The King: Uma Narrativa Pesadelo.

filmes que nos surpreendem, outros, que nos emocionam; há ainda aqueles que suas histórias nos desperta repulsa, ódio, medo, riso… Contudo, há uma pequena parcela de películas capazes de nos insuflar sentimentos como angústia, dor e revolta, sem nem mesmo tratarem de temas como guerras, monstros, zumbis e histórias de terror em geral.

A habilidade destes filmes em criar esses sentimentos sem, contudo, usar temas diretamente nojentos ou obscuros, consiste na habilidade do diretor e roteirista em manejar de maneira original a história.

O filme The King, dirigido por James Marsh é um destes exemplos.

 A história deste filme é muito simples, Elvis Valderez  (Gael García Bernal) é um jovem desequilibrado que é dispensado da marinha. Sem ter para onde ir, o agora ex-militar resolve sair em busca de suas raízes e vai até a cidade de Corpus Christi, no sul dos Estados Unidos onde, segundo sua mãe, uma prostituta mexicana já falecida, seria o lugar onde poderia encontrar seu pai.

Chegando na cidade, o protagonista descobre que o seu genitor é um pastor conservador chamado David Sandow (William Hurt). Quando Elvis se apresenta para homem, este o renega dizendo que agora é um homem de Deus e que seu passado não importa mais.

 Até ai tudo bem. Para o telespectador desavisado o filme pode parecer mais uma pequena trama digna de uma telenovela da Vênus Prateada, com todos os seus clichês sobre o assunto e com um final feliz falando da importância da redenção, do perdão, do amor e da família.

Mas em The King não há perdão, redenção ou amor e nem a salvação da família nuclear burguesa. O filme é dono de uma atmosfera opressiva e angustiante, como se os personagens tivessem sido jogados numa sala com grossas paredes que a cada minuto ficam cada vez mais próximas. O momento em que as paredes da sala esmagarão os prisioneiros é apenas questão de tempo, pois, assim como nos pesadelos, a trama só tende a ficar pior, sem qualquer concessão aos nervos daquele que sonha.

Temas como incesto, assassinato, mentiras, remorso, ambição e religião são postos de maneira franca e direta. Na tentativa de fazer parte da família, Elvis consegue ter um caso com a filha mais nova (Pell James) do pastor, sua meia irmã, assassina seu meio irmão (Paul Dano) e, penetrando como um câncer na família do pastor, consegue abalar por completo toda uma comunidade.

 O filme pode ser classificado como a tragédia do filho bastardo, ou uma parábola ás avessas do filho pródigo que volta em busca das origens e acaba, por sua personalidade doentia, destruindo completamente a família da qual imagina fazer parte. Ele também pode ser analisado nos termos de uma metáfora da reflexividade; do eterno retorno, das forças do devir que sempre voltam para cobrar seu preço; dos resultados imprevistos de nossas ações ou, simplesmente, do velho adágio popular: aqui se faz aqui se paga.

Os acontecimentos vão se desdobrando como num pesadelo. A angústia vai atingindo seu clímax num final surpreendente, digno de uma peça escrita por Shakespeare, onde o futuro reservado aos personagens sempre é frio, cinzento ou trágico.

O filme não é nenhuma obra – prima e nem ficou muito famoso quando foi lançado. Mas a trama bem construída e o tratamento dada aos personagens e à temática faz com que ele seja uma peça cult.

The King é uma película recomendada para quem gosta de filmes diretos e sem concessão. È uma narrativa pesadelo.

Para ver o Trailer clique aqui.

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Um Mero Caça Níquel

Lula: o filho do Brasil é uma das maiores barrigas da historia do cinema brasileiro e uma prova de que um orçamento gigantesco não é uma condição determinante para a qualidade das produções.

Luis Barreto perdeu uma boa oportunidade de fazer um estudo, tomando a trajetória da vida de Lula como tipo ideal, sobre o fenômeno da migração Nordeste-Sudeste e suas implicações para a vida social brasileira, como estes migrantes, que em sua terra natal eram pequenos agricultores, expulsos de suas propriedades em virtude da falência do modo de produção tradicional, atraídos para as grandes capitais, fruto de um modelo de desenvolvimento autoritário modernizante adotado a partir de 1964 e caracterizado por uma industrialização concentradora de renda e dependente; Barreto também perdeu a chance de mostrar como estes mesmos migrantes, no processo de expropriação/proletarização, se organizam contra a tirania do capital e pautam seu método de resistência a partir da práxis cotidiana — trocando em miúdos, o diretor roteirista poderia ter feito um verdadeiro épico brasileiro, a partir da marcha de milhares de homens e mulheres que singraram para todas as regiões brasileiras e deram esta conformação atual para o Brasil.

Infelizmente foi uma chance perdida. Barreto reduziu a espetacular historia do presidente operário a um capitulo estendido de novela das oito, com todos os chavões e clichês que o gênero precisa ter para agradar as mentalidades mais rasas que fazem parte de sua audiência. Além disso, o endeusamento do futuro presidente é tal, que chega mesmo a dar a impressão de tentar-se compará-lo ao messias, tirando qualquer possibilidade de representar Luis Inácio da forma com realmente é: um líder repleto de contradições.

As deficiências do roteiro são dezenas. Num certo momento, quando Lula pede em casamento sua primeira mulher, esta lhe responde: “Se tu morrer eu te mato” (!). Também há outras perolas que se eu decidisse transcrevê-las aqui encheriam a página. O filme possui várias cenas descoladas, sem qualquer ligação que permita perceber sua contribuição para o andamento da narrativa, como aquela em que Lula, já um jovem operário, chega bêbado em sua casa e sua mãe, interpretada de maneira convincente por Gloria Pires, lhe diz: “Primeiro a obrigação, depois a distração.” Outra cena mal feita foi a do momento em que Luis Inácio perde o dedo, parecia mesmo que o diretor a colocou de qualquer maneira no decorrer do filme, como se durante a edição final, esquecendo de contar este fato, fizesse um recorte preguiçoso para sanar a carência.

Parece constrangedor um filme que teve 16 milhões em seu orçamento contar com tanta pobreza de meios para sua realização. Um dos momentos em que isso fica latente é a cena da greve do ABC, que contava com 180 mil grevistas (embora ele acerte em parte mostrando o momento em que os ; com uma verba deste tamanho bem que o diretor deveria ter representado aquele momento histórico de proporções homéricas dando-lhe a devida magnitude, mas ao invés disso ele apela para imagens da época, como se tentasse economizar dinheiro, frustrando a expectativa de quem esperava uma representação grandiosa do fato — se a intenção era proporcionar mais realismo, o máximo que conseguiu foi colocar o espectador para fora do filme.

Entretanto, Lula: o filho do Brasil não se resume apenas a erros. A primeira parte da narrativa, retratando a vinda do futuro presidente para a capital é bem convincente, assim como a representação de sua sofrida infância, em que já mostrava carisma no trato com as pessoas: quando ele e seu irmão estão vendendo laranja, e não conseguem nenhum freguês, Luis Inácio pega uma fruta e aborda uma senhora, dizendo-lhe:

“Olha senhora, esta é a laranja mais gostosa de São Paulo, eu separei uma especialmente pra senhora.”

“Mas que menino bonitinho! Vou comprar a laranja…”

O ator que interpretou Lula na fase adulta, Rui Ricardo Dias, também dá conta do recado, reproduzindo de maneira convincente, apesar da direção ingrata, a entonação de voz e os trejeitos de seu personagem — note a forma quase idêntica como ele gesticula nas cenas de comício.

Uma das criticas mais infelizes contra a produção, feita por órgãos da imprensa a direita do espectro político, é a de que esta funcionaria como um veículo eleitoreiro. Pura estupidez. Se estes panfletos neofacistas tivessem o mínimo de honestidade intelectual, perceberiam que o filme não faz nenhuma menção direta ao PT ou a pré-candidata á presidência Dilma Roussef; a película termina exatamente quando Lula é preso no final da década de 1970, vitimado pela ação energética do presidente João Batista Figueiredo, que tentava sufocar a greve dos operários do ABC.

Rui Ricardo Dias e Glória Pires

Como a necessidade de ganhar dinheiro imediato foi grande demais, Barreto adaptou o filme as mentes mais estreitas, acostumadas aos dramas pastelões que se reproduzem desgraçadamente em nossas televisões. Se não tivesse feito qualquer concessão a mediocridade e realizado uma produção cult, teria auferido para a projeto alguns prêmios, tanto nacionais quando internacionais e, por conseqüência, levado bem mais que os poucos milhões arrecadados com o rendimento mediano de seu filme nas bilheterias nacionais.

O diretor Luis Barreto transformou Lula: o filho do Brasil num mero caça níquel — e como tal será completamente esquecido daqui há alguns anos.

Avatar e a Antropologia

Muito mais que um filme de ação repleto de incríveis efeitos especiais, Avatar trás uma bela reflexão sobre o choque de culturas decorrente da expansão da ordem social moderna e suas terríveis conseqüências para as sociedades tradicionais.

Passando-se no ano de 2156, o filme tem como pano de fundo a exploração de um planeta chamado Pandora, com incríveis belezas naturais e habitado por um povo chamado de Na’vi — humanóides azuis de membros longos que vivem em harmonia com o seu habitat. Uma poderosa empresa privada tem a primazia da exploração do território conquistado, que contém um valioso minério. Contudo, a maior reserva já encontrada deste inestimável mineral está localizada exatamente sob o território da comunidade nativa. Assim, é enviado um grupo de cientistas conectados a avatares idênticos aos nativos, artificialmente criados, para interagir com os alienígenas e fazê-los sair pacificamente de suas terras. O problema está no fato de que para os nativos, o local onde vivem possui um valor religioso, pois ali é supostamente a morada da sua deusa, Eywa.

O soldado Jake Sully, designado para acompanhar a equipe de cientistas, perde-se de seu crew durante uma expedição e acaba entrando em contato com os Na’vi. A partir daí ele vai conhecendo o seu modo de vida, o que precisa aprender para viver em comunidade e os rituais de iniciação para tornar-se um guerreiro. Sully se encanta com os nativos e percebe o niilismo da sua própria vida, como um paraplégico sem qualquer perspectiva no mundo civilizado — ao começa a se questionar se antes sua vida era apenas uma mentira e, agora, diante da simplicidade e beleza da comunidade Na’vi, acredita ter finalmente encontrado a verdade.

Com o roteiro muito similar aos filmes como Dança com Lobos e O Ultimo Samurai, em alguns momentos chega a lembrar Matrix, o longa mostra de maneira extremamente realista o modo de vida do povo de Pandora. Claramente inspirado nos povos tradicionais, mas precisamente nos indígenas americanos, com sua cosmogonia totalmente subordinada as leis da natureza, produzem sem a intenção de gerar excedente; possuem ainda uma organização política dividida entre os guerreiros, o chefe e o líder espiritual (não haveria entre eles a dominação carismática e tradicional, detectada por Florestan Fernandes ao estudar os Tupi?); a diferenciação dos indivíduos ainda é muito tênue, o nível de divisão social do trabalho quase não se faz notar, deixando entrever que entre eles é predominante relações de solidariedade mecânica; entendemos a solidariedade, conceito criado por Emile Durkheim, como o substrato que matem a coesão dos homens na vida social — a solidariedade mecânica ocorreria quando os indivíduos, pouco se diferenciando entre si, com um sistema de crenças e sentimentos comuns são, portanto, ligados diretamente a sociedade, sem qualquer instituição que os intermediasse; neste tipo de solidariedade os indivíduos não se pertencem, eles pertencem a sociedade…

Avatar mostra diversos personagens e seus respectivos olhares para o processo de contato entre humanos os habitantes de Pandora. Como da pesquisadora Grace, um misto de antropóloga e bióloga, que possui um interesse quase que totalmente cientifico pelos nativos. Ao usar avatares para deles se aproximarem, está na verdade usando o clássico método da Observação Participante criado pelo celebre antropólogo Bronisław Kasper Malinowski (1884-1942), que consiste basicamente em ser, sentir e participar das atividades da comunidade como faz o nativo, pois só assim o estudioso poderia chegar o mais perto possível da cultura em questão. Grace possui uma imagem muito próxima dos primeiros antropólogos do começo do século XX, cientistas que, indo estudar os povos das terras conquistadas do Império, teriam seus trabalhos usados para amansar povos rebelados ou propiciar instrumentos para impedir que novas rebeliões ocorressem. Um dos exemplos mais clássicos de etnografias usadas como instrumentos de políticas imperialistas é Evans Pritchard, que estudou o povo Nuer, do Sudão — atualmente o governo americano tem lançado mão de antropólogos para mediar a relação entre militares e iraquianos. O sociólogo Guerreiro Ramos (1925-1982) explicita bem este caráter escuso da antropologia:

De modo geral, a antropologia européia e norte americana tem sido, em larga margem, uma racionalização ou despimento da espoliação colonial. Este fato marca nitidamente o seu inicio, pois ela começou fazendo dos povos primitivos o seu material de estudo.

Os personagens do Coronel Quaritch e do executivo da empresa, encarnam o arquétipo do militarismo imperialista e da faceta perversa do capitalista que procura a todo custo expandir seus negócios e seus lucros. Preconceituosos e intolerantes para com um povo de uma matriz cultural diferente, apenas enxergam os nativos como um obstáculo aos seus empreendimentos. A cena mais representativa disso é quando a cientista Grace, argumentando para evitar o desmatamento de uma grande área de mata, diz ao executivo que as mesmas tinham criado uma espécie de conexão neurológica entre elas, como se fossem um grande cérebro, e acaba recebendo como resposta: “O que vocês fumaram para inventar isso? São apenas árvores!”

Quando um ataque de hordas de Na’vi contra as instalações dos humanos torna-se iminente, o Coronel Quaritch, discursando para seus soldados sobre o perigo, usa termos muito semelhantes ao da exrema direita americana na época da invasão do Iraque: “Vamos combater terror contra terror” e no fim de sua fala debocha das crenças nativas.

São seres desnecessários para a historia e para o progresso da humanidade — muito lembrando a célebre obra Fausto, de Goethe. O seu personagem principal, que dá nome ao livro, está pondo em marcha um dos seus maiores empreendimentos e de repente se depara com um empecilho: uma pequena e velha casa está justamente no meio do terreno onde será o erguido o projeto. Fausto, então, visita seus moradores, um casal de velhos chamado Filemo e Báucia, e lhes oferece uma polpuda quantia para comprar a habitação. Os dois anciões, que tinham naquela velha residência um forte laço afetivo, recusam a oferta. Fausto, sentindo-se ultrajado, chama Mefistófeles e seus homens e ordena que os velhos sejam removidos o mais rápido possível. Não se importa em saber como será feito, apenas deseja que o “problema” seja resolvido da maneira mais ligeira. No outro dia Mefistófeles retorna, dizendo que a casa foi incendiada e os velhos mortos. Marshall Berman exemplifica muito bem esse tipo de atitude: “Isso é um estilo de maldade caracteristicamente moderno: indireto, impessoal, mediado por complexas organizações e funções institucionais.” Qualquer semelhança entre a as aspas de Berman e as arbitrariedades que a empresa Log-in lançou mão para aprovar o Porto das Lajes não é coincidência…

Ainda segundo o autor de Aventuras no Marxismo, os nativos de Pandora são uma ótima representação daquele grupo de pessoas que terão vasta repercussão na ordem social moderna: aquelas que estão no caminho da historia e do progresso. São pessoas completamente obsoletas para este Carro de Jangrená chamado modernidade — estes indivíduos, comunidades, culturas ou sociedades, por sua incapacidade de adequarem-se ao novo sistema, são irremediavelmente descartados.

O antropólogo Bronisław Kasper Malinowski: criador da Observação Participante

O sofrimento que os Na’vi experimentam ao verem suas florestas queimadas, seus lares destruídos, sua cultura e tudo naquilo que mais acreditam sendo desmanchado lembra o flagelo que as populações indígenas sofreram, e ainda sofrem, com o processo de contato com os ditos civilizados — resultando num verdadeiro genocídio para os povos tradicionais. Entretanto, como mostra o filme, mesmo de forma estilizada, o processo de contato não ocorre com a total passividade do lado mais fraco. Muitas vezes a etnia ou a sociedade reagem a tal processo, seja aprendendo os mecanismos da cultura do branco e usando-a como meio de reivindicação por melhores condições ou como protesto por abusos sofridos, como tem ocorrido na atualidade, Marshall Sahlins chama isso de autoconsciência cultural; seja com o embate direto, como em coligações militares como a do Rio Negro liderada pelo grande Ajuricaba nos anos de colonização de Amazônia. Infelizmente, no filme este processo é enfocado de maneira completamente preconceituosa, colocando um “branco” para organizar o exercito nativo — o diretor roteirista James Cameron deixa escapar a visão que eles são incapazes de se auto-organizarem e lutar pela sua pátria.

Não se sabe se Cameron leu Durkhiem, Malinowski ou Sahlins, mas por detrás das deficiências do roteiro e dos impressionantes efeitos especiais, o filme pode ser uma boa fonte de debates, se assistido com um olhar correto, a respeito do lugar das sociedades tradicionais no mundo moderno, das nefastas conseqüências da situação de contato ou do nosso modelo de civilização — insustentável do ponto de vista ambiental e implacável para com os mais fracos.

Blindness: uma obra prima injustiçada

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”
Livro dos Conselhos

Quando o filme Blindness foi lançado em 2008, uma adaptação do livro Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago, muitas foram as criticas negativas que foram dirigidas contra ele.

Sempre dizem que um grande livro nem sempre é um grande filme. Felizmente, ao contrario das opiniões injustas, isso não se aplica a este mais recente projeto de Fernando Meireles, que já provara a sua competência em produções como Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel. O filme reproduz toda a grandeza da obra prima do escritor luso — uma grande critica á distopia da vida moderna, que nos mergulhara num grande oceano de cegueira e, agora, tão envolvidos em pré-conceitos e pré-noções, nos é impossível enxergar as pessoas como elas realmente são — e a única forma de sair deste auto-engano seria admitir nossa ligação inequívoca com o próximo e aceitá-lo como realmente é.

José Saramago inicia seu livro num dia comum de uma grande cidade de um país qualquer. Poderia ser Portugal, Estados Unidos, Inglaterra, França ou Brasil. Uma cegueira repentina envolve um homem que está parado no transito, para logo em seguida a treva branca se espalhar de maneira incontrolável por todo o país, mergulhando-o num verdadeiro caos. O narrador não dá nenhuma explicação para as razões que desencadearam a epidemia, fato que o aproxima da tradição do realismo fantástico e do absurdo iniciada por Franz Kafka. Deste modo, os cegos, postos em quarentena, são obrigados a desenvolver novas formas de sociabilidade, e enxergar coisas que estão além da superficialidade das aparências. O autor descreve, com uma quantidade de detalhes realmente impressionante, as novas relações com que os cegos vão tecendo entre si — como sempre somos brindados pela prosa elegante de Saramago, uma verdadeira aula de como escrever bem e com estilo, com inversões sintáticas e períodos longos e tortuosos.

O diretor também segue a tendência universalista do livro, reunindo atores das mais variadas nacionalidades e filmando em vários locais do mundo, um dos lugares usados nas filmagens foi o minhocão, em São Paulo. Os personagens, assim como no opúsculo, não são apresentados com seus respectivos nomes, mas a partir das suas profissões (como o médico interpretado por Mark Ruffalo), alguma característica marcante (o velho da venda preta vivido por Danny Glover) ou por alguma relação que lhe é marcante (a mulher do medico na pele de Julianne Moore) — uma forma clara de tentar realçar a maneira superficial como nós nos referimos àqueles que estão a nossa volta.

Meireles também representa de maneira convincente a decadência do centro de quarentena, com suas paredes e pisos ao se emporcalhando aos poucos, tomadas por toneladas de lixo, fezes e toda sorte de dejetos, assim como o estado da cidade depois de tomada pela treva branca, completamente dominada por dejetos e cegos perambulando pelas ruas como zumbis de filmes de terror.

A rotina no centro de quarentena mostra de forma perspicaz uma metáfora sobre a formação do Estado entre os homens. Dividido em câmaras, cada cego se identifica com o salão no qual dorme, quando são subitamente subjugadas por uma delas, a câmara numero 3, liderada pelo ex atendente de bar (interpretado por Gael García Bernal, o Che Guevara de Diário de Motocicleta). Munidos com um revolver e outras armas, os indivíduos da câmara 3 tomam a comida que outrora era repartida igualitariamente e avisam que só vão distribuí-la mediante pagamento de qualquer coisa de valor que os outros cegos possam lhes dar. Tal acontecimento lembra a tese da formação dos estados nacionais, desenvolvida por Max Weber: um grupo político se impõe aos demais, desarma-os e, mediante o privilegio do uso exclusivo da força, passa a cobrar tributos.

Uma das cenas que sem dúvida estava com grande expectativa para ver era a do estupro coletivo. Saramago descreveu este acontecimento com uma imparcialidade constrangedora, como se fosse mais uma cena do cotidiano — descrever cenas dramáticas da maneira mais normal e as cenas mais prosaicas com grande dramaticidade é um elegante recurso estilístico usado pela literatura contemporânea — Meireles, entretanto, pinta o estupro com tintas fortes, chocantes, sem nenhuma concessão; o resultado foi uma visão verdadeiramente infernal, e mostra a medida exata da barbárie dominante no centro de quarentena. A diferença entre o cineasta e o escritor está necessariamente numa questão de perspectiva; se o português mostra o estupro com a imparcialidade do narrador, Meireles parece tentar transmitir para quem assiste o nível de desespero e degradação daquelas mulheres.

Um dos pontos fracos, porém, está na maneira superficial como é tratada o romance existente entre o homem de venda preta e a mulher dos óculos escuros (Alice Braga), o livro mostra meticulosamente uma afinidade que vai surgindo aos poucos, para além da diferença de idade entre os dois, culminando de forma inteligente com o romance; também fica a desejar o personagem do próprio homem de tarja preta, pois na pena de Saramago ele alcança uma verdadeira atitude de agente catalisador das reflexões do livro. Seria este personagem o alter ego do escritor? No longa metragem, porém, ele não chega a ter uma importância secundária.

O Cineasta brasileiro Fernando Meireles e o escritor luso José Saramago
O Cineasta brasileiro Fernando Meireles e o escritor luso José Saramago

Mas existe um detalhe onde a adaptação consegue ser superior ao livro (os leitores mais ortodoxos que me perdoem), e ele está exatamente na forma de como é representado o Rei da câmara 3. Se no livro ele é simplesmente um vilão unidimensional que resolve com os seus asseclas tirar proveito da barbárie, em Blindness ele ganha uma postura muito mais humana, como quando o vemos trabalhando no bar antes de ser contaminado, imitando Steve Wonder logo depois de ter tomado o poder, num dos momentos mais engraçados da filmagem, ou simplesmente agindo como um verdadeiro político, quando o medico vem até a câmara 3 e pede ajuda para enterrar alguns corpos, e o líder responde que, em vez disso os seus colegas vão se alimentar.

Questionador e inteligente, Blindness nos pergunta como recuperar o afeto numa época de total desencantamento, em que os contatos entre os indivíduos são perpassados por relações puramente instrumentais, onde permanecemos alienados tanto de nós mesmos quando para os outros.

Somos ao terminar de assisti-lo, tomado pelo frêmito de tentar enxergar as coisas como elas realmente são, pois, como disse um dos personagens: “Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.”

Provavelmente o real valor deste filme só venha a ser percebido em anos vindouros, quando ele for agraciado, com todo o mérito, com o titulo de clássico.

Vingança contra o sistema

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O filme “V vingança”, baseado na historia em quadrinhos de mesmo nome, é uma dessas películas rebeldes e contestadoras que fazem frente a industria do cinema “enlatado” ou industrial. Por isso mesmo “V vingança” já encontra um lugar cativo entre os “filmes malditos” da história do cinema; os filmes rebeldes, transgressores, aqueles que nos fazem pensar se tudo o que vivemos não é uma torpe mentira, se não estamos sendo manipulados pelas grandes corporações econômicas e por governos tiranos e corruptos. Mas é isso mesmo que essa produção critica, uma condenação impiedosa às ditaduras, às sociedades pós-modernas, a forma antiética de praticar ciência e à concepção conservadora de que nós não somos sujeitos da historia, de que precisamos de alguém para nos proteger e governar.

Inicialmente era um romance ilustrado dos anos oitenta, feito para críticar o governo de Margareth Thacher, a Dama de Ferro. Mas como a filmagem fora realizada nos dias de hoje, o governante em questão se torna o Sr. Bush, um presidente com uma face teocrática e autoritária, justamente o que é mais criticado no longa-metragem.

A primeira cena de inicia-se com uma retrospecção da “Conspiração da Pólvora” do século XVIII, um homem havia tentado, em vão, explodir o parlamento inglês com vários quilos de dinamite, quando descoberto, sua sorte foi a mesma daqueles que atentam contra a dita “moral” e a pretensa “ordem” nos estados supostamente “democráticos”: foi condenado a morte. Em seguida a narradora faz uma deliciosa reflexão sobre o materialismo dialético de Marx com a dialética idealista de Hegel: as idéias não sentam dor, não amam, não choram, mas muita gente já morreu por elas. Logo há um salto no tempo até os dias atuais; o governo da Inglaterra, que havia se tornado em uma ditadura, desponta como a grande potência mundial. O despotismo inglês lança mão de uma poderosa propaganda ideológica, com aval dos grandes grupos de comunicação beneficiados pelo sistema, no qual funde-se religião e política, sendo que aquela acaba ratificando esta. Um fato muito semelhante ocorreu e ocorre nos Estados Unidos, a suposta “terra da liberdade”. O presidente Bush, a fim de justificar a invasão do Iraque, não só usou de artifícios de cunho geo político, a “ameaça terrorista” à democracia e a liberdade, como também havia prerrogativas religiosas em tal invasão, a cena em que um general do exército americano surge na TV e afirma que a guerra é contra Satã e em prol do cristianismo.

A produção demonstra como pode ser daninho à sociedade quando se extingue o direito a liberdade de expressão. O governo tornar-se arbitrário, o poder tornar-se um fim em si mesmo, as ditaduras carecem de sentido; uma sociedade onde as informações passam pelo rigoroso crivo da censura perde a capacidade autocrítica de diagnosticar seus problemas, quando uma escola se proíbe de exercer o senso critico, essencial para uma educação para a cidadania, as pessoas se tornam alheias aos problemas sociais, são fáceis de controlar, transformam-se em “rebanho de cordeirinhos” para os grandes, contentam-se com qualquer paliativo capaz de entorpecer suas mentes.

A sociedade Inglesa satisfazia-se exatamente com este estado de coisas, não ligavam para as medidas totalitárias do chanceler, coincidência ou não, deleitavam-se com programas de variedades fúteis e em viver suas vidas totalmente sem sentido, desde que não fossem incomodadas.

Triste fruto da modernidade este excesso de individualização, as pessoas tornam-se tão voltadas para si mesmas que não percebem a dor, as tristezas, o sofrimento do outro, tão imersas em suas necessidades mesquinhas de subir na vida a qualquer custo ou de resolver as suas picuinhas perdendo a sensibilidade com o que está á sua volta; o excesso de individualização transforma as pessoas em reféns de si mesmas…

O senso comum tira a ciência de seu contexto e afirma que ela está sempre a favor da humanidade, um equívoco. Em “V vingança” o governo faz testes ilegais e detestáveis em cobaias humanas com a fim de se desenvolver uma nova arma biológica, o próprio “V” fora um das cobaias; quando uma pessoa morria, não era problema, pois no complexo de testes o homem era destituído de seu caráter humano, para em seguida ser uma simples coisa que deve ser aproveitada para os fins científicos e, no final, descartada. Com essa passagem do filme enfoca a questão da falta de neutralidade da ciência, pois está sempre inserida em um contexto, e nem sempre é aplicada em prol da sociedade.

O herói “V” revolta-se contra a tirania e contra os terríveis testes a que fora submetido. Seu objetivo principal é a “revolução”, a destruição do parlamento, símbolo do despotismo, a o despertar da consciência critica dos ingleses. Como todo rebelde em um estado altamente coercitivo, “V” é taxado de terrorista e toda sorte de adjetivos para despertar a rejeição sociedade. Sua meta é fazer os cidadãos perceberem que são os agentes da história, portanto não precisavam de uma ditadura quando eles mesmos tinham a possibilidade de criar um governo popular e governar seus próprios rumos de suas vidas.

Mikhail Bakunin, em seu ótimo “Deus e o Estado”, afirma ser o homem possuidor de vários estágios de desenvolvimento humano: animalidade, pensamento e revolta. O terceiro estágio seria o mais avançado, pois concernia à liberdade; este último nível com o qual “V” lutava para os cidadãos ingleses alcançarem.

Um filme de conteúdo tão contestador não poderia passar imune pelas “lanças” dos conservadores. Veículos de comunicação mais reacionários criticaram o filme, como por exemplo o revista Veja que, por meio da jornalista de cinema Isabela Boscov, atacou fortemente o longa metragem e, em tom de ironia, nomeou-o com o titulo “B de besteira”, afirmando ser a produção defensora de terroristas. A matéria afirma ainda que as conquistas democráticas se devem unicamente ao triunfo do capitalismo, para a revista o fato de o diretor criar um file condenando o capital se deve à estrutura democrática do próprio sistema..

Mas uma produção tão rebelde não poderia deixar de ter seus méritos, e estes estão justamente na provocação que ele nos faz sobre a realidade: “Isto tudo realmente deveria ser assim?”, “Não poderemos mudar o sistema para algo mais justo e humano?” ou “Como mudar?”. São estas as perguntas que o herói “V” nos faz, ele deseja que questionemos a realidade social de nossa comunidade, de nosso país, de nosso mundo, ele anseia que nós entremos em revolta contra esta democracia disfarçada em tirania e criemos um novo governo que atenda os anseios do povo e não das grandes corporações multinacionais.

Agora fica uma pergunta: “Como criar este novo sistema?” Bravo.