Poema: Meu Sonho

Em outra ocasião escrevi que Alvares de Azevedo era um péssimo poeta e um ótimo contista (leia aqui). Contudo, é preciso acrescentar que, embora a Lira dos Vintes Anos seja repleta de poemas toscos, há alguns versos seus que ainda se salvam. O melhor deles, na minha opinião, é Meu Sonho, um poema que fala sobre um misterioso cavaleiro andante numa atmosfera soturna e opressiva.

EU:

Cavaleiro das armas escuras,

Onde vais pelas trevas impuras

Com a espada sanguenta na mão?

Por que brilham teus olhos ardentes

E gemidos nos lábios frementes

Vertem fogo do teu coração?

Cavaleiro, quem és? — O remorso?

Do corcel te debruças no dorso…

E galopas do vale através…

Oh! da estrada acordando as poeiras

Não escutas gritar as caveiras

E morder-te o fantasma nos pés?

Onde vais pelas trevas impuras,

Cavaleiro das armas escuras,

Macilento qual morto na tumba?…

Tu escutas… Na longa montanha

Um tropel teu galope acompanha?

E um clamor de vingança retumba?

Cavaleiro, quem és? que mistério…

Quem te força da morte no império

Pela noite assombrada a vagar?

O FANTASMA:

Sou o sonho de tua esperança,

Tua febre que nunca descansa,

O delírio que te há de matar!…

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Noite na Taverna: uma pequena obra-prima

azevedoDeixai-me fumar o meu charuto!”

A.Azevedo

Lembro que quando estudei a literatura de Alvares de Azevedo (1831-1852) na escola, lemos apenas os seus poemas, não demos nenhuma nota sobre sua produção em prosa. O que foi uma pena, pois o nosso maior romântico foi um poeta extremamente medíocre. Sua Lira Dos Vinte Anos (1853) é um livro com uma quantidade enorme de poemas ruins de rimas muitas vezes preguiçosas, apenas um ou outro que se salva; o melhor deles, sem dúvida, é Meu Sonho, na melhor inspiração Byroniana.

O autor nasceu no século XIX, em São Paulo, filho da elite cafeeira paulista, ingressou na faculdade de direito e morreu de tuberculose aos vinte e poucos anos. Era um autêntico filho do século XIX. Romântico extremado, leitor ávido de Shakespeare e Byron, cantou sobre a morte, amores impossíveis e sobre o tédio da vida. Era um liberal. No seu discurso de formatura, defendeu os ventos que a revolução francesa soprara pela Europa. Influenciou quase todos os escritores de sua geração e das seguintes no Brasil, incluindo pesos pesados como Machado de Assis e José de Alencar.

Contudo, a grande genialidade de Azevedo, pelos menos para mim, está em seus contos, publicados em 1855 sob o nome de Noite na Taverna. O livro é uma coletânea de histórias trágicas e soturnas onde seus personagens, Solfieri, Bertram, Gennaro, Claudius Hemann e Johann, narram suas desventuras passadas sentados numa taverna qualquer e rodeados de prostitutas.

São personagens extremamente angustiados, pois não sentem qualquer propósito de viver. São todos cheios de vícios e levam uma vida vazia, regada basicamente a alcool, drogas e sexo. As histórias que compartilham são sempre de amores passados, cujo fim termina sempre em tragédia e morte. O tom do livro é extremamente pessimista, cinzento e cínico, mostrando que para estes personagens a vida é um sofrimento e a única forma de escapar dela é beber e transar até que o fim chegue.

Particularmente, gostei muito do capítulo de Solfieri (leia aqui), que abre o livro, e sua incrível cena de necrofilia.

O livro todo se passa na Europa, e não tem qualquer ligação com a biografia do seu autor. Apesar qualidade acima da média, Noite na Taverna foi como um fruto exótico da obra de um escritor que morreu aos vinte e poucos anos. Quem dera se ele tivesse vivido mais e se dedicado mais a história curta. Com certeza teria criado grandes obras.

Mas a Fortuna desejou que fosse diferente.

Recomendo Noite na Taverna para aqueles admiradores de histórias de fantasia, suspense e terror.