O Paiz do Amazonas

O paiz do AmazonasA região Amazônica, como a conhecemos hoje, foi um espaço criado pela expansão do capitalismo ocidental que, ao englobar as mais variadas regiões do mundo a sua dinâmica, reconfigurou suas populações e seu meio ambiente para que pudesse servir às demandas de um modo de produção que começava a se tornar internacional.

Este é o ponto de partida de O Paiz do Amazonas, de Marilene Corrêa, uma obra que, partindo da história social e econômica, mostra todas as revoluções e involuções que o capitalismo internacional, as potências europeias e, por último, o estado nacional, tiveram de fazer para dominar a região, seja implementando medidas econômicas que só beneficiavam os extratos mais ricos da sociedade e relegava a exploração e humilhação de milhares de pessoas, principalmente indígenas, cuja liberdade estaria perdida para sempre.

A temporalidade do livro vai desde o século XVI, com o início da invasão europeia, e vai até os meados do século XIX, quando o Império brasileiro sufoca a revolta popular da cabanagem (1835-1840) e sepulta de vez um projeto autônomo de criação de uma república popular na Amazônia, baseada nos valores da revolução francesa.

Hoje, relendo as linhas sobre as possibilidades de um Paiz do Amazonas, penso que poderia ser um projeto válido num contexto onde nós, amazônidas e descendentes diretos dos antigos indígenas, poderíamos voltar a tomar as rédeas da nossa região e resolver o problema do desenvolvimento e das desigualdades que nos assolam desde o século XVI.

Leitura obrigatória para compreender essa sibéria tropical que é a Amazônia.

Entrevista com Leandro Tocantins

Considerado um dos maiores intelectuais amazônidas, Tocantins procurou compreender o que é o modo de vida, as tradições, e a formação social da Amazônia. Seu livros hoje são obrigatórios para compreender o que é essa região espoliada, incompreendida e ambivalente que é a Região Amazônica; entre os mais importantes estão O Rio Comanda a Vida e Amazônia, Região, Homem e Tempo. Muito influenciado por Gilberto Freyre e Euclides da Cunha, o autor criou uma obra única que hoje faz parte dos clássicos do pensamento social da região.

Em Família

Assim que a ambulância chegou no Pronto Socorro do São Raimundo e os paramédicos precipitaram-se para tirar a maca do veículo que levava o ferido, ocorreu o impensável. O pobre coitado deu um suspiro sinistro, seguido de um esgar abafado vindo das gargantas, as pupilas arregalaram-se como se naquele momento estivesse perante o próprio diabo e sucumbiu depois de muita agonia.

Os paramédicos entreolharam-se meio constrangidos. Aquela cena já viram muitas vezes, nem precisavam de aparelhos para constatar o que acontecera. O que parecia mais experiente disse:

“Esse já era…”

“A hemorragia foi intensa concomitante a perfurações em vários orgãos…” Disse o médico legista Bartolomeu Félix, muito satisfeito em conceder uma entrevista para um popular tablóide da cidade.

A vida é mesmo muito imprevisível. Há cerca de uma hora, esse pobre diabo chamado Octávio Ribeiro, quarenta e dois anos, metalúrgico há quase quinze, casado e com um filho, voltava para casa, naquele final de tarde de sexta-feira abafada, num micro ônibus lotação entalado de gente. Ele nem sequer imaginava que seria a sua última viagem para junto de sua família e que em breve estaria de mãos dadas com o capiroto.

Mas como tudo isso foi acontecer? Perguntará o leitor. Pois bem, vamos ter que voltar algumas horas anteriores ao assassinato e penetrar no lar de Ribeiro, pouco antes d’ ele chegar…

Dona Maria Clara acaba de voltar com o pequeno Serginho da casa de um amiga que ficava ali mesmo no bairro da Compensa. Ela abriu o pequeno portão de tábuas de madeira e passou pelo pátio com o filho atrás, seguindo-a como um cortesão. Assim que abriu a porta, o menino entrou e correu para o quarto, pegou um carrinho de madeira e ficou a perambular pela casa, fantasiando alguma aventura fantástica.

Ela estava feliz. Finalmente começaria a trabalhar num salão de beleza e a mãe já superava a dengue hemorrágica. Tinha voltado do hospital dois dias antes e estava aliviada ao perceber que a velha recuperava o vigor físico, o corado da pele, o força na voz…

Pelo relógio de parede viu que eram seis e meia da tarde. O claro do dia recuava. O marido com certeza chegaria em pouco tempo. Teve a idéia de fazer um programa diferente com ele quando voltasse. Tomou banho, colocou sua roupa preferida, aquele vestido verde que ele tanto gostava, perfumou-se com as suas melhores loções e ficou admirando-se em frente ao espelho. Tinha pouco mais de trinta e cinco anos, a pele era queimada, as sobrancelhas grossas e olhos muito escuros. A idade já começava a mostrar seus sinais pelas pequenas rugas no rosto, pelo ventre já notadamente saliente e pelos seios que perdiam a batalha para a gravidade — o vestido já não cabia tão bem, apertava-lhe as gorduras. Arrumou os cabelos crespos, penteando-os com esmero. Maquiou-se, colocou sombras nos olhos, aprumou as sobrancelhas e embelezou as maçãs do rosto.  Depois pegou sua bolsa, tirou doze reais e disse a Serginho:

“Vai lá no Buiú comprar uma caixinha de cerveja…”

O menino relutou em ir, tão entretido estava estava com seus maquinações sem importâncias. Mas como a mãe ameaçou dar-lhe uma bordoada, ele pegou o dinheiro e saiu resmungando, andando em marcha lenta.

“Anda logo, seu preguiçoso!” Disse a mulher, já impaciente.

O outro correu, maquinando vingar-se.

Em pouco tempo o garoto voltou com uma caixinha de doze cervejas, trazia-a desajeitadamente, com muita dificuldade, cambaleando feito um bêbado e por pouco não deixou a bebida cair.

“Põe na geladeira…” Ordenou Maria Clara.

O menino obedeceu, muito suado. Internamente crispava de raiva.

“Cadê o troco? Tá bom…”

Enquanto Serginho foi para o quarto ligar o videogame, a mulher guardou o trocado de cinco reais na bolsa de couro sintético preto, ligou o aparelho de som, colocou um CD de música sertaneja, foi até a geladeira e pegou uma latinha de cerveja. Sentou no sofá da sala e ficou com o pensamento no marido. Imaginando sua cara de satisfação ao saber o que ela preparara para ele — boa musica, cerveja gelada e um bom momento só a dois. Lembrava que há muito tempo os dois não faziam isso. Ela, ocupada em arranjar um novo emprego; ele, auto escravizando-se em horas extras lá no distrito para cobrir os buracos no orçamento.

Mas agora isso não mais importava. Podiam terminar a casa, comprar um computador para o Serginho, um televisão de plasma e fazer um segundo andar com três quartinhos para alugar, conforme tinham planejado há dois anos.

Percebera que o noite já se instalara por completo e vários dos vizinhos estavam em frente das suas casas, sentados em cadeiras de plástico, ouvindo música, bebendo qualquer coisa e confabulando fatos sem importância. Olhou para o relógio, dezessete e vinte da noite. O marido não chegava. Maria ficou imaginando se ele não tinha ficado até mais tarde para fazer hora extra. Com certeza não. Lembrava-se de que, quando saíra hoje de manhã, dissera que naquele dia sentia-se muito cansado para ficar até mais tarde. Foi até a geladeira e pegou outra cerveja. Percebeu que na caixa só restavam três latinhas. Ficou  surpresa em ter bebido tanto em tão pouco tempo. Voltou para o sofá. Onde estaria o marido? Lembrou-se de que uma das amigas tinham falado sobre uma mulher da rua perto da feira que estava de caso com Octávio. No inicio não deu muita importância, mas agora, com sua demora sem explicação, toda aquela conversa começou a ganhar proporções de quase verdade. Deu um suspiro de raiva. Tomou a cerveja com pressa, quase virando.

“Serginho, vai comprar mais cerveja!” Gritou.

O filho não respondeu.

“Serginho!”

Nenhuma resposta.

“Sergio, seu filho da puta!”

Levantou-se do sofá irritada e foi caminhando até o quarto do filho, quando abriu a porta, deparou-se com ele inerte em frente à televisão, jogando Doom. Pegou-o pelo braço e entre os gemidos do pequeno colocou-o de pé.

“Me obedeça…”

“Sai fora! Sai fora!” Gritou o menino, enquanto tentava largar-se e fugir.

“Me respeita!” Disse Maria, bufando de raiva, e começou a dar umas surras em Serginho.

“Tá pensando que eu sou o quê, hein?” A mão descia pesada no corpo do moleque.

“Ai, ai, ai…”

 Foi exatamente quando o garoto dava estes gritos que Octávio Ribeiro chegou em casa. Estava um verdadeiro trapo. Uma mochila velha nas costas, calça jeans furada e desbotada e uma camisa surrada com o símbolo da empresa. Cabelo desarrumado, olheiras na face e exalando um forte miasma de transpiração. Logo que abriu o portão, aqueles gritos de moleque desesperado entraram-lhe pelos tímpanos. Caminhou com rapidez para dentro da casa.

“O que aconteceu?” Perguntou o homem, ao presenciar o suplicio do filho.

“Este menino não quer me obedecer…” E dava-lhe bordoadas mais fortes.

“Pai, pai, me ajuda…” O menino tentava correr para junto de Octávio, mas a mãe segurava-o com mais força.

“Larga ele, mulher. È só uma criança…”

“Era só o que me faltava, tu do lado desse peste…”

“Tu não tá vendo que ele tá gritando? Deixa ele!” Disse, enfurecido, após separar os dois a força.

Serginho correu chorando para o quarto e se escondeu.

“Me respeita!” Gritou Maria. “Quem tu pensa que é para me enfrentar na frente do meu filho, hein?”

“Tu tava espancando ele, caralho!”

“Fala direito comigo, seu safado!” Ela gritou entre lágrimas. “Tá pensando que eu sou aquela rameira que tu come lá da rua da feira?”

“Como é que é?”

Serginho observava tudo pela porta entre aberta do quarto.

“Pensa que eu não sei! Todo mundo sabe! Seu cafajeste!” Ela avançou com ímpeto para cima de Otávio.

“Tu fala muita merda… Me larga!” Ele pegou a mulher pelos braços e jogou-a  sobre a sofá.

“Vagabundo! Vagabundo!” Gritava, com lágrimas nos olhos.

“Para de gritar, porra… Isso já tá ficando insuportável…” Disse ele, mais alto ainda.

Maria Clara levantou-se do sofá, correu para a cozinha, tomou uma faca suja que estava sobre a pia e pulou para cima do marido. Ele não teve tempo de esboçar uma reação. A esposa penetrou dezenas de vezes a lâmina no corpo do homem, enquanto ele resvalava no chão e uma poça de sangue se formava.

Serginho via tudo pela porta entreaberta, enquanto dava gritos de horror…

Flagrantes de uma Outra Amazônia

A literatura feita na Amazônia até os anos cinqüenta do século XX sempre foi acometida daquele mal chamado de “influência de Euclides da Cunha”; uma estética que primava pela linguagem excessivamente carregada, vocabulário muitas vezes pedante e uma incapacidade de enxergar a real dinâmica do hiterland amazônico.

Pode-se dizer também que esta literatura centrava-se principalmente em descrever a paisagem amazônica, suas florestas, rios e “mistérios” silenciando sobre a realidade do homem amazônico, seus conflitos, dramas e seus sofrimentos. Estes autores da velha vertente da literatura positivista ou naturalista transmitiam uma visão completamente deturpada do ribeirinho, mostrando-o como um ser passivo diante da imensidão da natureza, sem consciência e sem a capacidade de criar, ele mesmo, os caminhos para tornar-se o protagonista de sua história.

A mudança na perspectiva de como os nossos intelectuais enxergavam o ribeirinho só começaria a mudar em meados do século XX, com a chegada tardia dos ideais de renovação artística trazida pela semana de arte moderna, com lançamentos como Banco de Canoa de Álvaro Maia. Contudo, foi a partir da década de 1960 com Outro e Outros contos, de Benjamin Sanches, Mundo Mundo Vasto Mundo, de Carlos Gomes e principalmente com o hoje clássico Historias de Submundo de Arthur Engrácio, que propiciou a ruptura completa com a velha literatura dos bacharéis.

Nascido em 1929 em Manicoré e falecido em 1997 em Manaus, Arthur Engrácio fez o caminho que muitos condenados fizeram, mas que muitos poucos lograram trilhá-lo com êxito — migrou para Manaus. Mas teve sorte. Formou-se em direito, tornou-se funcionário publico e começou a atuar como jornalista, além de ter sido um destacado membro do Clube da Madrugada.

Não obstante ter se tornado um privilegiado, Engrácio nunca esqueceu suas origens e foi através da literatura que retratou os dramas que vivenciara durante a infância em Manicoré.

O seu primeiro livro já trazia todos os elementos que seriam endêmicos na sua obra. O titulo já dava uma pista de quais seriam os temas abordados pela obra — os sofrimentos e dramas do ribeirinho e a exploração a que estava submetido pelos coronéis seringalistas. São os relatos e confissões de um mundo a parte, de uma Amazônia talvez esquecida, de um verdadeiro submundo, onde o poder público não chegava, e onde homens e mulheres estavam a mercê da vontade de uma decadente elite extrativista que ainda mantinha o seu poder de mando sobre o povo do interior.

Engrácio insere-se na então nova tradição da literatura de regionalista de critica social, cujo principal expoente é sem duvida Graciliano Ramos. Sua necessidade de retratar as misérias do homem do interior o fez escrever de maneira direta, sem muito apelo a adjetivos, exatamente como fez o autor de Vidas Secas — sua maior influencia.

Os contos de Engrácio fogem um pouco daquela concepção clássica da historia curta, com começo, meio e fim. O autor procura desnudar a vida interiorana em forma de pequenos flagrantes onde são mostrados os dramas, as injustiças e os desejos do homem que habita a beira dos rios, cultiva sua agricultura na várzea e extrai borracha nos seringais. Muitos de seus contos chegam a ser chocantes para o leitor — algo próximo do que fez Anthistenes Pinto com o polêmico romance Terra Firme.

Historias de Submundo inicia-se com o conto A Revolta, que narra a historia fantástica de uma rebelião engendrada por um grupo de seringueiros contra os desmandos do patrão; outras histórias, como Pescadores, O Cão e Zé Pequeté são como pequenas apreensões da condição de vida no interior. Já O coronel, que conta vingança de um senhor de terras contra um de seus funcionários que estariam se envolvendo sexualmente com sua filha, é onde fica mais explicito a intenção do autor de relatar a tirania e as crueldades daqueles que um dia foram os verdadeiros senhores feudais na Amazônia — os grandes seringalistas.

Em Filho de Arigó, uma pequena obra prima do conto amazonense, Engrácio relata, a partir de sua experiência de infância, a condição de miséria e abusos a que estavam submetidos os órfãos nas cidades do interior, dados “de favor” para ricas famílias sob a justificativa de serem criados, mas que na verdade tornam-se verdadeiros criados sob a mais tétrica condição de exploração do trabalho infantil.

Descrever a vida no interior do Amazonas não é o único tema da ficção engraciana. O autor de Ajuste de Contos também desenvolveu com maestria temas urbanos, com histórias como Claudia, Jorge e O segredo do Réu.  A primeira narra os dilemas de uma mulher infeliz que está a ponto de abandonar o marido e fugir com o amante, enquanto a segunda narra a vida infeliz de um bêbado; já a terceira história mostra o relato de um homem que cometera duplo homicídio — matara a mulher e seu amante

Apesar das historias trágicas, Historias de Submundo também reserva momentos cômicos, presentes em dois contos, No Vizinho (este é o que mais é influenciado pelo método de Graciliano Ramos) e Uma Historia de Trancoso, um “causo” contado por Manuel Bodó em uma de suas caçadas no meio da mata.

Normalmente a mídia, a literatura oficial e certos grupos musicais, ainda influenciados pela velha literatura de bacharel da primeira metade do século XX, costumam mostrar a vida interiorana de maneira ingênua, como se a vida na floresta fosse como num verdadeiro éden e o ribeirinho um ingênuo que não conhece a fome ou a exploração. É preciso ler um clássico como Historias de Submundo, de Arthur Engrácio, para percebermos que existe uma Amazônia bem diferente e de cores bem mais cinzentas daquelas que o Status Quo costuma pintar — uma Amazônia do trabalho escravo, de execuções sumárias, abusos, estupros, doenças e subdesenvolvimento.

Acredito que Historias de Submundo serve de complemento, ou mesmo introdução, na leitura de outra obra essencial sobre a vida do interior, Servidão Humana na Selva: o Aviamento e o Barracão nos seringais das Amazônia, do sociólogo Carlos Correa Teixeira. Como escrevera José de Souza Martins, ambas reúnem “os fios desatados de um sofrimento ignorado, de uma pobreza cruel, de um opressor invisível, para nos revelar a trama de uma história omitida, que não é só da Amazônia” (…) e “expõe como feria o látego de mecanismos econômicos que, ao subjugar alguns, subjugava todos e nos tornava pobres de condição humana. E ainda nos torna.”

Amazônia, Estado e Capital Internacional

O processo de inclusão da Amazônia na realidade brasileira e mundial possui uma dinâmica descontínua, repleta de avanços e recuos, onde seus fios de ligação com a conjuntura brasileira e internacional tornam-se, dependendo do momento histórico e do arranjo das forças dominantes, mais fortes ou mais tênues, cujo inicio remonta à chegada dos europeus no continente americano, quando ela passa a integrar o comercio mundial, fornecendo as chamadas drogas do sertão — produto muito valorizado na Europa.

A partir do inicio do século XIX e inicio do século XX, a região passa a ter um importante papel no desenvolvimento do modo de produção capitalista em sua etapa fordista/taylorista — é o esteio daquilo que Zygmunt Bauman chama de modernidade sólida — ao fornecer goma elástica não processada para o mercado internacional. Quando a região perde concorrência para o látex asiático, seu principal modo de produção perde impulso e sua relevância econômica na política nacional e internacional se retrai drasticamente, mas seus laços com o resto do país não desaparecem por completo — o fornecimento de látex para o mercado nacional ainda exista, embora bastante rarefeito.

Na década de 1960, a região passa a ter um dos maiores e mais dramáticos projetos de desenvolvimento regional de sua história: a Operação Amazônia. A partir daí, a estagnação econômica que enfraquecia a comunicação da região com as esferas nacionais e globais quebra-se com o implemento de grandiosos empreendimentos transnacionais, fruto de articulações políticas entre as elites locais, nacionais e internacionais, cuja intenção era tornar a Região Amazônica, considerado até então como um grande espaço vazio, num palco adequado na reprodução do capital. O Governo autoritário criou todo um ambiente propício para a vinda de empreendimentos agrícolas, mineradores e industriais que definitivamente ligam a Amazônia ao capitalismo nacional e transnacional, por meio de uma dependência considerada pelas autoridades da época como real e necessária. Uma das maiores conseqüência deste novo paradigma de inserção do Hiléia Amazônico na conjuntura global foi o deslocamento de um contingente de milhares de pessoas de todas as partes do Brasil, especialmente do nordeste.

A operação Amazônia, enquanto um exercício de economia política do estado autoritário, está diretamente ligada à ideologia Autoritária Modernizante, estudada por Luis Carlos Bresser Pereira no texto: “Seis interpretações sobre o Brasil”, de 1982. Foi um projeto idealizado por Golbery de Solto e Silva e por Roberto Oliveira Campos nos anos cinqüenta (enquanto o primeiro lança um livro chamado Aspectos “Geo políticos do Brasil”, em 1952, o segundo tentava conciliar uma ideologia do desenvolvimento com uma ideologia da segurança), ambos integrantes da escola superior de guerra. Tornou-se o sistema de pensamento hegemônico no Brasil a partir do golpe de 1964, resultado de uma aliança entre capital internacional, tecnoburocracia militar e civil, da burguesia agro-exportadora e da burguesia industrial.

Acredita-se que a criação desse projeto se deva ao General presidente Humberto de Alencar Castelo Branco (1964-1967) que, ao ter sobrevoado a Amazônia num avião, teria cunhado a frase: “Uma terra sem homens para homens sem terra.” Mas o presidente estava redondamente errado. A Amazônia não sofria e nunca sofreu com o suposto vazio demográfico, pois antes da chegada dos grandes empreendimentos agrícolas e industriais e dos milhares de migrantes nordestinos que seriam usados como de mão de obra, já havia aqui dezenas de tribos indígenas, posseiros descendentes dos seringueiros nordestinos que vieram para a região entre os anos de 1880 e 1920, povoados que formaram-se a partir de antigos quilombos ainda na época do império e uma considerável população ribeirinha descendentes de indígenas que exercia uma agricultura e uma pesca de subsistência.

O grande problema é que os tecnoburocratas civis e militares que planejaram e executaram a Operação Amazônia não levaram em conta as necessidades destas populações e nem as peculiaridades ambientais da região. O resultado foi o genocídio de dezenas de etnias indígenas e a expulsão de outro tanto contingente populacional que não se encaixava no novo modelo desenvolvimentista. Zygmunt Bauman no livro Modernidade e Ambivalência, ao discorrer sobre as raízes sociais dos estados nacionais e suas implicações para as culturais locais, afirma que uma das principais características do Estado, em condições de Modernidade Sólida, é a eliminação de todo e qualquer traço cultural que não se encaixe no seu modelo de desenvolvimento. A homogeneização cultural e social deveria ser o pré-requisito fundamental para a supremacia do capital e do Estado. O dramático processo de estupro social e étnico a que foram submetidas às populações tradicionais na Amazônia, estão diretamente ligadas a esse contexto em que a idéia do Estado Nacional, como um grande jardineiro social, deve-se extinguir toda ambivalência. Todos os grupos sociais que não pudessem ser aproveitados pelo capital ou não servissem para a consolidação do estado deveriam ser eliminados como se elimina ervas daninhas de um jardim — trata-se apenas de retirar aqueles que estão no caminho do sistema.

No inicio do século XXI, com o fim da guerra fria, e a conseqüente esgotamento do modo de produção taylorista/fordista que sustentavam a modernidade sólida, começa a tomar corpo formas organizacionais chamada por muitos especialistas de produção flexível, cuja ênfase não está mais na produção, mas na pesquisa e na inovação tecnológica. Também ocorre uma reorganização do esquema político internacional, com o esgotamento da liderança político econômica dos E.U.A, da crise dos estados nacionais e do surgimento de novas formas de organização política que passam a agir paralelamente ás instituições públicas. O sociólogo inglês Ulrich Beck chama este novo fenômeno de Sub-política — a volta dos indivíduos a vida publica.

Em termos de Amazônia, isso significa que o capital nacional e internacional encontram novas formas de ocupar a região, bem como o surgimento de dezenas de movimentos sociais criados pelos mesmos grupos sociais outrora perseguidos pelo Estado Jardineiro e suas políticas homogeneizadoras. Estes grupos, agora organizados e conhecedores do funcionamento das políticas publicas, passam a reivindicar o reconhecimento pelo estado e pela sociedade a legitimidade de suas demandas e de sua própria existência enquanto grupo social. Estes novos grupos, organizações indígenas, pequenos agricultores, partidários de religiões de matriz africana, homossexuais, prostitutas e outras organizações em prol dos direitos humanos em geral, à revelia do grande e lento organismo que se tornara o aparelho estatal, passam a influenciar a agenda de formulação de políticas públicas — o antropólogo Marshall Sallins chama este fenômeno de autoconsciência cultural.

A Amazônia, agora, passa a ser vista pelo Brasil e pela comunidade internacional não mais como uma fronteira que precisa ser ocupada via industrialização com insumos estrangeiros, mas como uma fronteira bio genética que deve ser compreendida, catalogada e transformada num produto no mercado internacional. Assim, os novos empreendimentos — não mais industriais, e sim de pesquisa — aqui se instalam através de uma aliança entre as elites locais, a revelia do obsoleto Estado nacional, e entre alguns movimentos sociais para melhor exploração de suas riquezas genéticas.

È possível perceber que as formas de inserção da Amazônia, no cenário internacional e nacional obedeceu, e ainda obedece, á diversas etapas de um processo descontinuo que, iniciada no período colonial, sempre esteve em sintonia com as demandas do capital mercantil no período colonial (enquanto fornecedor das drogas do sertão), do capital imperialista no período da borracha, do capital dependente e monopolista no período de implantação da Operação Amazônia (enquanto palco das políticas homogeneizadoras do Estado Nacional) e, finalmente, do capital flexível no século XXI, como fronteira biogenética.

A identidade da Amazônia está, portanto, umbilicalmente determinada às formas de como o capital e o estado brasileiro exploram seu espaço e reorganizam politicamente as forças sociais que nela habitam.