O que virá depois da crise?

0DilmaCriseNum artigo que escrevi, Ascensão e Decadência da Nova República, argumentei que nossa República entrou em declínio por sua incapacidade de resolver os problemas estruturais da sociedade. Refém da conciliação, um dos principais traços do nosso conservadorismo, ela apaziguava questões que mereciam enfrentamento. O resultado não foi outro, senão seu esgotamento, depois de pouco mais de trinta anos.

Era óbvio que nosso sistema político já guardava, em seu nascimento, os germes que o destruiriam: a corrupção, a desigualdade, a falta de transparência e etc… O que vemos hoje não é um governo que está desmoronando por ser mais corrupto que os outros, mas um governo que se perdeu porque adotou todas as distorções do sistema e, agora, convalesce junto com ele.

As manifestações que estão ocorrendo agora são o resultado da anomia de um sistema em estágio terminal, cujos últimos estertores se traduzem em desordem, morte, opressão e desespero. Mas o pior de tudo é que, enquanto o velho morre, não vemos o novo nascendo, é como se não existissem novas alternativas para ficar no lugar daquele que convalesce, é como se fossemos incapazes de erguer algo mais estável para ficar em seu lugar. O resultado, então, é o fascismo, já dizia Gramsci. Os homens se apegam às fórmulas do passado, clamam pela volta da ditadura; bradam que a solução estaria na retirada de direitos políticos e sociais; dizem que era melhor quando não tinham que opinar, quando não tinham que pensar; enquanto isso, mandavam para o cadafalso índios, quilombolas e opositores políticos. A metáfora do Grande Inquisidor, de Dostoiévski, nunca esteve tão atual: os homens preferem a segurança à liberdade.

Quando desordem e o fascismo aumentam, o mercado, aqueles que realmente mandam nas democracias liberais, se reúnem com grupos pró-impeachment (Leia aqui). O Capital, logo que percebe ser o grupo político no poder incapaz de manter a paz social, não fica com outra alternativa a não ser a de destituí-lo.

Fica a pergunta: Quem estaria em condições de assumir? Mas, se quisermos ir na raiz do problema, devemos refazê-la da seguinte forma: Quem pode dar a paz social necessária para o capital voltar a se reproduzir no país?

Arrisco dizer que, num primeiro momento, veremos uma sucessão de subidas e quedas de diversos atores políticos, para, só então, termos a saída definitiva, um governo autoritário pela direita, pois nossas instituições estão frágeis demais para lidar com essa contradição e nossa oposição tradicional também está tão suja quanto o governo. Quando todos estão descrédito na politica institucional, as chances de surgir um líder demagogo, capaz de capitalizar a revolta social a partir da direita, não é impossível. A saída autoritária é uma alternativa possível num contexto de descrédito das instituições, de personalismo excessivo e de crise econômica; também é viável numa nação cuja valorização do executivo, aliado a um autoritarismo extremo, sempre caracterizou sua história política e social.

Quanto à esquerda e aos trabalhadores, cabem a eles se organizarem como força independente e se prepararem para, pelo menos, quinze anos de recrudescimento conservador.

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6 comentários sobre “O que virá depois da crise?

  1. AnnaNova

    É desastroso!!! Sou contra o impeachment, pois, ela foi eleita pelas urnas, se acontecer sua saída cada vez que entrar algum presidente que fizer algo que não agrade vão tentar tirar novamente..até a palhaçada ser tão grande a ponto de perdermos todos os investimentos de outros países e a credibilidade….e quem pede a ditadura, não entendeu ainda, a cicatriz que ficou na nossa história e em muitas famílias…o brasileiro têm a memória curta infelizmente…A corrupção já está entranhada há muito tempo no povo…A mudança precisa ser feita dentro de nossa própria casa…A maioria das mães e pais, ensinam seus filhos que se eles fizerem determinada tarefa vão ganhar tal coisa…já inicia-se aí um corruptorzinho….
    (Não estou a favor da Dilma, pelo que aconteceu a Petrobrás e nem do Lula, mas, acredito eu na minha santa ignorância que ele como um bom articulador político traria um pouco de paz e crédito para o país)…Não sou petista…mas, neste momento se não apaziguarem os ânimos…a panela vai tombar…..e salve-se quem puder…e Refaço sua pergunta: Quem estaria em condições de assumir??

    1. Ana, também concordo com suas ponderações. Sou contra o lamaçal de corrupção em que se atolou o PT mas também não vejo solução nessas manifestações que estão ocorrendo pelo pais. Parece trágico: Um governo indefensável contra uma oposição desacreditada. O decorrer dos acontecimentos vai mostrar quem pode segurar esse país, com ou sem mão de ferro. Mas uma coisa é certa: o próximo líder vai ter o apoio do Mercado (Capital).

  2. Vicente Ferreira.

    Ótimo artigo, excelente material para leitura e reflexão. Acabei de ler recentemente a trilogia do Laurentino Gomes, 1808, 1822 e 1889, daí pude concluir que esse desastre tem uma origem bem mais antiga.
    Talvez os Black Blocs, ou outro grupo de protesto, devessem formar um partido politico, com propostas sérias e gente confiável, daí haveria pelo menos uma opção diferente diante das urnas, pois atualmente não existe nem direita ou esquerda, nem ideologia, nem fundamentalismo, nem nada, só acordos e conchavos entre os que estão no poder e os que o querem…
    Só uma opinião.

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