A Modernização Leva a Desordem Moral?

teoTalvez um dos temas de grande sedução nos debates ideológicos, tanto entre conservadores e progressistas, refere-se às consequências da secularização sobre a moralidade coletiva. Conservadores e religiosos em geral afirmam que a religião é imprescindível para a coesão social, enquanto partidários da modernização e da secularização, principalmente ateus militantes, afirmam ser o sentimento religioso uma crendice que tenderá a desaparecer conforme formas modernas de vida forem se alastrando pelo globo.

Para responder essa questão, precisamos reportar a estrutura básica da sociedade pós-tradicional e como ela se diferencia de comunidades dos tempos pré-modernos. O sociólogo Zygmunt Bauman, em seu livro Modernidade Liquida (2001), mostra como as sociedades tradicionais se caracterizavam pela crença numa origem mítica. Fundada por deuses, patriarcas ou heróis, suas leis não poderiam ser modificadas em virtude de seu caráter sagrado; eram sociedades heteronômicas, pois consideravam sua origem extraterrena.

Na modernidade, porém, essas condições mudam. Bauman ainda afirma que a origem deixa de ter uma conotação sobrenatural ou lendária para uma origem histórica, situada no tempo e no espaço. As sociedades modernas, em oposição ao caráter a-histórico de tempos tradicionais, são históricas; suas leis, costumes e origens são tidas como terrenas, seculares e, por isso, sempre submetidas ao debate e reformulação.

Segundo Anthony Giddens, no livro As Consequências da Modernidade (1991), a tradição em condições de modernidade é constantemente reinterpretada e criticada. Não é mais a tradição que condiciona uma comunidade sempre em relação ao passado, mas é o progresso que determina-as sempre em direção ao futuro, num fenômeno chamado de reflexividade, resultado do processo intenso de racionalização e inovação tecnológica, a produção intensa de conhecimento causa fissuras, mudanças e ondulações inesperadas no tecido social, esse resultado contingencial leva inevitavelmente a uma maior produção de conhecimento que, por sua vez, leva a mais mudanças.

Disso resulta em consequências para a moral social. Ela não depende mais de uma tradição, ou de uma religião que são o centro de reprodução da vida. Os indivíduos e grupos estão desgarrados, livres para criar suas próprias crenças morais num mundo onde a inovação e a racionalização tomam conta de todas as esferas da vida. Cabe ao indivíduo, sozinho, criar sua biografia, seus valores e cultivar seu paraíso ou seu inferno.

A consequência, a primeira vista, pode ser uma desordem moral onde tudo seria permitido e onde a religião deixaria de existir.

Entretanto, estamos em meio a um profundo processo de secularização/modernização/racionalização, as religiões continuam a ter certa importância na vida das pessoas e a chamada desordem moral, pelo menos até agora, não ocorreu.

Não há uma relação entre modernização/secularização e desaparecimento das religiões. O fenômeno do fechamento de igrejas que está ocorrendo na Europa (leia mais aqui) não se repetiu nos Estados Unidos, por exemplo, onde sua pujança econômica não parece interferir na sua força religiosa, sendo inclusive um exportador de missionários protestantes para todo o globo. Na América Latina a modernidade não conseguiu destruir a força das religiões, apesar do aumento, no Brasil, do número de agnósticos e ateus (saiba mais aqui).

Em tempos modernos a moral e a religião abandonam o centro do mundo social e refugiam-se na segurança da vida privada. Ela continua tendo sua importância, mas como coadjuvante, não mais como ator principal.

Hans Joas, no artigo A Secularização Leva a Decadência Moral? (2015) discute a possibilidade, mais temida por religiosos e conservadores, de uma suposta crise moral que assolaria a humanidade criada pelo processo de secularização. Afirma que os valores da justiça e do bom senso podem surgir da religião, de processos seculares ou mesmo da união entre ambos, como pode ser constatado no movimento em prol dos Direitos Humanos, que congrega tanto ateus quanto fiéis. Conclui que os valores morais que regem a convivência entre indivíduos de uma mesma sociedade também podem originar-se de catástrofes sociais ou surgir de um movimento genuíno, de dentro da própria sociedade, para regular suas relações. Usando suas próprias palavras:

(…) parece ser decisivo que as próprias estruturas de cooperação humana ou conduzem os indivíduos a manutenção de compromissos de reciprocidade por razões de interesses próprio ou os sensibilizam para o valor da justiça. Este e outros valores moralmente relevantes podem inspirar compromisso através de experiências positivas — sua incorporação em modelos, por exemplo — ou de experiências negativas — como a vivência da injustiça, degradação e violência. (JOAS, p.243. 2015)

O fator religioso seria uma das origens possíveis.

Penso ser impossível ocorrer uma desordem moral num mundo secularizado, pois a própria moral se tornou secular, isto é, ganhou autonomia em relação a religião. Assim muitas morais podem ser erigidas dentro de um mesmo arcabouço cultural da cultura moderna, que cultiva os valores, hoje universais, da liberdade, igualdade e fraternidade.

Sem embargo, cabem aos conservadores e religiosos respeitar a possibilidade de uma moral secular, hoje defendida por ateus, agnósticos e progressistas; como também é preciso que os segundos, ao menos, respeitem a possibilidade de fé dos primeiros.

Quem sabe assim o mundo ficaria menos intolerante e, quem sabe, mais agradável de se viver.

Retornando a pergunta que é o título do artigo: A modernização leva a desordem moral? Eu respondo que não.

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As Três Mudanças Socioculturais do Nosso Tempo

globalizacao-decoracao-interiorA partir do fim do século XX, uma série de mudanças na maneira como percebemos o mundo criaram novos desafios para a politica convencional e para as instituições liberais. Tais metamorfoses estão se radicalizando no século XXI tornando claro que a democracia formal/representativa e o estado nacional são incapazes de lidar com elas sem uma profunda reforma.

Segundo Elisa Reis, no texto A Sociologia Política e os Processos Macro-Históricos, elas estão ocorrendo na esfera da relação do homem com o meio ambiente, outra é referente à solidariedade aos estados nacionais e, por fim, as que tangem aos valores da igualdade, desigualdade e diferença.

Em períodos pré-modernos a humanidade tinha uma visão de que a natureza era algo a ser temido. O advento da era pós-tradicional mudou essa concepção para a ideia que o mundo natural deveria ser dominado. A grande devastação ambiental causada pela ação humana e os traumas decorrentes disso mudaram essa visão. A partir da década de noventa e com o fim da guerra fria, a pauta da catástrofe ambiental substituiu a da destruição nuclear. Agora tem-se consciência de quão necessário é preservar a natureza sob o risco de colocar a espécie humana e toda vida na terra em risco.

Temos também a mudança na esfera da conformação dos estados nacionais; se, com o seu surgimento, a noção dominante era uma solidariedade diluída no pertencimento a uma comunidade nacional e no mercado com o compartilhamento de interesses entre quem vende e quem compra, nas últimas décadas do século XX vimos surgir um terceiro tipo de solidariedade vindos diretamente da sociedade civil organizada em prol dos mais variados interesses; como exemplo temos movimentos sociais ativos no processo de redemocratização da América Latina que exigiam reparos e antídotos contra o estado autoritário e contra as consequências da modernização conservadora.

O terceiro tipo de mudança diz respeito aos valores de igualdade, desigualdade e diferença. Os estados nacionais erigiram seu amálgama ideológico tendo a autoridade, lealdade e igualdade como eixo principal. A consequência foi que o diferente foi classificado como desigual, incapaz fazer parte da comunidade nacional e gozar de cidadania. Assim, identidades milenares e seculares acabaram sendo ofuscadas pelo estado nacional, resultando em genocídio étnico e segregação. Hoje, o reconhecimento da diferença é um argumento legítimo e como condição essencial para reivindicar a igualdade e a cidadania. Em vez de reprimir a igualdade, o reconhecimento da diferença e seu direito a cidadania tem se tornado importante para sustentá-la.

Tais mudanças, que estão cada vez mais fortes conforme avançamos no século XXI, tem chacoalhado as formas institucionalizadas de fazer politica. Se a democracia liberal e seu modelo de estado não são suficientes para lidar com estas novas demandas, a solução está na implantação de formas participativas e deliberativas de politica, aumentando os fóruns de consulta e discussão de politicas públicas. Precisamos, como defendia Floresta Fernandes, efetuar o planejamento democrático, aproximando os de baixo da politica e, assim, democratizar a democracia.

Ao contrário do dizem os conservadores, estas mudanças não é resultado de uma crise moral do homem, mas de mudanças criadas pelo próprio tempo histórico e pelas consequências inesperadas de milhares de agentes e centenas de instituições que, interagindo entre si, criam mudanças inesperadas no tecido social.

Em outras palavras, a modernidade, com sua imperfeição e seu ímpeto progressista, qual trem desgovernado que não podemos segurar, é o criador desta e de outras grandes metamorfoses sociocuturais que ainda estão por vir.

Elas vieram para ficar, para o bem ou para mal.

O prazer de escrever: quando alcançamos a marca de cem posts

SobreaimportanciadaescritaEnfim, cheguei à postagem de número cem nestas Páginas Perdidas. Desde que comecei este blog, lá pelo ano de 2009, minha intenção era apenas criar um lugar onde eu pudesse estocar meus textos que publicava em outros sites. O tempo passou, cheguei a congelar a página, pensando mesmo em destruí-la, mas o tesão por escrever sobre assuntos diversos, como sociologia, literatura e cultura em geral, falou mais alto e retomei este sítio, desta vez com mais afinco, de maneira mais disciplinada, procurando publicar sempre uma vez por semana, relacionando assuntos que, ao meu ver, fossem de interesse para qualquer um que goste de discutir sobre a loucura que é o mundo moderno.

Quantos leitores eu tenho? Cem, cinquenta, vinte, dez? Não me importa muito. O que realmente importa é o prazer de escrever, sabendo que estas palavras estampadas nessas Páginas Perdidas podem ter algum significado para alguém em algum lugar deste mundo globalizado.

Meu objetivo, pelo menos agora, é manter o foco em assuntos culturais, como séries, filmes, livros, publicar pequenos fragmentos de grandes obras e de novelas escritas por mim; e também sobre política e sociedade em geral… A escolha por torná-lo um domínio mais profissional, paginasperdidas.me, foi para aumentar, pelo menos a médio e longo prazo, o tráfego, e explorar o máximo de potencial que um este blog possui, que é ser uma fonte confiável de análises sobre contemporaneidade, num tempo em que a irracionalidade parece ser a lógica. Pretendo dividir, com quem quer que seja, minhas inquietações, anseios e problemas que um jovem sociólogo como eu tem nestes quase dez anos de estudo sobre o social. Trata-se de lançar um olhar que busque muito mais o entendimento do que alimentar a polarização e o clima de torcida que muitos destes coxinhas, militontos e troskos em geral costumam fazer. Os primeiros me chamarão de comunista, os segundos de troskos e os últimos de pelegos… Mas eu não me importo. Escrever, tomando uns goles de café e tendo com trilha sonora algum clássico do jazz ou do heavy metal, me dá muito prazer, é quase um chamado. Se eu fico duas semanas sem ler um livro ou colocar algumas linhas estúpidas no computador, sinto-me mal, oprimido, incapaz de expressar a minha individualidade… Eu necessito disso assim como o viciado precisa do ópio.

Se o leitor gostou, ótimo. Se não gostou, vá a merda.

Que venham mais cem posts no blog.