Conto: Victor Martinez

“Já estava aponto de desfalecer, seu corpo entrara num estágio entre a dormência e a atividade; apenas o enorme barulho da chuvarada o mantinha acordado. Em meio ao ruído confuso do ambiente lá fora, seus ouvidos divisaram algo bem singular… Tentou levantar-se para ver o que era; um ruído vindo da porta; com esforço, tomando a mesa para apoiar o braço; escorregou, a cadeira caíra para trás, ainda susteve-se em pé graças à mesa; as pernas tremiam; o corpo doía; parecia haver uma chama consumindo-o por dentro, nem parecia ter sido vodka o que ingeriu, mas ácido; logo que teve esta conjectura, os braços escapuliram do móvel, tinha dado alguns passos para frente; caiu violentamente no chão frio, sua irritabilidade estava multiplicada por dez vezes em virtude da dor excessiva; ao cair, batera o joelho violentamente no solo, outra dor aguda o tomou de assalto; deu um grito de raiva e aflição; fraturou o joelho, tinha certeza; o barulho que ouvia parou subitamente… Acomodou-se de bruços para cima, observava o teto, impotente para fazer algo, esperava. Esperava o que? Nem mesmo ele sabia; talvez a maldita dor sumir, o álcool dissolver em seu sangue, a morte tocar-lhe o rosto… Sentiu-se como uma criança indefesa perdida numa enorme cidade, mas esta cidade era sua casa, e seu terror era si próprio, não havia ninguém para salvá-lo, começou a chorar, sentia-se parvo, muito mais lerdo que antes. Os anos passaram e ele não era nada mais que um espírito infausto temente á si próprio e á todos, temia olhar para dentro de seu abismo, temia que seu abismo olhasse para dentro dele, temia a visão das trevas, temia que o véu soturno o dominasse de vez. Era ateu, mas temia o céu, temia o inferno, temia o Criador e temia Lúcifer; temia a gloria e o fracasso; temia a alegria e a tristeza. Era descrente e religioso, era herege e devoto, era beato e pagão, era seu deus e seu demônio. Não sabia o que era o júbilo. Quanto à temeridade, à amargura, à consternação, não mais se dava conta, tanto tempo vivera no porto da miséria, no caminho de vermes, na sofreguidão espiritual; perdera o ímpeto revolucionário, perdera a força da lucidez, o fulgor, a agressividade… Tinha tudo e não tinha nada, tinha a mundo e não tinha espírito. Austeridade, aspereza, tudo isso lhe fora disciplinado, era dócil, não sabia mais se rebelar. Assim como Arthur Rimbaud, amores o crucificaram e colocaram sua dignidade à prova, apostaram sua posse, e ganharam… Fizeram confeites e anedotas, gracejaram e o ludibriaram, a desgraça foi seu deus… Jamais verá o natal sobre a terra, a claridade divina…”

Trecho do conto Victor Martinez, retirado do livro A Obra-Prima de Amarildo e Outros Contos Indecorosos, de Ricardo Lima. 

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