A Esquerda e as Tradições

O debate à cerca do lugar dos costumes e das tradições são um dos pontos mais fundamentais a respeito das discussões políticas atuais. As várias ideologias, tanto à esquerda quanto à direita, tem procurado debater a respeito do lugar que as práticas que resistiram ao tempo possuem no mundo atual.

Nas últimas três eleições presidenciais temas como família, aborto e educação sexual tem tido uma importância crescente nas discussões da Ágora.

Não se pode compreender as chamadas tradições sem entender sociologicamente

a diferença entre o nosso mundo e aquele que se esvaiu com o fim do feudalismo.

Anthony Giddens, no clássico As Consequências da Modernidade, demonstra como o mundo pré-moderno era muito pouco dinâmico e que as tradições e práticas surgidas num passado imemorial eram o centro que guiava todas essas sociedades. Os homens e mulheres tinham uma vida determinada pelo passado, isto é, o presente e o futuro vivam em função de preceitos, rituais, práticas, formas de agir e de pensar que foram determinadas há séculos; estas práticas podiam até sofrer alguma mudança, mas sempre em ritmo muito lento.

A decadência do mundo feudal e a emergência da modernidade mudou completamente as relações sociais. A vida agrária, submetida à estabilidade das estações e só perturbada por desastres naturais ou por invasões estrangeiras, foi modificada por um modo de produção e distribuição de riquezas que se caracteriza não pela estabilidade, mas por uma dinâmica expansiva que mudaria por completo as comunidades de todos os continentes.

O ápice desse processo foram a Guerra Civil Inglesa (1642-1651), a Revolução Francesa de 1789 e os quase cem anos de Revolução Industrial (1750 – 1860). O antigo regime, as antigas práticas do costume, as antigas hierarquias feudais e a prevalência do mundo agrário desmoronaram ou entraram em processo acelerado de decadência. As tradições e suas hierarquias, que naturalizavam a desigualdade e a estabilidade entre os homens, passariam a ocupar um lugar cada vez mais periférico.

Dentro desse processo histórico de mudanças surgem dois grandes blocos políticos em disputa: a esquerda, formada por liberais progressistas e socialistas, advogam a liberdade individual, a igualdade entre os homens e a continua reforma da sociedade em detrimento das tradições e dos costumes; e outro bloco de poder, formado por conservadores, tradicionalistas e liberais de direita, apregoam a utilidade que as tradições e os costumes possuem sobre a vida social, a natural desigualdade entre os homens e a manutenção do status quo como o único possível de existir.

Para a esquerda e o liberalismo progressista o presente é mais um etapa em direção ao futuro e o passado uma prisão que deve ser superada, enquanto que para a direita em geral o futuro e o presente são a continuação de um passado tido como ideal e harmonioso. As tradições, para os segundos, surgem livremente, dão sentido à vida e devem ser preservadas. Para os primeiros elas são arbitrárias, o resultado do exercício do poder de uns sobre os outros, por isso devem ser combatidas.

Mas as tradições não surgem apenas de grupos tradicionalistas, com o advento do Estado Nacional, conforme nos diz Hobsbawm em A Invenção das Tradições, elas são constantemente inventadas e reinventadas para servir como uma sensação de continuidade diante de um mundo cada vez mais dinâmico; obviamente que em contexto de modernidade, onde predomina o contrato social e a igualdade entre os homens, elas tem um lugar de atuação muito restrito. Até mesmo movimentos progressistas já inventaram suas tradições, como a Revolução Francesa e o Movimento Operário.

Diante de todo esse cenário, fica a pergunta: Qual deve ser o lugar da tradição dentro dos movimentos de esquerda e de outras vertentes progressistas?

Sociologicamente falando, Marx e Engels resolveram a questão quando escreveram na Ideologia Alemã que os homens fazem história, mas o fazem dentro de condições que não foram postas por eles, mas por seus antepassados:

Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha, e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado.

Embora exista a necessidade de moldar a história, reformar as sociedades e criar nosso próprio destino, nós ainda somos influenciados, em alguma medida, pelas condições históricas, políticas e culturais de centenas de anos e que se vão acumulando na grande dinâmica do processo macro histórico.

Qualquer movimento social à esquerda que pretenda reformar algum traço da sociedade precisa levar isso em conta sob pena de retumbante fracasso; conhecer as condições concretas de existência do mundo e os processos históricos envolvidos. Para isso é preciso estudo, leitura, discussão teórica e prática; e aqui é preciso ler tanto autores da esquerda quanto da direita.

No mundo da vida não existe tábula rasa.

Por isso devemos analisar concretamente e com sensatez qual o lugar das tradições no mundo atual. Minha alternativa é fazer uma distinção entre tradições e costumes que reforçam a dominação, a relação heteronômica entre gêneros é um exemplo, e aquelas que incentivam a sociabilidade, como festas e comemorações populares.

As primeiras devem ser combatidas e as segundas incentivadas.

O escolha por compreender o mundo a partir do passado ou do futuro tem implicações políticas importantes. A esquerda, que toma a posição em favor do futuro, não deve esquecer que a herança do passado, pois a história é um fator importante a ser considerado.

A compreensão do passado e como se formaram as tradições é o primeiro passo para mudar o futuro.

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