Bolsonaro e a via cesarista de governo

Escrevi num artigo anterior (leia aqui), que as caraterísticas mais importantes do populismo do século XXI são: o nacionalismo, que encobre as diferenças sociais sob o manto da pátria e nação; o personalismo do líder, materializado na dominação carismática; o justicialismo, baseado na revolta contra os abusos sofridos pelo cidadão comum; e o protagonismo dos fatos, isto é, a valorização do senso comum e das atividades práticas contra a vida intelectual e contra o saber sistemático.

Também falei sobre a existência de uma forte carga bonapartista, caracterizada pela ligação direta do líder, dotado habilidades extraordinárias, com o povo, que passa a governar por cima e para além das instituições.

Essa relação sem intermediação institucional dos eleitores com o chefe carismático e autoritário também foi estudada por Gramsci, que cunhou o termo cesarismo para explicar o momento em que os grupos sociais se afastam dos seus líderes e entram num estado de reivindicação intensa, o que ocasiona tanto crises de hegemonia quanto convulsões sociais.

Este processo de crise do Estado e das instituições pode resultar numa solução fascista, reformista ou carismática, ou seja, cesarista. Não há uma volta ao passado, mas uma espécie de revolução/ restauração, onde ocorre o avanço de alguns aspectos em relação à situação anterior, ao mesmo tempo em que as facetas principais do status quo se mantém.

Este cesarismo, aponta Gramsci, poderia tanto ser conservador quanto progressista, dependendo das forças políticas que triunfassem, tentando fazer avançar a História ou retardando ao máximo os processos de desencaixe da modernidade (leia mais aqui).

Não há dúvidas de que Bolsonaro possui amplos traços que o identificam com o bonapartismo, o populismo de direita contemporâneo e o cesarismo conservador. Se opõe à ciência ao saber sistemático, pois considera-o como idelogicamente enviesado (sic); é autoritário ao defender um pacto de força que esmague a oposição, identificada diretamente com o comunismo, não importando se a oposição é liberal, socialista ou moderada; seu bonapartismo se insere como um presidente que procura disseminar a ideia de ser um enviado de Deus para consertar o Brasil e governar  acima das Instituições, consideradas por ele como corruptas e subversivas; por fim, sua ênfase no governo a base do confronto, se colocando como um inimigo do status quo que deve ser destruído a qualquer custo.

A incapacidade do presidente de articular uma base viável para aprovar seus projetos força-o cada vez mais para a única coisa que ele soube fazer em trinta anos de vida pública: confrontar as instituições, a oposição e até mesmo sua própria base. Diante deste quadro, não admira que passe a perder cada vez mais apoio entre o eleitor médio, aquele que não é nem de direita, nem de esquerda e que se move a partir do pragmatismo do mundo da vida: emprego, saúde, segurança e preço dos produtos no supermercado (leia mais aqui).

Para tentar frear essa queda de popularidade, aposta num canal direto com sua base de eleitores mais fanáticos, que são cerca trinta por cento e que se mantém fiel a sua forma de governar: autoritários, viúvas da ditadura e segmentos expressivos de evangélicos pentecostais, estes, por sua vez, mais vulneráveis à propaganda de líderes carismáticos e supostamente ungidos por Deus (saiba mais aquiaqui). Demonizando as instituições e se desgastando cada vez mais, ele já possui uma boa desculpa para justificar seu fracasso: não fui eu, mas os políticos e a velha política que não me deixaram governar, explicação convincente para esta parcela do eleitorado que se mantém fiel ao seu cesarismo conservador.

Portanto, Bolsonaro se exime de governar para a totalidade da população brasileira, que possui uma grande pluralidade de modos de vida e de interesses, e aposta num segmento especifico para se manter no poder até 2022. Não se sabe se por burrice ou por sua própria visão de mundo, pois parece realmente acreditar que por ter vencido a eleição todos os brasileiros pensariam como ele, e não porque o eleitor comum queria punir o PT pelos seus erros e desejava uma resposta satisfatória à crise econômica e à corrupção.

O cesarismo conservador de Bolsonaro, em linhas gerais, se forma pela sua tentação autoritária de formar governo desprezando instituições consideradas por ele como comunistas que deveriam ser destruídas. Tenta retardar ao máximo a dinâmica social, destruindo o pouco de social democracia que havia no Brasil, com o fim da previdência solidária, com a financeirização completa do país, com a destruição do Estado brasileiro (veja mais aqui), com o incentivo à violência policial e à legalização da pistolagem no campo. Sem embargo, estamos vendo uma nova etapa da República, baseada no conservadorismo, no autoritarismo e no liberalismo vulgar.

Em regimes democráticos, principalmente o brasileiro, baseado no consenso, a estratégia do confronto é extremamente desgastante e sem chance de sucesso a médio e longo prazo. O impeachment ou o parlamentarismo branco já se torna um assunto na pauta da direita moderada, do centro e da esquerda.

Tenho absoluta certeza de que Bolsonaro, saindo por impeachment, renúncia ou pela vontade das urnas, não deixará saudades.

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A Ideologia Política do Governo Bolsonaro

A vitória de Bolsonaro teve como principal trunfo o antipetismo e o discurso contra a corrupção; a campanha do candidato soube articular o petismo, a corrupção e as esquerdas com se fossem uma coisa só, formando um círculo vicioso que só a instituição de um pacto liberal conservador poderia quebrar. Entretanto, não se pode reduzir o vencedor a si mesmo, mas perceber o que está por detrás dele. Bolsonaro é apenas uma marca, apenas uma grife. O que importa são seus apoiadores e as ideias politicas que dão suporte e direcionam suas condutas.

É preciso observar quais são as bases sociais do poder.

A partir de 2019, com a definitiva ascensão do novo governo, veremos a ressurreição da antiquada Ideologia da Modernização Autoritária, que foi o corpo de ideias que deu sustentação as ações do regime militar — estudada por Bresser Pereira no texto clássico Sete Interpretações Sobre o Brasil. Seus principais idealizadores foram o general Golbery Souto e Silva e do economista Roberto Campos, integrantes da Escola Superior de Guerra, cujo principal objetivo era conciliar o desenvolvimento econômico alinhado aos Estados Unidos com segurança nacional. Buscava-se o crescimento econômico combinado com a luta contra o elemento subversivo.

Ela teve como principal característica um viés autoritário e tecnocrático; estava ancorada na visão supostamente neutra do Estado, visto como acima das ideologias e da política; defende a livre-empresa e o planejamento econômico como instrumentos de dinamização social; os trabalhadores e outros grupos da base da sociedade são escamoteados do processo; as grandes decisões a cerca dos rumos da economia serão tomados nos gabinetes e nos escritórios dos técnicos e líderes do regime. Por isso é uma ideia politica conservadora, pois os exercícios de economia politica são postos de cima para baixo, sem participação popular e sempre procurando controlar ao máximo a força de trabalho e a pluralidade das relações sociais. Essa modernização controlada foi a marca da economia politica da ditadura, compreendida de maneira sistemática por José Maurício Domingues, o texto A Dialética da Modernização Conservadora e a Nova História do Brasil.

Os grupos que davam sustentação a esta ideia politica se formaram concomitante com o desgaste da República de 1946: a burguesia industrial e agrícola, altos escalões do exército, setores mais à direita da igreja católica e parte de grupos da classe média. Em linhas gerais, era interessante para estes grupos estabelecer um novo pacto social, que desse total segurança jurídica e social para os movimentos de economia politica, de caráter associado aos Estados Unidos, dinamizarem, de maneira controlada e autocrática, a sociedade brasileira, tanto no campo quanto nas cidades — como de fato ocorreu em 1964 e sua constituição de 1967.

Domingues assevera que o próprio desenvolvimento capitalista minou o regime civil militar, isto é, a modernização conservadora com suas crises e contradições escapou das mãos dos próprios líderes do regime. A ditadura veio abaixo na década de oitenta e dele o novo pacto, cujo maior símbolo é a Carta Magna de 1988, emergiu. A Constituição Cidadã, baseada num amplo leque de direitos individuais, civis e coletivos, bem como numa possibilidade de participação e politica e social no poder, parecia ter enterrado de vez a ideologia da modernização autoritária.

Mas o autoritarismo modernizador ressurgiu trinta anos depois, mostrando que não estava de todo morto, mas vivendo no subterrâneo da vida brasileira, silenciosamente, em meio a coronéis de pijama, saudosos dos tempos em que os militares mandavam, e numa parcela de autoritários alimentados por teorias da conspiração, por institutos supostamente liberais e por polemistas de intelecto duvidoso como Olavo de Carvalho.

Mesmo que o autoritarismo, a demofobia e o conservadorismo seja uma marca dessa ideologia que orienta os grupos que venceram o pleito de 2018, ela se misturou a outras ideologias, respondendo aos dilemas que os grupos majoritários enfrentam, como o liberal conservadorismo, conforme descreve Alvaro Bianchi (leia aqui), surgido da implosão tanto do conservantismo quanto do liberalismo. Essa corrente politica partilha da desconfiança da democracia e do Estado, este visto como uma fonte de corrupção, não sendo mais enxergado, como era para os conservadores brasileiros do século XIX, como instrumento renovação e organização da nação. Também não acredita no ativismo da sociedade, em partidos orgânicos e nem na competição parlamentar como forma de resolução dos problemas coletivos.

Sem embargo, o ideal de democracia para o liberal conservadorismo é aquela purgada de pluralidade popular, restrita àquilo que chamam de homens de bem: ordeiro, religiosos, respeitador das hierarquias e das tradições. A vida ideal é aquela regida por estes valores, onde todos teriam o seu lugar. Qualquer ideia que viesse a supor o caráter conflituoso da sociedade e da politica é tida como maléfica e subversiva. A sociedade é um organismo vivo onde todos devem saber o seu lugar. Os conflitos de classe, status ou poder são apagados e no lugar surge o conceito nacionalista de Nação, que abarca sob suas asas pobre, rico, branco e negro.

Mas seu surgimento não ocorreu em solo brasileiro, remonta aos Estados Unidos na década de 1950. Ainda segundo outro texto de Alvaro Bianchi (leia aqui), O liberal conservadorismo surgiu com o escritor William Buckley Jr., quando publicou o livro God And Men At Yale, em 1951. Na obra o escritor acusava sua Universidade de ter sido incapaz de doutrinar seus alunos contra o comunismo, o ceticismo e as ideias coletivistas. A partir de 1955 lança a Revista Nacional Review, onde se propunha atacar todo o pacto progressista que havia se formado nos Estados Unidos, defendendo a livre empresa, o enxugamento do Estado, a propriedade privada e a luta implacável contra o comunismo e as ideias de cunho social-democrata. Por ser filho de um magnata americano, o jovem escritor recebeu um polpudo financiamento para sua publicação onde conseguiu agregar a direita americana. O ápice da ideologia de Buckley foi a eleição de Ronald Reagan, conservador e assinante da Revista. O escritor chegou a receber do presidente a Presidential Citizens Medal, segunda maior condecoração americana.

Graças aos esforços de Buckley os conservadores estavam agora organizados para a guerra cultural e, auxiliados pelo evangelismo de televisão, poderiam disparar suas armas contra o liberalismo progressista, os sociais-democratas e a esquerda em geral. Isso teria grandes consequências para a disputa ideológica no Brasil, tanto a partir de 1990 quanto a partir das Jornadas de Junho de 2013.

Portanto, o que determina a ideologia politica do novo governo é uma fusão entre a modernização conservadora, a ideia de segurança nacional com uma retórica calcada na luta contra o elemento subversivo e o liberalismo conservador à brasileira, baseado numa agenda conservadora dos costumes, educação e saúde; nas privatizações de serviços, transferência de verbas púbicas para a iniciativa privada e no fim do pacto social-democrata surgido com a Constituição de 1988 que, conforme assevera o cientista político Oswaldo Amaral (leia aqui), haverá um choque liberal muito mais forte do que aquele ocorrido com o governo FHC.

O Brasil e o Novo Populismo do Século XXI

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Foto: Patricia Rodrigues/ Agência RBS

Estamos entrando em um novo período na história política brasileira. O fim de um ciclo petista que findou-se com o impeachment em 2016 e o interregno de dois anos com o pseudopresidente Michel Temer redundaram naquilo que já se esperava: uma guinada à direita nas relações de poder.

Precisamos entender que esse processo se dá em toda a Europa, por razões que já falamos antes, isto é, pelas consequências imprevistas da globalização, perda de poder do Estado e das deficiências que o poder econômico causa à democracia representativa, criando uma deficiência na representação, o que gera uma falta de identificação do eleitor comum com a máquina politica.

A vitória de Jair Bolsonaro representa, na verdade, a emergência de um novo populismo de direita que se torna cada vez mais forte no século XXI.

Mas o que é populismo?

Conforme a palestra proferida pelos professores Rafael Tauil e Bruno Silva, intitulada O antigo que se tornou moderno: a recondução do populismo aos palanques políticos no século XXI, proferida no dia 6 de novembro, na Semana de Ciências Sociais da Universidade Estadual Paulista de Araraquara, o populismo pode ser compreendido como um fenômeno típico da ascensão da sociedade de massas e de expansão do sufrágio. Sua definição mais resumida e precisa significa a ida do líder ao povo, passando por cima das representações politicas tradicionais, ou seja, sem mediação partidária. O Poder populista capta a vontade das massas desprovidas de representação. Imersa numa sociedade desencantada, injusta e complexa demais para a população situar-se, o líder carismático surge como uma solução politica tangível capaz de protegê-la deste mundo incivilizado. 

Tem um forte teor nacionalista; um caráter de justicialismo, ou seja, de justiça contra o arbítrio sofrido pelo cidadão comum; também congrega em seu âmago um forte personalismo, isto é, a ideia de que apenas o grande líder, detentor de habilidades extraordinárias, é capaz de guiar a nação. Em linhas gerais, o populismo é uma forma de dominação carismática, para pensarmos a partir do conceito de Max Weber.

Outro ponto importante para a compreensão do populismo é que ele tem um traço conciliador. A dominação do líder populista procura apaziguar os conflitos de classe e trazer sob o mesmo pacto moderador tanto os interesses de empresários quanto de trabalhadores. Não existiriam classes sociais, apenas Povo e Nação. Ele unifica as diferenças de gêneros, culturas e econômicas dentro do escopo do nacionalismo.

Enquanto o populismo de esquerda enfoca politicas de expansão dos direitos sociais, onde o líder é visto como um pai dos pobres, o populismo de direita possui uma grande ênfase sobre os costumes e valorização de um modelo especifico de família; escamoteia a discussão a respeito da historicidade do lugar de homens e mulheres nas sociedades; possui um traço marcadamente antipolítico, desvalorizando a politica tradicional; também nota-se um caráter teocrático, com uma valorização da questão religiosa, principalmente grupos ligados ao tele evangelismo e em detrimento da laicidade do Estado Moderno; as pautas neoliberais, com a privatização de várias empresas públicas, alinhamento unilateral aos Estados Unidos; por fim, a xenofobia, com desconfiança em relação aos imigrantes pobres ou de outra religião, sendo creditado a eles as raízes dos problemas nacionais.

O populismo nasce quando há uma crise de hegemonia na sociedade atual e um desequilíbrio tao grande entre ricos e pobres que a conciliação de classes torna-se impossível pela via tradicional. Assim, surge um vácuo de poder que a velha politica e seus partidos não conseguem tapar. Em contexto de vazio de lideranças e crises econômica, política e social, o líder populista e carismático procura manobrar as demandas da massa e procura convencê-las de que é o único capaz de supri-las.

Disto resulta uma outra característica, o bonapartismo, que é o culto à personalidade do grande líder, chefe do executivo, em detrimento do judiciário e do parlamento, que perdem força.

Assim, o populismo de direita possui vários traços da modernização conservadora. Em outras palavras, favorece um modelo de modernização das relações direcionado pelo alto, das estruturas do Estado e em conexão com grandes corporações transnacionais, procurando controlar os processos de desencaixe criados pela dinamização sistêmica.

Há o que os dois professores chamaram de protagonismo dos fatos, um apelo forte ao concreto e a descriminação do trabalho intelectual. Lugares onde predomina a reflexão pura e a pesquisa, como as universidades, passam a ser lugares vistos com desconfiança pelo poder populista, pois a reflexão crítica pode suscitar a desobediência e a descoberta das contradições do regime.

O populismo é muito mais propenso a surgir em países onde o executivo tem uma preponderância sobre os outros poderes. Com um executivo forte, torna-se mais fácil um líder carismático passar por cima das representações parlamentares, dos partidos políticos, do Supremo Tribunal e criar uma forma de governabilidade que dispense intermediários. Em nações onde predomina o parlamentarismo é mais difícil isso acontecer, pois a escolha da liderança depende necessariamente de uma institucionalidade que não deixaria qualquer líder se sobrepor a ela.

O Brasil, país de tradicional autoritarismo na política e onde o executivo sempre teve um papel muito forte ante o legislativo, a ocorrência do líder populista ocorreu basicamente em três momentos da nossa história, com Getúlio Vargas, que encarnou faces oligárquicas, fascistas e trabalhistas; com Lula, com um governo conciliador de centro-esquerda; e agora com Jair Bolsonaro, que tem as principais caraterísticas do populismo de direita contemporâneo — xenofobia, neoliberalismo, teocracia, autoritarismo, nacionalismo e anti-intelectualismo.

Penso que os estudos a cerca desse novo fenômeno da politica devem continuar, procurando ir na sua raiz, expondo suas bases ideológicas e sociais, bem como suas contradições, sem se importar se agradará ou não o líder e seus apoiadores. A ciência humana e social tem como compromisso a interpretação metodológica dos fenômenos da sociedade. Não cabe a ela agradar governantes A, B ou C.

Temos que resistir ao autoritarismo e ao anti-intelectualismo do novo governo. Procurar manter posição, resistir aos ataques contra as conquistas que foram asseguradas durante a Constituição de 1988, defender a autonomia do ensino e resistir ao ataque ao ensino critico e solidário é o que nós, defensores de uma sociedade moderna e mais justa, devemos fazer.

Bolsonaro e o Brasil Real

Nosso sistema político e nossas instituições têm sido testadas até a exaustão nessa crise politica e econômica que se estende desde 2013. Muitos acreditavam que ela seria resolvida com as eleições de 2018, uma das piores e mais sujas que já vimos, e com a vitória de um estadista capaz de unir o país numa agenda progressista.

As eleições terminaram e o presidente eleito, Jair Messias Bolsonaro, vai ter que enfrentar uma série de problemas que, se ignorados, custarão caro ao seu projeto de poder.

Os dilemas do Brasil Real não esperam, não perdoam e estão acima das ficções ideológicas das nossas elites.

Temos um cenário nada animador para quem se propôs liderar o país. Conforme reportagem da BBC Brasil (veja aqui), nosso PIB tem o segundo pior crescimento da América Latina, só ficando atrás da Venezuela; temos um rombo de 110 bilhões de reais nas contas públicas; uma taxa de desemprego de 11,8 %, mais de dez milhões de pessoas sem trabalho; investimos muito pouco em saúde, apenas 3,8% do PIB, o que é muito pouco, só os EUA gastam quase sete vezes mais que nosso país; na educação cortamos duzentas mil bolsas de pesquisa e temos os piores resultados educacionais nos exames do PISA, ressaltando que o resultado foi ruim tanto em escolas públicas quanto particulares; na segurança pública tivemos mais e sessenta mil mortes violentas; também há aumento a percepção entre a população brasileira de que existe bastante corrupção no país.

A vitória de Bolsonaro não foi tão acachapante. Houve mais votos em branco, nulos e no candidato perdedor que na chapa vencedora (leia aqui). Isso já denota uma falta de hegemonia do novo governo, que já inicia 2019 com alta rejeição. Ele será extremamente cobrado tanto entre aqueles que não votaram nele quanto entre seus eleitores que, aliás, depositam no capitão reformado uma grande expectativa e confiança. Se ele não der uma resposta, pelo menos para a questão do emprego em até dois anos, penso que sua situação vai ficar bem delicada.

O país ainda está dividido e polarizado. O novo presidente precisa abandonar o discurso belicista a apostar na união e na conciliação com todos os trabalhadores e trabalhadoras. Mas eu acho difícil isso ocorrer. Como havia escrito Paulo Nobre para a revista Piauí (leia aqui), não há indícios de que o Novo presidente tenha alguma capacidade de arbitrar conflitos e conciliar interesses divergentes.

Também vai exigir que ele tenha uma ampla capacidade de negociação para criar maioria se quiser governar. Também tenho dúvidas a respeito da capacidade de articulação para criar essa maioria. Apesar dele aparentemente não saber, nosso modelo é o de democracia consensual, onde a governabilidade é criada negociando com as minorias.

Também temos uma bancada cada vez mais conservadora, apartada dos reais problemas do país e com total desconhecimento da constituição brasileira. O voluntarismo infantil dessa bancada inexperiente e mal informada pode criar tanto problemas para o governo quanto para o povo brasileiro, defender a nossa Constituição e o que ela mais tem de progressista é o nosso dever.

Outro problema na equipe de Bolsonaro é a grande quantidade de militares que fazem parte do governo. Sempre que os militares entraram para a política tivemos problemas, foi assim em 1889 com o fim no Império e a instituição de uma república oligárquica, e em 1964 com o encerramento de um ciclo de republicano democrático que só viria a ser recuperado vinte e dois anos depois, com graves consequências para a cidadania brasileira. A vida na caserna não é a mesma em sociedade. O respeito a hierarquia e a obediência incontestável não combinam com a vida civil, marcada pela pluralidade, pela crítica do mundo e por respeito a opiniões diversas. Essa distinção os militares nunca perceberam.

Em entrevista recente (leia aqui), Paulo Guedes, que será a eminência parda do governo, disse que pretendia enterrar o modelo social-democrata no Brasil. Falta conhecimento sociológico ao economista fã de Pinochet; cai no mesmo erro de achar que a economia é o fundamento do social e também revela um completo desconhecimento da nossa Carta de 1988. Nossa constituição é de Centro, social-democrata, com um grande rol de direitos de proteção ao indivíduo. Negar isso é transformar o seu liberalismo em ideologia reacionária e vulgar. Também desconhece que foi a ação do Estado que formou e manteve unido o Brasil, articulado pelos conservadores saquaremas no século XIX, e que foi o Estado que modernizou o Brasil e deu aos tradicionais excluídos do país direitos sociais, questão antes ignorada pela nossa elite da República Oligárquica. Essa via prussiana de modernização, parafraseando as palavas de Lênin, é uma marca da nossa história. Não seremos nunca uma Inglaterra ou os Estados Unidos da América, pois nossa trajetória é totalmente diferente, tentar implantar essas ideologias que hoje são tidas como ciência exata, é cair no Idealismo. Precisamos partir do Brasil Real e dos seus reais problemas. O brasileiro quer emprego e melhores serviços públicos. Não deseja ser jogado no mundo desagregador do mercado à sua própria sorte.

Urge retomar a agenda progressista, implementar um grande projeto de desenvolvimento nacional com investimentos pesados em ciência, tecnologia e educação pública, combinado com projetos de distribuição de renda.

Mas Bolsonaro vai no caminho contrário.

Ao invés de se preocupar com o Brasil Real, joga uma cortina de fumaça com um plano de governo cheio de imprecisões (leia aqui) e se concentra no combate a um inimigo imaginário, a ameaça comunista, e outras pautas imaginosas, como o inexistente Kit Gay e a Escola Sem Partido.

O Brasil não é para amadores. Precisamos de um estadista que seja capaz de pôr em prática o que de melhor há no liberalismo progressista e no socialismo democrático. Não é com frases de efeito ou surfando na rejeição de um Partido fracassado que nosso presidente vai conseguir isso.