Só a Democracia pode salvar a Democracia

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Quanto vale lutar pela Democracia?

Entre os escombros da Nova República e a ascensão de um novo período histórico onde predominará uma poliarquia limitada, vemos os valores da nossa distorcida social-democracia serem jogados no lixo como uma coisa completamente superada, fora de moda, como algo ideológico…

Mas só costumamos chamar de ideológico aquilo que não concordamos. Russel Kirk, o famoso historiador e militante conservador, disse em sua obra A Política da Prudência (1994) que as ideias extremistas, o progressismo e o socialismo, eram ideológicos. Mas todo arcabouço de ideias que dê explicação ao mundo e sustente uma forma de poder no tempo e do espaço pode ser chamado de ideológico. Portando, temos que dar os nomes aos bois, o limitado e prosaico Kirk é tão ideológico quanto os socialistas, sociais-democratas e liberais que costumava tanto criticar.

A inflexão que estamos vendo hoje, com todo o lamaçal da Nova República, só demonstra as consequências nefastas de uma transição democrática lenta, gradual e segura, arquitetada pelos militares que viam a seu poder se esvair frente a crise econômica e às demandas por eleições livres. A conciliação com toda a banda podre da caserna acabou fazendo com que o Novo herdasse as velhas práticas corruptoras e corrompidas da ditadura e de períodos anteriores menos democráticos.

Disso percebemos que está se proliferando certas ideias sustentadas por candidatos e grupos sociais que se colocam como não-políticos e não-ideológicos. Advogam que, como não possuem nada de politico, são tomados de um conhecimento neutro que os tornam capazes de aplicá-lo para administrar o mundo da vida.

Afastar a politica da sociedade civil e torná-la neutra, como uma técnica que só precisa ser aplicada, é algo perigoso que pode beirar o autoritarismo, pois retira do palco de discussão da Ágora os assuntos de interesse da sociedade. Os tecnocratas não percebem a pluralidade, a historicidade e a complexidade de interesses que norteiam a politica e como ela espelha os conflitos em sociedade. Tudo isso funciona como um afastamento do povo da discussão dos seus problemas. O discurso tecnocrático e da antipolítica aparta as pessoas do poder, das instâncias decisórias e das possibilidades de debater seus principais problemas.

Quem ganha afastando o povo da politica? Quem se favorece tornando as politicas públicas blindadas ao questionamento popular apenas por que estariam sob a roupagem de que são medidas técnicas?

Aqueles que afirmam não ser políticos ou não ideológicos são exatamente o oposto, pois suas ações estão sendo amparadas por grupos políticos e interesses econômicos que estão em disputa pelo Estado e pela hegemonia pelo domínio das ideias na sociedade.

Para superar as distorções da democracia representativa e a nossa secular desigualdade precisamos não de tecnocratas ou de líderes que posam de antipolíticos, que usam a fantasia do não sou político, sou administrador como uma forma de conquistar os mais desavisados. Precisamos de mais politica, de políticos de P maiúsculo, de mais democracia, de pôr na esfera de discussão da Ágora os temas mais espinhosos e polêmicos; este é o único caminho para criar um novo consenso e um novo acordo nacional; não elitista e conciliador com tudo que há de mais podre na sociedade brasileira, mas um acordo Popular, que espelhe as demandas de todos os trabalhadores e supere quinhentos anos de dominação fática sobre o povo.

Talvez o que esteja acontecendo agora, com todos os partidos políticos e principais líderes que forjaram a Carta de 1988 expostos em seus esquemas obscuros, aponte para dois caminhos: ou deixamos os interesses econômicos e as elites forjarem um novo pacto que só interessa a elas; ou o povo pega pelos chifres o processo atual e dobre o Poder para o seu lado de forma inédita na história brasileira. Temos uma chance de limpar o poder politico de suas influências deletérias e ajustar a sociedade brasileira numa direção mais justa e equitativa.

As peças estão na mesa. Cabe aos peões decidir se querem continuar sendo bucha de canhão dos reis, rainhas e bispos ou eliminar seus opressores do tabuleiro e criar as novas regras do jogo.

Só mais Democracia pode salvar a Democracia; apenas mais Política pode salvar a Política.

A Modernização Conservadora e o Brasil Contemporâneo*

Acredito que uma das chaves para compreender o Brasil atual é retomar sua história politica e social, percebendo quais estruturas e práticas do passado ainda permanecem influentes e entram em choque com práticas modernas e progressistas.

Em outras palavras, lançar uma luz sobre a fricção social e politica entre aspectos atrasados e avançados da sociedade em mudança pode ser uma boa via para interpretação do Brasil.

Na esteira de estudar como processos arcaicos se mantém com formas modernas, José Maurício Domingues, no texto A Dialética da Modernização Conservadora e a Nova História do Brasil (2004), concentra-se em compreender teoricamente como se dá o fenômeno da modernização conservadora no Brasil. Seu ponto de partida é o dialogo com Barrington Moore Jr., para quem a entrada das sociedades na era moderna poderia ocorrer de três maneiras, pela via democrática, pela via socialista revolucionária ou pela via autoritária.

Pode-se compreender a modernização conservadora como, primeiramente, uma recusa da mudança das relações de trabalho rural, com os grandes proprietários mantendo o controle da força de trabalho. As elites agrárias forçariam a insipiente burguesia avessa aos processos de democratização a modernizar-se. Isso acarretaria na modernização sob a liderança e interesse das elites agrárias, mantendo o processo e as subjetividades coletivas sob o controle de um bloco autoritário.

No Brasil, os grandes agentes da modernização foram os grandes proprietários. A modernidade foi instalada entre nós paulatinamente sem que um dos seus principais aspectos, a liberdade, ganhasse muito espaço. Em todos os períodos de modernização nacional, que se deram por um viés conservador, era fundamental para a elite dirigente controlar os processos de desencaixe que transformariam os planos individuais e coletivos. Apesar do controle exercido pelas elites dos processos de modernização, houve consequências inesperadas no tecido social, “uma dialética virtuosa forçou seu caminho no curso da modernização conservadora” (DOMINGUES, 2004 p. 189). Os processos de desencaixe desencadearam mudanças radicais que escaparam do controle do bloco dirigente, ensejando cada vez mais liberdade em indivíduos e coletividades, mudando por completo as subjetividades coletivas.

O sucesso do programa de modernização pelo alto minou suas próprias bases. As duas ditaduras brasileiras do século XX sucumbiram, pois não conseguiram compreender e nem lidar com esse paradoxo das consequências, principalmente durante a segunda delas, onde o processo levou ao esgotamento do modelo que tomou o poder em 1964. A modernização foi tão longe em suas consequências que se tornou impossível controlar as subjetividades desencaixadas que se erigiram com o processo, nem mesmo lidar com as novas demandas que surgiam. Sem embargo, a civilização brasileira ficou tão complexa que o arranjo modernizante/conservador não conseguia mais dar conta. O resultado foi a democratização e a Constituição de 1988.

Domingues conclui que, apesar das desigualdades, o grau de liberdade e pluralidade das formas de vida no Brasil aumentou exponencialmente. Entretanto, a sociedade brasileira teria mais dificuldade de criar instituições que engendrassem a solidariedade social, resultando numa poliarquia distorcida, num individualismo predatório, numa grande fragmentação social e em baixa consciência de cidadania tanto individuais quanto coletivas.

A sociedade nacional congregou em seu âmago, mesmo em períodos de democracia formal, de caracteres modernos com traços arcaicos, ambos convivem tanto em complementação quanto em oposição. Nossa revolução burguesa sempre ocorreu tutelada por grupos de cima e sem a participação do povo. Assim, nossa democracia nunca integrou a totalidade da população, subsistindo padrões de exclusão ou em processos de extermínio cultural e étnico que permanecem por longos períodos: pobres, negros, indígenas e outras minorias. O que explicaria tal cenário seria a tendência de nossa sociedade a conciliação, um dos traços genéticos da nossa civilização, conforme relata Paulo Mercadante em A Consciência Conservadora no Brasil (1980). Isso explicaria porque nossa modernização sempre equilibre os antagonismos, isto é, sempre adote traços sociais avançados tendo que fazer concessões a praticas e grupos que representem o passado.

Nosso último período de democratização, a constituição de 1988 e a Nova República, apesar da grande participação e engajamento social, foi tutelada por grupos dirigentes da ditadura militar, resultado numa vitória política do chamado “centrão”, hoje personificado no PMDB e em outros partidos fisiológicos. Uma das consequências disso foi a gestação de uma poliarquia incapaz de completar o ciclo de solidariedade social, de liberdade e de igualdade. Mas isso não impediu que um maior adensamento das relações e pluralidade de modos de vida surgisse, acompanhando as mudanças que ocorriam a nível global. A vitória de Lula em 2002, seguida de um período de doze anos prosperidade econômica, amparados numa politica social democrata e numa grande conciliação entre as classes atestam o adensamento de nossa civilização que não poderiam mais ser liderada pelo velho esquema conservador que liderou o Brasil de 1929 a 1945 e 1964 a 1984.

O próprio esgotamento dessa política conciliatória é atestada por uma série de fatores, conforme escrevi em artigo anterior: pela fragilidade de uma economia baseada na exportação de commodities; pela publicização de esquemas de corrupção, investigados pelo Ministério Público e pela Polícia Federal, instituições que ganharam força pelo próprio governo Lula; uma mudança maior na subjetividade coletiva, que passou a cobrar mais transparência dos seus governantes e melhoria nos serviços públicos, como atestado nas Jornadas de Junho de 2013; o fim melancólico e traumático de mais de uma década de domínio do PT no executivo federal e a ascensão de um bloco governista basicamente liberal conservador, tendo como líder o PMDB, partido que nunca saiu efetivamente do poder, sendo ao longo dos anos o fiel da balança e o fator conciliatório de um ineficaz presidencialismo de coalização; a judicialização da politica e o fortalecimento do mandarinato jurídico tornam claros que a politica da grande conciliação de Lula chegou ao fim, bem como a capacidade reguladora da Nova República. É um paradoxo das consequências que tais fenômenos estejam tão intimamente ligados e que ele tenha ocorrido não durante um governo abertamente conservador, mas num governo liderado por um partido que, pela sua história, tinha compromisso maior com os setores mais desfavorecidos da população.

Me aproximo do diagnostico de proposto por Domingues e por Florestan Fernandes, este desenvolvido no artigo de Tatiana Gomes Martins: Mudança Social e desenvolvimento no pensamento de Florestan Fernandes nos anos 50 (2003). Nesse contexto de extrema desigualdade, heteronomia e fragmentação social, precisamos democratizar a democracia, nos termos do segundo, através de um processo de mudança provocada por mecanismos de planejamento democrático, que corrijam os descompassos históricos da nossa sociedade e levem os benefícios do desenvolvimento para toda a sociedade, especialmente para setores historicamente marginalizados; ou nos dizeres do primeiro, temos que criar instituições que de fato propiciem a solidariedade social, levando os valores de liberdade, igualdade e fraternidade as últimas consequências. Também precisamos pensar no valor da pluralidade e da tolerância a diferentes modos de vida como fundamentais para uma democracia plena que abarque minorias como negros, LGBT`s, imigrantes, indígenas e quilombolas e outros povos tradicionais.

Uma saída para isso seria a progressiva instituição de formas democráticas baseadas na democracia direta, isto é, na participação e na deliberação, cujo foco seriam as demandas do dia a dia e os problemas do cotidiano, mais próximos das condições dos cidadãos; e dotando de mais poder as experiências já existentes. Isso resultaria na fecundação de um espírito democrático, critico e ativo na população aproximando o poder do povo e devolvendo o poder à política. Assim, as experiências de participação, se bem dosadas e iniciadas ainda na escola e implementada intensiva e extensivamente nos bairros, podem render bons frutos a democracia brasileira, funcionando como uma escola de formação de líderes políticos, transformando a subjetividade coletiva e aumentando o coeficiente de cidadania.

Trata-se do desenvolvimento da virtude democrática e dos canais de expressão cidadã, valores que remontam à Grécia Antiga.

A única forma de conter essa anomia histórica é um movimento duplo e dialético entre sociedade e estado, reformando nossas instituições e incorporando uma maior participação direta dos cidadãos.

*Este artigo foi adaptado de um artigo acadêmico chamado Democracia, representação e participação no Brasil: antigos e novos dilemas de uma sociedade em mudança escrito para a disciplina Teorias Sociais do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UNESP/ARARAQUARA.

Bem-vindos a Novíssima Velha República

06_debate-300x214A crise econômica e politica que tomou conta do país significou a quebra de um bloco histórico que se ergueu desde 2003 com a ascensão do Partido dos Trabalhadores a presidência. Agora o que temos diante de nós é a emergência de um novo período histórico, mas que carrega traços de períodos históricos anteriores.

Os últimos treze anos da república brasileira foram baseados no chamado neodesenvolvimentismo, com uma presença mais protagonista do estado na economia através do financiamento dos chamados campeões nacionais e numa relação obscura entre líderes governamentais e grandes empreiteiras, cujas relações com o estado remontam a década 1950 (saiba mais aqui); maior destaque para politicas de assistência social (veja mais aqui); atenção especial para o agronegócio por meio da defesa da exportação de commodities; ênfase em grandes obras de infraestrutura e a reatualização da ideologia do Grande Brasil; tentativa de criar um polo alternativo de poder, claramente terceiro mundista, na politica externa através da valorização dos BRICS; cooptação de líderes de movimentos sociais para a máquina do estado com o objetivo de arrefecer as mobilizações por direitos sociais objetivando criar a paz social necessária para investimentos externos; e, por último, e não menos importante, a Politica da Grande Conciliação, onde o governo federal, apoiando-se no grande desenvolvimento capitalista, conseguia, por assim dizer, equilibrar relativamente os antagonismos, num país de cinquenta milhões de miseráveis, ao conseguir incorporar parte deles na esfera do consumo à revelia de questões como a reforma agrária e a questão das populações tradicionais.

Mas vivemos na época do capitalismo mundial e qualquer equilíbrio ou conciliação tende a ser transitório. As contradições da nossa democracia liberal, sempre assediada pelo poder econômico e cada vez mais distantes do cidadão comum, refém das elites locais e do Grande Capital, alcançaram níveis que esgotaram, para o bem e para o mal, o subsistema político; a política de exportação de commodities, por sua vez, apresentou seu esgotamento, deixando as taxas de exportações claramente comprometidas; os altos índices de corrupção que eram trazidos a tona, numa época em que os valores da ética e da transparência se tornam quase um senso comum na subjetividade coletiva brasileira, terminaram por cavar o túmulo da Nova República.

Em outras palavras, os processos de desencaixe criados pela Modernidade Mundo fraturaram as estruturas de uma sociedade anômica, levando-a a um impasse entre dois caminhos: a conciliação pelo alto ou reformas de base vindas de baixo para cima.

Seguindo a tradição conciliatória entre grupos majoritários e nossa vocação para nos apegarmos a modelos tradicionais e superados, acabamos optando pela primeira opção.

Apesar de estarmos no início de um novo velho período, é possível traçar algumas linhas, ainda que de caráter impressionista, das suas principais características, conforme já disse o cientista político Christian Edward Cyril Lynch. Entre as principais está o esfacelamento da velha esquerda, que passará a adotar uma postura defensiva por anos ao perder continuamente a luta pelo domínio da narrativa dos caminhos do Brasil. Hegemonia politica da centro-direita, repartida principalmente entre os chamados liberais conservadores (saiba mais aqui). Declínio do nacional desenvolvimentismo; o Estado Nacional tenderá a passar sua tarefa de árbitro social para o Mercado. Também espera-se o esvaziamento de pautas relacionadas aos direitos humanos e às minorias, com o desvio de recursos antes direcionados para a assistência e desenvolvimento social para politicas de segurança de caráter claramente repressivo; o objetivo disso é combater manifestações populares contra medidas de economia politica do Novo Velho Governo e conceder a paz social necessária à reprodução dos investimentos externos, que terão menos regulação. Emergência de um parlamentarismo disfarçado, algo que já acontecia desde a vitória de Eduardo Cunha para presidência da Câmara em 2014, com uma maior força do parlamento sobre o executivo, significando que cada medida urgida pelo pseudo-presidente Michel Temer acarretará em cada vez mais cargos e emendas negociadas com a base parlamentar. Mais força do que Lynch chama de Mandarinato Jurídico, que exercerá um poder cada vez mais moderador e regulador da politica e das relações entre as esferas de poder, redundando numa judicialização dos conflitos políticos. Poderemos ver os golpes finais sobre o legado trabalhista de Getúlio Vargas com a aprovação de leis que deixarão os trabalhadores cada vez mais à deriva no mundo do trabalho; recebendo cada vez menos e tendo que produzir sempre mais, teremos uma maior incidência de doenças relacionadas aos locais de trabalho e queda do padrão de vida médio dos trabalhadores. Um fenômeno que já era comum, de pessoas tendo dois empregos e precisando trabalhar pelo menos doze horas por dia, tenderá a ficar cada vez mais corriqueiro.

Obviamente que, em se tratando de ciência politica, sociologia e processos macro-históricos, principalmente os que acabei de descrever, os caminhos nunca são lineares e os fenômenos e fatos sociais nunca mudam de maneira mecânica. Cada ator social neste feixe de forças (trabalhadores não qualificados ou semi-qualificados, classe média, elites judiciárias, politicas e econômicas, movimentos sociais progressistas e regressistas entre outros, impossível para os propósitos deste texto listar todos) tende a reagir aos movimentos de cada um e criar consequências, alianças e lutas muitas vezes imprevistas. Mesmo assim, é possível divisar um bloco liberal e conservador cujo caminho para aprovação das suas medidas num congresso de perfil homogêneo e avesso a mudanças terá pouca resistência.

Aos grupos progressistas, nos quais estou incluído, resta resistir nas ruas (e fazer o que for possível na esfera da politica formal e minimalista), mesmo sabendo que isso acarretará em mais repressão, prisões e mortes.

Mas penso que, em vez de ficarmos numa cantilena ingênua de Fora Todos ou qualquer outro slogan secundário e colateral, deveríamos iniciar a estratégia de contra-hegemonia sendo propositivos, mostrando ao trabalhador porque o projeto de esquerda na verdade nunca se esgotou, pois o que defendemos é a radicalização da democracia, da igualdade, da liberdade e da solidariedade.

O Inverno finalmente chegou e cabe a nós decidir se nos renderemos ou lutaremos contra os Vagantes Brancos que, na verdade, sempre estiveram ai desde a invasão europeia na América.

Bem-vindos à Novíssima Velha República. E que os Orixás nos protejam.

O Perigo de Acreditar em Soluções Fáceis

Ideias2Um dos maiores perigos, penso eu, nestes tempos em que atravessamos a Zona do Furacão, é a incrível capacidade da maioria das pessoas de acreditar em soluções fáceis, medidas que, tomadas de supetão, se transformariam numa quimera para nossas questões sociais, ou em profetas que trazem as respostas prontas para todos os problemas que atravessamos hoje.

Confesso que sempre desconfiei de respostas prontas para questões difíceis, ou daqueles que, apontando o dedo condenatório para tudo e para todos, se arvoram de uma autoridade messiânica que os fariam capazes de trazer o paraíso à terra. Nunca dei muito crédito para quem tivesse uma postura assim, seja conservador, socialista, liberal, comunista ou tradicionalista.

Nesses tempos difíceis que atravessamos, as instituições da Nova República e sua Constituição de 1988 estão desfalecendo diante das suas contradições e sendo postas a nu. Nossa Constituição funciona como uma espécie de tradição, como uma religião civil que concede a direção certa num mundo desencantado, num país que sentia a ressaca de vinte anos de abusos de período ditatorial. Nossas instituições, por sua vez, eram as guardiães dessa tradição civil, dessa vontade geral, desse texto sacrossanto a quem todos deviam obedecer, respeitar e seguir. As instituições e seus atores eram os zeladores desta convenção, cabia a eles sua aplicação e bom funcionamento.

O grande problema é que, com a Escuridão tomando conta de tudo, com o Furacão destruindo tudo e todos, ficamos desnorteados e incapazes de tomar qualquer direção. O que fazer quando aqueles deveriam zelar pelo contrato social e pela nossa tradição civil são os que mais os desprezam, os denigrem e os violam? O Vórtice da Desilusão, da revolta e da raiva toma conta de nós. Temos a sensação de estarmos vivendo uma farsa. Nossa sociedade se esfacela e entra em estado de anomia.

Então vemos aquilo que mais temíamos enquanto cidadãos acontecer. A Nova República está em plena decadência; o que é pior, não vemos algo novo nascer, não vemos a luz de um novo pacto erguer-se. Muito pelo contrário, vemos um corpo decrépito em seus últimos suspiros tornar-se um zumbi, um natimorto, uma monstruosidade social.

Tudo, é claro, articulado por políticos disfarçados de lobistas e por tecnocratas das instituições e do grande capital. Se depender deles teremos uma república zumbi com direitos sociais e políticos extremamente limitados.

Como afirmei acima, nossa falta de cultura politica nos tornam presas de demagogos e de impostores que nos seduzem com soluções fáceis para problemas difíceis. Isso decorre porque a sociedade brasileira é extremamente autoritária, temos uma resistência sociopática a mudança social, gostamos de ser tutelados politicamente ao mesmo tempo em que desprezamos a Política e acreditamos que ela se resume a politicalha.

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Adoramos ideias e esquemas que afagam nosso ego ou se encaixam em nossas pré- noções. Assim desprezamos tudo o que é diferente e tudo que for complicado demais para nosso senso comum. Por isso, ao invés de compreender e interpretar, preferimos julgar e ridicularizar.

Ideias rasas e soluções medíocres encontram-se em todos os espectros políticos. Tenho uma grande reserva em relação a liberais medíocres como Rodrigo Constantino e a vulgata do Movimento Brasil Livre (MBL). Falar que o problema do Brasil é um problema de falta de liberdade demonstra uma falta de conhecimento dos processos de formação da sociedade brasileira. É impossível, repito, impossível, falar em liberdade num país que está entre os mais desiguais do mundo. Só é possível falar em liberdade entre indivíduos e grupos em condições econômicas, politicas e culturais semelhantes. Algo que é impossível encontrar por aqui, onde os níveis de heteronomia social são altíssimos. Colocar que o problema brasileiro se resume a falta de liberdade da economia é desconhecer que o Estado sempre possuiu uma preponderância no capitalismo brasileiro, também é ignorar que, sem Estado, não há capitalismo. Isso, portanto, é um Não-Problema.

Confesso que também nutro um certo desprezo em relação ao deputado Bolsonaro e seus apoiadores. Ao defenderem que nosso problema se resumiria a um aumento na repressão na segurança pública e onde uma suposta minoria deveria se curvar a vontade de uma suposta maioria, Bolsonaro certamente ignora que a sociedade brasileira sempre foi extremamente repressora, a prova disso são seus altos índices de encarceramento e repressões violentas a movimentos civis em toda a sua história; ela sempre adotou, desde 1500, o Projeto Bolsonaro de segurança pública. Ele e seus fãs também ignoram que a globalização e o processo de divisão social do trabalho tornam as sociedades tão complexas e segmentadas que todos, inclusive ele, fazem parte, de uma forma ou de outra, de alguma minoria. Se ele e seus minions se não sabem disso são mal informados ou se sabem e ignoram agem de má-fé. 

Até a esquerda merece uma critica. Sou do campo socialista desde a adolescência e sempre me estranhou a defesa quase mítica de que uma revolução armada resolveria todos os problemas do Brasil. Será mesmo que uma revolução pode resolver todas as nossas distorções? Ainda é possível pensar num método de mudança social baseado no militarismo cujo sucesso se deu ainda no século XX? Sempre pensei que a mítica Revolução nunca será a solução de nossos problemas mas, ao contrário disso, uma oportunidade para realizar as reformas necessárias. Há ainda outra coisa a ser considerada, com uma economia tão dependente de investimentos estranheiro como a nossa, o rompimento unilateral com os fluxos globais de capital geraria um aumento exponencial do desemprego. Em outras palavras, ficaria um buraco na nossa economia. O que fazer para tapar esse buraco? Altas taxas de desemprego significam trabalhadores descontentes nas ruas protestando. Como lidar com esses protestos? Como lidar com aqueles que seriam contra a revolução? Digo isso porque o trabalhador é extremamente pragmático. Ele não liga muito para ideologias. Ele quer saber de estar empregado e que seu filho, ao completar dezoito anos, também consiga um emprego. Como lidar com isso? Saber o que fazer no momento certo é algo que as esquerdas precisam saber ter e ainda não sabem.

Pessoalmente defendo um reformismo radical. Em outras palavras, defendo um governo que ataque em duas frentes, através da via democrática e institucional tendo o apoio massivo das massas nas ruas. Deste modo cria-se a ambiente propício para as reformas necessárias — algo que o PT teve a chance de fazer e desperdiçou covardemente.

Temos que nos afastar de ideias e soluções levianas, precisamos desconfiar dos impostores, daqueles que gritam aos quatro ventos que tem a solução de tudo, de pessoas que apresentam respostas quiméricas para nossos problemas seculares. Precisamos também tratar a política como ela deve ser tratada, como uma esfera da vida social que precisa ser sempre vigiada e cultivada. Precisamos debater os temas mais espinhosos, precisamos pôr em perspectiva esquemas pré-concebidos, precisamos aumentar os graus de participação politica do trabalhador, seja nos bairros, nas prefeituras e nas escolas.

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Precisamos, enfim, deixar de pôr nossa fé em farsantes e em ideias tolas, deixar de pensar que politica se resume à politicalha e começar a fazer politica com P maiúsculo — a política das massas, do povo, da democracia participativa.

Sem embargo, leitor amigo, só assim estaremos dando um primeiro passo para a verdadeira mudança social, que é aquela que vem de baixo para cima.

O que virá depois da crise?

0DilmaCriseNum artigo que escrevi, Ascensão e Decadência da Nova República, argumentei que nossa República entrou em declínio por sua incapacidade de resolver os problemas estruturais da sociedade. Refém da conciliação, um dos principais traços do nosso conservadorismo, ela apaziguava questões que mereciam enfrentamento. O resultado não foi outro, senão seu esgotamento, depois de pouco mais de trinta anos.

Era óbvio que nosso sistema político já guardava, em seu nascimento, os germes que o destruiriam: a corrupção, a desigualdade, a falta de transparência e etc… O que vemos hoje não é um governo que está desmoronando por ser mais corrupto que os outros, mas um governo que se perdeu porque adotou todas as distorções do sistema e, agora, convalesce junto com ele.

As manifestações que estão ocorrendo agora são o resultado da anomia de um sistema em estágio terminal, cujos últimos estertores se traduzem em desordem, morte, opressão e desespero. Mas o pior de tudo é que, enquanto o velho morre, não vemos o novo nascendo, é como se não existissem novas alternativas para ficar no lugar daquele que convalesce, é como se fossemos incapazes de erguer algo mais estável para ficar em seu lugar. O resultado, então, é o fascismo, já dizia Gramsci. Os homens se apegam às fórmulas do passado, clamam pela volta da ditadura; bradam que a solução estaria na retirada de direitos políticos e sociais; dizem que era melhor quando não tinham que opinar, quando não tinham que pensar; enquanto isso, mandavam para o cadafalso índios, quilombolas e opositores políticos. A metáfora do Grande Inquisidor, de Dostoiévski, nunca esteve tão atual: os homens preferem a segurança à liberdade.

Quando desordem e o fascismo aumentam, o mercado, aqueles que realmente mandam nas democracias liberais, se reúnem com grupos pró-impeachment (Leia aqui). O Capital, logo que percebe ser o grupo político no poder incapaz de manter a paz social, não fica com outra alternativa a não ser a de destituí-lo.

Fica a pergunta: Quem estaria em condições de assumir? Mas, se quisermos ir na raiz do problema, devemos refazê-la da seguinte forma: Quem pode dar a paz social necessária para o capital voltar a se reproduzir no país?

Arrisco dizer que, num primeiro momento, veremos uma sucessão de subidas e quedas de diversos atores políticos, para, só então, termos a saída definitiva, um governo autoritário pela direita, pois nossas instituições estão frágeis demais para lidar com essa contradição e nossa oposição tradicional também está tão suja quanto o governo. Quando todos estão descrédito na politica institucional, as chances de surgir um líder demagogo, capaz de capitalizar a revolta social a partir da direita, não é impossível. A saída autoritária é uma alternativa possível num contexto de descrédito das instituições, de personalismo excessivo e de crise econômica; também é viável numa nação cuja valorização do executivo, aliado a um autoritarismo extremo, sempre caracterizou sua história política e social.

Quanto à esquerda e aos trabalhadores, cabem a eles se organizarem como força independente e se prepararem para, pelo menos, quinze anos de recrudescimento conservador.

Os Deveres da Esquerda Numa Época de Crise

O Planalto, acossado por denúncias de corrupção e por um processo de impedimento, se torna impotente para implementar as medidas necessárias para reaquecer a reprodução de capital; este, por sua vez, como precisa de segurança jurídica e paz social para se reproduzir, sai do país em busca de lugares onde estas condições são mais atrativas. É um ciclo vicioso que se retroalimenta.

Quem paga por tudo isso são os trabalhadores, com o aumento da taxa de desemprego, o rebaixamento dos salários (apesar do aumento risível do salário-mínimo), a retirada de direitos trabalhistas historicamente conquistados e uma maior precarização das condições de trabalho.

Corrupção vindo a tona, perda de controle da base aliada, fim da paz social e estagnação econômica sãos os ingredientes perfeitos para a decadência deste período histórico chamado Nova República…

Neste cenário, onde há crises por todos os lados e onde aquilo que os homens consideravam sólido, o crescimento econômico brasileiro, se esvai, então eles se apegam à utopia, na busca pela saída da crise num modelo de sociedade que se encontra distante no tempo; ou à nostalgia, sendo o retrocesso ao passado como forma de escapar a realidade presente, tão cinzenta e sem perspectiva.

A esquerda encontra-se em desvantagem em relação às narrativas de direita. Primeiro, porque é muito mais fácil para os homens apegarem-se a algo que eles já conhecem — por isso é tão difícil pensar além dos limites imposto pelo tempo histórico. Segundo, porque a esquerda hoje está desacreditada, pela incapacidade proposital de um governo que se recusou realizar as reformas estruturais defendidas historicamente pelo Partido dos Trabalhadores, se afastando dos movimentos sociais e se tornado cada vez mais burocrático, onde a manutenção da governabilidade sufoca a dimensão ideológica. E terceiro, porque governos na América Latina, que se auto declaram de esquerda, como o caso de Venezuela, tem entrado numa aguda crise econômica.

Dentro de um quadro de crise e perdendo terreno para narrativas e discursos de caráter conservador, fica a pergunta: Quais seriam os deveres para os grupos de esquerda se tornarem uma força relevante e, mesmo que não conquistem o poder, ao menos influenciem o direcionamento social do Brasil contemporâneo?

É necessário que a esquerda se imponha como uma alternativa independente, radicalizado o seu projeto histórico. O capitalismo global deve ser mostrado ao trabalhador como um sistema sempre sujeito a crises e criador de mais e mais desigualdades. Diante disso, um novo projeto de sociedade, baseado no gerenciamento democrático dos meios de produção e dos frutos do trabalho deve ser mostrado como uma alternativa possível ao sistema das crises cíclicas. Por isso, mostrar aos trabalhadores que é possível ter um emprego com um salário justo com a alternativa socialista e o principal objetivo que deve mirar a esquerda: a luta pelo fim da exploração do homem pelo homem.

A esquerda também precisa romper com o sistema politico vigente, isto é, deve ter em mente que os atores e o campo politico como estão organizados não contemplam os trabalhadores, só contemplam os beneficiários do capitalismo global. Isso não significa que as forças progressistas devem esquecer a politica tradicional, elas devem ser usadas em prol dos trabalhadores, mas devem ter em mente de que ela é fruto de um modelo de sociedade que deve ser superado. As estruturas do estado podem ser usadas, mas sempre tendo em vista o ponto final e principal para a luta da verdadeira esquerda: a superação da sociedade atual e do modo de produção capitalista.

Uma esquerda genuína é aquela que percebe é a luta de classes o motor da história, sendo ela a base principal onde se forjam todas as desigualdades da sociedade moderna.

Cabe à esquerda, como a verdadeira vanguarda da transformação social, se impor no dever de radicalizar a democracia e tornar real o lema da liberdade, igualdade e fraternidade.

A crise da Nova República pode ser uma alternativa para os campos progressistas, mesmo em desvantagem, para realizar uma autocritica, refazer suas estratégias na luta pela hegemonia, estudar com mais afinco a dinâmica do capital e formas de implementação da democracia participativa, e se preparar para ganhar a consciência dos trabalhadores num futuro próximo ou, quem sabe distante.