A Velha Direita Não é Centro

Por Marcelo Fantaccini Brito

As eleições estão chegando, temos que combater Bolsonaro, mas também temos que combater outro mal: o discurso da velha direita, que está se dando o nome de “centro”. De acordo com este discurso, propagado por FHC, grandes empresas de mídia e bancos, haveria candidatos de “centro”, como Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles, Álvaro Dias e Rodrigo Maia, que seriam o caminho sensato entre os “extremos”, representados na direita por Jair Bolsonaro e na esquerda por Ciro Gomes, Guilherme Boulos, Manuela d’Ávila e talvez Fernando Haddad. De acordo com este discurso, os candidatos desse “centro” seriam os mais seguros para a democracia.

Este discurso é desonesto e completamente distante da realidade por três motivos:

1) Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles, Álvaro Dias e Rodrigo Maia são direita, não são centro. Representam o 1% do topo da pirâmide social. Não é só porque existe alguém mais à direita, como Bolsonaro, que a direita deixa de ser direita. Seria a mesma coisa que chamar o Boulos de candidato de centro porque existe um candidato do PSTU. A única candidata realmente de centro nesta eleição é a Marina Silva, e talvez o próprio Ciro Gomes. 

2) O candidato da velha direita rebatizada de centro não representa a defesa da democracia porque representa a coalizão de apoio a um governo sem voto, que surgiu com o propósito de implementar o programa de candidatos derrotados na eleição de 2014, que inclui a precarização das relações de trabalho e o congelamento do investimento no social, programa que dificilmente venceria uma eleição. Os candidatos que ficaram no lado da democracia em 2016 foram Ciro, Boulos, Manuela e Haddad 

3) Nivelar Bolsonaro com Ciro, Boulos, Manuela e Haddad como extremos é canalha e ainda ajuda a relativizar Bolsonaro. O ex-capitão defende torturador, já fez declarações racistas, machistas e homofóbicas, pretende acabar com direitos dos trabalhadores. No lado de Ciro, Boulos, Manuela e Haddad, não existe qualquer sinal de extremismo. Ciro defende uma política fiscal bem austera, pretende acabar com o teto geral, mas pretende manter algumas despesas sob o teto, está procurando manter mais contato com empresários do que com sindicatos e movimentos sociais, está querendo ficar cada vez mais distante do rótulo de “candidato de esquerda”. Boulos e Manuela defendem a agenda social-democrata clássica: reforma agrária, reforma urbana e reforma tributária progressiva. Haddad fez gestões no Ministério da Educação e na Prefeitura de São Paulo que nada lembram extrema-esquerda: sempre procurou ter contato com empresários, nunca rejeitou OS na saúde, PPP e terceirização das creches.

O discurso de que o candidato do PSDB/PMDB/DEM seria “de centro” entre os “extremos” representados por Bolsonaro e pela esquerda é estapafúrdia e desonesta porque não há qualquer discurso sensato e honesto que sirva para levantar candidaturas que representem a continuidade de um governo fracassado com 4% de aprovação.

“Jornalistas” que chamam os candidatos do PSDB/PMDB/DEM de “candidatos de centro” não são jornalistas profissionais. São marqueteiros do PSDB/PMDB/DEM disfarçados de jornalistas.

Anúncios

A Modernização Conservadora e o Brasil Contemporâneo*

Acredito que uma das chaves para compreender o Brasil atual é retomar sua história politica e social, percebendo quais estruturas e práticas do passado ainda permanecem influentes e entram em choque com práticas modernas e progressistas.

Em outras palavras, lançar uma luz sobre a fricção social e politica entre aspectos atrasados e avançados da sociedade em mudança pode ser uma boa via para interpretação do Brasil.

Na esteira de estudar como processos arcaicos se mantém com formas modernas, José Maurício Domingues, no texto A Dialética da Modernização Conservadora e a Nova História do Brasil (2004), concentra-se em compreender teoricamente como se dá o fenômeno da modernização conservadora no Brasil. Seu ponto de partida é o dialogo com Barrington Moore Jr., para quem a entrada das sociedades na era moderna poderia ocorrer de três maneiras, pela via democrática, pela via socialista revolucionária ou pela via autoritária.

Pode-se compreender a modernização conservadora como, primeiramente, uma recusa da mudança das relações de trabalho rural, com os grandes proprietários mantendo o controle da força de trabalho. As elites agrárias forçariam a insipiente burguesia avessa aos processos de democratização a modernizar-se. Isso acarretaria na modernização sob a liderança e interesse das elites agrárias, mantendo o processo e as subjetividades coletivas sob o controle de um bloco autoritário.

No Brasil, os grandes agentes da modernização foram os grandes proprietários. A modernidade foi instalada entre nós paulatinamente sem que um dos seus principais aspectos, a liberdade, ganhasse muito espaço. Em todos os períodos de modernização nacional, que se deram por um viés conservador, era fundamental para a elite dirigente controlar os processos de desencaixe que transformariam os planos individuais e coletivos. Apesar do controle exercido pelas elites dos processos de modernização, houve consequências inesperadas no tecido social, “uma dialética virtuosa forçou seu caminho no curso da modernização conservadora” (DOMINGUES, 2004 p. 189). Os processos de desencaixe desencadearam mudanças radicais que escaparam do controle do bloco dirigente, ensejando cada vez mais liberdade em indivíduos e coletividades, mudando por completo as subjetividades coletivas.

O sucesso do programa de modernização pelo alto minou suas próprias bases. As duas ditaduras brasileiras do século XX sucumbiram, pois não conseguiram compreender e nem lidar com esse paradoxo das consequências, principalmente durante a segunda delas, onde o processo levou ao esgotamento do modelo que tomou o poder em 1964. A modernização foi tão longe em suas consequências que se tornou impossível controlar as subjetividades desencaixadas que se erigiram com o processo, nem mesmo lidar com as novas demandas que surgiam. Sem embargo, a civilização brasileira ficou tão complexa que o arranjo modernizante/conservador não conseguia mais dar conta. O resultado foi a democratização e a Constituição de 1988.

Domingues conclui que, apesar das desigualdades, o grau de liberdade e pluralidade das formas de vida no Brasil aumentou exponencialmente. Entretanto, a sociedade brasileira teria mais dificuldade de criar instituições que engendrassem a solidariedade social, resultando numa poliarquia distorcida, num individualismo predatório, numa grande fragmentação social e em baixa consciência de cidadania tanto individuais quanto coletivas.

A sociedade nacional congregou em seu âmago, mesmo em períodos de democracia formal, de caracteres modernos com traços arcaicos, ambos convivem tanto em complementação quanto em oposição. Nossa revolução burguesa sempre ocorreu tutelada por grupos de cima e sem a participação do povo. Assim, nossa democracia nunca integrou a totalidade da população, subsistindo padrões de exclusão ou em processos de extermínio cultural e étnico que permanecem por longos períodos: pobres, negros, indígenas e outras minorias. O que explicaria tal cenário seria a tendência de nossa sociedade a conciliação, um dos traços genéticos da nossa civilização, conforme relata Paulo Mercadante em A Consciência Conservadora no Brasil (1980). Isso explicaria porque nossa modernização sempre equilibre os antagonismos, isto é, sempre adote traços sociais avançados tendo que fazer concessões a praticas e grupos que representem o passado.

Nosso último período de democratização, a constituição de 1988 e a Nova República, apesar da grande participação e engajamento social, foi tutelada por grupos dirigentes da ditadura militar, resultado numa vitória política do chamado “centrão”, hoje personificado no PMDB e em outros partidos fisiológicos. Uma das consequências disso foi a gestação de uma poliarquia incapaz de completar o ciclo de solidariedade social, de liberdade e de igualdade. Mas isso não impediu que um maior adensamento das relações e pluralidade de modos de vida surgisse, acompanhando as mudanças que ocorriam a nível global. A vitória de Lula em 2002, seguida de um período de doze anos prosperidade econômica, amparados numa politica social democrata e numa grande conciliação entre as classes atestam o adensamento de nossa civilização que não poderiam mais ser liderada pelo velho esquema conservador que liderou o Brasil de 1929 a 1945 e 1964 a 1984.

O próprio esgotamento dessa política conciliatória é atestada por uma série de fatores, conforme escrevi em artigo anterior: pela fragilidade de uma economia baseada na exportação de commodities; pela publicização de esquemas de corrupção, investigados pelo Ministério Público e pela Polícia Federal, instituições que ganharam força pelo próprio governo Lula; uma mudança maior na subjetividade coletiva, que passou a cobrar mais transparência dos seus governantes e melhoria nos serviços públicos, como atestado nas Jornadas de Junho de 2013; o fim melancólico e traumático de mais de uma década de domínio do PT no executivo federal e a ascensão de um bloco governista basicamente liberal conservador, tendo como líder o PMDB, partido que nunca saiu efetivamente do poder, sendo ao longo dos anos o fiel da balança e o fator conciliatório de um ineficaz presidencialismo de coalização; a judicialização da politica e o fortalecimento do mandarinato jurídico tornam claros que a politica da grande conciliação de Lula chegou ao fim, bem como a capacidade reguladora da Nova República. É um paradoxo das consequências que tais fenômenos estejam tão intimamente ligados e que ele tenha ocorrido não durante um governo abertamente conservador, mas num governo liderado por um partido que, pela sua história, tinha compromisso maior com os setores mais desfavorecidos da população.

Me aproximo do diagnostico de proposto por Domingues e por Florestan Fernandes, este desenvolvido no artigo de Tatiana Gomes Martins: Mudança Social e desenvolvimento no pensamento de Florestan Fernandes nos anos 50 (2003). Nesse contexto de extrema desigualdade, heteronomia e fragmentação social, precisamos democratizar a democracia, nos termos do segundo, através de um processo de mudança provocada por mecanismos de planejamento democrático, que corrijam os descompassos históricos da nossa sociedade e levem os benefícios do desenvolvimento para toda a sociedade, especialmente para setores historicamente marginalizados; ou nos dizeres do primeiro, temos que criar instituições que de fato propiciem a solidariedade social, levando os valores de liberdade, igualdade e fraternidade as últimas consequências. Também precisamos pensar no valor da pluralidade e da tolerância a diferentes modos de vida como fundamentais para uma democracia plena que abarque minorias como negros, LGBT`s, imigrantes, indígenas e quilombolas e outros povos tradicionais.

Uma saída para isso seria a progressiva instituição de formas democráticas baseadas na democracia direta, isto é, na participação e na deliberação, cujo foco seriam as demandas do dia a dia e os problemas do cotidiano, mais próximos das condições dos cidadãos; e dotando de mais poder as experiências já existentes. Isso resultaria na fecundação de um espírito democrático, critico e ativo na população aproximando o poder do povo e devolvendo o poder à política. Assim, as experiências de participação, se bem dosadas e iniciadas ainda na escola e implementada intensiva e extensivamente nos bairros, podem render bons frutos a democracia brasileira, funcionando como uma escola de formação de líderes políticos, transformando a subjetividade coletiva e aumentando o coeficiente de cidadania.

Trata-se do desenvolvimento da virtude democrática e dos canais de expressão cidadã, valores que remontam à Grécia Antiga.

A única forma de conter essa anomia histórica é um movimento duplo e dialético entre sociedade e estado, reformando nossas instituições e incorporando uma maior participação direta dos cidadãos.

*Este artigo foi adaptado de um artigo acadêmico chamado Democracia, representação e participação no Brasil: antigos e novos dilemas de uma sociedade em mudança escrito para a disciplina Teorias Sociais do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UNESP/ARARAQUARA.

A Crise e a Constituição de 1988

Em palestra realizada na Universidade Federal de São Carlos, a Cientista Política e pesquisadora Vera Alves Cepêda analisa o impasse que hoje vive a sociedade brasileira e mostra como as crises politicas sempre fizeram parte da nossa história (1889, 1930, 1964 e o processo de democratização de 1984 à 1988). A diferença estaria em como nós vamos resolvê-la, se vamos regredir nas conquistas econômicas, sociais e politicas, como já aconteceu na história brasileira; ou se vamos radicalizar a democracia, buscando saídas inclusivas que possam resolver o gargalo da desigualdade que marca a nação.

Uma voz ponderada que merece ser ouvida em meio a este oceano de radicalização burra que nos cerca. Para assistir à palestra clique aqui.

O Brasil não é vermelho, é verde e amarelo? Reflexões sobre o conservadorismo brasileiro.

imagesLogo após as eleições para presidente, foram organizadas uma série de manifestações de caráter ultraconservador contra a candidata reeleita para presidente nas eleições democráticas. Embora aglutine vários grupos com interesses diversos, que vão desde aqueles que apoiam um golpe militar, o rompimento do Brasil com os vizinhos bolivarianos, o repúdio aos programas sociais e o apoio ao recrudescimento da politica de segurança pública, os manifestantes possuem em comum o fato de proporem a retirada da presidente e do seu partido da liderança do executivo, sob a justificativa de que seriam comunistas.

Muitos dos que discordam do conteúdo conservador destas manifestações estão chamando-as de fascistas, retrógradas, jurássicas e outros nomes menos amistosos. Confesso que eu também não sou simpático ao conteúdo politico destas passeatas. Contudo, é necessário levar em conta que tais ideias e representações não surgiram no vácuo da história e nem são produtos de meia dúzia de coxinhas fanáticos contra um governo supostamente de esquerda. Analisar dessa forma significa apenas captar a superfície do processo. A verdade é que o conservadorismo está profundamente arraigado no senso comum do brasileiro e faz parte de nossa formação histórica.

Mas o que é o pensamento conservador?

Para o conservadorismo, as sociedades possuem certos pilares fundamentais que a sustentam, como a família, o casamento, a autoridade e a religião. Estas instituições e valores devem ser preservadas sob o risco de a sociedade perder o seu sentido e entrar inevitavelmente em decadência. Para o pensamento conservador, a tradição deve guiar a vida dos homens. Isso não significa que os conservadores sejam contra a modernização das sociedades. O mundo deve seguir em frente, mas sempre tendo em vista certos preceitos como elemento referencial de sua marcha.

A tradição, sob esta óptica, funciona como um organizador das visões de mundo e das ações dos indivíduos. Ela é profundamente hierarquizadora. Isto é, ela estabelece os lugares sociais onde cada grupo ou individuo deve ocupar. Não há lugar para o questionamento dessa hierarquia. Ela existe para organizar, guiar e dar sentido ao mundo e, por isso, deve ser respeitada. Sem ela a civilização não existiria.

Essa importância dada à tradição pelo conservador típico se dá em virtude de que, para ele, o homem é naturalmente mal, egoísta, mesquinho, propenso á guerra e ao desrespeito para com seu semelhante. A única forma de segurar essa propensão maligna seriam as leis e sanções duras sobre ele. Só assim seria possível viver em sociedade.

No Brasil o pensamento conservador encontra sua expressão máxima na obra de Gilbert Freyre, para quem a formação brasileira é única e geradora de uma matriz civilizacional especifica. O mandonismo, o patrimonialismo, a família patriarcal e a democracia de raças, frutos de uma sociedade onde tantos negros quanto brancos teriam possibilidade de ascender socialmente, seriam traços que deveriam ser preservados por expressarem as características únicas da sociedade brasileira.

A nossa sociedade, segundo Freyre, seria caracterizada pela harmonia dos contrários. Isso significa que os lados opostos como o negro e o branco, o pobre e o rico, o proprietário e o trabalhador estariam ligados por laços de solidariedade que trariam um equilíbrio à sociedade brasileira, evitando a eclosão de distúrbios em nosso meio.

Com uma história social baseada quase em sua totalidade no esmagamento dos mais pobres e na destruição sistemática daqueles que ousassem criticar a hierarquia estabelecida, o Brasil sempre foi extremamente hierarquizado. Sempre esteve no senso comum da população em geral de que cada um deveria saber o seu lugar e respeitá-lo, seja o pobre ou o rico, o negro ou o branco, o trabalhador ou a empresário. Por isso sempre se pensou que protestos ou manifestações dos mais desfavorecidos são coisas de vagabundo, artimanhas do comunismo ou articulações de partidos de esquerda; politicas de cotas raciais ou de distribuição de renda sempre passariam como algo que humilhasse os pobres amarrando-os a uma politica de cabresto; projetos de lei que dessem mais voz aos movimentos sociais ou programas de bolsas para estudantes pobres cursarem faculdade no exterior são vistos sempre de forma ameaçadora.

A velha estrutura rígida e autoritária da sociedade brasileira passa então a ser contestada e posta abaixo pelo movimento tímido de mobilidade imposta por estas politicas sociais democratas do atual governo. Surgem então os movimentos de resistência, milhares de indivíduos se reunindo em manifestações clamando contra o bolivarianismo do governo, contra as estratégias de dominação comunista, contra o globalismo, contra o darwinismo e satanismo nas escolas e outros epítetos. Clama-se pelo volta dos militares ou da monarquia, pelo fim dos sindicatos, pelo fim da CLT, pelo fuzilamento de todos os petistas ou pela agressão de qualquer pessoa que use camiseta vermelha ou que lembre algo relacionado às esquerdas.

Por detrás dos indivíduos clamando pela manutenção de valores que lhes são mais caros, vemos as estruturas arcaicas, rígidas, autoritárias e hierarquizantes, assentadas em séculos de espoliação dos mais pobres, reagir e lutar contra a mudança. É através destes indivíduos e grupos mais conservadores, e apenas através deles, que a sociedade estática e antidemocrática, onde cada um deveria ter o seu lugar e se satisfazer com ele, se manifesta.

O que vemos, portanto, é uma sociedade injusta lutando para manter algo que faz dela o que ela é: sua desigualdade.
Não estou condenando as pessoas que são partidárias das manifestações pró-direita, na verdade acho que numa sociedade democrática todos possuem o direito de se manifestar sobre o que bem entender. Contudo, é preciso levar em conta que, por detrás do discurso: O Brasil não é vermelho, é verde e amarelo, há toda uma representação social de caráter extremamente antidemocrático e autoritário, que nega aos mais fracos o direito de se manifestar ou almejar um lugar mais alto na estrutura social.

De fato, o Brasil não é vermelho. Mas é autoritário e antidemocrático.

As Eleições, a Tolice e a Maldade: Como 1% faz 99% de tolos

propinaPor Jessé Souza*

O nível do debate público de uma sociedade é a melhor medida de sua capacidade ou incapacidade, no nosso caso, de aprendizado político e moral. Nesse sentido, as eleições atuais mostram a precariedade e a indigência tanto de nossa inteligência coletiva quanto de nossa tibieza na ação. Para quem pensava que os setores conservadores da classe média haviam perdido a capacidade de decidir eleições majoritárias, pode, hoje em dia, aprender que a “regressão” a níveis de debate que pareciam superados é sempre possível dadas certas pré-condições e fatos novos. O fato novo é o que chamamos de “nova classe trabalhadora”, que estudamos em trabalho empírico e coletivo pioneiro de 2010. Essa nova classe ascendente, que inclui não só trabalhadores em sentido mais tradicional, mas, inclui, também, um sem número de autônomos que se acreditam “empresários de si mesmo”, se mostra suscetível as mesmas idéias que já faziam amplos setores da classe média estabelecida de tola.

É claro que falo da corrupção como o tema central da política brasileira. O ponto que nunca se discute quando se fala em corrupção apenas do Estado e de seus servidores, como é o caso no Brasil, é o modo pelo qual as classes médias e ascendentes que a apóiam são feitas de tolas. Na história da democracia e da política brasileira, a escolha política histórica que foi realizada no golpe de 1964 e aprofundada nos anos 90 de FHC de se criar uma sociedade para 20% da população com acesso a consumo e infra-estrutura, enquanto se condena os restantes 80% a uma sub vida, sempre foi justificada pela eficiência e virtude inatas do mercado por oposição ao Estado corrupto e ineficiente em si mesmo.

Na verdade, o mercado capitalista, aqui e em qualquer lugar, sempre foi uma forma de “corrupção organizada”, começando com o controle dos mais ricos acerca da própria definição de crime: criminoso passa a ser o funcionário do Estado ou o batedor de carteira pobre enquanto o especulador de Wall Street, que frauda balanços de empresas e países e arruína o acionista, embolsa, hoje mais que antes da crise, bônus milionários. Enquanto o primeiro vai para a cadeia, o segundo, que às vezes arrasa a economia de países inteiros, ganha foto na capa do “Time” como financista do ano. Quem é que ganha, na verdade, com a corrupção tornada legal do mercado e celebrada como mérito? É isso que o cidadão tornado tolo não vê. No Brasil, inclusive, a tolice é ainda muito pior do que em qualquer outro lugar. Nenhuma sociedade complexa é tão absurdamente desigual como a nossa na qual quase 70% do PIB é ganho de capital – lucro, juro, renda da terra ou aluguel – e estão concentrados nos 1% mais ricos da população. Por outro lado, só cerca de 30% cabe aos salários dos restantes 99%. Nas sociedades capitalistas mais dinâmicas da Europa, como França e Alemanha, essa relação é inversa. Nós, brasileiros, somos pelo menos o dobro mais otários que os europeus. Essa é a real vergonha nacional.

Mais tem muito mais. Essa transferência absurda de riqueza entre nós é realizada por serviços e mercadorias superfaturados – cobradas pelo mercado e não pelo Estado – com as taxas de juro e de lucro mais altas do mundo, que é cobrada pelos bancos e pelas indústrias cujos lucros e juros vão para o 1% mais rico. E quem são as classes cujos indivíduos são feitos de verdadeiros “otários”, senão aqueles das classes médias e trabalhadoras ascendentes que são quem consomem os carros com o dobro da taxa de lucro dos carros europeus; pagam taxas de juro estratosféricas para bancos em qualquer compra a prazo; e serviços de celular dos mais caros do mundo ainda que o serviço seja incomparavelmente pior. Quem é feito de tolo aqui? As classes médias e trabalhadoras ascendentes que defendem o Estado mínimo e o mercado máximo e que pagam preços máximos por produtos e serviços mínimos e de baixa qualidade a capitalistas que possuem monopólios para produzir mercadorias e serviços de segunda categoria. Essa é a corrupção invisível para os tolos e que nenhum jornal ou TV dos ricos mostra.

É essa “corrupção organizada” do mercado que “aparece” como milagre do mérito de capitalistas que na verdade herdaram o privilégio e nunca correram nenhum risco. E ainda, com esse dinheiro “extra” dos tolos, compram partidos políticos que defendem seus privilégios e jornais e redes de TVs que dizem todo dia que o problema nacional é a corrupção apenas no Estado, que é, pasme-se, o único lugar onde a corrupção ainda é visível como tal e tem algum controle.

Na verdade, toda classe que monopoliza os recursos que deveriam ser para todos, tem que fazer as todas as outras de tolas e transformar o interesse mais privado no mais público. Um banqueiro não pode dizer: pessoal, eu sou mais esperto e charmoso e quero de vocês uma contribuição eterna para meu bem estar! Ninguém é tão tolo para aceitar isso. Ele tem que dizer mais ou menos assim, pessoal, o mercado não anda bem e não é ainda mais justo porque tem um pessoal no Estado que rouba muito, como se houvesse alguma forma de corrupção sistemática no Estado que não fosse estimulada pelo mercado e como se o mercado não ajudasse apenas a quem já tem dinheiro a ficar ainda mais rico. Mas a tolice das classes médias e ascendentes que compram esse discurso como se fosse seu, não explica a raiva e o ódio ao uso do Estado – ainda que parcial e inconcluso – para os interesses da maioria esquecida da população brasileira.

Sem o adendo da “maldade” a tolice raivosa fica incompreensível. A raiva de quem se deixa fazer de otário pelos mais ricos só pode explicada pelas tentativas incipientes de se incluir mais gente no mercado como trabalhador e como consumidor. O Brasil de hoje ainda marginaliza 60% de sua população, mas, o Estado ousou aumentar o número de incluídos de 20% para 40%. É a raiva ancestral de uma sociedade escravocrata acostumada a um exército de servidores cordatos e humilhados que explica a tolice dos otários que compram a idéia absurda de mais mercado no pais do mercado mais injusto e concentrado do mundo. A raiva, no fundo, é contra o fato de que muitos desses esquecidos estarem agora competindo pelo espaço antes reservado à classe média, como vimos nos “rolezinhos”, nas reclamações dos aeroportos cheios e na perda dos valores de distinção com relação a “gentinha” não mais tão cordata e humilhada. Ninguém é tão otário para não perceber o óbvio, a exploração do mercado que ganha muito e dá pouco em troca, se “afetivamente” – que é onde se decide o mundo real – ele já não tiver garantido seu voto à continuação da humilhação e da desigualdade, nosso real “escândalo nacional”. É que isso garante ao otário que ele possa manter sua “distinção” e sua “distância” em relação aos esquecidos e humilhados. É isso que fez a classe média e pseudo-empresários ascendentes se tornarem “tropa de choque” de quem mais a exploram, como nas manifestações de junho passado. É também a razão de tanta tolice de quem defende hoje a cantilena absurda de “mais mercado” em um dos países mais injustos e de riqueza mais concentrada do mundo.

*Jessé Souza é Sociólogo.