O Fim do Consenso?

rede-interativapol-1024x506.pngNão há dúvidas de que o debate político nos últimos anos sofreu uma mudança considerável. Se quisessem ganhar os candidatos precisavam moderar seus discursos para situarem-se no centro do espectro político. Não havia espaços para radicalização, que ficava restrita aos pequenos partidos ideológicos. Se uma chapa desejasse vencer deveria conciliar.

Era o que se considerava como pragmatismo político, sempre transigir para aglutinar tanto os eleitores médios, que não são muito de esquerda ou de direita, quanto as forças politicas de centro; ganhava-se a eleição ao mesmo tempo em que garantia-se maioria no congresso para governar.

As razões para esse modelo ter sido hegemônico dentro da democracia liberal se deve a duas razões. Primeiro, o fim do Socialismo Real, que acabou com qualquer alternativa situada fora do liberalismo; segundo, o enfraquecimento do Estado de bem-estar e o desenvolvimento da globalização, onde o predomínio dos grandes fluxos de capital global retirou o poder do Estado de propor movimentos de economia politica que não estivessem atrelados à solidariedade global.

Isso acabou criando um cenário, a partir de década de noventa, de hegemonia da democracia liberal e da ideia de que havia um consenso a respeito do que deveria ser feito na economia politica do século XXI.

Contudo, vemos nos últimos anos uma polarização nos debates políticos e a emergência de uma extrema direita nacionalista, como nos EUA, Brasil e Europa. Isso sinaliza que o velho modelo consensual parece estar em decadência ou, pelo menos, em crise.

Mas quais as razões disso?

O canal Meteoro Brasil, publicou um vídeo em que apresenta uma interessante analise sobre o processo (veja aqui). Antes, a disputa politica tinha nas grandes mídias tradicionais suas únicas mediadoras. Para expor suas ideias e conquistar seus eleitores, os candidatos precisavam conquistar a simpatia destes atores sociais, pois eram eles quem filtravam as mensagens politicas e tinham o monopólio da comunicação.

Agora, contudo, esse monopólio foi desarticulado pelo surgimento das redes socais. Não é mais preciso passar pelas grandes corporações midiáticas para chegar ao eleitor, agora o Twitter, Facebook, Instagran ou Whatsapp podem fazer o mesmo. Chegando diretamente às pessoas, é preciso ter uma estratégia para chamar atenção dentro do caos que são as mensagens e propagandas das redes virtuais. A melhor maneira para conseguir isto é saindo do discurso legitimamente aceito e partir para uma linguagem que tenha maior impacto sobre as pessoas; o discurso que mais chama atenção, tanto para o bem quanto para mal, é o discurso polarizado, situado fora da zona de legitimação. Deste modo, os candidatos passam a usar de estratégias para conquistar o eleitor com discursos extremos, muitas vezes xenófobos, machistas e racistas, que desafiam a inteligência de qualquer pessoa com o mínimo de bom senso.

A resposta do canal Meteoro Brasil apenas responde em parte a emergência da extrema direita e seu discurso polarizado. A resposta completa não está apenas no surgimento das redes sociais ou de estratégias de marketing para chamar atenção. É preciso analisar a questão tanto a nível global quanto a nível nacional. Do ponto de vista global, a emergência do mercado globalizado como instância privilegiada do social, e o consequente esvaziamento da capacidade de manobra dos Estados Nacionais, não foi capaz de responder integralmente às demandas sociais, como redes de proteção aos desfavorecidos, correção das desigualdades sociais, geração do pleno emprego, estabilidade social para ampla parcela da população e menos corrupção na política. Nacionalmente, nossa democracia, nascida tardiamente com a Nova República e a Constituição de 1988, se coloca dentro deste contexto. A demanda dos trabalhadores e trabalhadoras sempre foi por melhores serviços públicos e por uma maior transparência nas instituições representativas.

Essas contradições, contudo, não foram resolvidas. Mas apenas potencializadas por uma estrutura emperrada, distante da população e tomada por interesses econômicos escusos. Diante da descrença no modelo tradicional e conciliatório de fazer politica, o discurso e práticas polarizadas ganham terreno, principalmente se eles apresentarem soluções fáceis para problemas difíceis, como é o caso da candidatura de extrema direita atual.

O discurso extremo não nasce apenas pelo surgimento das redes sociais, mas de um contexto onde se torne fértil seu florescimento.

José Murilo de Carvalho, em entrevista à BBC Brasil (leia aqui), afirmou que a força dessa direita autoritária está diretamente relacionada ao fracasso do modelo politico ocidental em dar respostas concretas às demandas dos cidadãos como, por exemplo, criar uma saída para nossa crise econômica.

Mas que isso, conforme assinala Bruno Carvalho, em artigo na Revista Piauí, que fora parcialmente reproduzido na reportagem da BBC:

“Vivemos uma crise epistemológica que ainda não temos como entender bem. Continuamos a pagar a conta por erros históricos como processos abolicionistas incompletos e racismo entranhado nas instituições. O fato de o eleitorado mais de direita optar por um radical, ao invés de outros candidatos da direita mais comprometidos com a democracia, indica uma necessidade urgente de autocrítica entre elites conservadoras e liberais”

Essa crise epistemológica, simbólica e social coincide com os limites da modernização brasileira, sua dependência dentro de um mundo cada vez mais interligado, de uma democracia liberal apartada das demandas populares e que não conseguiu resolver os problemas mais urgentes do Brasil.

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Crônica: Flores Sobre o Asfalto

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Fonte: Jornal A Crítica

As grandes cidades são paradoxais; ao mesmo tempo que podem prometer aventura, mudança e liberdade, também são o lugar onde o homem se anula, perde sua subjetividade diante da maré uniformizadora do mundo moderno, torna-se um número e uma parte insignificante da cifra que alimenta esse sistema engolidor de pessoas.

Perdidos em meio ao asfalto, ao concreto e às ruínas acinzentadas que se erguem contra o céu fumacento, vivemos completamente tragados por este monstro indescritível que, conforme já tinha dito Marshall Berman, ameaça destruir tudo o que somos e o que um dia poderíamos chegar a ser.

Entretanto, mesmo em meio ao concreto, ao piche, ao asfalto e ao pálido cinza cadavérico que nos tinge, a vida parece não se render; a natureza, mesmo tão destruída e mal tratada por essa espécie errante e ingrata, se rebela contra a escuridão e emerge mostrando sua força.

Vi essa força da natureza se rebelando contra a decadência nos ipês que passaram a crescer nos canteiros centrais da Avenida Djalma Batista, em Manaus (leia aqui). Uma das ruas mais movimentadas da cidade — veias putrefactas que vomitam milhares de carros por dia, parecendo pus sendo exalado de uma ferida. As flores tingidas de branco, amarelo e roxo criavam um contrate perfeito entre a natureza viva e a natureza morta e artificial de uma sociedade estagnada e decaída.

Mesmo em meio ao cinza, asfalto e concreto a natureza resiste. Talvez seja um recado de que, apesar de tudo, sempre haverá esperança.

Resenha: As Coisas do Porão, de Rafael Elfe

capa-ep-coisas-do-porao-1400x1400.jpgMuitos dizem que a música popular brasileira está em franca decadência. Artistas como Pablo Vittar, Anitta, cantores (as) desafinados de funk e todo aquele batalhão de duplas e cantores sertanejos com letras pouco elaboradas e melodias feitas para ouvidos preguiçosos, parecem ser a prova irrefutável desta safra ruim.

Mas essa visão pessimista não passa de um grande equívoco. Há muita coisa boa acontecendo na música nacional: Benjamin, Silibrina, Eliana Printes e Rafael Elfe são apenas uma pequena amostra da vitalidade da nossa música atualmente.

Coisas boas estão ai, só que não chegam para o grande público. Basta perder a preguiça, não mais aceitar o que a indústria cultural quer nos enfiar goela abaixo procurar um pouco.

Escutando o novo trabalho deste carioca, As Coisas do Porão, lançado em 2017, percebe-se que temos diante de si um artista talentoso, capaz de transformar o cotidiano em poemas acompanhados de melodias bucólicas e populares — o que faz com que este musicista seja classificado como folk, mesmo que ele rejeite este rótulo, preferindo o que músico popular. Notei em suas músicas influências de Raul Seixas, Bruce Springsteen, Belchior e Bob Dylan, tudo colocado de maneira orgânica, sem forçar a barra.

Em seu mais recente trabalho Elfe nos brinda com belas músicas como Seu Pó nas Coisas, a bucólica e singela Cimo do Outeiro e as carregas de critica social Capetalismo e Do Crãnio de Um Fascista Nascerá Flor. Também destaco minha preferida do disco Comentário a Respeito do que Sou.

Disco recomendado para quem gosta de canções acústicas, poéticas e está a procura de vida inteligente na música atual brasileira.

 

Crônica: Tarde no Detram

Depois de ter pagado quase 800 reais de IPVA fui no Detram retirar o novo documento do carro. Chegando lá, descubro que precisava do documento antigo e xerox, bem como dos comprovantes de residência com original e cópia; sabe-se lá para o quê eles precisariam disso. Respirei fundo e fui providenciar todos os documentos. Quando volto, a atendente pergunta se eu paguei toda as taxas, eu respondo que sim, que tinha pagado tudo à vista, sem parcelamento. Então ela me disse que além do Imposto Veicular, eu precisava ter pagado outras duas taxas, ou seja, para eu poder pagar o referido imposto, eu deveria ter pagado outros dois de 140 reais. Peguntei, já suando de raiva, se eu poderia pagar naquela hora as taxas que faltavam e resolver tudo. Ironicamente, fui informado de que o funcionário responsável por isso não estava e que eu só poderia pagar em bancos do Bradesco e a confirmação de pagamento só cairia em 24 horas.

É uma situação kafkiana eu ter que pagar dois impostos para depois poder pagar outro, ser obrigado a pagar mil reais anuais de IPVA enquanto quem tem jatinho particular pagar quase nada, ter de trazer cópias e originais de documentos cujos dados eles já sabiam, apenas ter como opção de pagamento um banco que é um dos piores em atendimento e, em troca de tanta rigidez e taxas absurdas, ter ruas e estradas esburacadas que me dão prejuízo quase mensal.

A Velha Direita Não é Centro

Por Marcelo Fantaccini Brito

As eleições estão chegando, temos que combater Bolsonaro, mas também temos que combater outro mal: o discurso da velha direita, que está se dando o nome de “centro”. De acordo com este discurso, propagado por FHC, grandes empresas de mídia e bancos, haveria candidatos de “centro”, como Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles, Álvaro Dias e Rodrigo Maia, que seriam o caminho sensato entre os “extremos”, representados na direita por Jair Bolsonaro e na esquerda por Ciro Gomes, Guilherme Boulos, Manuela d’Ávila e talvez Fernando Haddad. De acordo com este discurso, os candidatos desse “centro” seriam os mais seguros para a democracia.

Este discurso é desonesto e completamente distante da realidade por três motivos:

1) Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles, Álvaro Dias e Rodrigo Maia são direita, não são centro. Representam o 1% do topo da pirâmide social. Não é só porque existe alguém mais à direita, como Bolsonaro, que a direita deixa de ser direita. Seria a mesma coisa que chamar o Boulos de candidato de centro porque existe um candidato do PSTU. A única candidata realmente de centro nesta eleição é a Marina Silva, e talvez o próprio Ciro Gomes. 

2) O candidato da velha direita rebatizada de centro não representa a defesa da democracia porque representa a coalizão de apoio a um governo sem voto, que surgiu com o propósito de implementar o programa de candidatos derrotados na eleição de 2014, que inclui a precarização das relações de trabalho e o congelamento do investimento no social, programa que dificilmente venceria uma eleição. Os candidatos que ficaram no lado da democracia em 2016 foram Ciro, Boulos, Manuela e Haddad 

3) Nivelar Bolsonaro com Ciro, Boulos, Manuela e Haddad como extremos é canalha e ainda ajuda a relativizar Bolsonaro. O ex-capitão defende torturador, já fez declarações racistas, machistas e homofóbicas, pretende acabar com direitos dos trabalhadores. No lado de Ciro, Boulos, Manuela e Haddad, não existe qualquer sinal de extremismo. Ciro defende uma política fiscal bem austera, pretende acabar com o teto geral, mas pretende manter algumas despesas sob o teto, está procurando manter mais contato com empresários do que com sindicatos e movimentos sociais, está querendo ficar cada vez mais distante do rótulo de “candidato de esquerda”. Boulos e Manuela defendem a agenda social-democrata clássica: reforma agrária, reforma urbana e reforma tributária progressiva. Haddad fez gestões no Ministério da Educação e na Prefeitura de São Paulo que nada lembram extrema-esquerda: sempre procurou ter contato com empresários, nunca rejeitou OS na saúde, PPP e terceirização das creches.

O discurso de que o candidato do PSDB/PMDB/DEM seria “de centro” entre os “extremos” representados por Bolsonaro e pela esquerda é estapafúrdia e desonesta porque não há qualquer discurso sensato e honesto que sirva para levantar candidaturas que representem a continuidade de um governo fracassado com 4% de aprovação.

“Jornalistas” que chamam os candidatos do PSDB/PMDB/DEM de “candidatos de centro” não são jornalistas profissionais. São marqueteiros do PSDB/PMDB/DEM disfarçados de jornalistas.

Crônica: Carta a uma Amiga Distante*

Por Tenório Telles**

Boa companheira,

O mar está inquieto e os ventos sopram. Estou comigo e sigo, apesar dos temores e das dúvidas. É imperativo seguir, embora o corpo fraqueje e o coração hesite. Lá fora a chuva molha o tempo e a terra. Molha também o meu ser, amenizando a minha ânsia. Apesar da inquietação, mantenho-me sereno, resistindo a tudo; sem deixar o desespero tomar conta do meu ânimo. A morte ronda tudo: os sonhos, a política e o convívio social.

*Retirado do livro Viver, de 2011.

** Escritor, poeta e editor amazonense.

O Lugar do Mercado numa Sociedade Democrática

Economia Por: CarolinaNesses mais de dez anos estudando cientificamente as relações sociais e as consequências da modernidade sobre a coletividade, aprendi a desconfiar de tudo, principalmente das correntes de opiniões polarizadas nesses tempos atuais. Isso não significa, porém, neutralidade, até porque ser neutro diante de valores e correntes culturais é impossível. Não se trata de ser um suposto isento que acredita saber olhar acima de tudo e todos. Mas significa que, diante de um mundo de injustiças, saber posicionar-se de maneira consciente e sensata e, de vez em quando, tentar olhar acima da luta facciosa para escapar do dogmatismo e da cegueira intelectual.

Isso, acredito, é uma das coisas mais difíceis, isto é, defender seu ponto de vista de maneira heroica sem resvalar para a moral de rebanho.

Nos intensos debares a que estamos assistindo diante da anomia das instituições brasileiras (e elas algum dia deixaram de ser anômicas?), um dos assuntos que mais tem assolado a luta entre liberais, socialistas e sociais-democratas é a relação estado e sociedade. Qual deve ser o lugar o mercado dentro da sociedade atual?

Liberais vulgares como Rodrigo Constantino, a dita equipe econômica de Jair Bolsonaro, anarco capitalistas em geral e o Movimento Brasil Livre defendem uma espécie de centralidade do mercado sobre a sociedade. As relações mercadológicas seriam vistas ai como a salvação para os problemas brasileiros. Basta inserir setores problemáticos dentro da lógica oferta/demanda que, paulatinamente, nossas distorções desapareceriam.

A pedra motor dessa ideologia está no liberalismo clássico, para quem a economia, vista por eles com um sistema de trocas voluntárias, é o fenômeno fundador do social. Somos indivíduos atomizados a procura de cada vez mais lucro e menos prejuízo. Esse pensamento está presente em mestres como Locke, Mill, Tocqueville e Smith — com algumas nuances entre eles e muito mais complexo e sutil que nas deploráveis figuras do nosso vulgar liberalismo tupiniquim atual.

O grande problema desse doutrina politica e social é que o mercado não é uma instância fundadora do social e a economia não pode ser tratada como a centralidade da vida coletiva. Aqui me aproximo do sociólogo conservador Êmile Durkheim, para quem a sociedade é formada por uma solidariedade que sedimenta os laços sociais, fazendo com que os homens vivam juntos e não desagreguem e lutas intestinas e competição desenfreada; sem embargo, a sociedade é uma força moral.

Outra objeção que tenho a respeito da ideologia do liberalismo vulgarizado e extremado, não confundir com a rica tradição do liberalismo clássico, vem a partir da leitura de Max Weber, no seu livro Economia e Sociedade. A economia é um subsistema social entre outros, como a politica, a família e o Estado, e todos eles se influenciam tanto mutuamente quanto influenciam a ação dos indivíduos.

Elevar a economia ou o mercado, como preferir, como lugar central e como panaceia dos problemas brasileiros é um erro.

O mercado é essencialmente desagregador. Não se trata de demonizar o potencial das chamadas trocas voluntárias, mas a capacidade autorregulatória do subsistema econômico é muito limitada, isso significa que, caso não regulada por uma instância superior, seja ela o estado ou alguma outra esfera de decisão democrática tanto entre empreendedores quanto trabalhadores, ele se torna basicamente predatório e desumano.

Já existe uma literatura na área da história e das ciências sociais farta sobre as consequências deletérias da instalação forçada do capitalismo nas sociedades tradicionais — destruição de culturas e civilizações milenares ou sua incorporação subalterna na lógica do capitalismo moderno.

O lugar do mercado numa sociedade democrática deve ser o de regulação sob uma instância superior que leve em conta as demandas dos atores envolvidos e um forte estímulo e proteção para os pequenos e médios empreendedores.

Não se trata de Estado Mínimo ou Estado Máximo, mas de Estado Necessário. Penso que essa é a única forma de fazer o subsistema econômico servir aos interesses da sociedade e não o contrário.