Bauman e o Mundo Moderno

Bauman
Zygmunt Bauman: o analista da modernidade.

Confesso que entre os grandes autores da sociologia, aquele que foi de fato o meu herói durante os tempos de graduação e durante boa parte do mestrado foi o sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Uma das coisas que mais me fascinava na sua obra é a capacidade de analisar, a partir de uma perspectiva extremamente humanista e ao mesmo tempo crítica, a constituição, os potenciais, as contradições e dilemas do mundo moderno.

Um das primeiras obras que li foi Confiança e Medo na Cidade, em que o autor analisa como, na nova configuração das cidades no século XXI, prevalece a lógica da exclusão dos mais pobres em guetos e o encastelamento dos mais ricos em ilhas de riqueza.

Li também Modernidade e Ambivalência, uma obra extremamente densa, diga-se de passagem, onde, tomando como ponto de partida as reflexões da Escola de Frankfurt sobre o início da modernidade, propõe que a destruição dos judeus e de outras minorias por governos totalitários não era um fenômeno fora da curva do projeto moderno, mas algo inerente a ele, pois ao homogeneizar tudo e todos ao seu processo de reprodução e expansão contínua, aqueles que não pudessem se integrar seriam sumariamente eliminados.

Outra obra de destaque é Em busca da Política, um livro em que o autor discute o lugar das relações de poder na contemporaneidade, e alerta: o lugar da politica foi deslocado do estado para os grandes fluxos de capital, assim ela se distancia cada vez mais dos cidadãos, por isso está mais difícil a população influenciar ou mudar as trajetórias das politicas públicas. Como solução Bauman afirma ser necessário trazer a politica para o palco da Àgora (sociedade civil) e transformar problemas que a primeira vista parecem questões meramente pessoais em problemas sociais. Só assim poderemos recuperar a solidariedade perdida. Cabe mencionar uma critica pertinente que Bauman faz ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e sua suposta adesão a terceira via.

Por fim, Modernidade Liquida, uma obra onde ele condensa os principais problemas e temas de sua reflexão enquanto escritor e professor, apresenta um panorama geral da nova modernidade, iniciada no final do século XX, e a modernidade sólida, que durou até o fim da década de oitenta do mesmo século.

Zygmunt Bauman é um verdadeiro mestre, um pensador que reflete de maneira sensata e ponderada sobre os dilemas do mundo e que não precisa da polêmica para estar em evidência, pois sua genialidade como sociólogo e intelectual bastam para mostrar sua relevância.

Em tempos onde pseudo-economistas, músicos decadentes, jornalistas medíocres, atores pornôs e astrólogos posam de intelectuais e conseguem com isso um bom rebanho de incautos apoiadores, ler Bauman é quase um alento nesses tempos de ignorância coletiva.

Segue abaixo uma entrevista com ele realizada pelo programa Observatório da Imprensa.

Anúncios

On-line, Off-line: Sociologia da Internet

marketing-online-y-offline(…) mantenha abertas suas opções. Não jure fidelidade “até que a morte nos separe” a qualquer coisa ou a qualquer pessoa. O mundo está cheio de oportunidades maravilhosas, sedutoras e promissoras; é loucura perder qualquer delas tentando se amarrar de pés e mãos a compromissos irrevogáveis.

Fazer contato com o olhar, reconhecendo a proximidade física de outro ser humano, parece perda de tempo: sinaliza a necessidade de gastar uma parcela do tempo precioso, mas horrivelmente escasso, em mergulhos profundos (coisa que a exploração de profundidades certamente exigiria); uma decisão que poderia interromper ou impedir o surfe por tantas outras superfícies não menos, e talvez muito mais, convidativas.

Numa vida de contínuas emergências, as relações virtuais derrotam facilmente a vida real. Embora os principais estímulos para que os jovens estejam sempre em movimento provavelmente do mundo off-line, esses estímulos seriam inúteis sem a capacidade dos equipamentos eletrônicos de multiplicar encontros entre indivíduos, tornando-os breves, superficiais e sobretudo descartáveis. As relações virtuais contam com teclas excluir e remover spams que protegem contra as consequências inconvenientes (e principalmente consumidoras de tempo) da interação mais profunda.

Para um jovem, o principal atrativo do mundo virtual é a ausência de contradições e objetivos conflitantes que rondam a vida off-line. O mundo on-line, por outro lado, cria uma multiplicidade infinita de possibilidades de contatos plausíveis e factíveis. Ele faz isso reduzindo a duração de contatos e, por conseguinte, enfraquecendo os laços, muitas vezes impondo o tempo, em flagrante oposição à sua contrapartida off-line que, como é sabido, se apoia no esforço continuado de fortalecer os vínculos, limitado severamente o número de contatos à medida que eles se ampliam e se aprofundam. Essa é uma grande vantagem para homens e mulheres que se atormentam com a ideia de que o passo que deram talvez seja equivocado e que talvez seja tarde demais para minimizar as perdas.

(…)

O que mais importa para os jovens é preservar a capacidade de remodelar a identidade e a rede no momento em que surge uma necessidade de refazê-las (…) A preocupação dos antepassados com a identidade, exclusiva e única, tende a deslocar-se para a preocupação com um remodulamento perpétuo da identidade. As identidades devem ser descartáveis; uma identidade insatisfatória, ou não suficiente satisfatória, ou suficientemente satisfatória, ou uma identidade que denuncia a identidade avançada, deve ser facilmente abandonável (…).

As capacidades interativas da internet são feitas sob medida para essa nova necessidade. Em sua versão eletrônica, é a quantidade de conexões, e não sua qualidade, que faz toda a diferença para as chances de sucesso e fracasso.

(…)

Ao mesmo tempo, estar em dia com tudo isso ajuda a atualizar os conteúdos e a redistribuir as ênfases na imagem da pessoa; ajuda ainda a apagar depressa os vestígios do passado, isto é, os conteúdos e as ênfases que agora estão vergonhosamente fora de moda. Tudo somado, a internet facilita demais, incentiva e inclusive impõe o exercício constante da reinvenção. (…) Está é, sem dúvida, uma das mais importantes explicações para o tempo que a geração eletrônica gasta no universo virtual (…) em detrimento do gasto no mundo real.

Os referentes dos principais conceitos que emolduram o mundo do dia a dia, o mundo do qual o jovem tem experiência pessoal, está sendo gradual e continuamente transplantado do espaço off-line para o espaço on-line. Entre os mais importantes destes conceitos estão os de contato, encontro, reunião, comunidades e amizade.

(Zygmunt Bauman; Adaptado do livro “44 Cartas do Mundo Líquido Moderno”.)