O Novo Capítulo da Crise Brasileira

As revelações do site The Intercept nos jogaram em mais uma etapa da crise. Nossas instituições, mais uma vez, estão sendo testadas até níveis intoleráveis. O pior é que o governo atual não tem a menor capacidade de resolvê-la, ele não só é parte da crise, como também precisa dela para se manter. Apenas num contexto de tensão permanente é que Bolsonaro consegue funcionar.

Agora, para além do que os vazamentos significam politicamente e juridicamente para o ex-Juiz Moro, eles revelam algo muito mais grave, que é a postura pouco transparente e republicana que tem o estamento togado — o que coloca em cheque a neutralidade e a imparcialidade que a justiça de um país liberal e democrático como o Brasil precisa ter, como apontou Lynch (leia aqui). Diante desse cenário de flagrante anomia da justiça, temos que nos perguntar como fica o cidadão comum diante de uma instituição notadamente problemática.

O sociólogo conservador Oliveira Vianna escreveu acertadamente que no Brasil o cidadão comum era refém do arbítrio das oligarquias locais. Sem ter um poder capaz de protegê-lo, as elites abusariam impunemente dos cidadãos. A conclusão a que chega o autor é pessimista — jamais seremos uma democracia de tipo americano ou inglês.

Luciana Zaffalon, em sua tese A Espiral Elitista de Afirmação Corporativa (leia aqui), estudou a fundo o funcionamento do judiciário em São Paulo e chegou à conclusão de que há uma relação de favorecimento mutuo entre os três poderes (executivo, legislativo e judiciário). Desta forma, os freios e contra pesos constitucionais que protegeriam o cidadão comum contra o arbítrio do Estado em contexto brasileiro se transformam em mera ilusão.

O resultado é o abuso dos que detém o poder do Estado (elites togadas, política e econômicas) sobre a população.

Nossa justiça é, portanto elitista, fechada em si mesma e funciona como uma casta intransponível.

Se a caixa preta do financiamento de campanha e da aprovação de projetos de lei pelo executivo foi aberto e mostrou um escandaloso esquema de propinas e subornos, agora precisamos abrir a caixa preta do judiciário brasileiro e expor as entranhas da relação entre os órgãos da república. Se isso não acontecer, será a legalização do arbítrio e do abuso, e a prova de que, infelizmente, Oliveira Vianna estava certo — jamais seremos uma democracia madura, pois aqui o que reinaria é o mandonismo das facções de aldeia.

Os envolvidos no escândalo são os autores de mais este capitulo da crise brasileira. Ao desrespeitar o processo legal, destruíram a Lava-Jato, desperdiçaram dinheiro, trabalho e tempo do Estado em prol do projeto de poder regido pela ideologia do ativismo judiciário, que nada mais é do que uma tentativa de destruir a política. Assim, a arte da política, vista como o debate de ideias, disputas de projetos e ideologias, concorrência entre os mais variados interesses que se formam pela pluralidade de uma sociedade livre, se transforma numa questão formal e técnica. É um projeto de poder autoritário e conservador.

Estamos diante de um novo dilema. O correto seria anular o julgamento e refazer todas as provas. Mas se isso ocorrer a sociedade brasileira vai ser jogada numa nova onda de polarização e conflito. Se tudo ficar como está, só reforçaria os vícios do processo. Um meio termo não vai satisfazer nenhuma das partes. O cenário é trágico e o STF não tem capacidade de superá-lo.

Meu maior receio é de que a tensão chegue a um ponto em que ocorra uma ruptura autoritária.

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A Esquerda e as Tradições

O debate à cerca do lugar dos costumes e das tradições são um dos pontos mais fundamentais a respeito das discussões políticas atuais. As várias ideologias, tanto à esquerda quanto à direita, tem procurado debater a respeito do lugar que as práticas que resistiram ao tempo possuem no mundo atual.

Nas últimas três eleições presidenciais temas como família, aborto e educação sexual tem tido uma importância crescente nas discussões da Ágora.

Não se pode compreender as chamadas tradições sem entender sociologicamente

a diferença entre o nosso mundo e aquele que se esvaiu com o fim do feudalismo.

Anthony Giddens, no clássico As Consequências da Modernidade, demonstra como o mundo pré-moderno era muito pouco dinâmico e que as tradições e práticas surgidas num passado imemorial eram o centro que guiava todas essas sociedades. Os homens e mulheres tinham uma vida determinada pelo passado, isto é, o presente e o futuro vivam em função de preceitos, rituais, práticas, formas de agir e de pensar que foram determinadas há séculos; estas práticas podiam até sofrer alguma mudança, mas sempre em ritmo muito lento.

A decadência do mundo feudal e a emergência da modernidade mudou completamente as relações sociais. A vida agrária, submetida à estabilidade das estações e só perturbada por desastres naturais ou por invasões estrangeiras, foi modificada por um modo de produção e distribuição de riquezas que se caracteriza não pela estabilidade, mas por uma dinâmica expansiva que mudaria por completo as comunidades de todos os continentes.

O ápice desse processo foram a Guerra Civil Inglesa (1642-1651), a Revolução Francesa de 1789 e os quase cem anos de Revolução Industrial (1750 – 1860). O antigo regime, as antigas práticas do costume, as antigas hierarquias feudais e a prevalência do mundo agrário desmoronaram ou entraram em processo acelerado de decadência. As tradições e suas hierarquias, que naturalizavam a desigualdade e a estabilidade entre os homens, passariam a ocupar um lugar cada vez mais periférico.

Dentro desse processo histórico de mudanças surgem dois grandes blocos políticos em disputa: a esquerda, formada por liberais progressistas e socialistas, advogam a liberdade individual, a igualdade entre os homens e a continua reforma da sociedade em detrimento das tradições e dos costumes; e outro bloco de poder, formado por conservadores, tradicionalistas e liberais de direita, apregoam a utilidade que as tradições e os costumes possuem sobre a vida social, a natural desigualdade entre os homens e a manutenção do status quo como o único possível de existir.

Para a esquerda e o liberalismo progressista o presente é mais um etapa em direção ao futuro e o passado uma prisão que deve ser superada, enquanto que para a direita em geral o futuro e o presente são a continuação de um passado tido como ideal e harmonioso. As tradições, para os segundos, surgem livremente, dão sentido à vida e devem ser preservadas. Para os primeiros elas são arbitrárias, o resultado do exercício do poder de uns sobre os outros, por isso devem ser combatidas.

Mas as tradições não surgem apenas de grupos tradicionalistas, com o advento do Estado Nacional, conforme nos diz Hobsbawm em A Invenção das Tradições, elas são constantemente inventadas e reinventadas para servir como uma sensação de continuidade diante de um mundo cada vez mais dinâmico; obviamente que em contexto de modernidade, onde predomina o contrato social e a igualdade entre os homens, elas tem um lugar de atuação muito restrito. Até mesmo movimentos progressistas já inventaram suas tradições, como a Revolução Francesa e o Movimento Operário.

Diante de todo esse cenário, fica a pergunta: Qual deve ser o lugar da tradição dentro dos movimentos de esquerda e de outras vertentes progressistas?

Sociologicamente falando, Marx e Engels resolveram a questão quando escreveram na Ideologia Alemã que os homens fazem história, mas o fazem dentro de condições que não foram postas por eles, mas por seus antepassados:

Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha, e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado.

Embora exista a necessidade de moldar a história, reformar as sociedades e criar nosso próprio destino, nós ainda somos influenciados, em alguma medida, pelas condições históricas, políticas e culturais de centenas de anos e que se vão acumulando na grande dinâmica do processo macro histórico.

Qualquer movimento social à esquerda que pretenda reformar algum traço da sociedade precisa levar isso em conta sob pena de retumbante fracasso; conhecer as condições concretas de existência do mundo e os processos históricos envolvidos. Para isso é preciso estudo, leitura, discussão teórica e prática; e aqui é preciso ler tanto autores da esquerda quanto da direita.

No mundo da vida não existe tábula rasa.

Por isso devemos analisar concretamente e com sensatez qual o lugar das tradições no mundo atual. Minha alternativa é fazer uma distinção entre tradições e costumes que reforçam a dominação, a relação heteronômica entre gêneros é um exemplo, e aquelas que incentivam a sociabilidade, como festas e comemorações populares.

As primeiras devem ser combatidas e as segundas incentivadas.

O escolha por compreender o mundo a partir do passado ou do futuro tem implicações políticas importantes. A esquerda, que toma a posição em favor do futuro, não deve esquecer que a herança do passado, pois a história é um fator importante a ser considerado.

A compreensão do passado e como se formaram as tradições é o primeiro passo para mudar o futuro.

Max Weber e a Política

WeberPensar os atuais momentos de crise tem sido uma das tarefas mais difíceis para quem se propõe a interpretar de maneira honesta e com compromisso público o Brasil. Um bom começo para isso seria tomar os pensadores clássicos como ponto de partida; não para engessar o pensamento com categorias que muitas vezes podem parecer distantes do nosso tempo e espaço, mas refletir de forma crítica, ou seja, apropriando-se de suas reflexões que podem nos ser úteis para interpretar a multiplicidade de forças sociais e politicas que conformam o momento atual.

Um desses pensadores, pelo menos para mim, é Max Weber (1864-1920), cujas reflexões a respeito do lugar da política e do parlamento são ainda válidas para pensar o mundo atual, pois boa parte do arranjo institucional político contemporâneo, baseado no liberalismo político, teve nele um dos seus formuladores e influenciadores.

O sociólogo alemão vislumbrava o fomento do parlamento como uma forma de limitar a atuação das burocracias estatais. Defendia que sua atuação deveria ser ativa, fiscalizando a ação do poder executivo, e não se resumisse a intrigas e desavenças de líderes demagógicos, mas que proporcionasse a ascensão de líderes ativos e selecionados por sua competência. Portanto, a democracia caracteriza-se como uma forma de organizar a luta pelo poder entre as elites políticas.

Estudioso da burocracia, mostrou como ela se desenvolve em conjunto com outras esferas da sociedade. Para limitar seu avanço defendeu a submissão do aparelho burocrático à dinâmica política; assim seria possível a supervisão da administração e a mediação entre líderes e liderados.

A democracia, então, limita-se a ser um processo de seleção de líderes políticos, onde a participação política não se torna um ponto fundamental. O povo apenas participaria de forma controlada, em intervalos relativamente longos, em virtude da sua natureza passional e volúvel; o parlamento seria um corretivo diante dos excessos populares. Conforme destaca Lorena Monteiro, no artigo Teorias da Democracia e a Práxis Política Brasileira: limites e possibilidades, Weber defende um modelo de democracia minimalista e procedimental, desconsiderando contextos de desigualdade de recursos escassos e dominação entre grupos.

Outro ponto a ser considerado era sua preocupação em equilibrar a ética da responsabilidade com a ética da convicção na ação política. A primeira seria a consciência do governante diante do bem-estar de toda a nação e da ponderação dos mais variados interesses que são formados na sociedade e são espelhados na disputa parlamentar. A segunda seria um conjunto de preceitos ideológicos e morais que formam os líderes políticos e que devem ser perseguidos independente dos resultados ou das consequências.

Penso que o modelo de limitação da participação popular por meio de dispositivos institucionais esteja superado, bem como a valorização do parlamento como único meio de expressão de interesses. Digo isso, pois não se pode pensar nas sociedades atuais, com sua grande pluralidade cultural, politica e social, se satisfazendo apenas por meio da representação parlamentar e seleção de líderes genuínos. Faz-se necessário democratizar a democracia aumentando canais de participação direta, seja através de consultas públicas ou por meio de canais de expressão popular e demandas sociais.

Sem embargo, só podermos ter um Parlamento ativo se a população, fonte de toda soberania, participar e fiscalizar ativamente seus trabalhos. Não há outro jeito.

O equilíbrio problemático entre ética da convicção e ética da responsabilidade ainda tem muita relevância atual, principalmente diante da atuação de grupos progressistas comprometidos com a reforma social*. Como podemos equilibrar compromisso e equilíbrio institucional com a reforma que levem em conta o social? Esse compromisso, diante dos últimos acontecimentos, ainda é valido ou se esgotou? Vale a pena pressionar a partir de fora ou tomar o Estado por dentro?

Precisamos estudar esse liberal chamado Max Weber para entender como as democracias contemporâneas, imperfeitas e fonte de desigualdades, funcionam e para ter novos insights para repensar nosso modelo atual.

***

*Sou partidário da mesmo posição de Lênin: só pode haver militância se ela estiver acompanhada de intenso estudo teórico. Por isso me coloco contra esse unilateralismo do “lugar de fala” que, sem intenso estudo não passa de desabafo e achismo. Só quando colocamos nossa realidade concreta em relação com o contexto maior é que saímos da pseudo concreticidade e alcançamos a raiz do fenômeno social.

O Lugar do Mercado numa Sociedade Democrática

Economia Por: CarolinaNesses mais de dez anos estudando cientificamente as relações sociais e as consequências da modernidade sobre a coletividade, aprendi a desconfiar de tudo, principalmente das correntes de opiniões polarizadas nesses tempos atuais. Isso não significa, porém, neutralidade, até porque ser neutro diante de valores e correntes culturais é impossível. Não se trata de ser um suposto isento que acredita saber olhar acima de tudo e todos. Mas significa que, diante de um mundo de injustiças, saber posicionar-se de maneira consciente e sensata e, de vez em quando, tentar olhar acima da luta facciosa para escapar do dogmatismo e da cegueira intelectual.

Isso, acredito, é uma das coisas mais difíceis, isto é, defender seu ponto de vista de maneira heroica sem resvalar para a moral de rebanho.

Nos intensos debares a que estamos assistindo diante da anomia das instituições brasileiras (e elas algum dia deixaram de ser anômicas?), um dos assuntos que mais tem assolado a luta entre liberais, socialistas e sociais-democratas é a relação estado e sociedade. Qual deve ser o lugar o mercado dentro da sociedade atual?

Liberais vulgares como Rodrigo Constantino, a dita equipe econômica de Jair Bolsonaro, anarco capitalistas em geral e o Movimento Brasil Livre defendem uma espécie de centralidade do mercado sobre a sociedade. As relações mercadológicas seriam vistas ai como a salvação para os problemas brasileiros. Basta inserir setores problemáticos dentro da lógica oferta/demanda que, paulatinamente, nossas distorções desapareceriam.

A pedra motor dessa ideologia está no liberalismo clássico, para quem a economia, vista por eles com um sistema de trocas voluntárias, é o fenômeno fundador do social. Somos indivíduos atomizados a procura de cada vez mais lucro e menos prejuízo. Esse pensamento está presente em mestres como Locke, Mill, Tocqueville e Smith — com algumas nuances entre eles e muito mais complexo e sutil que nas deploráveis figuras do nosso vulgar liberalismo tupiniquim atual.

O grande problema desse doutrina politica e social é que o mercado não é uma instância fundadora do social e a economia não pode ser tratada como a centralidade da vida coletiva. Aqui me aproximo do sociólogo conservador Êmile Durkheim, para quem a sociedade é formada por uma solidariedade que sedimenta os laços sociais, fazendo com que os homens vivam juntos e não desagreguem e lutas intestinas e competição desenfreada; sem embargo, a sociedade é uma força moral.

Outra objeção que tenho a respeito da ideologia do liberalismo vulgarizado e extremado, não confundir com a rica tradição do liberalismo clássico, vem a partir da leitura de Max Weber, no seu livro Economia e Sociedade. A economia é um subsistema social entre outros, como a politica, a família e o Estado, e todos eles se influenciam tanto mutuamente quanto influenciam a ação dos indivíduos.

Elevar a economia ou o mercado, como preferir, como lugar central e como panaceia dos problemas brasileiros é um erro.

O mercado é essencialmente desagregador. Não se trata de demonizar o potencial das chamadas trocas voluntárias, mas a capacidade autorregulatória do subsistema econômico é muito limitada, isso significa que, caso não regulada por uma instância superior, seja ela o estado ou alguma outra esfera de decisão democrática tanto entre empreendedores quanto trabalhadores, ele se torna basicamente predatório e desumano.

Já existe uma literatura na área da história e das ciências sociais farta sobre as consequências deletérias da instalação forçada do capitalismo nas sociedades tradicionais — destruição de culturas e civilizações milenares ou sua incorporação subalterna na lógica do capitalismo moderno.

O lugar do mercado numa sociedade democrática deve ser o de regulação sob uma instância superior que leve em conta as demandas dos atores envolvidos e um forte estímulo e proteção para os pequenos e médios empreendedores.

Não se trata de Estado Mínimo ou Estado Máximo, mas de Estado Necessário. Penso que essa é a única forma de fazer o subsistema econômico servir aos interesses da sociedade e não o contrário.

Globalização: perdedores e ganhadores

Penso que uns dos lugares onde mais podemos perceber as consequências da globalização são nos terminais aeroportuários do mundo. Talvez isso não seja tão notado numa grande cidade regional, como Manaus, mais em cidades de preponderância nacional e internacional, como Brasília, São Paulo, Curitiba e Campinas, esses traços são mais fortes.

Sentamos num banco e à nossa frente temos um turista espanhol falando ao celular; mais à frente temos um grupo de japoneses conversando em voz alta; ao nosso lado executivos chineses atualizando os dados das suas empresas multinacionais em seus tablets; tomamos café numa empresa global, a Starbucks, vamos numa livraria global, a Bookstore, e temos os principais lançamentos da literatura best-seller mundial, cuja prosa leve e de questões pouco profundas permite ler sem muito esforço enquanto se está em conexão ou quando se tenta distrair-se do tédio de ficar algumas horas no grande tubo de aço e tecnologia que é o avião, ou ter acesso ao mais recente número do New York Times, do Washington Post ou da Revista Time ao mesmo tempo que podemos tomar uma cerveja alemã de acompanhamento; mesmo a forma de vestir-se, se expressar e gesticular dos funcionários é padronizada a nível global, com gestos discretos, tom de voz calmo e aceptivo, como cães adestrados. As comissárias de bordo são de uma beleza clássica, cujos exemplos podemos encontrar em Londres, Budapeste ou Quebec, e seu tom de voz é o mesmo que pode ser encontrado em qualquer aeroporto do mundo.

Os passageiros, ou clientes, parecem seguir as mesmas normas de etiqueta, passos rápidos, olhares distraídos, falando baixo e espírito imerso nessas maravilhas tecnológicas que fazem nossa felicidade num mundo conectado, pois estar conectado hoje é um imperativo, um fato social global. Muitas vezes percebi aqueles que não se enquadravam nessa regra de etiqueta, com gestos espalhafatosos ou com um tom de voz inapropriado, sendo olhado com um ar de desprezo perante outros passageiros.

Mesmo as lojas destinadas a vender artigos regionais são temperadas pelo tom transnacional; seus produtos nunca refletem de fato uma regionalidade, mas uma identidade estereotipada buscada pelo comprador: camisas em inglês, brincos de sementes com uma estética mais aceitável para um europeu ou norte americano, ou balas de frutas regionais com um sabor não tão intenso e mais acessível para um paladar estrangeiro.

É nesses lugares onde notamos as forças transnacionais que moldam o nosso mundo, isso a revelia de nós mesmos, a despeito da aceitação das populações regionais ou da cultura do lugar. A globalização também me parece um esforço de fazer com que todos se sintam em casa, sem importar com seu local de origem ou do seu local de destino. O típico indivíduo da contemporaneidade é o Homem à Deriva, o Cidadão Cosmopolita capaz de se mover por todos os lugares do mundo, pois absolveu em seu habitus uma forma cultural globalizada, e que só tenderá a ficar mais forte com o passar dos anos ao se misturar com as culturas regionais dos locais onde ela se instala.

Mas em tudo isso há um paradoxo. Se a globalização é uma tentativa de fazer com que todos se sintam em casa em qualquer lugar do mundo, isso só vale para um tipo de indivíduo: aquele que pode pagar pelas benesses do mundo conectado, aquele que num dia pode estar em Dubai curtindo um final de semana e em outro pode estar em Xangai negociando ações e investimentos com executivos locais. Há os Descartados da Globalização, aqueles para quem nenhum lugar é a sua casa e todo lugar é um lugar de perigo, violência e expulsão. Os fenômenos globais são para eles um estorvo, um peso que são obrigados a suportar. Refugiados de guerras, de crises econômicas ou de desastres ambientais, estes grupos humanos experimentam a negatividade do fenômeno transnacional — são os descartáveis do mundo global que, mesmo assim, possuem uma função nele como, por exemplo, exercendo trabalhos degradantes e de pouco prestigio social que as populações integradas dos lugares onde estão temporariamente instalados se recusam a fazer.

A globalização inclui e exclui, acolhe e expulsa. Ela é a síntese conflituosa de uma dialética cruel, nela os perdedores e ganhadores da história se completam e se opõe; carne, sangue, culturas e produtos são triturados pelo impiedoso liquidificador do capital.

Ela, a Globalização, se tornou um fenômeno inevitável, precisamos enfrentá-la, não como algo ruim, mas como um processo que está mudando tudo o que conhecemos e tudo o que amamos. Se queremos um mundo mais acolhedor, que esteja aberto a todos e a todas, precisamos saber como lidar com os perdedores do processo civilizatório, como tornar o mundo uma casa tanto para eles quanto para nós; devemos lidar com o fato de que a civilização global não é um artigo para exportação e que deve haver grupos humanos não desejosos de se integrar, mas apenas querem ser deixados em paz com seu modo de vida; também precisamos saber como equacionar os antagonismos entre a vontade popular local e regional com as forças globais que tudo mudam. O que tem mais legitimidade, forças impessoais do grande capital transnacional ou a vontade geral de uma comunidade que vive, trabalha e conserva um pedaço de terra há muitos anos?

O desafio global está posto.

Só a Democracia pode salvar a Democracia

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Quanto vale lutar pela Democracia?

Entre os escombros da Nova República e a ascensão de um novo período histórico onde predominará uma poliarquia limitada, vemos os valores da nossa distorcida social-democracia serem jogados no lixo como uma coisa completamente superada, fora de moda, como algo ideológico…

Mas só costumamos chamar de ideológico aquilo que não concordamos. Russel Kirk, o famoso historiador e militante conservador, disse em sua obra A Política da Prudência (1994) que as ideias extremistas, o progressismo e o socialismo, eram ideológicos. Mas todo arcabouço de ideias que dê explicação ao mundo e sustente uma forma de poder no tempo e do espaço pode ser chamado de ideológico. Portando, temos que dar os nomes aos bois, o limitado e prosaico Kirk é tão ideológico quanto os socialistas, sociais-democratas e liberais que costumava tanto criticar.

A inflexão que estamos vendo hoje, com todo o lamaçal da Nova República, só demonstra as consequências nefastas de uma transição democrática lenta, gradual e segura, arquitetada pelos militares que viam a seu poder se esvair frente a crise econômica e às demandas por eleições livres. A conciliação com toda a banda podre da caserna acabou fazendo com que o Novo herdasse as velhas práticas corruptoras e corrompidas da ditadura e de períodos anteriores menos democráticos.

Disso percebemos que está se proliferando certas ideias sustentadas por candidatos e grupos sociais que se colocam como não-políticos e não-ideológicos. Advogam que, como não possuem nada de politico, são tomados de um conhecimento neutro que os tornam capazes de aplicá-lo para administrar o mundo da vida.

Afastar a politica da sociedade civil e torná-la neutra, como uma técnica que só precisa ser aplicada, é algo perigoso que pode beirar o autoritarismo, pois retira do palco de discussão da Ágora os assuntos de interesse da sociedade. Os tecnocratas não percebem a pluralidade, a historicidade e a complexidade de interesses que norteiam a politica e como ela espelha os conflitos em sociedade. Tudo isso funciona como um afastamento do povo da discussão dos seus problemas. O discurso tecnocrático e da antipolítica aparta as pessoas do poder, das instâncias decisórias e das possibilidades de debater seus principais problemas.

Quem ganha afastando o povo da politica? Quem se favorece tornando as politicas públicas blindadas ao questionamento popular apenas por que estariam sob a roupagem de que são medidas técnicas?

Aqueles que afirmam não ser políticos ou não ideológicos são exatamente o oposto, pois suas ações estão sendo amparadas por grupos políticos e interesses econômicos que estão em disputa pelo Estado e pela hegemonia pelo domínio das ideias na sociedade.

Para superar as distorções da democracia representativa e a nossa secular desigualdade precisamos não de tecnocratas ou de líderes que posam de antipolíticos, que usam a fantasia do não sou político, sou administrador como uma forma de conquistar os mais desavisados. Precisamos de mais politica, de políticos de P maiúsculo, de mais democracia, de pôr na esfera de discussão da Ágora os temas mais espinhosos e polêmicos; este é o único caminho para criar um novo consenso e um novo acordo nacional; não elitista e conciliador com tudo que há de mais podre na sociedade brasileira, mas um acordo Popular, que espelhe as demandas de todos os trabalhadores e supere quinhentos anos de dominação fática sobre o povo.

Talvez o que esteja acontecendo agora, com todos os partidos políticos e principais líderes que forjaram a Carta de 1988 expostos em seus esquemas obscuros, aponte para dois caminhos: ou deixamos os interesses econômicos e as elites forjarem um novo pacto que só interessa a elas; ou o povo pega pelos chifres o processo atual e dobre o Poder para o seu lado de forma inédita na história brasileira. Temos uma chance de limpar o poder politico de suas influências deletérias e ajustar a sociedade brasileira numa direção mais justa e equitativa.

As peças estão na mesa. Cabe aos peões decidir se querem continuar sendo bucha de canhão dos reis, rainhas e bispos ou eliminar seus opressores do tabuleiro e criar as novas regras do jogo.

Só mais Democracia pode salvar a Democracia; apenas mais Política pode salvar a Política.

Sobre a Convivência Humana

Viver em sociedade requer uma elevada dose de tolerância. Estamos sempre em contato com pessoas com objetivos, personalidades e formas de enxergar o mundo de maneira bastante diversa. Os grupos sociais também são completamente diversos com suas formas de pensar e de agir; todos eles possuem uma cultura própria, com seus costumes e suas formas de se relacionar e organizar suas comunidades. O que vemos no decorrer da história é o esforço da humanidade para conseguir conviver neste pequeno e valioso pedaço de rocha que é o Planeta Terra.

Mas também encontramos o extremo oposto, a tentativa de sociedades, líderes e grupos tentando dominar e destruir os outros através das guerras, da escravidão e da opressão.

Tudo isso nos mostra que os valores da tolerância e da boa convivência devem ser cultivados e preservados. A história das nossas sociedades prova que as consequências da intolerância são altos demais e que, se quisermos ainda permanecer neste mundo e desfrutar do que nele há, a convivência e a tolerância para com o outro deve conquistado e cultivado.

Os casos de agressões que ocorrem tanto na escola quanto fora dela (no trânsito, na família, no trabalho e na igreja) é um exemplo de como é difícil viver em sociedade, viver em grupo, regular nossas pulsões individuais em prol de algo maior, que está acima de nós, que existia antes de nós e vai continuar existindo mesmo depois que deixarmos este mundo, isto é, a Sociedade, pois é ela que nos acolhe e protege, é nela onde desenvolvemos a virtude da vida cívica e onde nossas potencialidades são desenvolvidas.

Sim, viver em sociedade é onde se realiza o Humano; e a única forma para que isso funcione é praticando a tolerância e a boa convivência.

Mas como isso seria possível?

O caminho possível é a resolução dos conflitos através do diálogo, do debate e da não violência. Em mundo repleto de guerras, onde a paz se tornou algo raro, lutar pela boa sociedade é um imperativo de cada um de nós.

Devemos também ter em mente que na sociedade, como na física, toda ação tem uma reação. Todos os nossos atos que empreendemos enquanto indivíduos tem consequências imprevistas tanto sobre os que estão a nossa volta, quanto os que estão perto de nós, e quanto aos que estão bem longe. Cabe a nós tomarmos cuidado com a forma como escolhemos agir e quando iremos agir. Não somos indivíduos soltos no mundo e auto suficientes, estamos inseridos numa rede de sociabilidade que abarca tanto a nossa comunidade, cidade, escola, estado, país e mundo.

Se a violência fosse uma saída viável para os conflitos humanos o mundo seria uma maravilha, e nós sabemos que não é.

Portanto, pratiquemos o diálogo e a tolerância. Devemos reconhecer o outro como portador de direitos, como um igual, como alguém merecedor tanto quanto nós do melhor que podemos oferecer, que é a nossa civilidade e nossa solidariedade.