Miniconto: Bebemos e elas foram embora…

Acabamos a cerveja, as minas não quiseram ficar com ninguém… E foram embora com os galerosos…

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Conto: Esboço de uma História Não Escrita

O dia lá fora está cinzento. As nuvens já se formaram e ouço trovões e relâmpagos. O vento parece querer arrancar o mundo enquanto escuto o latido de cães ladrando.

Gosto de dias assim, frios, desbotados e chuvosos. Convidam à introspecção. Meu violão está jogado sobre a cama, tentei esboçar alguns arranjos, mas os músculos da mãos já me doem. O que queria transformar em música resolvi fazer em texto.

De alguma maneira, sinto-me leve. O último mês tem sido proveitoso, melhorei minha atuação no trabalho, meu humor está ótimo, comecei a fazer academia e estou de vento em popa para a pós-graduação. Sinto-me como se só agora estivesse explorando todo meu potencial como Homem.

Nada mal para alguém que, até um tempo atrás, estava preso e sendo sugado por uma parasita disfarçada de namorada.

Foram três anos sem privacidade. Sendo dominado por uma doente que parecia satisfeita em sugar-me sentimentalmente e psicologicamente.

Para falar a verdade, não acredito que eu tenha conseguido ficar tanto tempo  com ela. Nunca gostei daquela mulher, admito. No começo eu só queria curtir, o sexo era bom, mas ela foi se aproximando cada vez mais e pressionando para ter um relacionamento sério. Acabei cedendo. Que mal faria?

No começo eu até gostava dela, mas os surtos de ciúmes e a incrível capacidade que ela tinha de tentar me deixar com raiva por puro esporte, como ela mesma tinha me confessado, começaram a me fazer perder a paciência e o tesão. Na época eu já sentia falta de ser livre, sair com quem eu quisesse sem dar satisfação para quem fosse. Comecei a traí-la. Eu até senti remorso na primeira vez, mas cheguei à conclusão de que ela merecia cada chifre que eu colocava naquela cabeça dura. E passei a fazer tudo muito satisfeito.

O leitor pode estar se perguntando porque eu não terminei logo. Foi o que tentei fazer umas duas vezes. Mas a cena que aquela porra fazia era de tal asco que sentia pena. Então simplesmente me deixava levar, mais uma vez…

Mas não deixava por menos, eu comia deus e o mundo. Principalmente naquela época em que eu já conquistava minha independência. Tinha conseguido um ótimo emprego, comprado um carro e feito o financiamento para comprar um apartamento. Queria usufruir de tudo isso do mais tradicional jeito de Macho Alfa, com as mulheres mais gostosas da cidade e não preso a uma fracassada que sofria de dependência emocional.

Mas eu consegui me livrar daquela praga no começo do ano, quando descobriu que eu tinha comido uma amiga dela, uma morena muito gostosa. Eu não ligava mais pra nada. Foi quando pus um fim definitivo. Aquela desgraçada, que tanto adorava me desgastar e me cobrar de todas as coisas possíveis, perdeu completamente as estribeiras. Disse que ia se matar, se jogar na frente de um caminhão. Que se jogasse, pelo menos ela não ia mais me encher o saco.

Dias depois do término, que eu prefiro chamar de libertação, ela ainda tentou me ameaçar, me perseguir, tentar invadir minha casa, o que me obrigou pedir o auxílio de um amigo policial.

Não sei porque estou escrevendo isso. Talvez uma forma de me pôr para fora todas as lembranças e o sentimento de aprisionamento que vergava sobre mim. Acho que às vezes nós precisamos expurgar os espíritos de alguma forma, seja fodendo uma gostosa, enchendo a cara de cana, fumando um bom baseado ou simplesmente vomitando todo o pus em forma de literatura ou canção.

Lá fora as chuvas começam a cair. No meu celular estou recebendo um monte de mensagens. As vagabundas adoram uma atenção. Normalmente prometo o mundo para elas, que as amo, que vou namorar e toda essa ladainha. Depois que como elas umas cinco vezes começo a desprezar, mas de forma a mantê-la sob o meu radar, pois posso querer transar uma vez ou outra. Você pode dizer que manipulo as pessoas, mas quem nesse mundo não manipula? Os políticos, os pastores os pais, os maridos e os namorados. Todo mundo. Sou apenas um sujeito que sabe jogar o jogo e tem consciência de que, se agisse diferente, não mudaria o mundo.

Então, foda-se.

Está chovendo forte. Um potente caiu perto daqui. Os alarmes dos carros dispararam e o fornecimento de energia foi interrompido. Vou parar com essas lamúrias e tentar dormir um pouco. Mais tarde tem uma gostosa para eu comer…

Crônica: Carta a uma Amiga Distante*

Por Tenório Telles**

Boa companheira,

O mar está inquieto e os ventos sopram. Estou comigo e sigo, apesar dos temores e das dúvidas. É imperativo seguir, embora o corpo fraqueje e o coração hesite. Lá fora a chuva molha o tempo e a terra. Molha também o meu ser, amenizando a minha ânsia. Apesar da inquietação, mantenho-me sereno, resistindo a tudo; sem deixar o desespero tomar conta do meu ânimo. A morte ronda tudo: os sonhos, a política e o convívio social.

*Retirado do livro Viver, de 2011.

** Escritor, poeta e editor amazonense.

Conto: República dos Lobos

O sol estava a pino, jogava seus raios fritadores sobre aquelas criaturas que estavam jogadas pelas calçadas em ruínas; edredons, corotes, pinos de cocaína e charutos de crack estavam espalhavam-se aqui e ali, bem como alguns restos de uma fogueira usada para esquentar as noites frias da cidade. Alguns vira-latas perambulavam cheirando qualquer coisa ou perseguindo os pombos.

Um sujeito magrelo e desdentado, chamavam-no Dentinho, chegou perto de um pequeno grupo que dividia uma garrafa de pinga e disse:

Hoje tô afim de meter o lôco em alguém…”

Todas as quatro criaturas que estavam bebendo o ignoraram.

Percebendo que ninguém ia lhe responder, insistiu:

E essa pinga ai? Me dá um gole…”

Quer um gole, então toma…” Respondeu o Paraíba, um sujeito cabeçudo e de cabelos espetados, logo antes de desferir um pesado golpe de uma lasca de garrafa no rosto do outro….

Dentinho caiu com as mãos na face, enquanto o agressor falava alto e provocava: “Vem, seu filho da puta, vem…”

Logo vários moradores de rua foram ver a briga. Ninguém ousou intrometer.

O outro levantou-se, tinha um corte profundo na bochecha, o que deixava os dentes a mostra e um pedaço de carne viva que balançava gotejando sangue, feito um morto vivo dos filmes de George Romero.

Olha o que tu fez, seu puto!” Dentinho pegou um pedaço de concreto do chão e correu atrás do Paraíba. Mas foi em vão. Não conseguiu alcançá-lo. Sem fôlego, sentou-se na calçada, tentando estacar o sangramento com uma das mãos.;

Cara, vai pro hospital ver isso, tu tá perdendo muito sangue…” Aconselhou uma vadia, cujos braços eram cheios de marcas de agulhas, que conhecia o sujeito desfigurado.

Dentinho levantou-se, mas cambaleava, o sangue jorrava pelo seu rosto e empapava a camisa. Sumiu ao dobrar a esquina tentando chegar até o hospital.

O Paraíba, por sua vez, ficou dando voltas na rua, com os ombros levantados e com a cabeça baixa, falando:

Eu sou foda, mexeu comigo, se fodeu, se fodeu legal…” Mantinha ainda nas mãos a garrafa que gotejava sangue do seu antagonista.

Cara, sai daqui… Isso ainda sobrar pra você…” Falou um velho pingaiada, que estava deitado na calçada bebendo coquetel de cachaça com etanol.

Que nada, eu sou foda…” O outro respondia, em tom triunfante.

A pequena multidão de viciados e vagabundos que tinha se formado para ver a briga dispersou-se.

Sou eu que manda aqui nessa porra agora, eu…”

O sujeito não teve tempo de terminar a frase, pois um golpe o atingiu fortemente na nuca. Caiu tonto, sem conseguir esboçar reação. Foi um colega de dentinho que veio para a desforra. Paraíba ainda tentou erguer as mãos para proteger o rosto, mas foi em vão. Um pedaço de ferro desceu com toda a força contra a lobo temporal do sujeito, cujo sangue espirrou por todo o lado feito um balão de suco de morango estourando. Paraíba ficou ali, estirado. Impossível dizer se estava vivo ou morto.

Mais um dia agitado na República dos Lobos…

Poema: Meu Sonho

Em outra ocasião escrevi que Alvares de Azevedo era um péssimo poeta e um ótimo contista (leia aqui). Contudo, é preciso acrescentar que, embora a Lira dos Vintes Anos seja repleta de poemas toscos, há alguns versos seus que ainda se salvam. O melhor deles, na minha opinião, é Meu Sonho, um poema que fala sobre um misterioso cavaleiro andante numa atmosfera soturna e opressiva.

EU:

Cavaleiro das armas escuras,

Onde vais pelas trevas impuras

Com a espada sanguenta na mão?

Por que brilham teus olhos ardentes

E gemidos nos lábios frementes

Vertem fogo do teu coração?

Cavaleiro, quem és? — O remorso?

Do corcel te debruças no dorso…

E galopas do vale através…

Oh! da estrada acordando as poeiras

Não escutas gritar as caveiras

E morder-te o fantasma nos pés?

Onde vais pelas trevas impuras,

Cavaleiro das armas escuras,

Macilento qual morto na tumba?…

Tu escutas… Na longa montanha

Um tropel teu galope acompanha?

E um clamor de vingança retumba?

Cavaleiro, quem és? que mistério…

Quem te força da morte no império

Pela noite assombrada a vagar?

O FANTASMA:

Sou o sonho de tua esperança,

Tua febre que nunca descansa,

O delírio que te há de matar!…

Crônica: Laércio

Por Thiago Limeira

Está chovendo. Chovendo como há tempos não chovia. E nesta noite fria, só consigo pensar em duas coisas: Uma é passado, a outra é.

Ele costumava me chamar para eu colocar músicas no computador para ele ouvir. Racionais. Madonna. Ndee Naldino. Robério e seus teclados. We are the world. Ele ouvia de tudo, mas eram sempre as mesmas músicas que ele costumava pedir. Às vezes, me era um teste de paciência atender aos seus diversos pedidos. “Thiaguinho isso”, “Thiaguinho aquilo”, “Ô Thiaguinho”. Bah. Era o jeito dele, e eu sabia. E ele era um dos moradores mais porcos do abrigo. Me lembro uma vez que, após duas semanas na rua, bebendo, ele retornou com aquele conhecido e já esperado aspecto de espantalho. Magro, sujo, bafo de cachaça, completamente repugnante. Uma vez, de tão bêbado, deitou no chão e começou a girar. Mas voltando ao assunto. Ele passara duas semanas na rua, e não tirara a meia que estava utilizando nem uma única vez durante estas duas semanas. E ele tinha uma doença na parte inferior da perna. As meias estavam podres, imagine você a situação. E eu tive de tirá-las de seu pé pois o lazarento era folgado e bêbado demais para fazer isto. Foi nojento. Me lembro até hoje do cheiro. E era um tormento convencê-lo a ir tomar banho. Como eu disse, sua higiene era precária. E ele, mesmo já estando morto devido a quarenta anos de uso intenso de álcool e outras drogas, ainda incomodava outros moradores que moravam debaixo do mesmo teto. E foram exatamente as desavenças que, muitas vezes, o fizeram sair do abrigo para ir beber. Quando ele saia com a mochila nas costas, já sabíamos, só o veríamos dali a uma semana ou até mais tempo. E ele sempre voltava, mas voltava cada vez pior. E os remédios foram inúteis. Difícil combater uma falta de sentido, uma grande desilusão amorosa (como fiquei sabendo) e quarenta anos de vício com um mero coquetel de remédios. Nada mudou, no fim das contas.

Mas agora ele não vai mais voltar, e não ouvirei mais o “Thiaguinho isto”, “Thiaguinho aquilo” como ele costumava dizer. E os moradores e a faxineira não reclamarão mais de seus escarros. E logo todos o esquecerão. Mas talvez eu, eu e estas linhas não. “Ô Thiaguinho, coloca uma música aqui pra mim”. Ainda me lembro. Espero sempre me lembrar. Daquele puto velho, bêbado, perdido e desiludido. Mais ou menos igual a eu mesmo.

Thiago Limeira é escritor, autor de Alguém (2015)

Conto: O Presente

Ela ainda teve tempo tentar proteger-se com os braços e soltar um grito de desespero quando desferi um pesado golpe que atingiu a parte esquerda do seu crânio; caíra de joelhos, gemendo muito, colocou as mãos no lugar onde a cabeça soltava grandes quantidades de sangue que escorria pelas mechas negras e pingavam pela ponta dos cabelos no chão frio — exatamente como a goteira da torneira da sua cozinha…

 O cão, como se sentisse o aroma do sangue da sua dona, começou a latir descontroladamente, dando pulos frenéticos contra a portão do quintal, como se tentasse arrombá-la para prestar-lhe socorro; ouvi também outros cachorros latirem loucamente, atendendo aos gritos do companheiro, mas ali eles não tinham qualquer controle sobre situação, apensa eu…

Dominado por um estado de euforia maléfica, que só posso explicar como a combinação causada pela fúria causada pelo seu sarcasmo, os goles de cachaça, o esforço da martelada que esquentara-me os nervos e a visão do sangue que escorria da sua cabeça, atingi Márcia com mais um segundo e mais pesado golpe, ela despencou no chão, meio de lado; a quantidade de sangue que a martelada fez espirar foi considerável; agonizando, retorcia-se sobre o próprio sangue; martelei seu crânio mais uma vez, e outra vez, e mais outra vez, martelei dezenas de vezes, enquanto dizia:

“Está gostando do meu presente… Está gostando do meu presente?” E a cada martelada que eu desferia, repetia, entre uma gargalhada estridente e insana: “Está gostando do meu presente…”

Só finalizei quando a exaustão me dominara; sua cabeça não passava de todo disforme e repugnante, com pedaços de cérebros e sangue coagulado escorrendo horrivelmente por entre as aberturas…

Retirado do livro A Obra-Prima de Amarildo e Outros Contos Indecorosos.