Globalização: perdedores e ganhadores

Penso que uns dos lugares onde mais podemos perceber as consequências da globalização são nos terminais aeroportuários do mundo. Talvez isso não seja tão notado numa grande cidade regional, como Manaus, mais em cidades de preponderância nacional e internacional, como Brasília, São Paulo, Curitiba e Campinas, esses traços são mais fortes.

Sentamos num banco e à nossa frente temos um turista espanhol falando ao celular; mais à frente temos um grupo de japoneses conversando em voz alta; ao nosso lado executivos chineses atualizando os dados das suas empresas multinacionais em seus tablets; tomamos café numa empresa global, a Starbucks, vamos numa livraria global, a Bookstore, e temos os principais lançamentos da literatura best-seller mundial, cuja prosa leve e de questões pouco profundas permite ler sem muito esforço enquanto se está em conexão ou quando se tenta distrair-se do tédio de ficar algumas horas no grande tubo de aço e tecnologia que é o avião, ou ter acesso ao mais recente número do New York Times, do Washington Post ou da Revista Time ao mesmo tempo que podemos tomar uma cerveja alemã de acompanhamento; mesmo a forma de vestir-se, se expressar e gesticular dos funcionários é padronizada a nível global, com gestos discretos, tom de voz calmo e aceptivo, como cães adestrados. As comissárias de bordo são de uma beleza clássica, cujos exemplos podemos encontrar em Londres, Budapeste ou Quebec, e seu tom de voz é o mesmo que pode ser encontrado em qualquer aeroporto do mundo.

Os passageiros, ou clientes, parecem seguir as mesmas normas de etiqueta, passos rápidos, olhares distraídos, falando baixo e espírito imerso nessas maravilhas tecnológicas que fazem nossa felicidade num mundo conectado, pois estar conectado hoje é um imperativo, um fato social global. Muitas vezes percebi aqueles que não se enquadravam nessa regra de etiqueta, com gestos espalhafatosos ou com um tom de voz inapropriado, sendo olhado com um ar de desprezo perante outros passageiros.

Mesmo as lojas destinadas a vender artigos regionais são temperadas pelo tom transnacional; seus produtos nunca refletem de fato uma regionalidade, mas uma identidade estereotipada buscada pelo comprador: camisas em inglês, brincos de sementes com uma estética mais aceitável para um europeu ou norte americano, ou balas de frutas regionais com um sabor não tão intenso e mais acessível para um paladar estrangeiro.

É nesses lugares onde notamos as forças transnacionais que moldam o nosso mundo, isso a revelia de nós mesmos, a despeito da aceitação das populações regionais ou da cultura do lugar. A globalização também me parece um esforço de fazer com que todos se sintam em casa, sem importar com seu local de origem ou do seu local de destino. O típico indivíduo da contemporaneidade é o Homem à Deriva, o Cidadão Cosmopolita capaz de se mover por todos os lugares do mundo, pois absolveu em seu habitus uma forma cultural globalizada, e que só tenderá a ficar mais forte com o passar dos anos ao se misturar com as culturas regionais dos locais onde ela se instala.

Mas em tudo isso há um paradoxo. Se a globalização é uma tentativa de fazer com que todos se sintam em casa em qualquer lugar do mundo, isso só vale para um tipo de indivíduo: aquele que pode pagar pelas benesses do mundo conectado, aquele que num dia pode estar em Dubai curtindo um final de semana e em outro pode estar em Xangai negociando ações e investimentos com executivos locais. Há os Descartados da Globalização, aqueles para quem nenhum lugar é a sua casa e todo lugar é um lugar de perigo, violência e expulsão. Os fenômenos globais são para eles um estorvo, um peso que são obrigados a suportar. Refugiados de guerras, de crises econômicas ou de desastres ambientais, estes grupos humanos experimentam a negatividade do fenômeno transnacional — são os descartáveis do mundo global que, mesmo assim, possuem uma função nele como, por exemplo, exercendo trabalhos degradantes e de pouco prestigio social que as populações integradas dos lugares onde estão temporariamente instalados se recusam a fazer.

A globalização inclui e exclui, acolhe e expulsa. Ela é a síntese conflituosa de uma dialética cruel, nela os perdedores e ganhadores da história se completam e se opõe; carne, sangue, culturas e produtos são triturados pelo impiedoso liquidificador do capital.

Ela, a Globalização, se tornou um fenômeno inevitável, precisamos enfrentá-la, não como algo ruim, mas como um processo que está mudando tudo o que conhecemos e tudo o que amamos. Se queremos um mundo mais acolhedor, que esteja aberto a todos e a todas, precisamos saber como lidar com os perdedores do processo civilizatório, como tornar o mundo uma casa tanto para eles quanto para nós; devemos lidar com o fato de que a civilização global não é um artigo para exportação e que deve haver grupos humanos não desejosos de se integrar, mas apenas querem ser deixados em paz com seu modo de vida; também precisamos saber como equacionar os antagonismos entre a vontade popular local e regional com as forças globais que tudo mudam. O que tem mais legitimidade, forças impessoais do grande capital transnacional ou a vontade geral de uma comunidade que vive, trabalha e conserva um pedaço de terra há muitos anos?

O desafio global está posto.

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