A Onda Conservadora e a Grande Arte

Milton Hatoum

Em que tempo me tocou viver”, desabafou Flaubert numa das cartas de sua prolixa correspondência.

Em 1857, o procurador-geral do imperador Napoleão III leu na Revue de Paris alguns trechos do romance “Madame Bovary” e considerou-os “uma mistura de coisas sagradas e profanas, um ultraje à moral pública e à religião”.

Naquele mesmo ano, o poeta Charles Baudelaire também foi processado pela publicação de “As flores do mal”. As acusações do procurador do Segundo Reinado batiam na mesma e velha tecla: ofensa à moral e à religião. Os dois livros, traduzidos em dezenas de línguas, tornaram-se clássicos da literatura universal. Já o advogado de Napoleão III entrou para a pequena história como mais um censor ridículo, autor de uma peça de acusação que um crítico francês chamou de “monumento de idiotice e má-fé”.

Em nossa caricata democracia – reinado da desfaçatez –, a censura a obras de arte e a ameaça a artistas voltaram com outros nomes e máscaras. Neste tempo temeroso de Trump e de tantas torpezas e “tonterías”, um grupo de moralistas interrompeu uma exposição de arte em Porto Alegre e, poucos dias depois, outro grupo (ou será o mesmo?) bradou contra a performance de um artista no MAM em São Paulo.

A exposição “Histórias da sexualidade” (MASP) foi proibida para menores de 18 anos, mesmo acompanhados pelos pais. Essa decisão “edificante”, verdadeira lição de educação moral e cívica, ajudou a promover a exposição. Mas é uma pena que jovens, mesmo de mãos dadas com papai e mamãe, sejam proibidos de ver pinturas de Degas, Picasso, Francis Bacon e de vários artistas brasileiros, para aprender e refletir sobre a nossa história. O que esses artistas diriam de uma proibição que, 160 anos depois, parece repetir as palavras censórias do procurador de Napoleão III?

Em qualquer sociedade as manifestações artísticas são constitutivas da nossa humanidade. Todos sabem que na internet e na tevê há inúmeras cenas e palavras de extrema violência, pornografia e obscenidade gratuitas, nada artísticas, a qualquer hora do dia ou da noite. E que crianças e adolescentes podem, à revelia dos pais, ter acesso ao horror das redes sociais, onde justamente energúmenos como os do “movimento bobagem livre” exercem seu poder obscurantista.

Numa recente audiência na Câmara das comissões de Cultura e Segurança Pública, o sinistro deputado Givaldo Carimbão (PHS-AL) insultou a mãe (já falecida) do ministro da Cultura. Os insultos são de uma baixeza inominável. Isto, sim, devia ser proibido, pois é uma incitação ao ódio e uma agressão moral das mais graves, difícil de explicar aos nossos filhos. Mas os congressistas podem tudo, podem até mesmo fazer loas ao estupro e à tortura, num país em que a sociedade civil não tem mais a quem recorrer, visto que até os membros do Supremo já jogaram a toalha.

Uma crescente onda moralizante talvez seja uma das peças publicitárias mais fortes nas próximas eleições presidenciais.

Não é de estranhar que num país conservador, onde um prefeito “administra” uma metrópole com a bíblia e orações, esse moralismo atraia rebanhos de eleitores ultraconservadores, ou fiéis ao ultraconservadorismo. Soma-se a isso uma patriotada de cunho racista e xenófobo numa sociedade ao mesmo tempo ferida e entorpecida.

Nos Estados Unidos e em vários países da Europa também cresce um tipo de nacionalismo obscuro e perigosíssimo. Grupos fascistas e neonazistas sentem-se à vontade para agir e propagar essa onda de terror racista, uma onda que começa com a censura, com o cerco à expressão artística, com a perseguição às minorias.

O que virá depois de tanta hipocrisia e intolerância?

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Crônica publicada no Caderno 2 [Estadão] e Segundo Caderno [O Globo]. 3/11/2017

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