A Modernização Conservadora e o Brasil Contemporâneo*

Acredito que uma das chaves para compreender o Brasil atual é retomar sua história politica e social, percebendo quais estruturas e práticas do passado ainda permanecem influentes e entram em choque com práticas modernas e progressistas.

Em outras palavras, lançar uma luz sobre a fricção social e politica entre aspectos atrasados e avançados da sociedade em mudança pode ser uma boa via para interpretação do Brasil.

Na esteira de estudar como processos arcaicos se mantém com formas modernas, José Maurício Domingues, no texto A Dialética da Modernização Conservadora e a Nova História do Brasil (2004), concentra-se em compreender teoricamente como se dá o fenômeno da modernização conservadora no Brasil. Seu ponto de partida é o dialogo com Barrington Moore Jr., para quem a entrada das sociedades na era moderna poderia ocorrer de três maneiras, pela via democrática, pela via socialista revolucionária ou pela via autoritária.

Pode-se compreender a modernização conservadora como, primeiramente, uma recusa da mudança das relações de trabalho rural, com os grandes proprietários mantendo o controle da força de trabalho. As elites agrárias forçariam a insipiente burguesia avessa aos processos de democratização a modernizar-se. Isso acarretaria na modernização sob a liderança e interesse das elites agrárias, mantendo o processo e as subjetividades coletivas sob o controle de um bloco autoritário.

No Brasil, os grandes agentes da modernização foram os grandes proprietários. A modernidade foi instalada entre nós paulatinamente sem que um dos seus principais aspectos, a liberdade, ganhasse muito espaço. Em todos os períodos de modernização nacional, que se deram por um viés conservador, era fundamental para a elite dirigente controlar os processos de desencaixe que transformariam os planos individuais e coletivos. Apesar do controle exercido pelas elites dos processos de modernização, houve consequências inesperadas no tecido social, “uma dialética virtuosa forçou seu caminho no curso da modernização conservadora” (DOMINGUES, 2004 p. 189). Os processos de desencaixe desencadearam mudanças radicais que escaparam do controle do bloco dirigente, ensejando cada vez mais liberdade em indivíduos e coletividades, mudando por completo as subjetividades coletivas.

O sucesso do programa de modernização pelo alto minou suas próprias bases. As duas ditaduras brasileiras do século XX sucumbiram, pois não conseguiram compreender e nem lidar com esse paradoxo das consequências, principalmente durante a segunda delas, onde o processo levou ao esgotamento do modelo que tomou o poder em 1964. A modernização foi tão longe em suas consequências que se tornou impossível controlar as subjetividades desencaixadas que se erigiram com o processo, nem mesmo lidar com as novas demandas que surgiam. Sem embargo, a civilização brasileira ficou tão complexa que o arranjo modernizante/conservador não conseguia mais dar conta. O resultado foi a democratização e a Constituição de 1988.

Domingues conclui que, apesar das desigualdades, o grau de liberdade e pluralidade das formas de vida no Brasil aumentou exponencialmente. Entretanto, a sociedade brasileira teria mais dificuldade de criar instituições que engendrassem a solidariedade social, resultando numa poliarquia distorcida, num individualismo predatório, numa grande fragmentação social e em baixa consciência de cidadania tanto individuais quanto coletivas.

A sociedade nacional congregou em seu âmago, mesmo em períodos de democracia formal, de caracteres modernos com traços arcaicos, ambos convivem tanto em complementação quanto em oposição. Nossa revolução burguesa sempre ocorreu tutelada por grupos de cima e sem a participação do povo. Assim, nossa democracia nunca integrou a totalidade da população, subsistindo padrões de exclusão ou em processos de extermínio cultural e étnico que permanecem por longos períodos: pobres, negros, indígenas e outras minorias. O que explicaria tal cenário seria a tendência de nossa sociedade a conciliação, um dos traços genéticos da nossa civilização, conforme relata Paulo Mercadante em A Consciência Conservadora no Brasil (1980). Isso explicaria porque nossa modernização sempre equilibre os antagonismos, isto é, sempre adote traços sociais avançados tendo que fazer concessões a praticas e grupos que representem o passado.

Nosso último período de democratização, a constituição de 1988 e a Nova República, apesar da grande participação e engajamento social, foi tutelada por grupos dirigentes da ditadura militar, resultado numa vitória política do chamado “centrão”, hoje personificado no PMDB e em outros partidos fisiológicos. Uma das consequências disso foi a gestação de uma poliarquia incapaz de completar o ciclo de solidariedade social, de liberdade e de igualdade. Mas isso não impediu que um maior adensamento das relações e pluralidade de modos de vida surgisse, acompanhando as mudanças que ocorriam a nível global. A vitória de Lula em 2002, seguida de um período de doze anos prosperidade econômica, amparados numa politica social democrata e numa grande conciliação entre as classes atestam o adensamento de nossa civilização que não poderiam mais ser liderada pelo velho esquema conservador que liderou o Brasil de 1929 a 1945 e 1964 a 1984.

O próprio esgotamento dessa política conciliatória é atestada por uma série de fatores, conforme escrevi em artigo anterior: pela fragilidade de uma economia baseada na exportação de commodities; pela publicização de esquemas de corrupção, investigados pelo Ministério Público e pela Polícia Federal, instituições que ganharam força pelo próprio governo Lula; uma mudança maior na subjetividade coletiva, que passou a cobrar mais transparência dos seus governantes e melhoria nos serviços públicos, como atestado nas Jornadas de Junho de 2013; o fim melancólico e traumático de mais de uma década de domínio do PT no executivo federal e a ascensão de um bloco governista basicamente liberal conservador, tendo como líder o PMDB, partido que nunca saiu efetivamente do poder, sendo ao longo dos anos o fiel da balança e o fator conciliatório de um ineficaz presidencialismo de coalização; a judicialização da politica e o fortalecimento do mandarinato jurídico tornam claros que a politica da grande conciliação de Lula chegou ao fim, bem como a capacidade reguladora da Nova República. É um paradoxo das consequências que tais fenômenos estejam tão intimamente ligados e que ele tenha ocorrido não durante um governo abertamente conservador, mas num governo liderado por um partido que, pela sua história, tinha compromisso maior com os setores mais desfavorecidos da população.

Me aproximo do diagnostico de proposto por Domingues e por Florestan Fernandes, este desenvolvido no artigo de Tatiana Gomes Martins: Mudança Social e desenvolvimento no pensamento de Florestan Fernandes nos anos 50 (2003). Nesse contexto de extrema desigualdade, heteronomia e fragmentação social, precisamos democratizar a democracia, nos termos do segundo, através de um processo de mudança provocada por mecanismos de planejamento democrático, que corrijam os descompassos históricos da nossa sociedade e levem os benefícios do desenvolvimento para toda a sociedade, especialmente para setores historicamente marginalizados; ou nos dizeres do primeiro, temos que criar instituições que de fato propiciem a solidariedade social, levando os valores de liberdade, igualdade e fraternidade as últimas consequências. Também precisamos pensar no valor da pluralidade e da tolerância a diferentes modos de vida como fundamentais para uma democracia plena que abarque minorias como negros, LGBT`s, imigrantes, indígenas e quilombolas e outros povos tradicionais.

Uma saída para isso seria a progressiva instituição de formas democráticas baseadas na democracia direta, isto é, na participação e na deliberação, cujo foco seriam as demandas do dia a dia e os problemas do cotidiano, mais próximos das condições dos cidadãos; e dotando de mais poder as experiências já existentes. Isso resultaria na fecundação de um espírito democrático, critico e ativo na população aproximando o poder do povo e devolvendo o poder à política. Assim, as experiências de participação, se bem dosadas e iniciadas ainda na escola e implementada intensiva e extensivamente nos bairros, podem render bons frutos a democracia brasileira, funcionando como uma escola de formação de líderes políticos, transformando a subjetividade coletiva e aumentando o coeficiente de cidadania.

Trata-se do desenvolvimento da virtude democrática e dos canais de expressão cidadã, valores que remontam à Grécia Antiga.

A única forma de conter essa anomia histórica é um movimento duplo e dialético entre sociedade e estado, reformando nossas instituições e incorporando uma maior participação direta dos cidadãos.

*Este artigo foi adaptado de um artigo acadêmico chamado Democracia, representação e participação no Brasil: antigos e novos dilemas de uma sociedade em mudança escrito para a disciplina Teorias Sociais do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UNESP/ARARAQUARA.

Anúncios

O Perigo de Acreditar em Soluções Fáceis

Ideias2Um dos maiores perigos, penso eu, nestes tempos em que atravessamos a Zona do Furacão, é a incrível capacidade da maioria das pessoas de acreditar em soluções fáceis, medidas que, tomadas de supetão, se transformariam numa quimera para nossas questões sociais, ou em profetas que trazem as respostas prontas para todos os problemas que atravessamos hoje.

Confesso que sempre desconfiei de respostas prontas para questões difíceis, ou daqueles que, apontando o dedo condenatório para tudo e para todos, se arvoram de uma autoridade messiânica que os fariam capazes de trazer o paraíso à terra. Nunca dei muito crédito para quem tivesse uma postura assim, seja conservador, socialista, liberal, comunista ou tradicionalista.

Nesses tempos difíceis que atravessamos, as instituições da Nova República e sua Constituição de 1988 estão desfalecendo diante das suas contradições e sendo postas a nu. Nossa Constituição funciona como uma espécie de tradição, como uma religião civil que concede a direção certa num mundo desencantado, num país que sentia a ressaca de vinte anos de abusos de período ditatorial. Nossas instituições, por sua vez, eram as guardiães dessa tradição civil, dessa vontade geral, desse texto sacrossanto a quem todos deviam obedecer, respeitar e seguir. As instituições e seus atores eram os zeladores desta convenção, cabia a eles sua aplicação e bom funcionamento.

O grande problema é que, com a Escuridão tomando conta de tudo, com o Furacão destruindo tudo e todos, ficamos desnorteados e incapazes de tomar qualquer direção. O que fazer quando aqueles deveriam zelar pelo contrato social e pela nossa tradição civil são os que mais os desprezam, os denigrem e os violam? O Vórtice da Desilusão, da revolta e da raiva toma conta de nós. Temos a sensação de estarmos vivendo uma farsa. Nossa sociedade se esfacela e entra em estado de anomia.

Então vemos aquilo que mais temíamos enquanto cidadãos acontecer. A Nova República está em plena decadência; o que é pior, não vemos algo novo nascer, não vemos a luz de um novo pacto erguer-se. Muito pelo contrário, vemos um corpo decrépito em seus últimos suspiros tornar-se um zumbi, um natimorto, uma monstruosidade social.

Tudo, é claro, articulado por políticos disfarçados de lobistas e por tecnocratas das instituições e do grande capital. Se depender deles teremos uma república zumbi com direitos sociais e políticos extremamente limitados.

Como afirmei acima, nossa falta de cultura politica nos tornam presas de demagogos e de impostores que nos seduzem com soluções fáceis para problemas difíceis. Isso decorre porque a sociedade brasileira é extremamente autoritária, temos uma resistência sociopática a mudança social, gostamos de ser tutelados politicamente ao mesmo tempo em que desprezamos a Política e acreditamos que ela se resume a politicalha.

ideias3

Adoramos ideias e esquemas que afagam nosso ego ou se encaixam em nossas pré- noções. Assim desprezamos tudo o que é diferente e tudo que for complicado demais para nosso senso comum. Por isso, ao invés de compreender e interpretar, preferimos julgar e ridicularizar.

Ideias rasas e soluções medíocres encontram-se em todos os espectros políticos. Tenho uma grande reserva em relação a liberais medíocres como Rodrigo Constantino e a vulgata do Movimento Brasil Livre (MBL). Falar que o problema do Brasil é um problema de falta de liberdade demonstra uma falta de conhecimento dos processos de formação da sociedade brasileira. É impossível, repito, impossível, falar em liberdade num país que está entre os mais desiguais do mundo. Só é possível falar em liberdade entre indivíduos e grupos em condições econômicas, politicas e culturais semelhantes. Algo que é impossível encontrar por aqui, onde os níveis de heteronomia social são altíssimos. Colocar que o problema brasileiro se resume a falta de liberdade da economia é desconhecer que o Estado sempre possuiu uma preponderância no capitalismo brasileiro, também é ignorar que, sem Estado, não há capitalismo. Isso, portanto, é um Não-Problema.

Confesso que também nutro um certo desprezo em relação ao deputado Bolsonaro e seus apoiadores. Ao defenderem que nosso problema se resumiria a um aumento na repressão na segurança pública e onde uma suposta minoria deveria se curvar a vontade de uma suposta maioria, Bolsonaro certamente ignora que a sociedade brasileira sempre foi extremamente repressora, a prova disso são seus altos índices de encarceramento e repressões violentas a movimentos civis em toda a sua história; ela sempre adotou, desde 1500, o Projeto Bolsonaro de segurança pública. Ele e seus fãs também ignoram que a globalização e o processo de divisão social do trabalho tornam as sociedades tão complexas e segmentadas que todos, inclusive ele, fazem parte, de uma forma ou de outra, de alguma minoria. Se ele e seus minions se não sabem disso são mal informados ou se sabem e ignoram agem de má-fé. 

Até a esquerda merece uma critica. Sou do campo socialista desde a adolescência e sempre me estranhou a defesa quase mítica de que uma revolução armada resolveria todos os problemas do Brasil. Será mesmo que uma revolução pode resolver todas as nossas distorções? Ainda é possível pensar num método de mudança social baseado no militarismo cujo sucesso se deu ainda no século XX? Sempre pensei que a mítica Revolução nunca será a solução de nossos problemas mas, ao contrário disso, uma oportunidade para realizar as reformas necessárias. Há ainda outra coisa a ser considerada, com uma economia tão dependente de investimentos estranheiro como a nossa, o rompimento unilateral com os fluxos globais de capital geraria um aumento exponencial do desemprego. Em outras palavras, ficaria um buraco na nossa economia. O que fazer para tapar esse buraco? Altas taxas de desemprego significam trabalhadores descontentes nas ruas protestando. Como lidar com esses protestos? Como lidar com aqueles que seriam contra a revolução? Digo isso porque o trabalhador é extremamente pragmático. Ele não liga muito para ideologias. Ele quer saber de estar empregado e que seu filho, ao completar dezoito anos, também consiga um emprego. Como lidar com isso? Saber o que fazer no momento certo é algo que as esquerdas precisam saber ter e ainda não sabem.

Pessoalmente defendo um reformismo radical. Em outras palavras, defendo um governo que ataque em duas frentes, através da via democrática e institucional tendo o apoio massivo das massas nas ruas. Deste modo cria-se a ambiente propício para as reformas necessárias — algo que o PT teve a chance de fazer e desperdiçou covardemente.

Temos que nos afastar de ideias e soluções levianas, precisamos desconfiar dos impostores, daqueles que gritam aos quatro ventos que tem a solução de tudo, de pessoas que apresentam respostas quiméricas para nossos problemas seculares. Precisamos também tratar a política como ela deve ser tratada, como uma esfera da vida social que precisa ser sempre vigiada e cultivada. Precisamos debater os temas mais espinhosos, precisamos pôr em perspectiva esquemas pré-concebidos, precisamos aumentar os graus de participação politica do trabalhador, seja nos bairros, nas prefeituras e nas escolas.

ideias 4

Precisamos, enfim, deixar de pôr nossa fé em farsantes e em ideias tolas, deixar de pensar que politica se resume à politicalha e começar a fazer politica com P maiúsculo — a política das massas, do povo, da democracia participativa.

Sem embargo, leitor amigo, só assim estaremos dando um primeiro passo para a verdadeira mudança social, que é aquela que vem de baixo para cima.

O que virá depois da crise?

0DilmaCriseNum artigo que escrevi, Ascensão e Decadência da Nova República, argumentei que nossa República entrou em declínio por sua incapacidade de resolver os problemas estruturais da sociedade. Refém da conciliação, um dos principais traços do nosso conservadorismo, ela apaziguava questões que mereciam enfrentamento. O resultado não foi outro, senão seu esgotamento, depois de pouco mais de trinta anos.

Era óbvio que nosso sistema político já guardava, em seu nascimento, os germes que o destruiriam: a corrupção, a desigualdade, a falta de transparência e etc… O que vemos hoje não é um governo que está desmoronando por ser mais corrupto que os outros, mas um governo que se perdeu porque adotou todas as distorções do sistema e, agora, convalesce junto com ele.

As manifestações que estão ocorrendo agora são o resultado da anomia de um sistema em estágio terminal, cujos últimos estertores se traduzem em desordem, morte, opressão e desespero. Mas o pior de tudo é que, enquanto o velho morre, não vemos o novo nascendo, é como se não existissem novas alternativas para ficar no lugar daquele que convalesce, é como se fossemos incapazes de erguer algo mais estável para ficar em seu lugar. O resultado, então, é o fascismo, já dizia Gramsci. Os homens se apegam às fórmulas do passado, clamam pela volta da ditadura; bradam que a solução estaria na retirada de direitos políticos e sociais; dizem que era melhor quando não tinham que opinar, quando não tinham que pensar; enquanto isso, mandavam para o cadafalso índios, quilombolas e opositores políticos. A metáfora do Grande Inquisidor, de Dostoiévski, nunca esteve tão atual: os homens preferem a segurança à liberdade.

Quando desordem e o fascismo aumentam, o mercado, aqueles que realmente mandam nas democracias liberais, se reúnem com grupos pró-impeachment (Leia aqui). O Capital, logo que percebe ser o grupo político no poder incapaz de manter a paz social, não fica com outra alternativa a não ser a de destituí-lo.

Fica a pergunta: Quem estaria em condições de assumir? Mas, se quisermos ir na raiz do problema, devemos refazê-la da seguinte forma: Quem pode dar a paz social necessária para o capital voltar a se reproduzir no país?

Arrisco dizer que, num primeiro momento, veremos uma sucessão de subidas e quedas de diversos atores políticos, para, só então, termos a saída definitiva, um governo autoritário pela direita, pois nossas instituições estão frágeis demais para lidar com essa contradição e nossa oposição tradicional também está tão suja quanto o governo. Quando todos estão descrédito na politica institucional, as chances de surgir um líder demagogo, capaz de capitalizar a revolta social a partir da direita, não é impossível. A saída autoritária é uma alternativa possível num contexto de descrédito das instituições, de personalismo excessivo e de crise econômica; também é viável numa nação cuja valorização do executivo, aliado a um autoritarismo extremo, sempre caracterizou sua história política e social.

Quanto à esquerda e aos trabalhadores, cabem a eles se organizarem como força independente e se prepararem para, pelo menos, quinze anos de recrudescimento conservador.

A Outra Face do Nacionalismo

nacionalismoComo sempre acontece nos feriados de sete de setembro, vemos desfiles militares, demonstrações efusivas de patriotismo e de louvor a grandeza nacional com propagandas na televisão e postagens nas redes sociais com a participação intensa da população. Particularmente, eu sempre fui reticente quanto a qualquer mostra de louvor a pátria. Sempre imaginei que, por detrás do véu da propaganda oficial, seja ela de esquerda ou de direita, haveria algo a mais que normalmente a ideologia do nacionalismo costumava esconder.

Por detrás dos hinos pomposos cantando vitórias épicas da pátria, dos mitos fundadores das nações e dos cantos de conquistas e de louvor aos heróis dos mais variados países, esconde-se muito derramamento de sangue, cabeças cortadas, culturas apagadas, famílias esmagadas, projetos e ideias politicas de autonomia jogados para as brumas do esquecimento.

O que nosso nacionalismo escamoteia é o caráter essencialmente violento da formação do Brasil, contra índios, negros, pobres, mulheres ou qualquer outro grupo social que perdeu o bonde da história.

Este processo continua mantendo-se até hoje, com índices alarmantes de mortes entre as populações mais desfavorecidas, com o racismo e a desigualdade estrutural que esmaga a população negra e o processo de genocídio étnico que assola a população indígena promovido pelo grande capital agrário.

O que as grandes datas nacionais, como a do descobrimento, independência ou a proclamação da república fazem é escamotear esse processo perverso e reafirmar a ideologia do Brasil Grande, ou seja, afirmar que nosso país é uma verdadeira potência regional, um lugar onde as regiões se completam harmonicamente num todo maior, dono de uma cultura fruto da miscigenação entre índios, negros e brancos, onde todos teriam o seu lugar reservado nessa grande sociedade híbrida, nessa grande democracia racial.

Nem poderia ser diferente. Em condições de modernidade, onde projeto do estado nacional, para ser vitorioso, precisa ter o monopólio da força sobre um determinado território e homogeneizar as relações sociais sobre ele. No decorrer deste processo, as populações que se recusarem ou simplesmente se mostrarem incapazes de se integrar, são sumariamente eliminadas.

Se quisermos de fato modificar as bases sociais do país, devemos efetuar uma critica profunda a ideologia do nacionalismo brasileiro e procurar realizar um balanço do que ele já trouxe para nós, os trabalhadores e formular um outro tipo nacionalismo, muito mais aberto e tolerante.

A Política para Além da Polarização

Por Alex Régis

polarizaçãoQuanto menos se pensa a política fora dos marcos da polarização atual, mais difícil fica se posicionar politicamente. Essa fuga complexifica o debate, mas ao mesmo tempo te coloca numa posição política muito difícil de definir, como se não houvesse exatamente uma direção para caminhar. Muitas janelas se abrem e ao adentrar uma delas você se depara com mais janelas, contradições e ambiguidades.

Fico preocupado com o efeito político dessa situação, pois à fuga da polarização pode te jogar numa posição que é dinâmica analiticamente, mas te coloca numa posição que é pouco confortável para quem não gosta de ficar em “cima do muro”. Mas fugir desse binarismo te coloca “em cima do muro” ou numa situação confortável? Não sei.

Existem muitos níveis de análise de um governo, muitas possibilidades de crítica e de reconhecimento de avanços em campos diferentes. Eu sou contra e a favor do atual governo em vários sentidos, ok, mas na hora de decidir se vou ou não pra rua, como decidir? Para algumas pessoas trata-se de uma decisão fácil, basta se orientar por algum lado das polarizações reais e imaginarias. Mas continuo em dúvida.

Alex Régis é sociólogo.

Entre a dependência e a integração: as relações entre China e Brasil.

07_StreamTease_China-BrazilA vinda do primeiro-ministro chinês ao Brasil, Li Keqiang, ascendeu uma série de interpretações equivocadas tanto entre a direita quanto entre partidários do governo. Enquanto os primeiros afirmavam que a vinda do líder representava mais um passo do comunismo e das forças globalistas para a dominação da América Latina (sic), governistas comemoraram dizendo que a vinda do líder era importante para o desenvolvimento econômico da região.

Contudo, eu sempre fui desconfiado das opiniões formuladas tanto por militantes (ou militontos) quanto por essa nova e vulgar direita brasileira guiada por intelectuais de terceira e quarta divisão. Sempre vi que tudo em sociedade é complexo e nunca será apreendido por explicações apressadas, cuja única função é afagar nossas pré-noções e nunca enxergar a verdade…

Há muita coisa envolvida na vinda do líder chinês. Vamos analisar as principais abaixo.

A China tem se tornado a incontestável sucessora dos Estados Unidos como grande potência na economia mundial. Ela está longe de ser um monstro vermelho que vai destruir a civilização cristã… O país é uma economia de mercado extremamente agressiva e tem procurado investimentos em todos os lugares do mundo. O capitalismo global depende dela, assim como ela depende do capitalismo global. Falar isso parece meio óbvio, mas num tempo onde há gente que possui Olavo de Carvalho, Jair Bolsonaro, Rodrigo Constantino e congêneres como ídolos e pensa que o PT está implantando uma ditadura comunista, é preciso falar o óbvio, que 1+1=2 e que o céu é azul…

O gigante do oriente precisa desesperadamente de matéria prima barata para alimentar as suas industriais e manter o fôlego do seu mercado consumidor interno cada vez mais intenso. O continente latino-americano e, por conseguinte, o Brasil, possuem exatamente isso. Somado a crise do capitalismo que agora chega em terras brasileiras, o acordo com a China se torna uma oportunidade de ouro, quase uma quimera, para o governo atual tentar reaquecer a sua economia, mesmo que isso seja a custa da venda de commodities e não de produtos processados.

Outro ponto reside da questão geopolítica. O país de Sun Tzu sabe de seu lugar no mundo, enquanto sucessor inexorável dos EUA, e está procurando impô-lo. Avançar sobre áreas de tradicional influência do Uncle Sam, como o continente latino americano, significa um passo a mais para ganhar espaço sobre o rival do norte. È uma aposta geopolítica. Investimentos lucrativos tanto para os latinos quanto para os chineses retirariam os primeiros da órbita americana e os colocaria sob a sombra do segundo, aumentado, assim, o poderio oriental sobre o globo.

A quantidade de projetos e capitais anunciados possui proporções épicas e pode ser uma oportunidade única tanto para o Brasil incrementar e reaquecer sua combalida economia atingida pela crise global, quanto pode ser um momento decisivo de integração continental da América do Sul — este continente usurpado, desprezado, tido sempre como a periferia do mundo e muitas vezes inconsciente de sua grandeza a ocupar na orquestra global.

Contudo, incomoda-me o fato de que o Brasil, assim como os seus vizinhos do sul, estarem se tornando dependentes demais do capital chinês. È como se nós não conseguíssemos, por nossa própria natureza dependente e heteronômica, nos integrar por iniciativa própria. Também incomoda que nossa economia pareça repetir o mesmo vício estrutural que nos amaldiçoa desde o início da espoliação europeia: nos recusamos a realizar as duras, mas necessárias, reformas estruturais capazes de gerar um ciclo de desenvolvimento social e econômico endógeno e de longa duração.

Ao invés disso, nós, brasileiros e Latino Americanos, preferimos repetir o ciclo de dependência estrutural. Antigamente tínhamos a economia tutelada por Portugal e Espanha, depois essa tutela passou para a Inglaterra, Estados Unidos e, agora, pode cair nas mãos da China.

Os acordos firmados com a China podem ser uma alternativa, se bem aproveitada pelo Brasil e pelas outras nações sul-americanas, se eles forem usados como um primeiro passo na criação de um desenvolvimento a partir de dentro, isto é, um desenvolvimento que leve em conta as necessidades do povo latino: a questão da desigualdade e da democracia plena e cidadã.

Caso os novos projetos sejam apenas um fim em si mesmo, vamos amargar mais cinquenta anos de áspera reprodução estrutural de nossas desigualdades e subalternidade — não mais ao capital americano, mas agora ao capital chinês.

Não sou um entusiasta da ascensão chinesa, como alguns colegas o fazem ao considerá-la uma quimera para os problemas do país e da América Latina, e nem um horrorizado com a possibilidade de uma potência comunista e satanista destruir as tradições brasileiras, como pensam alguns espécimes da direita vulgar nacional. Em politica internacional, ninguém é apenas o diabo e tão pouco um anjo. Prefiro ver o processo de maneira prudente, com olhos cuidadosos, ciente de que alianças, oposições e caminhos tomados podem influenciar, para bem ou para o mal, a nossa história.

É assim que deveríamos ver nosso mundo moderno e globalizado.

As Raizes Históricas e Sociais da Violência na Sociedade Brasileira

È lugar comum hoje acreditar que o fenômeno da violência é algo recente no Brasil, surgido a partir da década de oitenta. Tal pensamento, reproduzido pela grande mídia como uma verdade quase absoluta, na verdade não passa de uma grande mitologia. Na palestra em questão, o sociólogo Sergio Adorno mostra como a sociedade brasileira, desde a invasão europeia, é permeada pela violência, seja física ou simbólica, contra grupo minoritários, como escravos, trabalhadores livres, mulheres ou indígenas. Para responder a essa questão o autor volta aos interpretes do Brasil, como Gilberto Freyre, Oliveira Vianna e Florestan Fernandes e mostra como a violência é para nós um fato social total, que atravessa todas as nossas relações. Recomendado para qualquer um que queira ir além das aparências e compreender os meandros escuros do nosso país.