A Escravidão nos Seringais

Servidao Humana na SelvaVim pro Amazonas ganhar dinheiro, e não ganhei foi nada… O negócio da seringa só dava pra gente se aviar… Vivia naquela ilusão… Se eu tivesse no Ceará não queria saber mais do Amazonas.

Relato de um Seringueiro do Rio Madeira

Michel Foucault, influenciado por Friedrich Nietzsche, afirmara que por detrás da pompa dos hinos nacionais cantando a glória do nascimento da pátria, se esconde milhares de vidas sacrificadas nas guerras de unificação; e por detrás do mito da criação do mundo, encenando a beleza do jardim do Éden e a ingênua harmonia entre Adão e Eva, se esconde, na verdade, o parentesco com o macaco e, por sua vez, o cinzento laço com o verme…

A história, segundo o pensador francês, está repleta destas lendas que escondem um lado obscuro no fundo dos seus épicos versos, criados em favor de uma determinada gama de interesses. Cabe ao sociólogo e ao historiador desvendá-los — efetuando a arqueologia dos períodos históricos e das relações sociais.

Um dos exemplos mais típicos no Amazonas de fatos históricos mascarados por interesses escusos são as propagandas e historiografias oficiais com relação ao período áureo da borracha, mostrando-o como um tempo de grandes realizações, tanto no terreno das obras públicas quanto no âmbito social, ressaltando a riqueza produzida neste período e o aperfeiçoamento cultural pelo qual Manaus passara (a belle epóque, que nosso governo teima em reproduzir, de forma caricatural, em festivais de opera) nos quase trinta anos de pulsação da economia gomífera, como um dos períodos dos mais interessantes que a Paris dos Tristes Trópicos já teve.

Tal forma de ver a historia e as sociedades, tão comum em historiadores a direita do espectro político e na propaganda de governos populistas, interessados em criar uma bandeira pela qual possam arrancar certos dividendos políticos, nada mais é do que uma forma de mascarar a verdadeira e perversa dinâmica da qual é regida os períodos históricos e, em questão, a economia extrativa. Longe de ser um período de requinte social e cultural, o fausto da economia gomífera foi caracterizada pela exploração compulsória de homens e mulheres sob o regime hediondo do aviamento, e pelo fato absurdo de que, como dissera Euclides da Cunha, o homem trabalhava para escravizar-se.

Muitos já foram os estudos efetuados sobre o período áureo da economia gomífera, principalmente do ponto de vista histórico — a Ilusão do Fausto de Edinea Mascarenhas Dias é um dos exemplos mais famosos. Faltava, entretanto, um estudo de precisões mais sociológicas que enfocasse o modo de produção extrativista a partir não de acontecimentos ou datas, mas a partir das suas relações sociais e de como estes homens se comportavam frente à dicotomia de uma floresta cheia de perigos e de um sistema de compra e troca tão impiedoso.

Servidão Humana na Selva: O Aviamento e o Barracão nos seringais na Amazônia, de Carlos Correia Teixeira, vem tapar este buraco na sociologia sobre o modo de produção extrativista e se juntar ao seleto hall de obras que pensam a Amazônia criticamente, em contraposição a forma linear e conservadora de pensadores convencionais como André Vidal de Araújo, Álvaro Maia ou Samuel Bechimol. Apesar de ser um estudo efetuado na década de setenta, foi tese de mestrado do escritor, Servidão Humana está longe de ser um estudo defasado, longe disso, é um ensaio que vai até o cerne do acontecimento histórico, achando as descontinuidades das relações do seringal, destrinchando seu lado cinzento, recompondo arqueologicamente suas contradições, os dramas do trabalhador da seringa, seus sofrimentos e mesmo seus raros momentos de felicidade, sentindo-se um verdadeiro artista ao defumar a borracha: “é o maior prazer do mundo!” era a frase de um trabalhador contida do livro.

Dialogando com varias vertentes da sociologia, como por exemplo com o esquema de dominação patrimonial de Max Weber, o autor, contudo, centra-se no legado teórico de Karl Marx para a sua análise de cada um dos aspectos das relações tecidas no seringal.

Muito interessante é a afirmação de que o barracão é a nossa versão dos engenhos, criando uma complexa rede de relações sociais que ainda não foram devidamente estudadas — pelo menos no que tange a sociologia.

O seringal, segundo Carlos Teixeira, mesmo depois de quase um século passado desde o fim da preponderância extrativista, sua organização persistiu e ultrapassou mais de um século.

Mais de trezentos mil nordestinos vieram para a região Amazônica a partir da década de setenta do século XIX. Boa parte destes pobres diabos provenientes do Ceará — iludidos com a promessa de enriquecimento fácil. Contudo, quando aqui chegavam, o véu de suas ilusões era brutalmente estraçalhado pela cruel realidade de ter estarem sujeitos a um regime que, já os fazendo endividados desde o momento em que ali chegavam, os fazia trabalhar mais de dezoito horas por dia.

Sozinhos nos seringais, sem uma legislação trabalhista ou qualquer autoridade que pudesse inferir por eles, os seringueiros eram largados aos próprios caprichos do seringalista, que os explorava desde a adulteração dos preços das mercadorias vendidas no barracão, até nos pesos da borracha quando de sua venda ao senhoril. Muitas eram os historias de abusos e crueldades contra o seringueiro que tentasse fugir ou cogitasse vender a borracha ao regatão — vale dizer que este era um fator de instabilidade ao poder tirânico do seringalista, travar negócios clandestinamente com o seringueiro. Teixeira menciona uma história, contada pelos seringueiros mais antigos, de um grande buraco cheio de cobras onde o patrão costumava jogar aqueles que fizessem frente ao seu poder.

Os seringalistas, verdadeiros senhores feudais na selva, nunca tiveram, de fato, uma mentalidade empreendedora. Sua forma de gerir seus negócios estava muito mais para um pré-capitalismo rudimentar de típico de nobrezas decadentes. Não se preocupavam em aperfeiçoar as técnicas de trabalho em seus seringais. A situação como estava já os satisfazia. Hauriam enormes lucros de suas propriedades, gozavam de enorme conforto, tinham ao redor de si esposas, servos e amantes. Seus filhos estudavam nas melhores escolas do país e do exterior. No final de cada fabrico iam gastar suas fortunas nos centros econômicos do Brasil ou da Europa. Tinham o poder de colocar seus apadrinhados nas esferas de poder para que defendessem seus interesses frente ao Estado. Eram na verdade, uma casta parasita que desfrutava os privilégios de uma economia predatória e de enclave, cujos resultados estavam voltados para fora — não é assim o mesmo com o nosso decadente pólo industrial?

Durante a época da pesquisa o escritor detectou que ocorria uma flagrante mudança nas relações produzidas no seringal. Outrora predominantemente as relações do toco: em que o seringueiro tinha uma casa disponibilizada pelo patrão, assim como as estradas, equipamento e mercadorias para consumo e de sua família, assim deveria fornecer determinada quantidade de borracha por fabrico ao senhoril; entretanto, o toco vinha a transmutar-se em regime de gleba, onde o seringueiro passa a arrendar uma faixa de terra com sua família e, além de extrair a borracha, desenvolve a agricultura, pagando ao seringalista o aluguel desta em víveres ou em dinheiro.

A servidão humana, infelizmente, não era uma característica típica nos seringais da Amazônia, estendendo-se também para outros ramos da atividade capitalista, como por exemplo, o grande latifúndio monocultor do sul do Pará e sul do Amazonas, onde milhares de vidas são reduzidas e reles condição de coisa.

Quem sabe para a próxima edição o autor providencia um capitulo sobre a situação atual dos seringais estudados no livro, Juma e Três Casas, e outro sobre formas de organização sindical dos seringueiros na região estudada — a região do Rio Madeira, onde também nascera Carlos Teixeira.

Servidão Humana na Selva torna-se, desde seu lançamento, uma referencia obrigatória para quem estiver interessado em estudar os seringais, suas contradições, desmandos e crueldades com que essa variante do modo capitalista de produção subordina o homem.

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Prefeitura de Bubuia

AmazoninoNo artigo De volta a idade das trevas, analisei a vitória de Amazonino Mendes como algo negativo para Manaus, apesar do controvertido desempenho de Serafim Correia como Prefeito. As críticas que me fizeram foram muitas. Contudo, olhando o atual estado de coisas da cidade, o artigo mencionado tinha a sua parcela de razão.

Não fora necessário ter bola de cristal, ser Mãe Diná, ser Mágico de Oz, Walter Mercado e nem ser eleitor de outro candidato para saber que o candidato vencedor não possuía projetos para gerenciar a cidade. Um olhar rápido em suas propostas (sic), na época de campanha já era um prenuncio do que estaria por vir. Idéias que, além de vagas e imprecisas, eram impossíveis de ser postas em prática — realmente era incrível que poucas pessoas tivessem consciência disso.

O novo prefeito prometia fazer um verdadeiro rompimento histórico e implantar um paraíso na terra. Resolveria todos os problemas de Manaus em noventa dias, ampliaria o passa fácil, legalizaria os moto-taxistas e acabaria com o turno da fome — isso eram só algumas das promessas que seriam implementadas nos primeiros três meses de gestão…

Os fatos nos mostram, porém, que a atual administração se afunda nas próprias promessas. Não pode fazer nada pelos moto-taxistas, por exemplo, porque a exploração do transporte de pessoas sobre duas rodas é proibido pela Constituição; não é de seu interesse diminuir para vinte por cento o IPTU, porque a receita repassada pelo Governo Federal aos municípios diminuiu em virtude da crise, e com certeza a prefeitura não vai querer se livrar de uma valiosa verba como esta, o estigma fica para o Antecessor que atualizara a planilha de custos.

O turno da fome também não tem hora para acabar, o prefeito eleito se comprometeu que o extinguiria a partir do primeiro dia de gestão. A prefeitura já se incumbiu de aumentar a contingente de alunos que não podem ser matriculados nos horários normais para estudar das dez as duas.

As ditas carretas que serviriam como Prefeitura Itinerante, vagando pela cidade para coletar as reivindicações dos populares (como se fosse possível administrar Manaus em cima de ônibus) ou para dar internet de graça para os moradores, um serviço que seria muito caro e ineficiente, pois a internet móvel de Manaus ainda é muito ruim, também parece ter sido esquecida.

A atual gestão também amarga enfrentar o processo de compra de votos, as provas são extremamente contundentes, e há grandes chances de que o Prefeito não seja absolvido.

O escândalo de Walace Souza já começa a respingar no vice Prefeito. Os vereadores de oposição já até cogitaram chamá-lo para dar maiores esclarecimentos na câmara — a manobra tem sido barrada pelos vereadores de apoio da prefeitura.

A base de Amazonino, como Mirtes Sales e Leonel Feitosa (os mesmos que gastaram horrores com cartão corporativo) afirmam que a suposta inércia da atual administração vem do fato de terem herdado uma prefeitura bagunçada, e as verbas repassadas pelo Governo Federal terem diminuído. Entretanto, desde o segundo semestre de 2007 vários analistas econômicos afirmavam (como pesos pesados como Paul Grugman e Allan Grespan) que uma terrível crise estaria por vir, afetando todo o globo, e a arrecadação do Estado despencaria, limitando a capacidade de investimentos; portanto, se a base da coligação de Amazonino não adequara as suas propostas para esse pequeno detalhe, é algo que significa, no mínimo, incompetência…

Sociedade Contra o Estado

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Amazonino, Gilberto e Eduardo Braga: todos farinha do mesmo saco

Quando um povo não se acha identificado com o seu governo, quando este fica aquém das expectativas populares, as manifestações começam e os gritos de indignação surgem.

Foi o que aconteceu na ultima quinta feira (07 de maio) quando cinco mil estudantes (dado não confirmado) se reuniram a frente da Prefeitura em manifestação para pressionar o Prefeito, e a classe política como um todo, pela manutenção da meia passagem.

Foi quase uma semana inteira com protestos em vários pontos da cidade, com os estudantes das universidades públicas e secundaristas, amarrando os gargalos estratégicos da cidade, gritando a palavra de ordem: sou estudante, não sou otário, não vou pagar vida mole de empresário.

A mídia conservadora e organizações estudantis de fachada tacharam os estudantes que protestavam de baderneiros. Desafio-os então a usar, durante uma semana apenas, o nosso aconchegante sistema de transporte coletivo, também apelidado de navio negreiro, em horários de rush, e saber o porquê de ele não valer nem dez por cento da taxa atual cobrada.

Os empresários de ônibus, enquanto alardeiam a iminência da bancarrota, não conseguem convencer a população em sua relutância para não mostrar a sua planilha de custos, e nem o porquê de não terem melhorado a frota em 2007 — uma de suas contrapartidas que justificava o reajuste da taxa para dois reais.

Mas e ai?

Pois é, leitor amigo. Já estamos entrando no quinto mês da nova velha administração e esta ainda não fez jus aos votos que a elegeu.

Amazonino pensava que ainda era possível governar a cidade com os mesmos métodos de antes, prometendo picanha, mas servindo carne de pescoço, prometendo uísque Black Label, mas servindo cachaça Amansa Corno, deixando o dito pelo não dito…

Contudo, Manaus mudou; nossa cidade não é mais um porto de lenhas, está mais complexa, vários segmentos da sociedade civil estão mais organizados e pressionam os poderes públicos pelo cumprimento de seu papel.

A informação não é mais monopolizada pelos tradicionais latifundiários da mídia, hoje pululam vários sites de mídia alternativa fazendo uma fiscalização eficiente do Estado, disponibilizando informação gratuita e segura.

Não é mais tão fácil esquecer promessas mirabolantes feitas durante a campanha, pois todas elas são automaticamente armazenadas no youtube por usuários anônimos…

Aquilo que foi a ruína de Serafim Correia também está significando o Calcanhar de Aquiles de Amazonino Mendes.

Uma Verdadeira Opera Metal

Representante máximo do Heavy Metal britânico, o Iron Maiden é uma das maiores bandas do som pesado de todos os tempos. A grande competência dos músicos, e a habilidade de liderança do Sr. Steve Harris, fizeram com que a donzela de ferro atravessasse décadas praticamente incólumes as mudanças do mundo musical.

Enquanto várias bandas resvalavam na mais degradante decadência, eles mantiveram-se firmes, fazendo turnês gigantescas ao redor do mundo, levando o estandarte do Metal para todos os continentes, mostrando, uma vez mais, porque se tornaram clássicos e, acima de tudo, provando que musica de qualidade supera qualquer tendência passageira da indústria cultural.

O Iron Maiden, tanto do ponto de vista musical quanto lírico, é uma banda cult. Estes senhores não falam de coisas ingênuas como desilusões amorosas ou toda a podre temática que muitas vezes é abordada pela musica comercial. Seus temas giram em torno da historia, principalmente a britânica, literatura, filosofia e mitologia, mais especificamente do folclore inglês e da Grécia Antiga — como bem disse uma apresentadora da MTV, a donzela de ferro mostrou que bater cabeça também é cultura…

Nos últimos dois anos, o grupo resolveu fazer uma volta aos clássicos com a turnê Somewhere Back in Time, executando as boas e velhas canções dos seus melhores discos, que abarcam desde a estréia com Iron Maidem (1980), até o Somewhere In time (1986).

No dia doze de março os fãs amazonenses puderam ter o privilégio de ver um show da referida turnê: um verdadeiro sucesso de publico e crítica.

Para um admirador de heavy metal, ver o show da sua banda favorita pode ser uma experiência quase metafísica; contudo, numa cidade como Manaus, onde raramente se pode ter a chance de ver uma apresentação do porte de um grupo como o da donzela, tal experiência eleva-se á um verdadeiro êxtase dionisíaco.

“Não foi um show, foi um espetáculo…” Foi o que um amigo deste solitário escrevinhador dissera, dois dias depois. Pura verdade. O Maiden é extremamente cuidadoso com suas apresentações ao vivo, certificando-se de que cada cenário, figurino e jogo de luzes esteja em harmonia perfeita com a música em execução.

Reafirmando a velha fama de pontuais dos britânicos, o sexteto inicia ás nove horas em ponto, conforme anunciado nas propagandas, depois da apresentação da sofrível Lauren Harris (filha do Boss…), e abrem o show com Aces Hight, que narra a conhecida batalha aérea em que os britânicos conseguiram impedir a invasão da Inglaterra pelos nazistas, do disco Powerslave, considerado por mim e por muitos como o melhor já produzido pelo grupo.

Não podia faltar o velho Eddie dando o ar da sua macabra presença no palco, era a versão futurista do Some Where in Time, brincando com o guitarrista Janick Gers.

A banda mostrou um grande entrosamento que só os mestres demonstram; finalmente aprenderam a tocar com as três guitarras, que se harmonizavam perfeitamente; o baixo do mastermind Steve Harris mostra a mesma coesão de sempre; o baterista Nicko Macbrain, embora já passando dos sessenta anos, ainda tem o mesmo fôlego e agüentou sem problemas as duas horas de show; o carismático vocalista Bruce Dickinson tem força nos pulmões para cantar metal por pelo menos mais quinze anos; em matéria de virtuosidade da voz ele fica ao lado dos grandes Rob Halford e Ronnie James Dio; impressionava o condicionamento físico do cantor, que corria de um lado para o outro do palco agitando os espectadores sem desafinar nenhuma vez — um perfeito mestre de cerimônia.

Embora as músicas mais conhecidas foram as que obtiveram mais resposta dos quase trinta mil pagantes, considero que o ponto alto do espetáculo foram as peças Phantom Of the Opera, a melhor musica da fase Paul Diano e talvez a mais bem sucedida em combinar arranjos agressivos com uma atmosfera sombria; Powerslave, sem comentários, conhecida apenas pelos verdadeiros fãs, autoria de Bruce Dickinson; e a épica Rimer of the Acient Mariner, uma belíssima peça de mais de dez minutos, inspirada num famoso poema inglês, narrando a vingança que o espírito de um albatroz efetua contra a tripulação de uma escuna inglesa, uma mostra de como o sexteto ainda tem perícia em tocar longas e complexas canções com uma precisão quase cirúrgica, com nenhuma nota fora do lugar — nela o vocalista trajou um manto negro, simbolizando a morte, me lembrou um pouco a fantasia que ele usou para a musica Dance of Death, durante a gravação do DVD Death on The Road.

Um dos defeitos, porém, ficou com a execução da popularíssima The Trooper, que conta a historia da batalha de Waterloo, quando o exercito inglês vence as temidas forças de Napoleão; nesta canção Bruce Dickinson sempre empunha a bandeira inglesa, mas bem que poderia ter usado a bandeira do Amazonas, como fizeram os Scorpions, ou pelo menos a verde e amarela, ao invés de ficar dando uma ridícula demonstração de patriotismo ufanista.

Balançar a bandeira da pátria mãe em terras estrangeiras já causou problemas para o pessoal da donzela. Durante um show em Buenos Aires, o sexteto foi vaiado quando a bandeira real surgiu nas mãos de Dickinson.

O palco deveria também ser mais alto, pois para quem ficou mais afastado só conseguia ver a banda pelo telão, isso durante vários momentos, o que não era um grande consolo…

Também senti falta de peças como Murders in the Rue Morgue, To Tame a Land, Transilvânia e Gengis Khan, que com certeza funcionariam muito bem ao vivo.

O avião do grupo, Eddie Force One, usado para o transporte das turnês, foi uma verdadeira atração durante a sua estadia no aeroporto, com varias pessoas, entre estes vários funcionários, tirando fotos daquele boeing que tinha pintado o nome Iron Maidem e o rosto do demônio mais famoso do mundo, o Sr. Eddie.

Depois dos shows de Scorpions, Helloween, Gamaray, Whitesnake, Nightwish e agora Iron Maiden, Manaus parece finalmente ter entrado para o circuito dos grandes shows internacionais de rock. Os produtores de musicais da Paris dos Tristes Trópicos tomaram consciência que o rock, assim como outros estilos, pode ser um bom negócio — a despeito da crise global.

Com quase duas horas de verdadeira uma aula de como fazer um bom show de metal, o banda finaliza com Sactuary; as luzes se apagam e os roddies vem desmontar os equipamentos; são estes discretos e competentes funcionários que afinam os instrumentos, ligam os amplificadores, montam os pratos, as caixas, os tons, verificam o retorno de cada integrante e providenciam a troca de cenários; só eles sabem o gosto de cada musico; sempre discretos, nunca louvados, nunca lembrados, mas executam o seu labor com maestria, sem eles a apresentação não seria possível, estão de nota dez.

De fato, não era um show, mas também não era um simples espetáculo, era uma verdadeira ópera, uma Opera Metal.

Cena Num Engarrafamento

Quando se está indo para a faculdade, imerso naqueles ônibus caindo aos pedaços, atolados de gente, com aquele calor desesperador, sob o tédio e o peso destruidor da rotina, é quase impossível notar algo interessante que possa valer uma crônica, um conto ou um registro que seja; todos estão sisudos, estressados, todos loucos para que o dia, mal começando, acabe — a coisa fica ainda pior quando nosso meio de transporte fica preso vários minutos num engarrafamento…

Mas foi exatamente numa manhã medíocre destas que notei algo que me estarreceu…

Era por volta de nove horas e trinta minutos. Eu estava sempre atrasado, sempre com sono… O coletivo, que por sorte estava quase sem ninguém, parou exatamente sob o viaduto da Recife; na época, o famigerado viaduto ainda estava em obras, portanto, o tempo de espera naquele cruzamento debaixo de um sol maldito era um dificílimos teste de paciência.

Como estava sentado num banco de janela, percebi que, num celta logo ao lado de onde me sentara, o motorista tentava violentar a moça que estava no banco do passageiro… A garota devia ter pelo menos quinze anos e o homem, lá pelos trinta, urgia em beijar a força a pobre rapariga.

Ela tentava a todo custo desvencilhar-se das investidas do seu algoz, erguendo os braços para proteger o rosto, mas o homem era insistente, muito insistente… Tive a impressão, pois não podia ver bem o rosto do agressor, que ele dizia coisas obscenas, com um riso sarcástico entre os lábios.

Quando o sinal abriu, ele parou por um momento, deixando a garota imersa em prantos, inclinada para frente, as mãos na face e os cotovelos apoiados no porta luvas e os cabelos assanhados.

Eu apenas observava, não sei se estupefato ou horrorizado, mas realmente detestei que ali não houvesse um único policial nem um guarda de trânsito…

Quando a fila parou novamente, pois naquela época ela ia com mais lentidão que uma tartaruga, o condutor tentou mais uma vez abusar da jovem, desta vez ele forçava passar as mãos pelas coxas dela e pelos seus os seios, e a garota, mais uma vez, angustiada, com lágrimas no rosto, desviou-se desesperadamente do violentador.

O sinal abriu e a fila desmanchou-se, assim como aquela hedionda visão que presenciei…

Hoje, fico imaginando como deveria ser a vida daquela adolescente e o que acontecera para ela ir parar exatamente ali. Entretanto, apesar de ela não saber, havia apenas uma testemunha, completamente impotente, do seu suplício…