Silêncio e Escuridão: um Conto de Natal

Dedicado à H.P. Lovecraft.

Eu permanecia quieto em meio às sombras dos meus aposentos, enquanto a tempestade lá fora prenunciava sua fúria sobre toda a cidade de aço, concreto, carne e sangue… Ainda estava em um estado de torpor diante dos delírios que acometeram-me durante o sono. Há muito eu vivia entre as ruínas daquele casarão, procurando evitar todo contato humano e me aprofundando cada vez mais nos estudos das artes ocultas e no uso de substâncias que me conectariam com o mundo superior…

Era quase meia-noite e os fogos de artifícios começavam a tornarem-se mais frequentes. O Natal estava se aproximando. O Chanceler já tinha feito seu tradicional pronunciamento em rede nacional ao lado da casta de homens de fé que lhe apoiavam. A cidade de Sebilia parecia dominada pelo sentimento natalino. Mais um ano de sobrevivência em meio à carnificina.

Eu sempre achei muito curioso que, mesmo depois de tantos séculos de desencantamento e separação total dos homens diante das coisas que o ligavam ao que há mais além dos sentidos, ainda existia lugar para aquela data singela, imaginosa e destituída de importância. Mesmo assim, eles ainda comemoravam, exultando em suas vidas simplórias e passageiras, enquanto eu mergulhava cada vez mais na escuridão como forma de alcançar verdade e a vida eterna antes que minha enfermidade me consumisse por completo…

Um clarão entrou pela janela da câmara principal onde me encontrava e lançou um brilho lúgubre sobre todos os cômodos do lugar, livros velhos, escrivaninhas manchadas e cadeiras cheias de pó. A nave de inspeção da polícia de salvação pública passou rasando bem próximo da janela a procura de elementos subversivos…

Foi exatamente no momento em que o clarão surgiu que vi o Vulto surgir debaixo da soleira da entrada principal. Era grande como um touro. A princípio pensei ser salteadores, então peguei a pistola e apontei para a coisa sob a soleira da porta e inquiri:

“Quem é você?”

Mas o espectro não respondeu.

Sem perder tempo, disparei três vezes contra a coisa. Mas ela não fez qualquer movimento. Foi então que tomei consciência que finalmente minhas buscas tinham cessado, eu tinha conseguido invocar o mais antigo e poderoso entre os espectros da dimensão exterior. Os anos dedicados na busca de antigos pergaminhos que guardavam as maldições do mundo e gastando toda a minha fortuna em estudos científicos sobre outras dimensões provavam que, ali e agora, minha hipótese estava certa. O Além, o Mundo Invertido, o Domínio da Escuridão, guardavam estranhas criaturas detentoras de poder da vida e da morte. Potestades que antes eram acessadas por indivíduos clarividentes em sonhos e visões, mas que, com o conhecimento correto, poderíamos contactá-las…

Eu estava finalmente diante da grande oportunidade da minha vida, talvez da grande descoberta da humanidade…

“Eu te trouxe aqui, agora me mostre todo o seu conhecimento…” Ordenei.

“Que assim seja…” Disse o espectro, com uma voz aterrorizante, parecendo não uma, mas um milhão de pessoas, entre mortas, vivas e as que ainda estarão por nascer…

Então a coisa assomou sobre mim e levou-me para as catacumbas mais escuras das dimensões do silêncio, onde deuses de Neon são adorados em orgias odientas e o Natal é uma data profana, destinada ao sacrifício humano e à ressurreição da monstros milenares…

 

 

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