Soda Billy: música com M maiúsculo

cd-soda-billybluesrock-novo-e-elacradofrete-no-incluso-16103-MLB20115630417_062014-OO mercado da música está perpassado por uma miríade de produções musicais de gosto duvidoso, cujo senso artístico parece ter sido jogado fora em favor do cultivo uma pseudo-musicalidade que apenas diverte uma audiência bovina, incapaz de degustar uma arte revolucionária e sincera.

Basta sintonizarmos qualquer rádio para percebermos que o mainstrean não é capaz de oferecer canções de qualidade. O ouvinte que quiser ouvir musica com M maiúsculo terá de migrar para uma seara mais alternativa, onde pululam milhares de bandas de qualidade que foram recusadas pelo status quo. Mainstrean tornou-se sinônimo de mediocridade sonora. Pertencer a cena alternativa, hoje em dia, significa possuir coragem de não se dobrar a vontade de um público carente de sensibilidade musical e lutar, em grande desvantagem, pela sobrevivência da boa música.

Em Manaus nossa cena musical está prenhe destes exemplos. Enquanto certos grupos musicalmente terríveis, com canções embaladas por letras de inspiração fecal, gozam de um publico grandioso e sobram lugares para apresentação de suas dissonâncias, várias outras bandas, por sua tentativa em tentar realizar algo acima da burrice média, sofrem com ausência de lugares para shows, abandono por parte das políticas públicas e até mesmo da censura das entidades de representam a categoria.

Entre os artistas que se propõe a tarefa heróica de lutar pela boa música em Manaus, a banda Soda Billy está entre os mais destacados. O prova de sua qualidade está em seu primeiro debut, que é nada mais nada menos que quarenta e quatro minutos de boas canções que passeiam entre o jazz, o blues, o rock´roll e a surf music. A cozinha está bem temperada pelas linhas de bateria de Ygor Saumier e pelo baixo de Ricardo Peixoto; os metais estão bem afinados ao comando de Nelverton Rodrigues, Daniel Jander e Marcelo Martins; os vocais femininos estão bem dosados pela bela Kamila Guedes e as guitarras fazem a sua parte sob a tutela do líder e principal compositor Matheus Gondim.

O disco começa com a rapidíssima Go to The Boogie, um bem executado rockabilly. Depois temos a interessante Vou pegar Aline — aqui temos uma boa demonstração de como é possível ser bem humorado e fazer letras de duplo sentido e sem cair para apelação. Em seguida somos jogados numa atmosfera calma de Long Long Road — não sou muita fã de surf music, mas confesso que esta musica muito me agradou. By Baby é um belo jazz/blues com os cativantes vocais de Kamila Guedes. A Ponte é uma das melhores do disco, uma boa letra embalada por acordes nervosos de Matheus Godim e as linhas precisas da gaita de Mario Valle — embora no encarte os músicos digam que esta canção é uma homenagem ao blues de raiz, a primeira coisa que me veio a cabeça ao ouvi-la foi a sonoridade rústica do grande Lynard Skynard. O Escaravelho do Amor é um interessante e bem executado blues — essa é uma das musicas que ficariam muito bem numa versão Hard Rock.

A esta altura o disco já entra na faixa número nove com uma música instrumental de nome curioso: Surfando no Igarapé do 40, seguida pela jazzística Dizzy´s surf. O disco finaliza com o belo Bistrô Blues, uma cativante canção bem na linha jazz. 

Apesar de ter demorado alguns anos para o lançamento de seu primeiro debut, o Soda Billy já desponta com uma das melhores bandas do norte, quiçá do Brasil, no ramo do Jazz, Blues e Rockabilly. Se você é um amante da boa música, está farto de todas essas excrescências que tocam nas rádios e procura algo realmente diferente, o disco destes manauaras é uma ótima opção.    

Como me tornei um fã destes rapazes logo quando escutei a primeira música do disco, espero que o próximo trabalho não demore tanto, e que possam explorar mais sua influencia Jazz e os vocais femininos.  

Flagrantes de uma Outra Amazônia

A literatura feita na Amazônia até os anos cinqüenta do século XX sempre foi acometida daquele mal chamado de “influência de Euclides da Cunha”; uma estética que primava pela linguagem excessivamente carregada, vocabulário muitas vezes pedante e uma incapacidade de enxergar a real dinâmica do hiterland amazônico.

Pode-se dizer também que esta literatura centrava-se principalmente em descrever a paisagem amazônica, suas florestas, rios e “mistérios” silenciando sobre a realidade do homem amazônico, seus conflitos, dramas e seus sofrimentos. Estes autores da velha vertente da literatura positivista ou naturalista transmitiam uma visão completamente deturpada do ribeirinho, mostrando-o como um ser passivo diante da imensidão da natureza, sem consciência e sem a capacidade de criar, ele mesmo, os caminhos para tornar-se o protagonista de sua história.

A mudança na perspectiva de como os nossos intelectuais enxergavam o ribeirinho só começaria a mudar em meados do século XX, com a chegada tardia dos ideais de renovação artística trazida pela semana de arte moderna, com lançamentos como Banco de Canoa de Álvaro Maia. Contudo, foi a partir da década de 1960 com Outro e Outros contos, de Benjamin Sanches, Mundo Mundo Vasto Mundo, de Carlos Gomes e principalmente com o hoje clássico Historias de Submundo de Arthur Engrácio, que propiciou a ruptura completa com a velha literatura dos bacharéis.

Nascido em 1929 em Manicoré e falecido em 1997 em Manaus, Arthur Engrácio fez o caminho que muitos condenados fizeram, mas que muitos poucos lograram trilhá-lo com êxito — migrou para Manaus. Mas teve sorte. Formou-se em direito, tornou-se funcionário publico e começou a atuar como jornalista, além de ter sido um destacado membro do Clube da Madrugada.

Não obstante ter se tornado um privilegiado, Engrácio nunca esqueceu suas origens e foi através da literatura que retratou os dramas que vivenciara durante a infância em Manicoré.

O seu primeiro livro já trazia todos os elementos que seriam endêmicos na sua obra. O titulo já dava uma pista de quais seriam os temas abordados pela obra — os sofrimentos e dramas do ribeirinho e a exploração a que estava submetido pelos coronéis seringalistas. São os relatos e confissões de um mundo a parte, de uma Amazônia talvez esquecida, de um verdadeiro submundo, onde o poder público não chegava, e onde homens e mulheres estavam a mercê da vontade de uma decadente elite extrativista que ainda mantinha o seu poder de mando sobre o povo do interior.

Engrácio insere-se na então nova tradição da literatura de regionalista de critica social, cujo principal expoente é sem duvida Graciliano Ramos. Sua necessidade de retratar as misérias do homem do interior o fez escrever de maneira direta, sem muito apelo a adjetivos, exatamente como fez o autor de Vidas Secas — sua maior influencia.

Os contos de Engrácio fogem um pouco daquela concepção clássica da historia curta, com começo, meio e fim. O autor procura desnudar a vida interiorana em forma de pequenos flagrantes onde são mostrados os dramas, as injustiças e os desejos do homem que habita a beira dos rios, cultiva sua agricultura na várzea e extrai borracha nos seringais. Muitos de seus contos chegam a ser chocantes para o leitor — algo próximo do que fez Anthistenes Pinto com o polêmico romance Terra Firme.

Historias de Submundo inicia-se com o conto A Revolta, que narra a historia fantástica de uma rebelião engendrada por um grupo de seringueiros contra os desmandos do patrão; outras histórias, como Pescadores, O Cão e Zé Pequeté são como pequenas apreensões da condição de vida no interior. Já O coronel, que conta vingança de um senhor de terras contra um de seus funcionários que estariam se envolvendo sexualmente com sua filha, é onde fica mais explicito a intenção do autor de relatar a tirania e as crueldades daqueles que um dia foram os verdadeiros senhores feudais na Amazônia — os grandes seringalistas.

Em Filho de Arigó, uma pequena obra prima do conto amazonense, Engrácio relata, a partir de sua experiência de infância, a condição de miséria e abusos a que estavam submetidos os órfãos nas cidades do interior, dados “de favor” para ricas famílias sob a justificativa de serem criados, mas que na verdade tornam-se verdadeiros criados sob a mais tétrica condição de exploração do trabalho infantil.

Descrever a vida no interior do Amazonas não é o único tema da ficção engraciana. O autor de Ajuste de Contos também desenvolveu com maestria temas urbanos, com histórias como Claudia, Jorge e O segredo do Réu.  A primeira narra os dilemas de uma mulher infeliz que está a ponto de abandonar o marido e fugir com o amante, enquanto a segunda narra a vida infeliz de um bêbado; já a terceira história mostra o relato de um homem que cometera duplo homicídio — matara a mulher e seu amante

Apesar das historias trágicas, Historias de Submundo também reserva momentos cômicos, presentes em dois contos, No Vizinho (este é o que mais é influenciado pelo método de Graciliano Ramos) e Uma Historia de Trancoso, um “causo” contado por Manuel Bodó em uma de suas caçadas no meio da mata.

Normalmente a mídia, a literatura oficial e certos grupos musicais, ainda influenciados pela velha literatura de bacharel da primeira metade do século XX, costumam mostrar a vida interiorana de maneira ingênua, como se a vida na floresta fosse como num verdadeiro éden e o ribeirinho um ingênuo que não conhece a fome ou a exploração. É preciso ler um clássico como Historias de Submundo, de Arthur Engrácio, para percebermos que existe uma Amazônia bem diferente e de cores bem mais cinzentas daquelas que o Status Quo costuma pintar — uma Amazônia do trabalho escravo, de execuções sumárias, abusos, estupros, doenças e subdesenvolvimento.

Acredito que Historias de Submundo serve de complemento, ou mesmo introdução, na leitura de outra obra essencial sobre a vida do interior, Servidão Humana na Selva: o Aviamento e o Barracão nos seringais das Amazônia, do sociólogo Carlos Correa Teixeira. Como escrevera José de Souza Martins, ambas reúnem “os fios desatados de um sofrimento ignorado, de uma pobreza cruel, de um opressor invisível, para nos revelar a trama de uma história omitida, que não é só da Amazônia” (…) e “expõe como feria o látego de mecanismos econômicos que, ao subjugar alguns, subjugava todos e nos tornava pobres de condição humana. E ainda nos torna.”

A Escravidão nos Seringais

Servidao Humana na SelvaVim pro Amazonas ganhar dinheiro, e não ganhei foi nada… O negócio da seringa só dava pra gente se aviar… Vivia naquela ilusão… Se eu tivesse no Ceará não queria saber mais do Amazonas.

Relato de um Seringueiro do Rio Madeira

Michel Foucault, influenciado por Friedrich Nietzsche, afirmara que por detrás da pompa dos hinos nacionais cantando a glória do nascimento da pátria, se esconde milhares de vidas sacrificadas nas guerras de unificação; e por detrás do mito da criação do mundo, encenando a beleza do jardim do Éden e a ingênua harmonia entre Adão e Eva, se esconde, na verdade, o parentesco com o macaco e, por sua vez, o cinzento laço com o verme…

A história, segundo o pensador francês, está repleta destas lendas que escondem um lado obscuro no fundo dos seus épicos versos, criados em favor de uma determinada gama de interesses. Cabe ao sociólogo e ao historiador desvendá-los — efetuando a arqueologia dos períodos históricos e das relações sociais.

Um dos exemplos mais típicos no Amazonas de fatos históricos mascarados por interesses escusos são as propagandas e historiografias oficiais com relação ao período áureo da borracha, mostrando-o como um tempo de grandes realizações, tanto no terreno das obras públicas quanto no âmbito social, ressaltando a riqueza produzida neste período e o aperfeiçoamento cultural pelo qual Manaus passara (a belle epóque, que nosso governo teima em reproduzir, de forma caricatural, em festivais de opera) nos quase trinta anos de pulsação da economia gomífera, como um dos períodos dos mais interessantes que a Paris dos Tristes Trópicos já teve.

Tal forma de ver a historia e as sociedades, tão comum em historiadores a direita do espectro político e na propaganda de governos populistas, interessados em criar uma bandeira pela qual possam arrancar certos dividendos políticos, nada mais é do que uma forma de mascarar a verdadeira e perversa dinâmica da qual é regida os períodos históricos e, em questão, a economia extrativa. Longe de ser um período de requinte social e cultural, o fausto da economia gomífera foi caracterizada pela exploração compulsória de homens e mulheres sob o regime hediondo do aviamento, e pelo fato absurdo de que, como dissera Euclides da Cunha, o homem trabalhava para escravizar-se.

Muitos já foram os estudos efetuados sobre o período áureo da economia gomífera, principalmente do ponto de vista histórico — a Ilusão do Fausto de Edinea Mascarenhas Dias é um dos exemplos mais famosos. Faltava, entretanto, um estudo de precisões mais sociológicas que enfocasse o modo de produção extrativista a partir não de acontecimentos ou datas, mas a partir das suas relações sociais e de como estes homens se comportavam frente à dicotomia de uma floresta cheia de perigos e de um sistema de compra e troca tão impiedoso.

Servidão Humana na Selva: O Aviamento e o Barracão nos seringais na Amazônia, de Carlos Correia Teixeira, vem tapar este buraco na sociologia sobre o modo de produção extrativista e se juntar ao seleto hall de obras que pensam a Amazônia criticamente, em contraposição a forma linear e conservadora de pensadores convencionais como André Vidal de Araújo, Álvaro Maia ou Samuel Bechimol. Apesar de ser um estudo efetuado na década de setenta, foi tese de mestrado do escritor, Servidão Humana está longe de ser um estudo defasado, longe disso, é um ensaio que vai até o cerne do acontecimento histórico, achando as descontinuidades das relações do seringal, destrinchando seu lado cinzento, recompondo arqueologicamente suas contradições, os dramas do trabalhador da seringa, seus sofrimentos e mesmo seus raros momentos de felicidade, sentindo-se um verdadeiro artista ao defumar a borracha: “é o maior prazer do mundo!” era a frase de um trabalhador contida do livro.

Dialogando com varias vertentes da sociologia, como por exemplo com o esquema de dominação patrimonial de Max Weber, o autor, contudo, centra-se no legado teórico de Karl Marx para a sua análise de cada um dos aspectos das relações tecidas no seringal.

Muito interessante é a afirmação de que o barracão é a nossa versão dos engenhos, criando uma complexa rede de relações sociais que ainda não foram devidamente estudadas — pelo menos no que tange a sociologia.

O seringal, segundo Carlos Teixeira, mesmo depois de quase um século passado desde o fim da preponderância extrativista, sua organização persistiu e ultrapassou mais de um século.

Mais de trezentos mil nordestinos vieram para a região Amazônica a partir da década de setenta do século XIX. Boa parte destes pobres diabos provenientes do Ceará — iludidos com a promessa de enriquecimento fácil. Contudo, quando aqui chegavam, o véu de suas ilusões era brutalmente estraçalhado pela cruel realidade de ter estarem sujeitos a um regime que, já os fazendo endividados desde o momento em que ali chegavam, os fazia trabalhar mais de dezoito horas por dia.

Sozinhos nos seringais, sem uma legislação trabalhista ou qualquer autoridade que pudesse inferir por eles, os seringueiros eram largados aos próprios caprichos do seringalista, que os explorava desde a adulteração dos preços das mercadorias vendidas no barracão, até nos pesos da borracha quando de sua venda ao senhoril. Muitas eram os historias de abusos e crueldades contra o seringueiro que tentasse fugir ou cogitasse vender a borracha ao regatão — vale dizer que este era um fator de instabilidade ao poder tirânico do seringalista, travar negócios clandestinamente com o seringueiro. Teixeira menciona uma história, contada pelos seringueiros mais antigos, de um grande buraco cheio de cobras onde o patrão costumava jogar aqueles que fizessem frente ao seu poder.

Os seringalistas, verdadeiros senhores feudais na selva, nunca tiveram, de fato, uma mentalidade empreendedora. Sua forma de gerir seus negócios estava muito mais para um pré-capitalismo rudimentar de típico de nobrezas decadentes. Não se preocupavam em aperfeiçoar as técnicas de trabalho em seus seringais. A situação como estava já os satisfazia. Hauriam enormes lucros de suas propriedades, gozavam de enorme conforto, tinham ao redor de si esposas, servos e amantes. Seus filhos estudavam nas melhores escolas do país e do exterior. No final de cada fabrico iam gastar suas fortunas nos centros econômicos do Brasil ou da Europa. Tinham o poder de colocar seus apadrinhados nas esferas de poder para que defendessem seus interesses frente ao Estado. Eram na verdade, uma casta parasita que desfrutava os privilégios de uma economia predatória e de enclave, cujos resultados estavam voltados para fora — não é assim o mesmo com o nosso decadente pólo industrial?

Durante a época da pesquisa o escritor detectou que ocorria uma flagrante mudança nas relações produzidas no seringal. Outrora predominantemente as relações do toco: em que o seringueiro tinha uma casa disponibilizada pelo patrão, assim como as estradas, equipamento e mercadorias para consumo e de sua família, assim deveria fornecer determinada quantidade de borracha por fabrico ao senhoril; entretanto, o toco vinha a transmutar-se em regime de gleba, onde o seringueiro passa a arrendar uma faixa de terra com sua família e, além de extrair a borracha, desenvolve a agricultura, pagando ao seringalista o aluguel desta em víveres ou em dinheiro.

A servidão humana, infelizmente, não era uma característica típica nos seringais da Amazônia, estendendo-se também para outros ramos da atividade capitalista, como por exemplo, o grande latifúndio monocultor do sul do Pará e sul do Amazonas, onde milhares de vidas são reduzidas e reles condição de coisa.

Quem sabe para a próxima edição o autor providencia um capitulo sobre a situação atual dos seringais estudados no livro, Juma e Três Casas, e outro sobre formas de organização sindical dos seringueiros na região estudada — a região do Rio Madeira, onde também nascera Carlos Teixeira.

Servidão Humana na Selva torna-se, desde seu lançamento, uma referencia obrigatória para quem estiver interessado em estudar os seringais, suas contradições, desmandos e crueldades com que essa variante do modo capitalista de produção subordina o homem.

Os Novos Rumos da Literatura Amazonense

Karl Marx, no seu magistral A Ideologia Alemã, ao analisar como as estruturas econômicas exerciam uma influência avassaladora sobre a mentalidade dos indivíduos, produziu uma teoria de tamanho impacto sobre o século XX que boa parte dos sociólogos a partir dele se ocuparam em negar ou ratificar suas idéias.

De fato, as condições econômicas influenciam a vida espiritual de um povo, muito embora o fator econômico não seja determinante. Isso Marx já afirmara em O Capital. Infelizmente muitos daqueles que tanto criticarem-no tenham esquecido, ou mesmo desconheça por completo, que ele tenha, na sua obra mais importante, reformulado muitas das idéias do materialismo histórico.

Quando se fala em vida espiritual, não se engloba apenas a concepção de religião ou as crenças morais, se inclui também a produção intelectual, a arte e, portanto, a literatura. Então, tomando esse direcionamento, o escritor, como qualquer outro cidadão, é alguém que sente a angustia, as aspirações e idéias de seu tempo, ou seja, é influenciado por esta “produção material” que Marx descobrira; um dos fatores que impulsiona a evolução do fazer literário é a dialética da sociedade, tendo por conseqüência nestes homens, escritores e sujeitos da história, a ânsia por resolver e entender a dinâmica do meio onde vivem, e não simplesmente uma necessidade de superar seus mestres, como afirma o teórico literário Harold Bloom; que o diga então Emile Zola, que tentou criar uma escola literária capaz de equipara-se ás conquistas científicas de seu tempo, o resultado foi o Naturalismo.

Mas onde pretendo chegar com essa explanação é decifrar o novo rumo que a literatura amazônica está tomando; durante tanto tempo ocupada em retratar, principalmente, o universo do ribeirinho, do caboclo ou do indígena e suas angústias na luta de sobrevivência frente à floresta amazônica, como fez com tanta maestria pelo natural de manicoré Arhur Engracio, e alcançou o seu ápice em rigor estético com o português Ferreira de Castro, foi nada mais que uma arte fruto de uma estrutura social “ruralizada” e tradicional outrora predominante na Amazônia. Mas esse tema, que para muitos foi alvo de preconceito, tem perdido cada vez mais importância, ou pelos menos cada vez de dividir seu espaço com uma literatura mais urbana (como disse o escritor Max Carpentier), que só agora ganha mais espaço em nossa cena literária.

O progresso, esta força inexorável, que destrói as antigas relações de produção para criar uma outra, racional e competitiva, recomeçou no Amazonas, depois de décadas de torpor após a decadência da borracha, nos anos sessenta. As condições materiais de existência, em constante urbanização, “em suas disparidades e antagonismos” (para usar uns termos de Octavio Ianni), chama cada vez mais atenção desses escritores, principalmente os da nova geração. Os temas típicos de grandes metrópoles, crimes, narcotráfico, desemprego, a miséria das periferias — no nosso caso a problemática das invasões… O desespero do cidadão frente a um modelo social que tende a relegá-lo ao anonimato, estranho tanto para com os outros quanto para consigo mesmo, incapaz de gerir relações com base emocional, enfim, o homem que estes novos escritores, enfocam é um ser individualista que tem por base o cálculo em suas relações com o outro, enxergando os homens como meios que, se bem aproveitados, se pode chegar a um fim especifico…

Mas esse processo de urbanização não ocorre de maneira tão mecânica como se pode imaginar, com a simples substituição do tradicional pelo moderno. Como já foi constatado por estudiosos da urbanização na América Latina, como Rubem Oliven, Gilberto Velho e Florestan Fernandes, o desenvolvimento no nosso continente foi desigual, tardio, dependente e combinado, portanto, as estruturas modernas convivem de forma hora tensa, hora harmônica, com o tradicional.

A mesma tensão entre tradicional e moderno ocorre em nossa região, com a cultura cabocla dividindo espaço com formas culturais e econômicas racionalizadas. Estes novos escritores, entre os quais eu me incluo, mostram em seus textos esta referida ambigüidade do entrelaçamento entre a cultura tradicional amazonense e o impulso capitalista vindo dos grandes centros.

A nova literatura amazonense começou a mostrar sua face na década de 70, época em que o clube da madrugada dava sinais de esgotamento; entre um de seus primeiros registros é a obra “O Tocador de Charamela” do já falecido Erasmo Linhares, volume de contos que, embora com algum toque de prosa rural, já mostrava a tônica do que viria ser uma nova tendência dos artistas “barés”, o enfoque de um “mundo cruel, mesquinho e desumano,” como escrevera Tenório Teles no prefácio da obra.

Na ânsia de compreender a mutação social da sociedade amazonense, os novos escritores acabam, mesmo que inconscientemente, também por desenvolver uma nova forma de linguagem artística para interpretar o mundo amazônico.