Macbeth e a Origem do Mal

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Será que o vasto oceano de Netuno/Pode lavar o sangue destas mãos?/ Não; Nunca! Antes estas mãos conseguiriam/ Avermelhar a imensidão do mar/ Tornando rubro o verde.

De todas as peças que já li de Shakespeare, a minha favorita ainda é aquela que me fez entrar em contato com o universo shakespeariano, Macbeth, escrita entre os anos de 1603 e 1607.

É a peça mais curta do dramaturgo inglês e também a mais soturna, onde se tratam de temas como ambição, assassinatos, regicídios e as consequências dele no interior dos homens.

Encenada na corte do Rei Jaime I, da dinastia Stuart, começa com Macbeth vencendo a batalha contra o traidor Macdonwald. Em seguida recebe a visita de três bruxas, as Weird Sisters, e declaram que Macbeth será Thane de Cawdor, o título do traidor vencido, e posteriormente Rei. Tais profecias começam a mexer com o nosso protagonista quando ele recebe do rei o título de Thane. Então vemos uma luta interior do personagem entre a ambição de alcançar a coroa e o respeito por um rei piedoso, Duncan, a quem devia total lealdade.

A tentação do sobrenatural/Não pode ser nem má nem boa;/Se má, por que indica o meu sucesso,/De inicio, com a verdade? Já sou Cawdor;/Se Boa, por que cedo a sugestão /Cuja horrível imagem me arrepia?/E Bate o coração contra as estrelas,/Negando a natureza? Estes meus medos /São medos que o terror que eu imagino;/Meu pensamento, cujo assassinato /Inda é fantástico, tal modo abala/A minha própria condição de homem,/Que a razão se sufoca em fantasia,/E nada existe, exceto o inexistente.

Sucumbido pela ambição, o protagonista comete aquele que era considerado na época de Shakespeare o mais cruel dos crimes, o regicídio.

O caos realizou sua Obra-Prima!/O assassino sacrílego arrombou/O templo do Ungido do Senhor,/Roubando sua Vida!

Morto Duncan, Macbeth se torna Rei. Tomado pelos delírios de mais e mais poder, passa a assassinar qualquer um que possa representar uma ameaça a sua dinastia, não polpando nem mesmo crianças ou mulheres inocentes.

Na tragédia vemos o dramaturgo inglês explorando com maestria um assunto que o estava interessando naquele momento: o surgimento do Mal, como ele se manifesta e qual as consequências dele para a alma humana e para a constituição do Estado. O clima é sombrio do início ao fim e vemos constantemente mortes, sangue, blasfêmias e uma visão trágica e pessimista da vida.

A vida é só uma sombra: um mau ator /Que grita e se debate no palco,/Depois é esquecido; é uma história /Que conta o idiota, toda som e fúria,/Sem querer dizer nada.

Assistimos como um bom cidadão e um general leal ao seu Rei pode sucumbir à ambição e com isto enredar todo um mundo com ele, quebrando a ordem natural das coisas. Em outras palavas, vemos, lemos e sentimos o drama de um homem que subverte tudo e todos, gerando um enorme derramamento de sangue para poder suprir seu objetivo maior: o poder absoluto. É um círculo vicioso; para alcançar a soberania, Macbeth precisa matar, e para mantê-lo, ele também precisa executar sempre mais e mais suspeitos de traição. Isso gera uma rejeição cada vez maior entre os seus súditos, que gera mais suspeitas…

Exercer o poder se torna impossível, é uma tarefa inglória. Isso não é gratuito, pois para Shakespeare o mal surge quando a ordem do mundo é subvertida, no caso o poder legítimo do Rei Duncan, e a única forma de derrotá-lo seria fazendo com que todos voltassem a ocupar seus lugares legítimos no mundo social. Tal formulação é cara para um autor que viveu quando a Inglaterra vivia o auge do Absolutismo, mas os resquícios da era feudal ainda se faziam sentir. O debate sobre o lugar de cada um na sociedade e a questão da legitimidade das dinastias e das monarquias eram temas relevantes numa nação em que poucas décadas depois sofreria com uma Guerra Civil (1642-1649), com um rei decapitado, Carlos I, e o surgimento de dois dos mais influentes pensadores políticos da era moderna, Thomas Hobbes (1588-1679), defensor da soberania absoluta dos reis, e John Locke (1634-1704), um dos principais teóricos do liberalismo.

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Michael Fassbender como Macbeth, em filme de 2015 dirigido por Justin Kurzel

Clássico indiscutível na literatura universal, Macbeth mostra os delírios de um homem incapaz de perceber as próprias limitações. Mostra-nos também um tema que seria debatido pela filosofia e pela sociologia. As consequências de nossas ações e nossas escolhas. Somos responsáveis por elas, muito embora, dependendo do caminho tomado, podemos levar todos a nossa volta para a ruína, podemos fazer o mundo ficar à revelia…

Muitas vezes, para levar-nos o mal,/As armas do negror dizem verdades;/Ganha-nos com Tolices, para trair-nos/Em questões mais profundas.

Na tragédia de Macbeth o Mal domina, os dias são cinzentos e as noites tenebrosas; a vida vale menos que nada; espíritos malignos sussurram profecias para confundir nossas mentes; é como um pesadelo, uma visão sombria da humanidade, a saga escura e sem propósito da condição humana.

Depois de ler Macbeth somos mudados para sempre: a vida é uma sombra que passa…

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2 comentários sobre “Macbeth e a Origem do Mal

  1. khemersonmelo

    Gostei do seu texto, mas senti a falta de um tópico exclusivo sobre Lady MacBeth, pois, é inegável do ponto de vista narrativo, o poder e a influência que esta esposa exerce no marido. Na minha opinião, esta personagem, inicialmente coadjuvante, torna-se tão protagonista quanto o marido…

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