções fáceis para problemas difíceis, como é o caso da candidatura de extrema direita atual.

O discurso extremo não nasce apenas pelo surgimento das redes sociais, mas de um contexto onde se torne fértil seu florescimento.

José Murilo de Carvalho, em entrevista à BBC Brasil (leia aqui), afirmou que a força dessa direita autoritária está diretamente relacionada ao fracasso do modelo politico ocidental em dar respostas concretas às demandas dos cidadãos como, por exemplo, criar uma saída para nossa crise econômica.

Mas que isso, conforme assinala Bruno Carvalho, em artigo na Revista Piauí, que fora parcialmente reproduzido na reportagem da BBC:

“Vivemos uma crise epistemológica que ainda não temos como entender bem. Continuamos a pagar a conta por erros históricos como processos abolicionistas incompletos e racismo entranhado nas instituições. O fato de o eleitorado mais de direita optar por um radical, ao invés de outros candidatos da direita mais comprometidos com a democracia, indica uma necessidade urgente de autocrítica entre elites conservadoras e liberais”

Essa crise epistemológica, simbólica e social coincide com os limites da modernização brasileira, sua dependência dentro de um mundo cada vez mais interligado, de uma democracia liberal apartada das demandas populares e que não conseguiu resolver os problemas mais urgentes do Brasil.

De 2013 ao Momento Atual.

Normalmente se considera erroneamente que as Jornadas de Junho ocorreram de maneira espontânea, como um basta dos cidadãos brasileiros diante da corrupção. Mas o que essa visão oficial do acontecimento não leva em conta é o aumento gradativo de greves e de manifestações que ocorreram poucos anos antes de 2013. Basta lembrar que em 2012 o governo federal teve de enfrentar uma das maiores greves das Universidades Federais, bem como o grande número de ocupações e protestos..

As pautas eram absolutamente legitimas: contra a corrupção e má qualidade dos serviços públicos. Era o momento correto para guinada à esquerda e apostar numa agenda progressista e de investimentos na máquina pública.

Mas a postura dos nossos políticos diante dos acontecimentos não poderia ser mais mesquinha; partidários do governo federal tentando culpar a oposição e vice-versa. Em vez de procurarem compreender o que aconteceu, nossos lideres resolveram jogar a responsabilidade uns nos colos dos outros com a finalidade de lucrar alguns e votos e tirar outros tantos dos adversários.

A política tradicional se tornara incapaz de acolher as demandas do Brasil Real.

Somado a essa distorção de representação, cujo embrião já estava presente na fundação da Nova República, vieram a crise econômica, as denúncias de corrupção de um bloco governista com mais de dez anos no poder, cuja rejeição aumentava gradativamente, e a consequente repulsa das ideias progressistas, que eram, e ainda são, identificadas diretamente ao Partido dos Trabalhadores. A oposição de direita conseguiu o feito de tanto desacreditar seu opositor quanto suas ideias, mesmo que, na verdade, a vanguarda do PT tenha jogado no lixo quase todo o seu programa histórico, extremamente progressista, para se contentar com a governabilidade — transformando o partido uma espécie de MDB com base social.

Diante deste vácuo, a população média passou a procurar uma solução para a questão política que estivesse fora dela. Em outras palavras, um demagogo, que se mostrasse como não político, embora não o fosse, desse soluções fáceis para problemas difíceis e se imbuísse de uma postura de salvador do Brasil, uma espécie de São Sebastião brasileiro. Já em 2016 a possibilidade de uma solução autoritária parecia cade muito alta, conforme escrevi aqui

Não demoraria para que aparecesse esse demagogo, oportunista e despreparado que tentasse se aproveitar da crise atual. Assim, o PSDB perdeu o lugar de congregador da direita brasileira e cedeu lugar a este líder carismático que estava aos poucos cultivando sua imagem de Jesus Cristo desde 2011.

O avanço de grupos de regressistas, os fracassos e os erros do Partido dos Trabalhadores, os equívocos dos grupos progressistas, que muitas vezes se esquivavam de criticar ou foram cooptados pelo PT, a recessão econômica, criada em parte pela incapacidade do Governo de 2010 e 2014 em lidar com a crise e em parte pelos influxos do capitalismo mundo, tornaram a situação perfeito para este novo líder que apenas acena para soluções simples para problemas complexos.

Agora colhemos os frutos disso. Resta a nós, progressistas, trabalhadores, índios e quilombolas, resistir à farsa autoritária.

A Onda Conservadora e a Grande Arte

Milton Hatoum

Em que tempo me tocou viver”, desabafou Flaubert numa das cartas de sua prolixa correspondência.

Em 1857, o procurador-geral do imperador Napoleão III leu na Revue de Paris alguns trechos do romance “Madame Bovary” e considerou-os “uma mistura de coisas sagradas e profanas, um ultraje à moral pública e à religião”.

Naquele mesmo ano, o poeta Charles Baudelaire também foi processado pela publicação de “As flores do mal”. As acusações do procurador do Segundo Reinado batiam na mesma e velha tecla: ofensa à moral e à religião. Os dois livros, traduzidos em dezenas de línguas, tornaram-se clássicos da literatura universal. Já o advogado de Napoleão III entrou para a pequena história como mais um censor ridículo, autor de uma peça de acusação que um crítico francês chamou de “monumento de idiotice e má-fé”.

Em nossa caricata democracia – reinado da desfaçatez –, a censura a obras de arte e a ameaça a artistas voltaram com outros nomes e máscaras. Neste tempo temeroso de Trump e de tantas torpezas e “tonterías”, um grupo de moralistas interrompeu uma exposição de arte em Porto Alegre e, poucos dias depois, outro grupo (ou será o mesmo?) bradou contra a performance de um artista no MAM em São Paulo.

A exposição “Histórias da sexualidade” (MASP) foi proibida para menores de 18 anos, mesmo acompanhados pelos pais. Essa decisão “edificante”, verdadeira lição de educação moral e cívica, ajudou a promover a exposição. Mas é uma pena que jovens, mesmo de mãos dadas com papai e mamãe, sejam proibidos de ver pinturas de Degas, Picasso, Francis Bacon e de vários artistas brasileiros, para aprender e refletir sobre a nossa história. O que esses artistas diriam de uma proibição que, 160 anos depois, parece repetir as palavras censórias do procurador de Napoleão III?

Em qualquer sociedade as manifestações artísticas são constitutivas da nossa humanidade. Todos sabem que na internet e na tevê há inúmeras cenas e palavras de extrema violência, pornografia e obscenidade gratuitas, nada artísticas, a qualquer hora do dia ou da noite. E que crianças e adolescentes podem, à revelia dos pais, ter acesso ao horror das redes sociais, onde justamente energúmenos como os do “movimento bobagem livre” exercem seu poder obscurantista.

Numa recente audiência na Câmara das comissões de Cultura e Segurança Pública, o sinistro deputado Givaldo Carimbão (PHS-AL) insultou a mãe (já falecida) do ministro da Cultura. Os insultos são de uma baixeza inominável. Isto, sim, devia ser proibido, pois é uma incitação ao ódio e uma agressão moral das mais graves, difícil de explicar aos nossos filhos. Mas os congressistas podem tudo, podem até mesmo fazer loas ao estupro e à tortura, num país em que a sociedade civil não tem mais a quem recorrer, visto que até os membros do Supremo já jogaram a toalha.

Uma crescente onda moralizante talvez seja uma das peças publicitárias mais fortes nas próximas eleições presidenciais.

Não é de estranhar que num país conservador, onde um prefeito “administra” uma metrópole com a bíblia e orações, esse moralismo atraia rebanhos de eleitores ultraconservadores, ou fiéis ao ultraconservadorismo. Soma-se a isso uma patriotada de cunho racista e xenófobo numa sociedade ao mesmo tempo ferida e entorpecida.

Nos Estados Unidos e em vários países da Europa também cresce um tipo de nacionalismo obscuro e perigosíssimo. Grupos fascistas e neonazistas sentem-se à vontade para agir e propagar essa onda de terror racista, uma onda que começa com a censura, com o cerco à expressão artística, com a perseguição às minorias.

O que virá depois de tanta hipocrisia e intolerância?

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Crônica publicada no Caderno 2 [Estadão] e Segundo Caderno [O Globo]. 3/11/2017

O que virá depois da crise?

0DilmaCriseNum artigo que escrevi, Ascensão e Decadência da Nova República, argumentei que nossa República entrou em declínio por sua incapacidade de resolver os problemas estruturais da sociedade. Refém da conciliação, um dos principais traços do nosso conservadorismo, ela apaziguava questões que mereciam enfrentamento. O resultado não foi outro, senão seu esgotamento, depois de pouco mais de trinta anos.

Era óbvio que nosso sistema político já guardava, em seu nascimento, os germes que o destruiriam: a corrupção, a desigualdade, a falta de transparência e etc… O que vemos hoje não é um governo que está desmoronando por ser mais corrupto que os outros, mas um governo que se perdeu porque adotou todas as distorções do sistema e, agora, convalesce junto com ele.

As manifestações que estão ocorrendo agora são o resultado da anomia de um sistema em estágio terminal, cujos últimos estertores se traduzem em desordem, morte, opressão e desespero. Mas o pior de tudo é que, enquanto o velho morre, não vemos o novo nascendo, é como se não existissem novas alternativas para ficar no lugar daquele que convalesce, é como se fossemos incapazes de erguer algo mais estável para ficar em seu lugar. O resultado, então, é o fascismo, já dizia Gramsci. Os homens se apegam às fórmulas do passado, clamam pela volta da ditadura; bradam que a solução estaria na retirada de direitos políticos e sociais; dizem que era melhor quando não tinham que opinar, quando não tinham que pensar; enquanto isso, mandavam para o cadafalso índios, quilombolas e opositores políticos. A metáfora do Grande Inquisidor, de Dostoiévski, nunca esteve tão atual: os homens preferem a segurança à liberdade.

Quando desordem e o fascismo aumentam, o mercado, aqueles que realmente mandam nas democracias liberais, se reúnem com grupos pró-impeachment (Leia aqui). O Capital, logo que percebe ser o grupo político no poder incapaz de manter a paz social, não fica com outra alternativa a não ser a de destituí-lo.

Fica a pergunta: Quem estaria em condições de assumir? Mas, se quisermos ir na raiz do problema, devemos refazê-la da seguinte forma: Quem pode dar a paz social necessária para o capital voltar a se reproduzir no país?

Arrisco dizer que, num primeiro momento, veremos uma sucessão de subidas e quedas de diversos atores políticos, para, só então, termos a saída definitiva, um governo autoritário pela direita, pois nossas instituições estão frágeis demais para lidar com essa contradição e nossa oposição tradicional também está tão suja quanto o governo. Quando todos estão descrédito na politica institucional, as chances de surgir um líder demagogo, capaz de capitalizar a revolta social a partir da direita, não é impossível. A saída autoritária é uma alternativa possível num contexto de descrédito das instituições, de personalismo excessivo e de crise econômica; também é viável numa nação cuja valorização do executivo, aliado a um autoritarismo extremo, sempre caracterizou sua história política e social.

Quanto à esquerda e aos trabalhadores, cabem a eles se organizarem como força independente e se prepararem para, pelo menos, quinze anos de recrudescimento conservador.