Crônica: Flores Sobre o Asfalto

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Fonte: Jornal A Crítica

As grandes cidades são paradoxais; ao mesmo tempo que podem prometer aventura, mudança e liberdade, também são o lugar onde o homem se anula, perde sua subjetividade diante da maré uniformizadora do mundo moderno, torna-se um número e uma parte insignificante da cifra que alimenta esse sistema engolidor de pessoas.

Perdidos em meio ao asfalto, ao concreto e às ruínas acinzentadas que se erguem contra o céu fumacento, vivemos completamente tragados por este monstro indescritível que, conforme já tinha dito Marshall Berman, ameaça destruir tudo o que somos e o que um dia poderíamos chegar a ser.

Entretanto, mesmo em meio ao concreto, ao piche, ao asfalto e ao pálido cinza cadavérico que nos tinge, a vida parece não se render; a natureza, mesmo tão destruída e mal tratada por essa espécie errante e ingrata, se rebela contra a escuridão e emerge mostrando sua força.

Vi essa força da natureza se rebelando contra a decadência nos ipês que passaram a crescer nos canteiros centrais da Avenida Djalma Batista, em Manaus (leia aqui). Uma das ruas mais movimentadas da cidade — veias putrefactas que vomitam milhares de carros por dia, parecendo pus sendo exalado de uma ferida. As flores tingidas de branco, amarelo e roxo criavam um contrate perfeito entre a natureza viva e a natureza morta e artificial de uma sociedade estagnada e decaída.

Mesmo em meio ao cinza, asfalto e concreto a natureza resiste. Talvez seja um recado de que, apesar de tudo, sempre haverá esperança.

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