Menino de Engenho: retrato de um tempo perdido

menino-de-engenho-jose-lins-do-regoGilberto Freyre afirmou que a escravidão, o patriarcalismo e miscigenação de raças e culturas criaram uma nova forma de sociedade no Brasil, uma sociedade tipicamente tropical e baseada no equilíbrio de antagonismos. Isso seria uma característica tipicamente nacional.

O patriarcalismo no Nordeste foi gerado nas grandes lavouras canavieiras, no sudeste nas grandes plantações de café e na Amazônia nos seringais perdidos no meio da selva. O Brasil, portanto, se firma pelas suas especificidades regionais. Num país com suas dimensões continentais e sua diversidade cultural, são as partes que dão sentido ao todo e não o contrário.

Se o grande mestre pernambucano explorou com maestria esse tema da especificidade da cultura brasileira a partir da sociologia, foi José Lins do Rêgo, a partir da literatura, que foi fundo no impacto da lavoura canavieira na diversidade regional do nordeste brasileiro.

Menino de Engenho, primeira obra do autor, é um relato a respeito da vida num grande engenho da região. Ali vemos um retrato de um Brasil onde predominava as antigas relações de mando e obediência, com o senhor de engenho, José Paulino, exercendo seu domínio de forma severa e protetora, isto é, patriarcal. O menino narra tudo, ao mesmo tempo em que descobre o mundo com suas amizades, paixões e iniciações sexuais. Quando lemos nos sentimos transferidos para aquele mundo outrora vivo, cheio de cores, sons e sabores, mas que agora jaz na profundeza da história.

Ali lemos como estavam dispostas as relações desiguais entre os homens e as coisas, com o neto do patriarca descrevendo os trabalhadores do eito, seu avô e filhos, os negros e as negras libertas, os engenhos em decadência, chamados de Fogo Morto, a religiosidade das pessoas e a calmaria que regia aquele mundo aparentemente estático e eterno, surgido com a colonização e que sobreviveu ao Império e à República; e que logo seria modificado pela ação das usinas, novas formas de produção capitalista, levando à decadência os antigos engenhos.

Relato de uma época que não existe mais, Menino de Engenho é um autêntico romance brasileiro, pois vai nas raízes da nossa história e do nosso ethos civilizacional: lusotropical, patriarcal, latino-americano, capitalista e dependente.

Coloco-o ao lado de grandes como Proust, Whitman, Balzac e Flaubert que retrataram como poucos o espírito de um tempo perdido no tempo e no espaço.

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