Uma história sobre rompimento e separação.

deixando para atrásEm 2012 li na revista Cult um conto sobre um homem que, após romper com a esposa, está se preparando para deixar em definitivo o apartamento onde eles viviam juntos. Eu achei as circunstancias com que a história trabalhava bastante interessantes e resolvi criar a minha própria versão do fato. O resultado é o conto que ai vai. Espero que gostem.

Deixando para Atrás

Orlando olhou melancólico para os seus pertences em volta, a mala verde com alça lilás, a mochila preta surrada e a pequena bolsa onde estava guardado o notebook velho e lento como um jaboti de oitenta anos. Tudo estava acomodado sobre o sofá de pele escura. De pé, aprumou as calças. Deixou-se ali, no meio da sala, observando tanto os aqueles objetos reunidos quanto o ambiente em volta, que agora parecia tão triste — as paredes, a televisão e os dvd´s que estavam espalhados. Não queria ir embora. Pensou estupidamente que, se detendo por alguns minutos a mais poderia evitar, sem saber como, aquele rompimento definitivo com Duda, que estava propositalmente ausente naquele dia. Riu do próprio pensamento. Achou-o estúpido.

Ficou a remoer alguns acontecimentos passados de sua vida com ela e, quando mais mergulhava nessas lembranças, mais se enternecia. Lembrou-se da época em que se conheceram, ainda na faculdade. Ele era um consumidor inveterado da doce erva e cursava o quarto período do curso de História, enquanto ela era como uma típica garota de dezessete anos recém-saída do ensino médio, cheia de mimos e deslumbrada de ter acabado de ser admitida no curso de serviço social da Federal. Também rememorou a singular tensão sexual que logo surgiu entre eles: os sorrisos, os olhares desajeitados e as palavras que, por mais tivessem sido milimetricamente ensaiadas, sempre saiam desencontradas. Não demorou muito para começarem a sair. Também demorou menos ainda para que estabelecessem aquele pacto que muitos chamam de relacionamento sério e quase nada para que começassem a morar juntos. Não é preciso mencionar que os pais de Duda, dois bem altos burocratas do Tribunal de Contas do Estado do Amazonas, reprovaram a união:

“Um maconheiro, minha filha!”

Mas, como os corações jovens são os mais impetuosos, energéticos e, por conseguinte, os mais imprudentes, estas ingênuas almas, acreditando piamente no amor pelo amor e na felicidade imanente provinda dele, uniram-se.

Foram morar numa pequena instância, entre as milhares que pululavam no bairro do Coroado. Para pagar as contas, resolveram trabalhar. Ele dava aula para o ensino médio numa escola particular. Duda resolveu pegar um estágio numa dessas secretarias do Estado, conseguida com a ajuda do pai dela, amigo de infância de um senador. De manhã tinham aula e se falavam rapidamente na hora do intervalo. Quando dava meio dia almoçavam juntos e, já por volta das treze horas, corriam pegar o ônibus que lhes enviaria para a labuta. À noite, já cansados, entravam na terceira jornada, que era cuidar da administração do pequeno apartamento.

Repassou as brigas, as discussões, as cenas de ciúmes que não demoraram a aparecer e todos os episódios de franca intolerância que ambos passaram a nutrir um em relação ao outro, apenas quatro meses depois de terem ido morar juntos. Por algum motivo que não podia explicar, lembrou-se do dia, quando tinha apenas dez anos, em que fora levado por seu pai ao clube dos funcionários da empresa onde trabalhava, uma dessas firmas estrangeiras que faziam rios de dinheiro na Zona Franca de Manaus. Quando estava na piscina, tomou um pouco da agua cheia de cloro nas mãos e viu as aguas se desvanecerem por entre os dedos magros e pequenos.

“È assim que as coisas acontecem…” Pensou. “Se desmancham como água entre os dedos..”

Respirou fundo antes de abrir a porta e contraiu o semblante, como se estivesse sentindo uma grande dor.

“Talvez ela volte para a casa dos pais…” Disse.

Quando se encontrassem pelos corredores da universidade, seria com aquele patético constrangimento sempre comum entre casais recém-separados: olhares rápidos, bochechas coradas, comentários em voz baixa de amigos em comum e cumprimentos secos e ligeiros… Talvez  ela nem sequer olhasse para a cara dele, preferindo baixar a cabeça ou simplesmente mudar o trajeto para passar o mais longe possível de Orlando.

Ou talvez até já estivesse com outro…

A ideia, para dizer a verdade quase um desejo, de que ela ligaria um ou dois dias depois da separação ainda lhe encheu de um pouco de otimismo. Mas sabia que ela não ligaria, nunca mais…

“Merda de vida…” Pensou, logo após trancar a porta do apartamento.

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