Conto: O Presente

Ela ainda teve tempo tentar proteger-se com os braços e soltar um grito de desespero quando desferi um pesado golpe que atingiu a parte esquerda do seu crânio; caíra de joelhos, gemendo muito, colocou as mãos no lugar onde a cabeça soltava grandes quantidades de sangue que escorria pelas mechas negras e pingavam pela ponta dos cabelos no chão frio — exatamente como a goteira da torneira da sua cozinha…

 O cão, como se sentisse o aroma do sangue da sua dona, começou a latir descontroladamente, dando pulos frenéticos contra a portão do quintal, como se tentasse arrombá-la para prestar-lhe socorro; ouvi também outros cachorros latirem loucamente, atendendo aos gritos do companheiro, mas ali eles não tinham qualquer controle sobre situação, apensa eu…

Dominado por um estado de euforia maléfica, que só posso explicar como a combinação causada pela fúria causada pelo seu sarcasmo, os goles de cachaça, o esforço da martelada que esquentara-me os nervos e a visão do sangue que escorria da sua cabeça, atingi Márcia com mais um segundo e mais pesado golpe, ela despencou no chão, meio de lado; a quantidade de sangue que a martelada fez espirar foi considerável; agonizando, retorcia-se sobre o próprio sangue; martelei seu crânio mais uma vez, e outra vez, e mais outra vez, martelei dezenas de vezes, enquanto dizia:

“Está gostando do meu presente… Está gostando do meu presente?” E a cada martelada que eu desferia, repetia, entre uma gargalhada estridente e insana: “Está gostando do meu presente…”

Só finalizei quando a exaustão me dominara; sua cabeça não passava de todo disforme e repugnante, com pedaços de cérebros e sangue coagulado escorrendo horrivelmente por entre as aberturas…

Retirado do livro A Obra-Prima de Amarildo e Outros Contos Indecorosos.

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Conto: Victor Martinez

“Já estava aponto de desfalecer, seu corpo entrara num estágio entre a dormência e a atividade; apenas o enorme barulho da chuvarada o mantinha acordado. Em meio ao ruído confuso do ambiente lá fora, seus ouvidos divisaram algo bem singular… Tentou levantar-se para ver o que era; um ruído vindo da porta; com esforço, tomando a mesa para apoiar o braço; escorregou, a cadeira caíra para trás, ainda susteve-se em pé graças à mesa; as pernas tremiam; o corpo doía; parecia haver uma chama consumindo-o por dentro, nem parecia ter sido vodka o que ingeriu, mas ácido; logo que teve esta conjectura, os braços escapuliram do móvel, tinha dado alguns passos para frente; caiu violentamente no chão frio, sua irritabilidade estava multiplicada por dez vezes em virtude da dor excessiva; ao cair, batera o joelho violentamente no solo, outra dor aguda o tomou de assalto; deu um grito de raiva e aflição; fraturou o joelho, tinha certeza; o barulho que ouvia parou subitamente… Acomodou-se de bruços para cima, observava o teto, impotente para fazer algo, esperava. Esperava o que? Nem mesmo ele sabia; talvez a maldita dor sumir, o álcool dissolver em seu sangue, a morte tocar-lhe o rosto… Sentiu-se como uma criança indefesa perdida numa enorme cidade, mas esta cidade era sua casa, e seu terror era si próprio, não havia ninguém para salvá-lo, começou a chorar, sentia-se parvo, muito mais lerdo que antes. Os anos passaram e ele não era nada mais que um espírito infausto temente á si próprio e á todos, temia olhar para dentro de seu abismo, temia que seu abismo olhasse para dentro dele, temia a visão das trevas, temia que o véu soturno o dominasse de vez. Era ateu, mas temia o céu, temia o inferno, temia o Criador e temia Lúcifer; temia a gloria e o fracasso; temia a alegria e a tristeza. Era descrente e religioso, era herege e devoto, era beato e pagão, era seu deus e seu demônio. Não sabia o que era o júbilo. Quanto à temeridade, à amargura, à consternação, não mais se dava conta, tanto tempo vivera no porto da miséria, no caminho de vermes, na sofreguidão espiritual; perdera o ímpeto revolucionário, perdera a força da lucidez, o fulgor, a agressividade… Tinha tudo e não tinha nada, tinha a mundo e não tinha espírito. Austeridade, aspereza, tudo isso lhe fora disciplinado, era dócil, não sabia mais se rebelar. Assim como Arthur Rimbaud, amores o crucificaram e colocaram sua dignidade à prova, apostaram sua posse, e ganharam… Fizeram confeites e anedotas, gracejaram e o ludibriaram, a desgraça foi seu deus… Jamais verá o natal sobre a terra, a claridade divina…”

Trecho do conto Victor Martinez, retirado do livro A Obra-Prima de Amarildo e Outros Contos Indecorosos, de Ricardo Lima.